London, London… | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2005 - 22:45Gira mondo

London, London…

Tenho um amigo que vive me dizendo, e acho que vários concordam: o mundo está ficando mesmo muito chato. Chato, e com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que não nos damos conta daquilo que realmente importa. A história das Kombis é apenas uma delas. Relaxa, não falarei de Kombi agora. Não agora.

Falo de Londres. Parece que deu em todos os jornais, mas não vi e só fui alertado pelo amigo/internauta/etc. Aliandro Miranda, de Paracambi (o mesmo que me deu a dica do carro do Rubinho largado num galpão, que mostramos no Limite).

Londres acabou, semana passada, com um de seus símbolos: o doubledecker. Os ônibus de dois andares com cara de calhambeque, motorista e cobrador saíram das ruas. Foram mais de 50 anos de serviços prestados, desde 1954. A última viagem regular aconteceu entre Marble Arch e Streatham Hill na sexta-feira, linha 159.

Motivo? A pentelhação costumeira dos politicamente corretos: faz barulho, polui, não tem acesso adequado para deficientes, é pouco produtivo.

Ora, e daí? Tirando o acesso a deficientes, o resto não tem a menor importância. O mundo não ficará mais enfumaçado ou mais barulhento por causa de alguns ônibus. Quanto aos deficientes, Londres é uma cidade muito bem-servida de acessos em outros ônibus, nos táxis e até no seu metrô velho e encardido (mesmo assim, desafio alguém de cadeira de rodas a chegar a um trem em algumas estações; nem por isso vão fechar o metrô).

Aí tiram os Routemasters (é a marca deles) das ruas, e em seu lugar colocam outros ônibus de dois andares quadradões, sem charme ou história. Caixotes horrorosos. No mês passado, o “Evening Standard” fez uma pesquisa sobre a decisão de aposentá-los. 81% de seus leitores foram contra tal absurdo. Porra, para que serve o povo, senão para consultá-lo e atendê-lo? Cagaram para o povo.

Um dos grandes charmes de Londres era subir e descer nos doubledeckers em movimento, levar esporro do cobrador de vez em quando, ouvir a sinetinha, o ronco grave do motor, o barulhinho da máquina de bilhetes.

Os doubledeckers começaram a funcionar depois da Segunda Guerra para substituir os bondes de Londres. Foram projetados por engenheiros reaproveitados da indústria bélica especialmente para a cidade. Sua morte foi anunciada há 20 anos com a chegada dos quadradões sem cobrador. Em 1996 as autoridades londrinas estabeleceram uma carência de cinco anos para tirá-los de circulação alegando que muita gente se machucava ao sair deles em movimento. Pombas, azar de quem se machuca. Em ônibus nenhum está escrito que o sujeito tem de pular com o bicho andando. Quebrou a perna? Problema da senhora, mora?

Ken Livingstone, que assumiu a Prefeitura em 2000, resolveu reformar a frota e recusou-se a matar os doubledeckers. Eles ganhariam uma sobrevida pelo menos até 2016, data estabelecida pelos pentelhos da União Européia para que todos os ônibus do continente tenham acessos específicos para cadeiras de rodas.

Mas não rolou o prazo. Há dois anos, eram 500 Routemasters rodando alegremente pelas ruas londrinas. Agora, vão ficar apenas 16, fazendo uma rota turística sem grande importância.

Londres, Londres, não és mais a mesma. Quem viu, viu. Quem andou, andou.

13 comentários

  1. Edevar Vilela Martin disse:

    a mais ou menos um ano assisti no discovery channel que estes buzão ja eram leiloados aos baldes em londres onde se transformavam em motor home e até pub particulares pede parao fabio seixas se ele não se informa do preço de um pra vc ?

  2. Luiz Franco disse:

    Eu andei… e saí sem pagar.

  3. Leandro disse:

    Esses 16 vão ficar até quando??? Tenho que fazer uma viagem para Londres para andar em um desses. Tirá-los de circulação é a mesma coisa de demolir o Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Ambos são cartões postais de suas cidades e países.
    Abraços

  4. Rangel disse:

    É isso aí, quando os fins justificam os meios só temos as nossas memórias para nos alentar, o Mundo infelizmente vai deixando de ser nosso.

  5. Raphael Barichello disse:

    Uma curiosidade alguém sabe aonde foi parar a nossa frota (aqui em SP) dos ônibus de 2 andares? Se não me engano o apelido era dose dupla. Viva o Jânio Quadros!

  6. Eduardo S SP disse:

    Repetindo que, o politicamente correto é algo ruim criado pelos americanas, que no papel de potencia repassaram isso ao resto das nações

  7. Piloto de Trator disse:

    A campanha de preservação do motor da kombi acho pura besteira, falta de ter o que fazer, ou melhor, equacionar melhor o tempo por que ter o que fazer com certeza o Flávio Gomes tem de sobra.
    Mas quanto aos ônibus londrinos houve um certo exagero por parte das autoridades. Ele é um simbolo, assim como eram os bondes elétricos na cidade de São Paulo das décadas de 40 a 60, que foram estirpados dos transportes públicos, substituidos pelo terriveis ônibus elétricos(uma verdadeira aberração).
    Poderia reduzir sim o número de ônibus(de 500 para 150) e aumentar a frota de veículos adequados a nova realidade, atendendo tanto a demanda daqueles que querem um transporte moderno e de melhor qualidade, como daqueles que são defensores da tradição e do prazer de andar em um Roadmaster( que realmente deve ser muito bom: lá se foi um dos meus sonhos).

  8. Helio Ok. disse:

    Quantas recordações me traz a foto do doubledecker… Lembro-me que saía da danceteria Hipodromus lá pelas 5hs da manhã, caminhava alguns quarteirões até a Leicester Square para tomar o night bus de volta para casa. Subia correndo a escadinha rumo ao andar de cima buscando um lugar na primeira fila. Dali se podia ter uma esplêndida vista enquanto o busão vermelho percorria as ruas londrinas até Elthon, meu destino final… Quanta tristeza sinto ao saber que vão desativá-lo… Vão acabar com um dos charmes da capital britânica…

  9. Marcelo disse:

    Flávio,

    Sou um admirador de sua coluna, mas venho me decepcionando ao constatar sua falta de consciência com o meio ambiente.

    Como formador de opiniões, você deveria usar seu espaço de forma mais responsável. Defender a utilização de motores antiquados como o VW a ar ou os antigos ônibus londrinos, que são charmosos sim, mas poluem muito são atitudes que não se espera de alguém exposto à mídia.

    Gostaria de saber em que a sua vida vai mudar se a kombi continuar com motor a ar. Posso apostar que não mudará em nada, até porque você não deve andar de Kombi por aí, mas garanto que sua vida mudaria se os níveis de poluição na cidade atingíssem os níveis críticos e as autoridades proibíssem a circulação de automóveis particulares (vide cidade do México).

    Não equeça, nosso planeta é como uma nave no espaço, se se esgotarem os recursos não há onde buscar mais!

  10. Eduardo S SP disse:

    O “politicamente correto” é mais uma das muitas coisas imprestáveis criadas pelos americanos

  11. diogo disse:

    Não aguento mais esses politicos da união européia e sus normas politicamente corretas.Primeiro vem com essa história de que f1 não pode ter patrocínio de cigarro ,acabando de vez com a minha esperança de a Mclaren voltar a sua parceria com a marlboro.
    Dias atrás enquanto estava no meu cockpit , pilotando site Grande Premio , li a respseito de uma lei que queria proibir as corridas no tradicional circuito de Monza ,Tudo isso devido a uma lei do silêncio que pretende calar o ronco do motor dos f1(pelo menos em Monza).Vale lembrar que em 2003 não tivemos o GP da Bégica devido a essas bobagens politicamente corretas que proibia a propaganda de cigarros na f1.Também já ouvi rumores que o gp da Áustria (um dos que eu mais gostava) foi retirado do calendário devido a essa norma idiota .Portanto despido me com dus perguntas:
    Blogueiros vocês acreditam que jovens começarão, a pitar devido aos maços de marlboro nas Mclaren?(essa parceria não devia ter ter terminado nunca).
    Outra :vocês acham que os turistas vão sentir se na verdadeira londres em um “BAÚ” que só faz linha em um ponto turístico ?

  12. Rafael Rosa disse:

    É uma pena mesmo que os famosos e históricos ônibus Doubledeckers tenham que ser aposentados. Eu moro no Rio de Janeiro, e seria a mesma coisa se o maluco do Cesar Maia decidisse retirar os bondinhos de Santa Teresa das ruas. Alguns governantes deste planeta não tem um pingo de sensibilidade e respeito para com a memória e tradição de várias coisas. Sejam elas museus, monumentos, trens e ônibus antigos como os de Londres e tantos outros. Parabéns pela coluna, e eu sou saudosista como você também. Abraços.

  13. Tuta disse:

    FG, com a titica que sei sobre comportamento humano, além do meu (mau), me parece que pessoas insistem em destruir uma época que elas não têm condições de vivenciar. Descaracterizar para enfraquecer? Se o negócio é só poder e grana, como tu disse, então a jogada é fragmentar o público(mastigar) para engolir (devorar)?
    Muito wise seria criar um design charmoso, retrô-futurista, completamente baseado nos doubledeckers, não acham? Turistas do mundo inteiro viriam conhecer este diferencial.

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