O MISTÉRIO DAS FLECHAS DE PRATA | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011 - 20:30Automobilismo internacional, DKW & cia., Museus & coleções

O MISTÉRIO DAS FLECHAS DE PRATA

SÃO PAULO (grande história) – Desta vez o Humberto Corradi se superou. Encontrou neste fórum informações valiosíssimas sobre o destino das Flechas de Prata da Auto Union da década de 30 e fotos raríssimas do resgate dos carros na antiga URSS, quando eles já eram dados como perdidos. Eu já tinha lido (e escutado) quase tudo sobre o assunto, que muito me interessa, e acho a história fascinante. Por isso faço o pequeno resumo abaixo, uma tradução rápida de tudo que foi publicado na “Oldtimer-Markt”, uma ótima revista alemã.

Antes, porém, para quem ainda não sabe, um breve relato sobre esses carros, os precursores da F-1 moderna — foram os primeiros com motor central no circuito de Grand Prix, o campeonato que acabou dando origem ao Mundial de F-1 em 1950. A Auto Union, nascida em 1932, era uma “joint-venture” de quatro grandes montadoras alemãs, Audi, DKW, Wanderer e Horch. Daí as quatro argolas que a VW ressuscitaria na década de 60 para relançar a marca Audi, cujos primeiros modelos eram descendentes diretos dos DKWs que a refundada Auto Union pós-Guerra voltou a fabricar. As outras três marcas, Audi, Wanderer e Horch, tinham desaparecido.

Com fortíssima injeção de recursos do governo nazista, a Auto Union e a Mercedes desenvolveram carros de corrida quase imbatíveis nos anos 30. Prateados, passaram a ganhar provas a torto e direito na Europa e na África. Chegaram a correr na Gávea, também. Aí veio a Guerra e a Auto Union escondeu vários deles em Zwickau, cidade da Saxônia que pode ser considerada a terra natal da Audi.

Ao final do conflito, em 1945, 18 desses carros de corrida (modelos Type C e D; dos A e B não se tem notícia) foram encontrados pelos soviéticos. Zwickau ficara na zona administrada pela URSS, que depois viria a ser a Alemanha Oriental. Eram 13 Auto Union, uma BMW, um Wanderer, um Jaguar e duas Alfas. Não me perguntem de quem eram os não-alemães, que não sei. O fato é que os bolcheviques encaixotaram tudo e mandaram para o NAMI, Instituto de Pesquisa da Indústria Automobilística, em Moscou.

Foi criado um grupo de desenvolvimento de carros de competição, e os engenheiros do NAMI se debruçaram sobre aquelas máquinas maravilhosas para estudar o que os alemães vinham fazendo. Pelo que diz a revista, quatro Auto Unions foram destruídos nessa dissecação automotiva. Entre eles, um “streamliner”, carro de recorde, parecido com o que matou Bernd Rosemeyer. Dois deles foram enviados para a fábrica da ZIL, uma das marcas russas, onde mais um foi detonado. Sobrou um Type C/D, um híbrido dos dois clássicos modelos feito para subidas de montanha. Os caras não conseguiam nem fazer o motor funcionar. E ele acabou indo parar num museu em Riga, capital da Letônia — então uma das repúblicas soviéticas. Nos anos 90, a Audi Tradition encontrou o carro, pagou uma fortuna por ele e deu ainda aos letões uma réplica para o museu. Ele foi restaurado por uma empresa inglesa e hoje está no museu da Audi em Ingolstadt.

Mais três Type D e um “streamliner” foram para a GAS, outra fábrica soviética, e lá acabaram devidamente estropiados para dar origem a carros de corrida de marcas locais. Um deles foi destruído num terrível acidente no dia 9 de junho de 1946 em Gorki. O carro ainda tinha no tanque a sofisticada gasolina usada pelos alemães nas competições e os russos resolveram colocá-lo numa estradinha para ver se o negócio andava. Um monte de gente foi ver aquilo de perto. O piloto Leonid Sokolov, encarregado do teste, perdeu o controle do monstrengo numa freada e ele decolou sobre a multidão, matando 18 pessoas. Sokolov sobreviveu. Parece que caiu dentro de um lago.

Na década de 50, dois Type D abertos e um C “streamliner” foram entregues a um certo Vladimir Nikitin na Ucrânia. Já na década de 70, restos dos dois D foram encontrados no país pelo norte-americano de origem iugoslava Paul Karassik, que empreendeu uma busca obsessiva pelas Flechas de Prata que vira correr na infância. Conseguiu comprá-los, já nos anos 80, e ambos foram restaurados também na Inglaterra durante anos e anos, até renascerem em meados dos anos 90. Funcionando.

Resumo da ópera, seriam apenas três os sobreviventes entre aqueles que os soviéticos enfiaram num trem para levar a Moscou depois da Guerra. Consta que outro estava sendo exibido em Praga quando Hitler invadiu a Polônia deflagrando o conflito mundial, e foi parar nas mãos de um colecionador americano anos depois. Mais um fora doado pela Auto Union a um museu de Munique ainda em 1937 e também resistiu à Guerra. Com isso temos cinco originais flanando por aí. E algumas réplicas, entre elas uma do “streamliner” que matou Rosemeyer, feita pela Audi.

Ufa.

A história é longa, mas ótima. E, melhor ainda, é ver as fotos dos carros encontrados na URSS. Na verdade, escrevi tudo isso só para mostrar as fotos. Que estão no link e na pequena galeria abaixo.

38 comentários

  1. Kxorrão disse:

    Meus parabéns: bela pesquisa!!! Esses carros foram verdadeiros monstros do automobilismo esportivo e eram difíceis, em razão de sua potência brutal para a época e seus pneus quase de brinquedo! Muito boa a matéria!!! Obrigado e um abraço da Terra das Três Fronteiras!

  2. Ricardo Pignatelli disse:

    Acho que nossos camaradas fizeram o certo, entretanto acabaram “estragando” a história do automobilismo.

  3. Paulo Abreu disse:

    Sensacional!!!!
    Também tinha ouvido sobre estes carros, para onde teriam ido durante e pós-guerra, mas a história vem esclarecer alguma coisas. Muito bom.
    Vou trabalhar nisso e colocar no meu blog também.
    Se puder acesse: http://voltarpida.blogspot.com/
    Abraços!

  4. Robson de Souza disse:

    Prezado FG…sensacional a matéria rica em detalhes da história que foi resgatada. Abraços.

  5. fernando amaral disse:

    aliás, pelo sobrenome dele, kulbergs, ele era letão mesmo, não russo.

  6. fernando amaral disse:

    olá gomes

    essa história é toda sensacional , e tenho um livro que, num artigo, conta em detalhes o resgate do modelo C/D, e o episódio é simplesmente acachapante, digno de clichê holywwodiano.

    resumindo, um russo chamado viktors kulbergs, um antigomobilista residente na Letônia, foi avisado por um amigo que o C/D estava largado num depósito em Moscou, e que no dia seguinte seria detonado num ferrovelho junto com tudo mais que havia nesse depósito.

    viktors chegou no lugar 90 minutos antes do depósito fechar – com nenhum recurso mas toda força de vontade, conseguiu que o deixassem remover o carro do canto onde estava jogado, arrastando a criatura ele mesmo sozinho, ela de pneus murchos, no chão sob camada de neve!

    muito bem, mas faltava ainda ele arrumar como tirar o carro de dentro de lá, já que não tinha como fazer o transporte.
    desesperado pois, então alguma deusa da sorte o presenteou, 30 minutos antes que os portões se fechassem, na pessoa de um caminhoneiro que passava por ali, com um caminhão vazio, e ainda por cima de retorno à Riga, nada menos.

    presumo eu seja a situação registrada na foto acima do caminhão com o carro numa estrada sob neve.
    o viktors deve ser um dos que aparecem na foto do carro ‘desnudado’ na oficina.

    esse resgate aconteceu em 1976; viktors restaurou o carro por conta própria, e daí então a audi o procurou e propôs comprá-lo; não por menos a audi deu-lhe uma réplica de presente, já que o resgatado havia se tornado a estrela principal do museu de riga do qual viktors era o diretor.

    eu fotografei esse carro na sua reestréia depois do re-restauro feito pela audi, foi no goodwood festival de 1997, pilotado por hans joachim stuck, usando a indumentária de seu próprio pai, hans stuck, que foi campeão de montanha (bergmeister) – não sei ao certo se com esse carro, mas derrotando ninguém menos que rosenmeyer.

    e ainda, gomes, uma vez eu te passei uma cópia da foto que fiz em goodwood, faz já um tempo, você ainda corria com o 96 e eu fui lá no box 22, uma foto 10X15 escrito atrás ‘bergwagen’ – o que aliás parece ser incorreto, pelo que li (vou ver se meu scanner funciona, daí te mando o artigo).

  7. Renato Breder disse:

    Chamar os Auto Union de ‘Flechas de Prata’ não é muito correto. O certo seria ‘Peixes de Prata’. E faz sentido: os carros da Auto Union realmente parecem peixes…

    Já li que o “apelido”, em alemão, dado aos carros eram:

    Mercedes-Benz = Silber Pfeile (Flechas de Prata)
    Auto Union = Silber Fische (Peixes de Prata)

    um abraço.

  8. José Franco disse:

    Longa história que nada, trata-se antes de um o bom resumo, tanto que nem é dito que os modelos eram conhecidos como os “P cars”, sendo o “P” de Porsche (Ferdinand), que havia sido contratado em 1932 pela Auto-Union para desenhar os 16 cilindros com compressor para dar um jeito nos Mercedes…Resultado: das 64 corridas que participaram venceram 32…

  9. Escreve um livro com essas histórias. Compro na hora.

  10. thiago da costa disse:

    Flechas de prata, não seriam as mercedes?

  11. Orlando Salomone disse:

    Por isso eu adoro História. Todos os imbecis do mundo deveriam ser obrigados a estudá-la para, quem sabe, deixarem de destruir aquilo que não são capazes de fazer. Nem mesmo copiando.

  12. mark disse:

    Leonid Sokolov, durante a guerra foi piloto de tanque soviético. Quando sentou num bólido alemão, correndo sozinho, destruiu o carro, matou 18 pessoas e foi cair dentro de um lago!!!. De tanque faria um estrago menor. Depois desta continuou sua carreira como piloto de teste da Lada. Como os carros não andavam mesmo nunca mais aprontou outra igual.

  13. achei: OLDTIMER MARKT 10/2002
    Seite: 8 Auto Union: Rennwagen in Russland (Titel)
    Rubrik: Automobile 3.20 €

    vou procurar num sebo e te falo.

  14. preciso ler mais a Oldtimer-Markt. se achar essa edicao compro e vendo pra vc por 4,000 xelins.

  15. Don Victor disse:

    Mto fera FG… mas as verdadeiras flechas de prata sempre serão as Mercedes…

  16. Passou no ano passado no canal management tv um especial sobre um desses Auto Union (se não me engano o type C), que tinha sido restaurado e ia para leilão, mas em cima da hora o leilão foi cancelado pois houve um problema com o certificado de autenticidade, o número do chassi não betia com o do documento.

  17. É por isso que sou um frequentador diário deste blog: postagens como essa ensinam o que, na atualidade, é algo muito perdido por muitos pamonhas por aí: conteúdo, conhecimento. Como sempre, valeu Flavião!

  18. Mauro Batera disse:

    Nos filmes da Quatro Rodas “Correndo no Tempo”, conta bem a história das Auto Union, e o que mais me chamou a atenção, foi que elas se tornaram as Flechas de Prata devido a pintura que teve que ser retirada, pois o carro com a pintura ficava acima do peso mínimo do regulamento da época.
    Fantástico!

  19. Renan disse:

    Meu deus!!
    quer dizer que os sovieticos desmontaram todas as flachas de prata que encontraram, não conseguiram remontar nenhuma e o com a tecnologia adquirida constuiram os fantasticos ladas??

  20. FES disse:

    Puta historia mesmo!

    Mas o carro da Auto Union era sacanagem… na época não havia limitações de nada, então, fazia-se o carro do jeito que desse para ganhar, mesmo que o motor fosse 16 cilindros!!!

    Esta historia me fez lembrar meu sogro que uma vez comprou uma Vemaguet que, a medida que ia aparecendo um podre, ele ia cortando a lata… até acabar como uma perua conversível com as portas soldadas para o carro não acabar desmanchando. Ou seja, nada se reconstrói… só se destrói mais ainda.

    • @ disse:

      Esta é a maior verdade sobre estes carros…
      Foram feitos sem nenhum limite ou regulamento, com o dinheiro do estado.
      Nenhuma fabrica tinha dineiro para competir, e nenhum outro pais do mundo investiu nenhum centavo para tentar fazer um carro à altura…
      Portanto, simplesmente não tinham adversários.
      E ainda conseguiram perder o GP da Alemanha de 35 para um carro de menor cilindrada, obsoleto…

  21. machinist disse:

    Caramba!!
    História tão boa quanto essa foi aquela da moto com side-car, que veio da segunda guerra, parando aqui no Brasil.
    Muito legal FG!!!!

  22. leohora disse:

    os russos tinham em maos os melhores carros do mundo da epoca e nao conseguiram fazer nada de bom se espelhando neles….

  23. vitão disse:

    1- o Doug Nye aparece em todas .

    2- tem uma outra versão da história aqui :

    http://www.caranddriver.com/features/01q2/auto_reunion-feature

  24. galileu disse:

    zé rodrigo, não fale, mal dos russos para o flavio, essas maquinas eram fantasticas e imbativeis, bom saber que alguem se interessa em preservá-las, aqui no brasil temos um abnegado colecionador de carros de corrida lá no rgs, é o trevisan, até que valia apena uma materia com ele, a reforma que ele fez nomaverick berta holywood ficou de mais.

  25. totiy disse:

    kraka quantas histórias ainda guarda essa ex urss, outro dia tiraram um tanque de um lago , agora esses carros , oque vem mais por ai?

    • vitão disse:

      Stalin matricula-se no jardim de infância, Brejnev requer a revalidação da sua carteira de motorista, Antropov irá participar do novo filme do Jmaes Bond, Kruschov pede conferência de paz com Kennedy, a perestroika é exatamente o que sempre pensamos o que fosse na intimidade.

  26. Paulo F. disse:

    Corre a lenda que um Sr. de origem alemã possui um guardado na sua garagem em Penedo. Fazendo compania a uma moto NSU.

  27. Ze Rodrigo disse:

    Quanto aos STROMLINIEN, só foram montados 2, o Wagen 1 e o Wagen 2. Rosemeyer morreu no W2, que foi o escolhido para a prova de janeiro de 38 por ter o chassis mais reforçado do que o W1 e por isto se prestava melhor para as modificações que foram feitas (motor mais forte, rodas maiores, tanque com gelo para refrigeração da água do motor e os adendos aerodinamicos). Este W1 que sobrou foi destruido pelos imbecis do russos em sua irresponsavel sanha de entender como que os alemães haviam feito aquelas máquinas. O idiotas (dos russos, claro) chegaram a fazer um carro idêntico para recordes de velocidade, mas o resultado foi pífio.

  28. @ disse:

    eheheh…
    E a pergunta mais interessante do texto…
    O que aconteceu com a Alfa 2.9?

  29. petrafan disse:

    no fim, os russos fizeram com os carros o que era de se esperar.

  30. Eder Casagrande disse:

    O motor desses carros era descomunal!!! Deveriam ter um ronco lindíssimo!

    • Rodrigo Moraes disse:

      Eder, procure no Youtube, tem bastante video desses carros funcionando.

      Eu tenho um sentimento contraditório em relação a esses carros. Embora reconheça neles a beleza e a tecnologia, também os associo ao nojo que tenho de guerra.

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