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sábado, 14 de maio de 2011 - 20:48Brasil

DIFERENCIADO

SÃO PAULO (guarde) - Será que todo mundo consegue se lembrar de quando fez sua estreia como cidadão?

Eu tinha uns 15 ou 16 anos. A gente fez uma protesto no colégio em Campinas por causa da substituição de um monte de professores do Objetivo. Mandaram embora os “nossos” e enviaram um monte de professores da matriz. Ficamos de costas para eles, na aula.

Mas foi um pouco depois, quando me vi vendendo sanduíche natural num evento no MIS pró-Diretas Já, que percebi que fazia parte, mesmo, de alguma coisa. Acho que já contei isso aqui. Não é importante.

Hoje meu moleque mais velho fez a sua estreia — o mais novo ficou jogando bola, anda meio descrente de protestos desde o episódio do aumento dos salgados na escola dele no começo do ano, que acabou não dando em nada apesar do boicote à lanchonete. Não sei se vai se lembrar no futuro, mas eu vou. Ele tem 12 anos. Talvez não compreenda direito o que significou a manifestação que milhares de pessoas fizeram num bairro chique da cidade, Higienópolis, pela construção de uma estação de metrô na região. Mas estava lá.

Para quem não é de São Paulo, conto rapidinho. Nesta semana, uma associação de moradores do bairro conseguiu fazer com que o governo do Estado cancelasse a construção de uma estação de metrô na esquina da Av. Angélica com a R. Sergipe. A “Folha” registrou o episódio e uma moradora deu uma declaração ao jornal que virou mote na internet. Disse a moradora que uma estação de metrô traria ao bairro “mendigos, camelôs, ladrões, uma gente diferenciada”.

“Gente diferenciada” foi parar no facebook e no Twitter e alguém deu a ideia de se fazer um churrascão na frente do shopping Higienópolis, chiquérrimo, com farofa, refrigerante barato, sambão e tudo mais. O movimento cresceu e em determinado momento mais de 50 mil pessoas, no facebook, prometeram ir ao churrascão.

O que se viu foi uma manifestação nascida na internet, sem liderança alguma, que passou pelo Twitter e foi parar na rua.

Levei o moleque. Fomos de jipe, o que já é divertido por si só. Ele levou seu repinique, fazia aula de percussão até o ano passado, e quando chegamos já rolava um batuque, e lá foi ele com seu instrumento e uma baqueta misturar-se à multidão. Sério, compenetrado, entrou no ritmo, ficou uma hora tocando seu tambor.

Acho que hoje se sentiu parte de alguma coisa. Bem diferente de 1984, nas Diretas Já. Aquilo foi tenso e, no fundo, triste porque perdemos. Hoje, não sei se a cidade vai ganhar sua estação de metrô. Mas ganhou em humanidade. O protesto da gente diferenciada foi alegre, divertido, pacífico, apartidário, uma “vacina contra o ódio”, como definiu meu amigo Bob Fernandes. Ódio que transformou São Paulo, nos últimos anos, numa cidade quase inabitável, onde tudo é proibido, onde a tudo se reprime, onde não se pode levar uma bandeira num jogo de futebol, uma coisa cinzenta, cabisbaixa, deprimente.

Sei lá quantas pessoas diferenciadas estavam nas ruas arborizadas de Higienópolis hoje, assando uma carne no meio da avenida, tomando uma cachacinha, uma tubaína tamanho família, uma cerveja meio quente — os bares das redondezas nunca venderam tanto. Sei que meu moleque estava lá, com seu repinique e sua nova posição de cidadão que vai às ruas de sua cidade por aquilo que acha justo, ao lado de todo tipo de gente, brancos, japoneses, pretos, judeus, mendigos, policiais, metroviários, travestis, putas, maloqueiros, de tudo um pouco, porque uma cidade é isso, de tudo um pouco.

Ele voltou para casa, no jipe com uma bolha no dedo, considerando se não teria sido melhor levar o surdão em vez do repinique, falando como um hominho.

Já é um homão.

144 comentários

  1. Filomeno disse:

    Sem querer, acabei passando ontem em uma transversal da avenida Higienópolis. Os 50 mil internautas que confirmaram sua presença no protesto contra a transferência de local do novo metrô no bairro se reduziram a 300 gatos pingados fazendo bagunça em frente ao shopping. O Estadão confirmou inicialmente a cifra e depois resolveu aumentá-la para 700, em especial deferência aos bagunceiros. Enfim, 700 ou 300, são bem menos que os 3.500 residentes que assinaram uma petição para mudar a localização do metrô. Estes 3.500 foram definidos como uma minoria que quer exercer pressão sobre o bairro. E os 300 – ou 700, vá lá! – constituem o quê? Na verdade, só serviram para conturbar o tráfego.

    retirado do blog do autor: cristaldo.blogspot.com

  2. Zé-Taubaté disse:

    Parabéns, Flavinho. Pra vc e pro moleque. E repinique é difícil pra c. de tocar. O menino tá com tudo e não tá fraco não.

  3. PauloZ disse:

    Emocionante! (comentário tardio porém sincero)

  4. Rodrigo Moreira disse:

    Cara fantastico!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  5. Roberto Borges disse:

    Que orgulho o seu!
    Fico feliz e imagino se fosse eu e meu filho.
    Um barato!

  6. luis antonio da matta machado disse:

    Nossa geração foi empurrada para buscar seus direitos de exercer a cidadania. Aos nossos filhos, precisamos passar esta necessidade de brigar, de não se conformarem com as nossas conquistas.
    Fiquei emocionado com seu texto. Assim como voce, tento passar essas lutas, essas bandeiras para os meus filhos.
    E tenho conseguido, assim como voce. Dá um puta orgulho mesmo.

  7. Roberto disse:

    não basta ser pai, tem que participar, parabéns

  8. Fabio Rogers disse:

    Coaro Flávio, sou pai também e quero lhe dar os parabéns pelo seu filho!Se eu morasse em Sampa teria ido com meu garoto la também!
    Um abraço a grande Família Gomov!

  9. Bruno disse:

    Moro no bairro, lugar maravilhoso por sinal. Tem pessoas idiotas como em todos os lugares.
    Também sou contra o metrô, acho q é jogar dinheiro público no lixo. Quem conhece o bairro sabe que, num raio de 2 km temos 4 estações de metrô. O q não falta em Higienópolis é estação de metrô. Construir uma quinta estação é muita falta de respeito com dinheiro público. O metrô tem q chegar onde o povo precisa.
    Outra coisa, se esses protestos fossem realizados por motivos realmente importantes, talvez esse país fosse um lugar melhor.
    abraços.

    • Guilherme Corrêa disse:

      Bruno
      Concordo com vc…cdê o churrascão na frente do parque do ibirapuera? Cadê o churrascão em cada bairro que não tem metro? Flávio vai faltar baqueta pra tanta batucada reprimida
      abçs

  10. Danilo Candido disse:

    Não é a primeira que vez que a presença de “pessoas diferenciadas” é temida por conta de novas estações de metrô:

    http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u114691.shtml

    Aliás, que linha problemática essa 4 Amarela, hein ? Parce ser uma linha meio … “diferenciada” das demais …

  11. Denilson Maciel disse:

    Parabéns Flavio, parabéns a todos que participaram direta ou indiretamnete sou professor de Geografia aqui em São José dos Campos trabalho temas socias com meus alunos e vejo que a luz no fim do tunel que muita gente achava não existir, digo existe parabéns pelo além de grande jornalista ser tembém um grande pai.

  12. Danilo Chamadoira disse:

    S E N S A C I O N A L, cara!!!
    assim como o texto!!
    abraço!

  13. Zé Alonso disse:

    Parabéns ao “Gominho” e ao pai. Isso é ser gente diferenciada, parabéns aos Cidadãos Paulistanos. Está na hora de mostrarmos nosso valor.

  14. Ernesto Grimaldi Torelly disse:

    Flávio,

    Parabéns pelo seu texto e de seu papel de pai. Lembro-me de 1984 com uma tristeza grande, a derrota que sofremos, foi meu primeiro contato com manifestações, depois em 1985 fui covardemente espancado pela Choque na Av. Paulista a mando do Di Gênio, quando nos manifestávamos na frente do prédio da Gazeta, ainda em 1985 participei do movimento contra o aumento escolar em Osasco e acabei participando da recriação da União dos Estudantes de Osasco (UEO). Foi um período conturbado, mas que trago boas e más recordações, mas pelo menos eu vivi, não fui boi de manada, não fiquei calado, expressei minha vontade, e tive o apoio de meu saudoso pai.

  15. Alexandre Santiago disse:

    Já pensou se também tivéssemos essas manifestações contra os altos salários dos políticos, os altos impostos pagos e a merda que anda a saúde no país?
    Também a corrupçào, descaso das autoridades, o panaca do Kassab andando de helicóptero pra tudo quanto é canto pago pelo NOSSO dinheiro, ah, espero que o povo comece a se mexer mais e mais.
    A gente consegue colocar isso aqui nos eixos. Basta querer.

  16. Alexandre Reis disse:

    Desculpe o palavrão, mas escreverei.

    CARALHO, Flavio vc deve ta orgulhoso demais.

    Essa foto me lembrou um momento que eu estava em cima de uma Marquise na Rio Branco protestanto contra o Collor e me vi ao lado de gente de todos os tipos e cores. Lindo sensacional.

    Quando vc escreve que ele estava junto de todo tipo de gente, cara isso é muito bom. Isso é Brasil.

    Parabens pela criação que vc e sua esposa estão dando aos seus filhos.

    Abs

    Alexandre Reis

  17. Alexandre Linhares disse:

    Show de “bola”. Cidadania também se aprende no berço! Parabéns ao garoto e ao Flávio.

  18. JP disse:

    Falou, falou e não disse nada.
    E convenhamos: comparar metrô com febem é o fim da picada, né?

  19. Marlon Maestri disse:

    Olá Flávio

    Por isso que esse negócio de internet é impressionante. Como que um cara que nem eu iria saber de um protesto do protesto em algum lugar de São Paulo aqui no interior de Santa Catarina, e mais, pelo angulo do povo, não de um jornalista. Porém, esse mesmo povo, injuriado, fez muita coisa injusta. Na minha opinião Flávio, estamos no fio da navalha da tolerância. Teria termos em latin que definiria a vontade popular. Ficaria mais chique. Mas prefiro ficar com o bom e velho (velho?) mandamento. Amai-vos uns aos outros. Um dia, perguntei para uma pessoa se era possível amar uma pessoa estranha na mesma intensidade que se ama um filho. Ele respondeu que não. Eu silenciei. O fato Flávio, não é a atitude daquela mulher, marginalizando o ser humano, mas tentar entender o porque da atitude desta mulher. E desta atitude, desencadiar um movimento que mostra que somos iguais, braços dados ou não. Mas a mulher ficou lá. E não deu tempo pra nada por que a vontade popular abraçou aquilo e por ai vai. E aquela mulher, infeliz na atitude, se perdeu no meio da vontade popular. Ninguém tentou enxergar como um desabafo, pela situação como vive a cidade, na extrema violência, onde um sinal de transito pode significar a tua morte. É muito facil pegar uma pedra quando milhares estão com ela na mão só esperando a sentença. Quero deixar claro Flávio. Não sou a favor da mulher. Mas também não entendo a intolerância. Estou tentando entender esse amor entre as pessoas.
    Abraços Flávio

  20. Rodrigo Duarte disse:

    Parabéns Flavinho. Posso dizer que você serve de referência para muitos e, quando for pai, vou tentar passar um pouquinho desses valores para meu filho(a).

  21. Alexandre - BH disse:

    Que o vírus democrático se espalhe e contamine os diferenciados de Brasília, gente que teria a nobre missão de representar o povo brasileiro. Há que se fazer muito churrascão e batucada naquele cerrado. Espaço é que não falta.

  22. Leo disse:

    Disputa de classes. O cancro do Brasil. O ataque e’ bilateral.

    Em tempo: so’ sei andar a pe’ ou de metro em SP. Um metro em Higienopolis viria bem pra facilitar minha vida na capitar.

  23. Alexandre disse:

    A cereja no bolo foi a cobertura do UOL/Folha de São Paulo.
    Disseram que havia 400 pessoas no churrasco. Além disso o reporterzinho de m**** tentou a todo custo desvalorizar a manifestação.

    Inacreditável o “maior jornal do país”

    A elite brasileira realmente se supera a cada dia que passa.

  24. Luis F. disse:

    parabéns pela atitude do dois ! isso é civilidade !

  25. Pro_Neto disse:

    Papai Coruja!!!!!!!!!!!!!

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