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sábado, 19 de abril de 2014 - 23:27Futebol

NOSSO GURI

meumeninoSÃO PAULO – Nos idos de 1991, 1992, tínhamos nosso garoto. Hoje faz 20 anos que ele se foi. Dener, menino… Quantas noites frias no Canindé, quantos jogos que nada valiam apenas para ver você…

Sempre que ouço aquela música do Chico, “Meu guri”, lembro de você, Dener. Já lembrava, na época. Era tocar no rádio, Dener vir à cabeça. Tinha certeza que sua vida se encerraria de modo trágico e breve, nada de premonição, apenas uma certeza, porque a gente que sabia dele desde guri sabia que seria assim.

E por saber, seguíamos seus passos, dribles e gols com alegria e orgulho, orgulho que nunca acaba, porque demos ao nosso guri a chance de vencer, a gente sabia que isso seria longe do nosso Canindé, das nossas fronteiras, o mundo era maior que o Canindé, Dener era maior que o Canindé, sempre soubemos disso. Ele disse que chegava lá, e a gente esperava que chegasse. Só que a cada jogo, a cada gol, baixava uma enorme melancolia. A certeza de que aquilo era bom demais para durar. Seria curto.

Mas mesmo assim amamos nosso guri com todas as forças, de tudo fizemos para tê-lo conosco por alguns segundos a mais, e ele nos devolveu o esforço com sua arte, seu amor por aquela camisa, por aquele solo sagrado.

Dener, Dener. Morreste numa madrugada de segunda-feira sem que pudéssemos te defender, como sempre fizemos. Madrugada escura, dormindo. Soube quando cheguei de Aida, no Japão, no aeroporto. Morreu aquele menino, o Denis, me disse o motorista do amigo. Que Denis?, perguntei, O da Portuguesa, ele respondeu, e eu quase morri junto, e na Marginal passamos pelo ginásio de fachada amarela onde estava o corpo, meu Canindé, nosso campo, seu palco, templo universal. Chorei em silêncio para você não perceber, menino. Tu gostava mesmo era de fazer a gente rir.

20 anos, guri. Aquele gol contra a Inter de Limeira segue gravado na alma, não na retina, que o tempo apaga as imagens. A alma, não. Do outro lado do campo, levantei-me e bati palmas como se aplaudisse uma peça de Mozart executada por ele próprio. Ali o futebol poderia acabar, fechar suas portas e agradecer.

Dener, Dener. Fizeste o Gol Fundamental e comemoraste como sempre, gritando e enlouquecendo sua pequena plateia, seus seguidores, seus protetores. A camiseta sempre maior que os braços finos, o número quase escondido dentro do calção, a magreza, a beleza, nosso maior orgulho, nossa mais preciosa pedra.

Dener, Dener, somos muito gratos a você, guri.

34 comentários

  1. Eduardo disse:

    Vi os dois gols épicos do Dener ao vivo: contra a Inter e contra o Santos. Aliás, foi a única vez que escalei o alambrado do Canindé e fiquei rouco de tanto gritar. Gênio.

  2. Alemão disse:

    Esse era o maior craque que apareceu, craque demais, mas não tinha cabeça!! Era para ser um dos melhores de todos os tempos!! Fiquei muito triste, com sua morte, pois meu pai, português, torcia muito por este muleke e eu tb!!!! Jogava muito fácil!! botava Neymar no bolso!!

  3. Mauricio Camargo disse:

    Era melhor que o Neymar.

  4. Mathias Aguiar disse:

    Eu queria saber pra que serve aqueles números da quantidade de combustível, pra nada acho, vão sentar o pé sem medo nenhum, fora isso foi uma monotonia, duro não dormir, ainda mais pelo horário.

  5. jivan disse:

    …”meu Canindé, nosso campo, seu palco, templo universal. ” FG

  6. Eduardo Britto disse:

    O Estadão deste Domingo dedica uma página inteira à situação da família, fala de como estão os três filhos hoje, do que falta receber do Vasco, etc. Vale a pena ler.

  7. Carlos disse:

    sensacional como sempre…e uma certeza diante das coisas atualmente…o verdadeiro futebol, ilustrado por esse gênio da bola e por torcedores assim acabou, não existe mais….

  8. Andre disse:

    Eu lembro que assistia o cartão verde nessa época e o Armando Nogueira chorava na mesa, Denner era um craque, melhor, mas muito melhor que qualquer zé ruela que se acha craque nos dias de hoje, ele e Sinval arrebentaram numa copa São Paulo de futebol Junior e ele mostrou todo seu talento nos poucos anos que atuou como profissional.

    Uma pena ele ter sido levado tão cedo.

  9. Pedro disse:

    Sempre me lembro daquele jogo contra o Santos em 1993. Jogaço, 4×2. Era um sábado, eu assistindo pela Bandeirantes, narração do Silvio Luiz: “No meio da caneta do Índio! Partiu Dener pra cima da casa do Santos, olho no lance…”

    http://www.youtube.com/watch?v=LNop9uoDU94

  10. Paulo Pinto disse:

    Poético post. Perda irreparável.

  11. jo lima disse:

    E pra piorar tudo, houve uma disputa entre vasco e lusa pra ver quem tinha que pagar a indenização da família. Não sei em que pé ficou essa história.

    Não me lembro quem disse, na época, que não era pro Denner estar ali no Rio; ele tinha é que estar com a seleção brasileira que estava fazendo uma excursão pela Europa.

    Alguém que morre jovem deixa a terrível pergunta pros quem ficam: “O que ele poderia ter sido, até onde teria chegado?” Digo isso na condição de quem perdeu o irmão caçula com 22 anos por causa duma doença.

    Que Denner esteja em paz, esteja onde estiver.

  12. André Pessoa disse:

    Flávio, minha memória não é muito boa. Que eu me lembre, foi o Dener que disse a frase “às vezes um drible é mais bonito que um gol”. Eu queria muito que tivesse sido ele mesmo, pois essa frase é tão cheia de poesia e verdade que emociona.

    Eu sou torcedor do Vasco da Gama. Você lembrou do gol no Inter de Limeira, mas o gol mais lembrado do Dener é o que ele fez no Santos, driblando metade do time. Pois bem, na final da Taça Guanabara de 1994, contra o Fluminense, ele fez um lance idêntico a esse não uma, mas DUAS vezes. Ele só não é lembrado por esses lances porque em nenhum deles a bola entrou no gol.

    Então tudo bem. Ele é lembrado de diversas maneiras por todo mundo, e por mim é lembrado por dois lances maravilhosos que no final se tornaram apenas dribles, já que não viraram gols. Justo. Os dribles do Dener são mais bonitos que a grande maioria dos gols.

  13. Eduardo disse:

    Sou corintiano, mas como era bom vê-lo jogar. Vê-lo foi privilégio.
    Jamais me esquecerei do gol contra o Santos, ao lado do meu pai, que disse: é gol de Pelé, para muito, mas muito poucos.
    Tive um colega de sala, na 8ª série, que dizia: o Senna era demais, mas o que não perdemos com o Dener.
    Corintiano, Fabrício me fez jamais esquecer essa melancolia do que poderia ter sido.
    Jamais houve outro Dener.

  14. Bob Nogueira disse:

    Esse uniforme era lindo! tive uma camisa dessa e usava direto nos jogos de futebol da escola. O meu tinha o patrocino da Ticket.

    Vi esse cara jogar na Copa São Paulo de juniores em 1991.

    Saudades.

  15. Jeff disse:

    Porra, é morte de um, aniversário de morte de outro…tá foda este feriado…

  16. Marcelo disse:

    Amigo Flavio, feliz páscoa à você!
    Estive neste jogo porém pelo lado da Inter de Limeira…
    A vantagem é que tive o privilégio de ver o gol de frente, vendo este lance histórico…
    Para sempre Dener!

  17. Marcos Yamada disse:

    Difícil o exercício de se imaginar o que poderia ter sido. Achava que seria ele a devolver o orgulho à então seleção triste-campeã do mundo.
    FG, você estava lá no estádio no antológico gol contra a Inter de Limeira?
    Esse e aquele contra o Santos são exemplares daquilo que mais belo vi no futebol.

  18. Dener S Rodrigues disse:

    Devo meu nome a esse guri encardido que jogava uma bola doida… meu pai assistindo um jogo da portuguesa com minha mãe; acharam o nome bonito, e já era.

    Uma pena que uma operação errada num cinto de segurança/inclinação de banco ceifou a vida dessa jovem promessa, uma pena.

  19. LINCOLN FALCAO disse:

    foi jogar no meu vasco e andava pela corda bamba se firmando em um time grande com bob dinamite ao lado..fez um jogaço na argentina pelo vasco e foi aplaudido de pé pelos hermanos….um fora de serie, daqueles que aparecem de 10 em 10 anos.. mas quis o destino que morresse em um acidente idiota dormindo no banco do carona de um carro zerinho importado branco na lagoa rodrigo de freitas,,,sua familia penou e se nao me engano ainda pena para receber uma indenizaçao que o vasco tem que pagar porque nao fez o seguro do garoto prodigio,”dinheiro de pinga” se comparado ao que o clube paga de salario para jogadores mediocres e pernas de pau que fazem 3 gols por temporada e que envergonham o time na segunda divisao…mas o futebol assim como tudo no brasil é assim: 20 anos e nada da justiça bater o martelo e decidir que o clube foi negligente, burro e que terá que arcar com a familia que dependia do moleque com bigode detrocador de onibus…
    obs: o gol contra a inter de limeira foi antologico, mas que o moleque deu um tabefe na cara do volante adversario fazendo falta , ahh ele deu….

  20. Luis Felipe disse:

    Sombria coincidência. Há 20 anos morria o melhor jogador em atividade no Brasil. Dener era jogador do Vasco, mas dizia-se que sua transferência para a Europa já estava consumada. Lembro que o clube alemão Stuttgart teria sido o destino de Dener na Europa. Era nome certo para Copa nos EUA. Fez a alegria dos torcedores da Lusa, do Grêmio e do Vasco. Mas havia um acidente no meio do caminho e no meio do caminho havia um acidente. Uma tragédia tipicamente brasileira, essa de acidentes em rodovias, ruas, ruelas, atalhos e avenidas tupiniquins. Morrem às pencas milhares de pessoas no Brasil, vitimas do trânsito. Dener foi estrangulado pelo cinto de segurança, enquanto dormia na carona de um Mitsubishi Eclipse, que era seu. Morreu na hora, dizem. Mas não morreu e não morrerá jamais o fascínio que Dener despertou em todo apaixonado por futebol. Grande, grandioso, grandíssimo. Esse foi Dener.

  21. Nilton disse:

    Belíssimo texto Flávio.
    Lembro de ter ouvido a notícia no Jornal da Manhã da JP e, que ao comentar com um amigo na estação Pinheiros ele não acreditou.
    20 anos.

  22. Thiago Sabino disse:

    Flavio

    Esse gol que citastes, eu acho tão foda quanto aquele que ele fez contra o Santos, à tarde, naquele gol onde a “Leões” eternamente deixa sua faixa de cabeça pra baixo (ou ponta-cabeça).

    Uma pena, era um cara que tinha uma pitada de bad boy, mas era exatamente isso que você falou: era só um guri.

    Talvez parte do carisma da Lusa resida nessas parábolas…. um potencial monstro, assustador, jogador de Copa mesmo..

    Mas lá foi o destino, passou sua régua, e transformou a esperança interminável, em mais dias a esperar um novo Godot….

    Foda.

  23. Alex disse:

    a morte dele causou uma comoção enorme. Roberto Dinamite estava em prantos ao ser entrevistado pelo repórter da tv globo. Não me lembro bem se Dener tinha problemas extra-campo ou se era muito indisciplinado, não me lembro se estava cotado para a copa de 94 (se não me engano, em 92 e 93 não teve o mesmo destaque de 1991) mas certamente teria potencial (e idade) para jogar uma copa, se não a de 94, poderia ser a de 98.

  24. Rafael disse:

    a história do Dener me lembra a do Buba em um conto do Bolaño

  25. perna quebrada disse:

    O Dener era foda. Não via a hora de ele sair da Portuguesa e ganhar o mundo. Sou sãopaulino e nunca imaginei o Dener vestindo outro uniforme em SP que não o da Portuguesa (apesar de eu querer muito ele no SPFC). Ele era um cometa. E como todo bom cometa não deixa rastro. Ele era foda e hoje deveria estar passando o bastão pro Neymar,

    Mas sinceramente…. O Neymar não merece.

    O Dener foi muito, mas muito melhor.

  26. Paulo disse:

    Triste coincidência, mas outro grande ídolo e jogadorzaço do seu time, o Enéas, também faleceu em função de um acidente de carro.

  27. Apoio a Lusa é pra ta na série A

    apraço futuro amigo

  28. Chupi Alonso! disse:

    É isso aí.

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