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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014 - 20:57Antigos em geral, Gomes

LONG WAY HOME (2)

SÃO PAULO (ah, a vida…) – Tudo começou com este despretensioso post de 30 de dezembro, quando a gente não tem nada para escrever e escreve qualquer coisa — ninguém vai ler blog no último dia útil do ano: alguém me mandou um link com fotos de Twingo e lembrei do meu, que comprei no distante, mui distante, ano de 1994.

Vinte anos atrás. Duas décadas.

No post, dei a placa do meu, que lembrava de cabeça. Três dias depois, um blogueiro me mandou um e-mail. “Trabalho em tal lugar e tenho acesso a alguns dados de carros. Achei o seu Clio”, me escreveu o blogueiro que vamos chamar de “Dolglas” (inventei agora, ninguém se chama “Dolglas”), porque não sei se pode levantar dado de carro por aí apenas pela placa.

Pois “Dolglas” me mandou a ficha completa do carro, não sem antes levar uma dura: “Não era Clio, era Twingo!”. Tinha tudo lá, inclusive o nome e o endereço da proprietária. O carrinho, meu Twingo, ainda existia. E estava em São Paulo.

Isso foi no dia 2 de janeiro. Comecei a procurar alguma forma de encontrar a dona. Hoje, o Facebook é o primeiro a ser consultado. Mas o nome dela era razoavelmente comum e vieram várias. Não tinha como sair perguntando a todas se elas tinham um Twingo. Achei melhor apelar para um estilo “old fashion”. Escrevi uma carta. Afinal, tinha um endereço. E, com ele, aproveitei para dar uma olhada naquele treco do Google que tem fotos de todas as ruas da Terra, de Vênus e de Marte. Achei a casa, vi uma garagem fechada. Bom sinal. Ele não dormia na rua, se ainda estivesse com essa proprietária.

Coloquei a carta no correio. Me apresentei, contei que tinha sido o primeiro dono do carrinho, disse que ele tinha um certo valor sentimental e, com todo respeito, falei que compraria de volta se ela quisesse vender.

No dia 20, recebi um e-mail. Simpaticíssimo, da dona do “Goiabinha”, como ela chama o Twingo. Não sei se ela quer ser identificada, então vou chamá-la apenas de “Sol”. Gosto de “Sol”. “Sol” me contou que comprou o carro em outubro de 1997 por 7.900 reais. Eu me lembro de tê-lo vendido por 7 mil mais ou menos em julho daquele ano. Ela era, portanto, a segunda dona do Twingo. E sim, o carro estava com ela e ela tinha interesse em vendê-lo.

Contou suas aventuras com o Twingo, que cerca de um ano e meio atrás foi atingido na traseira por um ciclista maluco que amassou a tampa do porta-malas e quebrou o vidro. Depois desse incidente, “Sol” encostou o “Goiabinha”. Estava sem grana e sem disposição para arrumá-lo mais uma vez — alguns anos antes, um tonto com um Citroën (claro…) bateu nele dentro de um posto de gasolina. Quando recebeu minha carta, estava prestes a tomar uma decisão drástica: mandar o coitadinho para um ferro-velho. Tinha desistido dele, depois de muitas idas e vindas. No e-mail, mandou o telefone. Liguei na hora.

“Sol” é uma querida, uma gatona falante e simpática, e parecia não acreditar no que estava acontecendo. “Esse carro parece ter vida própria. Toda vez que ia me desfazer dele, por alguma razão, ele fazia alguma coisa para ficar comigo. Não queria ir embora. Agora que eu ia vender para o ferro-velho apareceu você.” Perguntei quanto ela queria pelo Twingo. “Ele está com documentos atrasados, alguns débitos, e se você pagar tudo ele é seu. Eu te dou.” E olha que ele correu riscos gravíssimos. “Minha sobrinha chegou até a escrever para o Luciano Huck”, disse, e na hora fiquei arrepiado só de pensar nas merdas que aqueles caras seriam capazes de fazer com ele.

Hoje reencontrei meu Twingo. Tirando o vidro quebrado e a tampa do porta-malas amassado, está zerado. Interior inteiro, limpinho, conservado. Carro de mulher. Cuidado com carinho nesses 17 anos desde que eu o vendi.

Anos atrás, tinha cruzado com ele na avenida Ibirapuera. Eu num sentido, “Sol” no outro. Fiquei desesperado, tentei ir atrás. Não consegui, não tinha retorno, foi uma enorme frustração. Hoje tinha um endereço e um mapinha. Saí da TV, peguei a lambreta e cruzei a cidade até suas franjas. Fui recebido com um sorriso e um café. E muitas histórias. Quando “Sol” falou que ia pegar a chave para dar uma olhada no interior, eu disse que não precisava. Tirei a reserva, que guardei por 20 anos. “Não é possível que você tem a chave!”, ela disse. “É sim.” E abri a porta, e sentei naquele mesmo banco, e abri o mais largo sorriso que alguém que reencontra um amigo pode abrir.

“Sol” tem o manual do Twingo e as guias de IPVA preenchidas por mim quando não existia internet para pagar as coisas pelo computador. No manual, a data de entrega: 26 de abril de 1994. Terça-feira da semana do GP de San Marino. Quando meu Twingo foi entregue, eu não pude retirá-lo na CAOA da Ibirapuera. Estava a caminho do aeroporto para cobrir a corrida que mudou a vida de tanta gente, a minha inclusive. Depois de tudo que aconteceu em Imola, voltei já demitido pelo jornal via Madri. Numa quarta-feira de sol na Espanha, três dias depois da corrida, fui a uma revenda Renault e comprei acessórios originais para meu Twingo: vidros elétricos, caixinhas de som, um toca-fitas Grundig com botões verdes e até um porta-luvas emborrachado, na verdade uma pequena bolsa colorida que encaixava direitinho no porta-trecos diante do banco do carona. Pequenas bossas de um carro espertíssimo que já fazia muito sucesso na Europa.

Fui conhecer meu Twingo no aeroporto, quando minha mulher foi me buscar. Claro que depois de tudo que tinha acontecido em Imola, um carro novo deixara de ter importância. Nele entrei pela primeira vez sem nenhuma emoção especial. Com o passar do tempo, apenas, nos tornamos amigos. Sim, sou amigo dos meus carros.

Foram apenas três anos com ele. Hoje, quando o vi, fiquei emocionado e feliz. “Sol” também. Ela tinha jogado uma água no carrinho, que estava empoeirado. Ontem, quando combinamos o horário da visita, ela me disse: “Vou descer lá e dizer para ele que seu pai virá buscá-lo. Ele vai gostar”. Sim, a “Sol” também fala com seu “Goiabinha”. Faz todo sentido.

O Twingo está de pé, completamente de pé. Precisa de uma maçaneta interna nova, do controle do espelhinho do lado direito, de um vidro traseiro e uma tampa de porta-malas e de novas rodas. Uma lanterna traseira também. Uma boa lavagem, um polimento, pintura do para-choque (recuperar a textura original dessas peças plásticas é difícil, mas pintando de cinza fosco fica ótimo), uma revisão mecânica e pronto.

Vou quitar os débitos até o fim da semana e daqui a uns dez dias vou lá buscá-lo de vez. Prometi para “Sol” que em um ou dois meses estará pronto. Para que no dia 26 de abril, quando ele completar 20 anos, a gente possa comemorar dando umas bandas pela cidade.

Valeu, “Sol”. Valeu, “Goiabinha”. Bem-vindo de volta.

327 comentários

  1. Rodrigo Fernandes disse:

    Vc tem lugar se quiser participar de nossos encontros mensais do TWINGO CLUBE DE SÃO PAULO, todo terceiro domingo do mês. Abraço!

  2. Felipe Araujo disse:

    Texto emocionante!!!

    Eu que comprei um Twingo 94 a um ano compreendo o seu sentimento, amo esse carrinho,

    Parabéns

  3. Ricardo disse:

    também me emocionei por aqui. tive um fusca 1983, branco, comprado usado, que passou 14 anos comigo, vendi em 2001.o fusca me viu casar, transportou minha filhota. a vida financeira melhorou, vendi pro meu irmão, comprei carro maior, com ar, mais confortável. mas sempre que reencontrava meu fusca eu fazia questão de entrar e matar a saudade. um amigo por 14 anos, honesto, peças baratas. infelizmente, quando o fusca estava de posse do meu irmão, foi roubado e nunca mais o vi. se não fosse isso, teria recomprado e tratado como xodó. se o reencontrasse, restauraria e deixaria igualzinho. já pensei em comprar outro e deixar igual, mas não é a mesma coisa. aquele carro é único pra mim.

    e quanto a você, Sol (Solange), pelo próprio apelido vê-se que se trata de uma pessoa iluminada, especial. parabéns pela postura legal que teve. podia pegar pesado no preço, mas foi nota 1000. Ainda bem que existem pessoas como você.

    Vida longa ao goiabinha.

    Abraço pra você, Flávio, e obrigado por mais um “causo” muito legal.

  4. joão disse:

    estava procurando a tag long way home(2) não estava achando mesmo qd cliquei na tag long way home…creio q esteja sem tag

    abraço

  5. Fabio M. disse:

    Mt TOP esse seu texto Flávio!! fiquei super emocionado lendo!! Tenho um santna 87 q era do meu avo está conosco desde 0km cuido dele com o maior carinho do mundo!!

  6. lincoln falcao disse:

    flavio gomes seu velho lobo matreiro… usando de seus olhos azuis e dos cabelos dourados pra seduzir uma senhorinha e rapar o carro dela,, agnaldo silva ha tempos ja mostrava isso nas novelas das 8….

  7. olavopcfilho disse:

    Nossa… Parabéns Flávio!! Excelente o texto!!
    É muito bom encontrar textos bem escritos e com vida, como esse!
    Vc manda muito bem meu caro!!
    Continue assim!
    Acompanho sites e blogs sobre automobilismo e vc se destaca muito pela qualidade do seu trabalho.
    Abraços,
    Olavo

  8. Emerson Oliveira | Belo Horizonte disse:

    Flávio, boa noite. Aproveitando o momento do reencontro com o bom e (nada velho) Twingo, segue um link do “Autoblog” que trata da exposição do novo Renault Twingo com tração traseira (se entendi bem). Achei legal dividir essa com você. Grande abraço e quando vier a BH, me avise.

    http://www.autoblog.com/2014/02/13/next-renault-twingo-ready-swiss-debut/

  9. F_Tozelli disse:

    Excelente história… Vou ver se consigo encontrar os antigos carros do meu pai e do meu avô… Que sabe… heheh

    Flávio, aproveitando, acabou de sair imagens oficiais do novo Twingo que a Renault vai lançar! Particularmente eu gostei, ainda mais pelo fato do motor ser na traseira! Estilo ficou praticamente o mesmo. O que achou?

    http://carplace.virgula.uol.com.br/reanault-twingo-e-peugeot-108/

  10. Leonardo Cavalcante disse:

    Flavio, vai manter o nome do “goiabinha”??? ou vai rebatizar o bichinho?

  11. CorredorX disse:

    Emocionante. Parabéns pelo reencontro.

  12. Alvaro disse:

    Flavio, muito legal a historia, parabens. Mas uma duvida:
    Vc disse que conseguiu os dados da proprietaria apenas pela placa. O mais provavel é que o “Dolglas” usou dados da empresa onde trabalha, possivelmente o detran, uma financeira, etc, para conseguir isso, o que provavelmente é ilegal. Vc mesmo admite que “não sei se pode levantar dado de carro por aí apenas pela placa”.

    Você não acha que, nesse caso, cometeu um erro em aceitar as informações? (embora, infelizmente, nesse caso tudo deu certo). Pergunto isso pq lembro de um tempo atrás, vc ter feito um post sobre alguém que ligou para você com uma série de informações provavelmente tiradas de um cadastro, provavelmente para lhe vender algo. E vc fez criticas duras a quem vendia/comprava cadastros.

    Eu em geral fico puto quando me ligam com informações que não deveriam ter, me faz desconfiar (tenho certeza) que qualquer hacker ou bandido pode saber sobre nossa vida nos minimos detalhes.

    De qualquer forma, ainda bem que dessa vez deu certo.

    • Flavio Gomes disse:

      Não senhor. Nada de ilegal. Eu tinha o Renavam dele também, e com Renavam existem sites que dão essas informações para que as pessoas não comprem carros roubados etc. Meu amigo secreto apenas sabia o caminho das pedras. E o que aconteceu comigo foi bem diferente, era um caso de propaganda política de uma vereadora.

      • Alvaro disse:

        ok, obrigado pelo esclarecimento. Não tinha entendido que também tinha o RENAVAM e que isso era possivel (voce dá a entender no post que tambem nao sabia). Otimo saber que tomou esse cuidado, parabens.

        Ando critico com pessoas (em geral, nao exatamente voce) que pregam contra corrupção mas cometem seus proprios deslizes em beneficio proprio.

      • Flavio Gomes disse:

        Escuta, onde tem corrupção aí? Tá louco? E mesmo se eu tivesse um meio pouco ortodoxo de conseguir os dados do meu carro, iria investigar. Sou repórter. E isso não faria mal a ninguém, não causaria nenhum transtorno, não prejudicaria ninguém. Deixa de onda.

  13. Zé Rodrigo disse:

    Super bacana este reencontro, mas confesso que gostei mesmo foi de saber que a cidade tem franjas :-)
    Adorei esta expressão, é perfeita :-)

  14. Luiz Bandeira disse:

    Oi Flavio Gomes,
    Que história legal e emocionante, essa Sol é muito gente boa, ela poderia ter lhe enfiado a faca para te vender o carro, mas ao contrário de deu um presente,que os próximo 20 anos com o Goiabinha sejam ótimos.

    Abraço

    Luiz Bandeira

    • solange fonseca disse:

      Olá Luiz Bandeira , obrigada pelo ” gente boa ” …sem modéstia nenhuma garanto que sou mesmo rsss…Quanto a venda do Twingo ,sim vc tem razão ,mas como eu escrevi no primeiro e-mail resposta á carta recebida do FG : -” Tudo seria mais simples se tratasse da negociação de um carro qualquer ,mas era o Goiabinha e suas histórias” .Aqui entrou mais o coração que a razão … eu não posso fazer por ele o que o FG pode que é restaurá-lo , colocar a documentação em dia e continuar cuidando por longos anos com carinho , então nada mais justo que deixá-lo partir seguindo seu destino ao primeiro dono .Eu jamais levaria ele para um ferro velho ( isso eu disse para o FG pois não o conhecia ainda e fiquei desconfiada com a carta ,podia ser um maluco qualquer né? Rs ,queria ver se o interesse dele era REAL e pelo desespero que ele ficou pude avaliar rss)
      Tem coisas na vida que se tornam maior do que o dinheiro e essa é uma delas pra mim .
      Um abraço !
      Sol :-)

  15. Luiz Dahlem disse:

    LInda e comovente história………Parabéns Flávio! Vida longa ao goiabinha!!!!

  16. Fernando Tumushi disse:

    É, eu entendo o que vc sente. Tive um Fiesta 96 CLX 1.4, minha mãe foi segunda dona, passou pra mim e rodei bastante com ele, até os famigerados 150 mil kms que dizem ser a vida útil do motor Zetec (valente por sinal). Era quebrado e me faltava dinheiro pra dar a devida manutenção nele e quando começou a melhor a parte financeira, uma chuva de verão inundou a rua onde trabalho e fez o coitadinho boiar (e nem moro em SP, moro no PR)… Nisso, a seguradora declarou ele como PT e assim foi-se embora meu parceiro. Achei que teria um destino terrível, como tornar-se uma vítima de leilão pra dono de ferro velho canibaliza-lo. Porém, vendo o renavam outro dia, vi que continua ativo e rodando em Guarapuava. Só não tenho as informações de endereço e tudo mais como seu blogueiro te passou.

    Minha esposa é contra pelo tanto de verba que seria necessário para comprá-lo e o deixar como era em seus dias de glória, mas eu assim como vc entendo o valor e a amizade que se constrói com um carro.

  17. Daniel Chagas disse:

    Me emocionei…

  18. marcos andre rj disse:

    Vc é um maluco ! E é por isso que sou seu fã ! Porque vc é um maluco como eu, que gosta de carros, que fala com carros, que coloca nome em carros, que prefere os carros do que certas pessoas.

    Tuda a sua felicidade ficou explícita nas fotos, cara de criança que ganhou um brinquedo ou que achou o brinquedo predileto que estava perdido.

    Tenho uma história parecida com o meu carro, um Renault Laguna 99, o Jean Pierre, a diferença é que ele sempre esteve por perto. Hoje estou com ele e não vendo nem a pau.

    Se pudesse compraria de volta alguns carros que tive, mas você me deu uma boa ideia, preciso achar um Del Rey Ghia 89, que foi o último carro do meu pai.

    E vê se para de fazer marmanjo chorar durante o expediente !

    • Tiago Mio disse:

      Renault Laguna é o meu sonho de consumo. Principalmente aquela versão perua motor 3.0 V6. Aqui em Santo André tem um Laguna o dono também não vende nem a pau.

    • solange fonseca disse:

      Legal Marcos André ! Tomara que encontre seu Del Rey ,meu pai teve um desses também !
      Que mais malucos ( como eu também! ) continuem conversando com seus carros , talvez se eu não tivesse feito isso como Goiabinha ele nem tivesse insistido em ficar comigo por longos 17 anos … como eu falei pro FG ,ele é um carro estranho que parece ter vida própria , decide sozinho rss… muitas vezes me perguntei :-Quem é mesmo dono de quem ? rsss Parece maluquice , mas devido a tantos acontecimentos em torno dele nem era pra ele existir mais e olha só que final feliz !!!
      Um abraço
      Sol :-)

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