ARTE PURA | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009 - 20:18Literatura

ARTE PURA

SÃO PAULO (um deus das letras) – Mecânico na juventude, e lá se vão mais de 60 anos, José Saramago foi capaz de transformar uma troca de junta de motor na arte mais pura do escrever. O Nobel de Literatura culpa esse pequeno incidente relatado com enorme maestria, graça e doçura pelo trauma que o fez nunca dirigir um automóvel. Quem mandou o texto foi o blogueiro Ricardo Botto.

Eu morro de inveja de quem escreve desse jeito. Como ninguém mais escreve desse jeito, morro de inveja de José Saramago. Inveja boa, que se vai à primeira leitura e se transforma em admiração e reverência.

Afinal, quem mais escreveria algo assim? “Pelo tubo de escape do carro saía um avultado jorro de água que, pouco a pouco, diante dos meus olhos estupefactos, foi diminuindo de caudal até ficar reduzido a umas derradeiras e melancólicas gotas.”

46 comentários

  1. Rodrigo Duarte disse:

    Escreve muito bem, li um livro dele chamado “IN NOMINE DEI” (acho que é esse o título) e assisti apenas ao filme, inspirado no livro dele, Ensaio sobre uma cegueira.

    Merece todas as homenagens.

  2. Edilson Vieira disse:

    Quando me canso do lugar comum e das frase feitas que abundam (desculpa aí..) na internet. Vou à Saramago (ao blog, bem entendido…). É um alívio aos sentidos.

  3. Seven disse:

    Diogo, não se pode afirmar que uma uma coisa é a melhor ou a pior, baseado apenas em nossa experiência. Não podemos falar que uma coisa não existe, apenas porque nunca a vimos.

  4. Diogo disse:

    Ele é talentoso, mas o Memorial do Convento é o pior, repito, o pior livro da literatura portuguesa. Para quem aprecia uma boa narrativa, a la Hemingway, a proposta do Saramago é criar uma “revolução” detonando a pontuação, quebra de parágrafos, troca de personagens, estória e fica absolutamente deplorável. Um grande conjunto de textos desconexos e desinteressantes. Outros já atingiram o mesmo efeito, como Camus e Sartre, sem mutilar a narrativa / estória.

  5. Samuca - Puma GTI disse:

    Maravilhoso ler Saramago e poder ouvi-lo ao vivo. Gomes, seu texto também é delicioso, parabéns, fico ansiando por le-lo a cada dia… ( desculpe pelo teclado incompleto…)

  6. Cassius Clay Regazzoni disse:

    E otários são otários…

  7. Danilo disse:

    Comunistas gostam de comunistas..

  8. Mauri Pereira disse:

    Beleza de texto.E escreve na nossa língua,ô pa´!

  9. Fefo disse:

    Texto chato, cria uma expectativa e não entrega nada no final. Saramago é muito mais do que isso. Achei uma pachequice mas vou ler de novo, quem sabe eu não estava num bom dia…

  10. ALEX B. disse:

    Flavinho, discordo de ti e, pelo jeito, de quase todo mundo! Acho ele, como contador de estorias, muito fraco. Devo ser muito tapado, pois nao entendo o portugues dele! ;)

  11. Rossano disse:

    FG, José Saramago é mesmo um craque. Do quilate de Graciliano Ramos, Machado de Assis e Gabriel Garcia Marques. Se me permite, caso ainda não conheças, São Bernardo, de Graciliano, é o mais belo romance já escrito no Brasil, na minha modesta opinião.

  12. ataíde disse:

    Genial mesmo é o comentário dele sobre o twiter:
    “De degrau em degrau ,chegaremos ao grunhido”

  13. Marcelo disse:

    Valeu Flávio!
    abs

  14. A. CESAR PARDINI disse:

    O mesmo cérebro que comandou a instalação errada de uma junta, é capaz de descrever com incredulidade e simplicidade o susto que tomou ao perceber seu erro. Talvez, por Deus, o fato indicou-lhe o caminho que precisava tomar para assombrar o mundo com seus textos. A naturalidade com que explica a vivência do episódio, é típica das grandes homens que de vez em quando aparecem para dignificar a humanidade.

  15. Wolf disse:

    Fantástico- O Saramago e o Humberto Eco!!!!!

    Agora imagina o Humberto Eco descrevendo um módulo de injeção eletrônica de uma Cherokee……

    HAHAHAHAHAHA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Brincadeiras a parte, gostei mesmo!!! Incrível!

  16. Aline disse:

    Saramago é brilhante. Dá gosto de ler. Dá orgulho de falar português. No entanto, dá um pouco de vergonha de escrever… qualquer texto perto de um desses parece um rascunho malfeito. Que sirva como inspiração, pelo menos.

  17. disse:

    O texto vira filme na imaginação.

  18. Juliano disse:

    Boa leitura… boa leitura… O cara é bom…

    Boa dica também Gomes

  19. marcio vaza óleo disse:

    no meu cano de escape sai uma baita fumaça azul e vai 1 litro de óleo 25w60 a cada mil km, gostou desta ???

  20. Carlos disse:

    Brilhante o texto! A admiração nesse caso é tão grande que ela pode se confundir com inveja ….rsss

    p.s. leio a Veja e nunca diria que o Saramago é um analfabeto, só um esquerdopata analfabeto como o Cassius para achar isso!

  21. Rodrigo Martins disse:

    Gênio. Chega a fazer mal pensar que o cara pensa e junta as palavras na mesma língua que a minha, de uma maneira que nem se vivesse mil anos aprenderia.

  22. General Degòle disse:

    Fiquei chateado quando ele disse que só resta a Portugal ser anexado à Espanha.

  23. Seven disse:

    Foucault, not Foulcault. I´m Foul.

  24. Seven disse:

    Não sei qual a relação, mas ambos (Eco e Saramago) são ateus.

  25. Minervino disse:

    Literatura e automobilismo: perfeitos. Com Saramago, sublimes!
    Leio (quase) todo dia o blog do Zé.

  26. Luiz Carlos Fortes Braga disse:

    Ainda bem!!!!! como mecanico provou ser um ótimo?grande? soberbo? magnífico? ou todos os adjetivos,escritor.

  27. Thiago Schauenberg Pereira disse:

    Ótimo texto! Muito bem escrito, nada de coisas indecifráveis. Muito gostoso de ler por sinal. Gostei!

  28. Seven disse:

    E antes que alguém pense em dizer: ” Daqui a pouco aparacerá um aqui afirmando que é um fusca de fibra… “, eu afirmo: Saramago é de fibra, mas não é fusca.

  29. Seven disse:

    Se o meu comentário estiver muito grande (depois que mandei que eu vi, desculpe-me o entusiasmo), coloque só o link em http://vivaoseven.blogspot.com/2009/08/sobre-blog-do-gomes-hoje-sao-paulo-um.html.

    Obrigado

  30. Seven disse:

    Quantum mortalia pectora caecae noctis habent! [Ovídio, Metamorphoses 6.472] – Em que tenebrosa ignorância estão mergulhados os corações dos mortais! … (caecae também é excremento, cocô, fezes, merda…)

  31. Seven disse:

    Amo de paixão o Saramago, assim como o Umberto Eco (ambos escrevem frases com 18 períodos e 36 orações, 40 vírgulas e um ponto final. Vejam esta passagem do Eco, n “O pêndulo de Foulcault” (lembrando que é de 1988):

    “Ontem à noite me caiu às mãos o manual de automóvel. Não sei se foi a penumbra, ou se qualquer coisa que me tinha dito, mas invadiu-me a suspeita de que aquelas páginas diziam Alguma Coisa Mais. E se o automóvel existisse apenas como metáfora da criação? Mas não se deve ficar limitado ao aspecto exterior, ou à ilusão do painel, é necessário ver aquilo que só o Artífice vê, o que está por baixo. O que está por baixo é como o que está por cima. É a árvore das sefirot”.

    “Não me diga.”

    “Não sou eu quem digo. Ela se diz. Antes de tudo, a árvore motora é uma árvore, como a própria palavra diz. Pois bem, se contarmos o motor dianteiro, as duas rodas da frente, a freagem, o câmbio, os dois eixos, o diferencial e as duas rodas traseiras, teremos dez articulações, como as sefirot.”

    “Mas as posições não coincidem.”

    “Quem foi que disse? Diotallevi nos explicou que em certas versões Tiferet não era a sexta mas a oitava sefirah, e estava sob Nezah e Hod. A minha é a árvore de Belboth, de outra tradição.”

    “Fiat.”

    “Mas continuemos com a dialética da Árvore. No alto o Motor, Omnia Movens, do qual diremos que é a Fonte Criadora. O Motor comunica sua energia criativa às duas Rodas Sublimes — a Roda da Inteligência e a Roda da Sabedoria.”

    “Isto se o carro for de tração dianteira…”

    “A beleza da árvore de Belboth é que admite metafísicas alternativas. Imaginese um cosmo espiritual com tração dianteira, onde o Motor à frente comunica imediatamente seus desígnios às Rodas Sublimes, enquanto na versão materialística temos a imagem de um cosmo degradado, em que o Movimento vem impresso por um Motor Último às duas Rodas Ínfimas: do fundo da emanação cósmica se libertam as forças baixas da matéria.”

    “E com motor e tração traseiros?”

    “Satânico. Coincidência do Súpero e do Ínfero. Deus se identifica com os movimentos da matéria grosseira posterior. Deus como aspiração eternamente frustrada à divindade. Deve depender da Ruptura dos Vasos.”

    “Não será a Ruptura do Silencioso?”

    “Isto nos Cosmos Abortivos, onde o hálito venenoso dos Arcontes se expande no Eter Cósmico. Mas não nos percamos no caminho. Depois do Motor e das duas Rodas, vem a Freagem, a sefirah da Graça que estabelece ou interrompe a corrente de Amor que liga o restante da Árvore à Energia Superna. Um Disco, uma mandala que acaricia outra mandala. Dali o Escrínio de Mutações, ou a caixa de mudanças, como dizem os positivistas, que é o princípio do mal porque permite àvontade humana aumentar ou diminuir o processo contínuo das emanações. Por isso o câmbio automático custa mais, porquanto aqui é a própria Árvore que decide segundo o Equilíbrio Soberano. Depois vem um Eixo, que por acaso tem o nome de um mago do Renascimento, Cardam (Cardam é a forma francesa de Cardano ((Gerolamo)), matemático italiano ((1501- 1576)) inventor inclusive da engenhosa transmissão, também chamada junta universal), e a seguir uma Dupla Cônica — note-se a oposição com os quatro Cilindros do motor — na qual há uma Coroa (Keter Menor) que transmite o movimento às rodas terrestres. E aqui se torna evidente a função da sefirah da Diferença, ou diferencial, que com majestoso senso de Beleza distribui as forças cósmicas às duas Rodas da Glória e da Vitória, as quais num cosmo não-abortivo (de tração dianteira) seguem o movimento dado pelas Rodas Sublimes.”

    “A leitura é coerente. E o cerne do Motor, sede do Uno, Coroa?”

    “Mas basta ler com olhos de iniciado. O Sumo Motor vive de um movimento de respiração e Descarga. Uma complexa respiração divina, em que originariamente as unidades, ditas Cilindros (evidente arquétipo geométrico), eram duas, gerando depois uma terceira, e por fim se contemplam e se movem por mútuo amor na glória da quarta. Nesta respiração no Primeiro Cilindro (nenhum deles é primeiro por hierarquia, mas por admirável alternância de posição e correspondência), o Pistão — etimologia de Pistis Sophia — desce do Ponto Morto Superior ao Ponto Morto Inferior enquanto o Cilindro volta a encher-se de energia em estado puro. Simplifico, pois aqui entrariam em jogo hierarquias angélicas, ou Mediadores da Distribuição, que como diz o manual “permitem a abertura e o fechamento das Velas que põem em comunicação o interior dos Cilindros com os condutos de aspiração da mistura”… A sede interna do Motor só pode se comunicar com o resto do cosmo através dessa mediação, e aqui creio que se revela talvez, não quero dizer a heresia, mas o limite originário do Uno, que de qualquer forma depende, par criar, dos Grandes Excêntricos. Será preciso dar uma leitura mais atenta ao Texto. Em todo caso quando o Cilindro se enche de Energia, o Pistão sobe ao Ponto Morto Superior e realiza a Compressão Máxima. É a tsimtsum. E neste ponto que se dá a glória do Big Bang, a Combustão e a Expansão. Uma Centelha dispara, a mistura arde e inflama, esta é, diz o manual, a única Fase Ativa do Ciclo. E aí, aí se na mistura se insinuam as conchas, as gotas de matéria impura como água ou Coca-Cola, a Expansão não ocorre, ou ocorre em disparos abortivos.”

    “Shell não quer dizer talvez qelippot? Aí então dá para desconfiar. Daqui por diante só Leite de Virgem…”

    “Vamos verificar. Pode ser uma maquinação das Sete Irmãs, princípios inferiores que querem controlar o processo da criação… Em todo caso, depois da Expansão, vem a grande expiração divina, que nos textos mais antigos é chamada de Descarga. O Pistão sobe novamente ao Ponto Morto Superior e expele a matéria informe já agora comburida. Mal se obtém essa operaçã de purificação recomeça o Novo Ciclo. Que se pensarmos bem é igualmente o mecanismo neoplatônico do Êxodo e do Párodo, admirável dialética do Para Cima e Para Baixo.”

    “Quantum mortalia pectora caecae noctis habent! Os filhos da matéria nunca se deram conta disto!”

    “Por isto os mestres da Gnose dizem que não se deve confiar nos Hílicos, mas nos Pneumáticos.”

  32. Adal Avin disse:

    Quem nasceu para ser rei nunca perde a realeza…

  33. JT disse:

    Realmente Saramago escreve muito bem, é genial sem parecer um gênio. Gostaria de vê-lo num debate com Paulo de Tarso, aquele que escreveu as epístolas aos povos do Mediterrâneo. Ou quem sabe com Valentino, o egípcio que bebeu na fonte dos filósofos gregos para tecer seu evangelho apócrifo.

    Fico admirado por ele ser ateu e escrever livros ironizando a fé alheia, que ele considera fantasia. Ninguém escreve tratados contra Shakespeare, Camões e Alighieri. Mas coitados dos escritores gnósticos e ortodoxos: estes parecem estar fora de sintonia – sequer os religiosos de hoje lêem as suas obras.

  34. Falando sério, o trecho em que ele fala do radiador que não enche nunca é uma das coisas mais engraçadas que eu já li.

  35. Maravilhoso.

    Agora, alguém aí poderia me dizer o que é que deve ter acontecido com o dito do carro que o Saramago cagou em cima?

  36. Daniel disse:

    Que me desculpem os grandes brasileiros, que não são poucos, mas Saramago é o maior escritor da língua portuguesa, a língua mais bela e completa que o homem foi capaz de criar.

  37. pedro bresson disse:

    don gomes,

    Yelena bateu o recorde mundial, vc viu?!

  38. Franck disse:

    Muitos ficam felizes pro viver em um tempo de prodígios e citam…Schumacher, Federer, Tiger Woods, Kelly Slater entre outros…Eu também fico feliz por viver numa época em que vive Saramago.
    Imagino a inveja que terão de mim os que daqui a 200 anos comprarem as obras de Saramago…Ficarão tão impressionados como eu, no entanto, eu terei experimentado a delícia de ter lido Saramago 200 anos antes deles.
    Como este blog daqui há 200 anos será escrito por Flávio Gomes IX, deixo aqui o meu registro para a posteridade…rs rs.
    Abraço a todos.

  39. hugo disse:

    Ferido de morte, um revolucionário civil agonizava na rua, junto a um prédio do Rossio, a praça principal de Lisboa. Estava só, sabia que não tinha qualquer possibilidade de salvação, nenhuma ambulância se atreveria a ir recolhê-lo, pois o tiroteio cruzado impedia a chegada de socorros. Então esse homem humilde, cujo nome, que eu saiba, a história não registou, com uns dedos que tremiam, quase desfalecido, traçou na parede, conforme pôde, com o seu próprio sangue, com o sangue que lhe corria dos ferimentos, estas palavras: “Viva a república”

  40. Cassius Clay Regazzoni disse:

    Daqui a pouco aparece algum imbecil leitor da Veja, e, consequentemente do Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, para falar que o Saramago não escreve nada, é um esquerdopata analfabeto. Esperem… esperem!!!

  41. emerson andré dias disse:

    Flávio, sensacional o texto. É daqueles que você não quer virar a página, pois tem medo que seja a última.

  42. Alhupert disse:

    Nossa! Se o Zé Saramago descreveu assim a saida de água do radiador pelo escapamento devido a um defeito na junta, imagina ele relatando o acidente do Lauda ou do Zanardi? Eu ia me arrepiar ;-)

  43. R/T disse:

    Humildemente genial, a forma com que ele escreve é fantastica, orgulho pra nós, lusofonos (como diriam os irmão da “terrinha”) ter alguem que nem ele entre os grandes escritores

  44. carllos disse:

    “Possivelmente terá sido nesse dia que comecei a pensar em tornar-me escritor. É um ofício em que somos ao mesmo tempo motor, água, volante, mudanças de velocidade e tubo de escape.”

    É Gomes, faz sentido sua inveja. E a minha também! Reverencio Saramago e também faço reverência ao jornalismo que você faz.

  45. Pedro do Opala e do Kadett disse:

    Haha, coitado, imagina o desespero dele ainda quase um menino diante dessa situação!

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