O FIM DO TAZIO | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
MENU

terça-feira, 31 de dezembro de 2013 - 11:58Grande Prêmio, Imprensa

O FIM DO TAZIO

Tazio Nuvolari: o grande piloto dos anos 30 foi a inspiração para o nome do site que hoje encerra suas atividades

Tazio Nuvolari: o grande piloto italiano dos anos 30 foi a inspiração para o nome do site criado pelo jornalista Fábio Seixas, que hoje encerra suas atividades

SÃO PAULO (acaba logo, 2013) – Sete anos atrás, pouco mais, pouco menos, o amigo Fábio Seixas veio ao meu escritório, na Paulista, no maior formalismo do mundo. Só faltou colocar terno e gravata. Achei aquilo esquisito porque se tem uma coisa que eu e o Seixas nunca exercitamos foi qualquer traço de relação formal. Fala logo, meu filho, o que aconteceu? “Eu e o Odinei vamos montar um site”, ele disse.

Foi, talvez, a única vez em que o Seixas se dirigiu a mim sem me chamar de “anão”, “seu bosta” ou “seu merda”. O Fábio se achou na obrigação de me comunicar que dali a alguns meses colocaria no ar o Tazio, em sociedade com o narrador da Rádio Bandeirantes, Odinei Edson. Por quatro anos, nas temporadas de 2002 a 2005, nós três formamos o time da emissora na cobertura e transmissão das corridas de F-1. O site seria um novo negócio dele, que passaria a ser meu concorrente. Daí ele ter se sentido obrigado a me dar alguma satisfação. Que me lembre, o único comentário que eu fiz, na hora, foi: que porra de nome é esse?

Esse tipo de coisa é muito rara, dar satisfação, ser leal, honesto e transparente. E foram estas as características do Tazio e de todos que nele trabalharam nos anos seguintes, inclusive depois de ser vendido ao empresário Caio Maia: um site feito por gente leal, honesta e transparente.

O Tazio sempre foi um rival de peso, entre outras coisas por estar hospedado no UOL, portal concorrente do iG e do MSN — no primeiro, onde o Grande Prêmio esteve de 2000 a março de 2012; no segundo, onde está desde então. Na estrada havia muito tempo (o site Warm Up estreou modestamente em 1996, quando a gente não sabia direito o que seria a internet, mas por via das dúvidas foi entrando), o Grande Prêmio não foi propriamente afetado pela chegada do Tazio. Nossa audiência sempre foi muito sólida, formada por leitores chatos e fiéis, nossa reputação, idem, e o modelo de negócios que adotamos desde o início não se alteraria em função de qualquer espécie de concorrência. Mas a gente se aprumou, claro.

Melhoramos, passamos a observar atentamente o que “eles” faziam, criamos algumas coisas novas e fomos em frente. Dividimos audiência e notícias nesse tempo todo e os dois sites acabaram praticamente monopolizando a informação sobre esportes a motor na internet brasileira. Sem que um tirasse leitores do outro, diga-se. Público de automobilismo é sedento por informação boa, de qualidade. Quanto mais, melhor. Ambos, Tazio e Grande Prêmio, ofereciam isso.

Pois o Tazio não vai oferecer mais. A empresa que assumiu o site alguns anos atrás decidiu concentrar suas atividades em outras áreas e nosso concorrente sairá do ar hoje, dia 31 de dezembro como informa a equipe do site neste link.

Não cabe aqui discutir as razões dos novos donos. Cada um sabe o que faz com seus negócios. Mas cabe, sim, lamentar e refletir sobre o fim de uma página importante, conduzida desde o início por profissionais sérios, competentes e comprometidos com o bom jornalismo. Viabilizar qualquer projeto editorial na internet, hoje, é um exercício de criatividade e sacrifício. Sei bem do que estou falando. O mercado publicitário relutou durante muito tempo em entender o que significa a rede, ainda reluta, e as mudanças na própria são muito velozes e por vezes difíceis de acompanhar.

Aos trancos e barrancos, o Grande Prêmio sobreviveu a um período muito difícil entre 2002 e 2005, mais ou menos. Só não fechou as portas por insistência deste que vos fala, pela competência e dedicação dos que aqui trabalharam e ainda trabalham e por uma crença cega no futuro da internet. Não erramos em insistir. Não há dúvidas de que é aqui que as pessoas passaram a se informar, embora a solidez financeira de negócios independentes seja semelhante à de uma gelatina Royal. No fim das contas, quem continua ganhando dinheiro e concentrando investimentos na internet são os grandes grupos de comunicação e tecnologia, com seus portais e aplicativos. Isso não mudou muito. E o crescimento arrasador de ferramentas como o Facebook e outras redes sociais achatou os valores da publicidade, fez com que gigantes como o Google atacassem esse mercado e passassem a concentrar verbas que foram matando páginas independentes e passaram a ameaçar até os grandes portais.

É um mundo novo e incerto, que vai deixando mortos e feridos pelo caminho. Os jornais e revistas impressos que o digam. São abatidos como moscas, muito em função da enorme oferta gratuita de informação (nem sempre boa e confiável) na internet, muito em função do mau jornalismo que passaram a praticar quando tiveram de cortar custos para enfrentar a concorrência das novas mídias.

A verdade é que ninguém sabe direito onde isso vai parar. Com a popularização dos smartphones e tablets, então, arrisco dizer que a imensa maioria dos consumidores de informação, hoje, não se importa muito com a origem dela. Batem o olho rapidamente em manchetes e se sentem informados, sem a menor profundidade. Todo mundo virou especialista em generalidades. E esses novos dispositivos, igualmente, concorrem com quem produz informação na medida em que oferecem muito mais entretenimento do que leitura — a saber, coisas como Instagram, Whatsapp, Snapchat, YouTube, Twitter, joguinhos e sei lá mais o quê. Que ninguém se iluda achando que as pessoas hoje leem tudo nos seus celulares, que passaram a ser todos eruditos bem informados e atualizados sobre as coisas do universo. Antes, esses pequenos brinquedinhos do capeta se tornaram centrais de entretenimento, mesmo. Quando se vê alguém com fones de ouvido mergulhado numa telinha de celular dentro de um ônibus ou metrô, num restaurante ou mesmo caminhando na calçada — e todo mundo fica assim o tempo todo —, pode ter certeza: não é Saramago que está chegando ao povo, nem a versão em português do “El País”, muito menos um concerto da Filarmônica de Berlim; é alguém que está vendo um vídeo idiota do Danilo Gentili, lendo notícias sobre o vestido da Claudia Leitte, se informando sobre o próximo Big Brother, ou escrevendo “adorooooo” para uma foto de joelhos bronzeados em Caraguatatuba.

Assim, produzir conteúdo, conquistar leitores e fazer com que o mercado publicitário aposte em páginas que têm como função primordial informar não é fácil. Talvez por isso o Tazio esteja se despedindo hoje. Claro que é legislar em causa própria, mas me parece evidente que as empresas que poderiam e deveriam investir em sites de nicho, que têm milhares de leitores fiéis e exigentes, têm sido muito contemplativas diante desse cenário. As agências que cuidam das contas desses clientes preferem o mais fácil, que é torrar fortunas em comerciais na TV ou nas páginas de uma ou outra revista ou jornal, porque é igualmente mais fácil apresentar resultados genéricos. “Olha aqui, a ‘Veja’ tem um milhão de assinantes, então seu anúncio foi visto por um milhão de pessoas”, dizem. Ou: “O ‘Jornal Nacional’ teve 20 milhões de telespectadores, então seu anúncio foi visto por 20 milhões de pessoas”.

Foi assim por um tempo, mas quem tem noção do que é retorno concreto e da eficácia de qualquer peça publicitária, ainda mais com os recursos que a internet oferece, sabe que não é dessa maneira que as coisas funcionam no mundo real. Primeiro, que os números muitas vezes são inflados ou, simplesmente, inventados. Depois, que nada garante que os 20 milhões de telespectadores estimados de determinado programa de TV tenham visto o comercial X. Ou que o milhão inteiro de leitores (se eles existirem, claro) da revista capenga tenha prestado atenção no anúncio Y. E desse milhão, quantos se interessam realmente por um pufe ou um sofá? Qual o resultado, enfim, além de poder mostrar o anúncio publicado ou gravado num clipping para o cliente?

Na internet, os resultados são mais precisos. Ontem, por exemplo, mais de 300 mil pessoas acessaram o Grande Prêmio para ler notícias sobre Michael Schumacher. É mais do que a tiragem diária da “Folha”. “Ah, mas a ‘Folha’ tem 300 mil leitores diários e vocês só tiveram ontem’, dirá alguém. OK. Mas quantos desses 300 mil leem diariamente o que sobrou do caderno de Esportes? E desses, quantos leem notícias de F-1? Faz sentido alguém pagar caro por um espaço na página do jornal onde se encontra o noticiário de F-1 sem saber quantas pessoas vão, efetivamente, passar os olhos por ali?

Nossa audiência de ontem não é um número estimado, é real. Foram 300 mil almas diferentes que procuraram o site atrás de algo muito específico, pessoas que têm igualmente interesses específicos, que formam uma massa de leitores verdadeira, e não chutada. Por valores muito menores do que os praticados na chamada grande mídia, anunciantes podem atingir públicos muito mais promissores. Todos, sem exceção, gostam de carros, de corridas, consomem produtos ligados ao esporte e ao automóvel, colocam gasolina e álcool no tanque, compram pneus, têm perfil muito claro no que diz respeito à faixa etária, renda, gostos, hábitos de consumo etc.

Não é fácil, porém, romper práticas de décadas. Cedo ou tarde, no entanto, isso vai acontecer. Porque os anunciantes vão perceber que gastar uma fortuna numa página de uma revista que ninguém mais lê (porque é ruim e irrelevante, não porque é uma revista), ou num jornal que vai embrulhar peixe (não porque é jornal, mas porque é tão ruim que só serve para isso mesmo), é rasgar dinheiro. O público migrou para fontes mais confiáveis, ágeis e completas. Na internet tem muita porcaria, claro, mas tem muita coisa boa, também. É, hoje, a mídia mais importante para 88% dos consumidores de informação no Brasil, de acordo com o levantamento “Brasil Conectado – Hábitos de Consumo de Mídia” do IAB Brasil. 38% dos 2.075 entrevistados nesse estudo passam, pelo menos, duas horas por dia navegando na internet, sem contar o tempo gasto lendo e-mails ou trocando mensagens instantâneas; 27% deles gastam o mesmo tempo vendo TV e apenas 7% lendo revistas ou jornais.

O problema é que nem todo mundo tem fôlego, teimosia e disposição, no caso dos sites jornalísticos, para esperar o momento em que esse jogo vai virar. O Tazio resistiu quanto pôde, e cumpriu sua missão com louvor. Nós, do Grande Prêmio, não temos nada a comemorar com a extinção de nosso maior concorrente. Não vamos herdar audiência, nem verbas publicitárias. Vamos, apenas, perder mais uma referência importante na prática do bom jornalismo. Os leitores, também.

73 comentários

  1. Eduardo disse:

    O Tazio nunca foi um concorrente pq ninguém se restringe a abrir um único site por dia e 90% dos leitores do Tazio sempre foram os mesmos leitores do Grande Prêmio. Nós simplesmente abríamos os dois sites, a procura de alguma informação que o outro (ainda) não tivesse dado.

  2. Triste realidade: Brasil, um país de ilusionistas.

  3. Andre disse:

    Lamento tambem.
    O Tazio era minha referencia para o esporte automotor.
    Um dia volta ! ?
    Abs

  4. Ulisses disse:

    É isso aí Flávio!
    Por essa, entre outras, eu dou uma passada aqui sempre que posso, para deixar algumas (humildes) opiniões do que sempre vi e li na vida sobre esse “tema” que nos apaixona.
    Nos últimos anos, uma leitura diária no Grande Prêmio e (as vezes) no Tazio, me supre a desinformação da mídia oficial, (superficial e artificial!) sobre esportes a motor.
    Uma pena o fim do Tazio!

  5. Igor Canavarro disse:

    Depois do Jalopnik Brasil, agora é o Tazio que sucumbe frente à concorrencia. Pena.

  6. Paulo "McCoy" Lava disse:

    Hi there! Happy New Year to Flavio, his WU colleagues and you all.
    Now on, Portuguese language. Sou mais que lamenta o fim de mais um ‘website’ especializado em Automobilismo. Portanto, ao menos neste quesito, eu pouco tenho para acrescentar.
    Gostaria, isto sim, de comentar que o parágrafo no qual o proprietário deste blog alinhava interessantes tópicos sobre o quesito ‘verbas publicitárias’. Até porque, uma das situações ali registradas (“As agências que cuidam das contas desses clientes preferem o mais fácil, que é torrar fortunas em comerciais na TV ou nas páginas de uma ou outra revista ou jornal, porque é igualmente mais fácil apresentar resultados genéricos”) me trouxe à memória situação que presenciei em 2012, mais especificamente, durante ‘weekend’ no qual o ‘circo’ da Stock Car Brazil esteve no RGS. No sábado que antecedeu a prova, compareci, junto de outros jornalistas gaúchos, ao camarote de uma das montadoras que ‘atuam’ na categoria. Fomos bem recebidos por alguns representantes da empresa no RGS e por publicitários. E havia, isto eu lembro bem, gerente de uma revenda situada na cidade de Canoas (região metropolitana). Em determinado momento, dois colegas elogiaram meus conhecimentos e meu estoico esforço em termos de preservar datas e fatos do automobilismo.
    “Paulinho, tu tem que montar um ‘site’ de estatísticas e disponibilizar tais dados históricos” – frase de um escriba.
    Detalhe: Eu NÃO posso me dar ao ‘luxo’ (!) de pegar meu banco de dados e ‘jogar’ no mundo virtual. De graça? Not on my watch WAY! (= sem essa!)
    Aí, my friend… fui falar em valores. Mas… a exemplo de outras ocasiões, ouvi frases do tipo:
    “Bah, tu vê. A situação…”
    “Orçamento já está comprometido”.
    “A crise na Europa”.
    “Estamos gastando muito no apoio a candidatos nesta eleição”.
    (Só faltou botar a culpa na personagem ‘Nina’, daquela novela que fez sucesso recentemente)
    Etc.
    Me peguei pensando: será que uma montadora, ou uma revenda, quiça, loja de autopeças, irá ‘falir’ se apoiar um ‘website’? Idem para demais empresas envolvidas com o ramo automotivo? ‘I don’t think so!’
    Até hoje, não tenho resposta. E, creio, nem mesmo o Flavio, tampouco os hoje ‘antigos’ proprietários do Tazio obtiveram resposta para a mesma pergunta que eu fiz…
    (ouso imaginar que nestes tempos ‘modernos’, patrocinar um ‘website’ de noticias de automobilismo é uma situação amedrontadora. Para os publicitários, então, é como gritar ‘fogo’ num cinema lotado. Muitos deles entram em pânico só de ouvir / ler essa frase…)
    Grato pela atenção…
    Have a good one.
    See ya,

    Paulo Lava
    Jornalista / Pesquisador

  7. Gustavo Lúcio disse:

    Vai fazer falta. O Tazio bem que podia ter descolado uma verba publicitária de alguma empresa do segmento, como a Petrobrás (ou não segmentada, dos Correios p. ex.) e continuar a existir – pena que os critérios das empresas públicas e mistas federais para distribuição de verba de publicidade não é estritamente técnico, não é mesmo, Flávio?

  8. Sistema da Morte, meu caro. É nisso que estamos todos. E acelerando!
    Lamento pelo Tazio, também era seu leitor constante.

    f

  9. Gustavo Zapelini disse:

    Que grande merda…
    O que tratas no texto é realidade que permeia todos setores da vida brasileira. Oferta de algo com qualidade necessita de consumidores que busquem a qualidade. Óbvio. Mas difícil.
    Vejo que o Fabio Seixas tem buscado alternativas. Ele que não desanime. Que continue praticando o bom jornalismo.
    E aceleremos rumo a 2014, afinal, tem Copa…

  10. Cristian disse:

    Lindo texto, Flávio!

  11. Eugenio Cesar disse:

    Prezado, Flavio! É muito bom saber que o respeito as diferenças, mostram a seriedade em conduzir a informação ,e é por essas e outras que sou cada vez mais fã. Obrigado.

  12. Harry disse:

    Oi FG
    Coincidentemente a atitude que o Fabio Seixas tomou foi a mesma que tomei ao planejar o primeiro site de corridas de rua do Brasil, o maratona.com.br em 1998/99 (que hoje atende por Running News.com.br). Me dirigi então, ao único veiculo existente a revista Contra-Relógio, e “pedi autorização” ao seu Editor Tomaz Lourenço para poder lançar um veiculo “concorrente”.
    Bacana
    Feliz 2014
    Harry

  13. gustavo terra disse:

    “comprando pneu”
    Hj em dia compro pneu pelo preço. Não tem propaganda alguma mostrando que tal marca usa tal tecnologia, desenvolvida em tal categoria etc, para me fazer parar para comprar determinada marca. Como disse acima, compro pneu pelo preço, e só.

  14. Roberto Santos disse:

    Caro Flávio,

    Concordo plenamente com você;

    abçs.

  15. Vitor disse:

    Eu sempre acho meio estranho quando se fala em números de visualizações na internet. No caso do Schumacher, 300k usuários diferentes faz sentido, mas muitas vezes a gente vê pessoas confundindo pageviews com pessoas. E faz diferença, especialmente quando se pensa em retorno publicitário.
    É igual um clipe qualquer no youtube do Justin Bieber que bate 50 milhoes de reproduções. É na verdade 1 milhão (se muito) de pessoas, com algumas pessoas assistindo mesmo o clipe várias vezes, e o muita gente tentando inflar o número artificialmente.

  16. Paulo Neves disse:

    Flávio Gomes, você é um dos melhores jornalistas que eu tive o prazer de ler, ultimamente.
    Com tanta gente incompetente e enganadora, ou competente e emasculada ou acomodada, você é como o melhor dos velhos tempos.
    Acompanho também o seu blog sobre a sua paixão por carros estranhos/feios/clássicos/inesquecíveis.
    Por fim,não menos importante, parabéns por ter dito o que pensa e ter perdido o emprego na ESPN.
    Por mais que isso possa ter te trazido dificuldades, esta é um atitude para poucos, e um escudo que vale a pena levar no peito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>