CACÁ E A CBA | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
MENU

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016 - 18:55Stock Car

CACÁ E A CBA

cacaprocesso

SÃO PAULO (é bom, mesmo) – A esta altura, todos devem estar por dentro do escândalo revelado hoje pela “Folha de S.Paulo” sobre as conversas por WhatsApp entre comissários da CBA tendo Cacá Bueno como personagem central.

Num resumo bem resumido, o auxiliar de comissário Paulo Ygor Dias e o ex-chefe de comissários Clóvis Matsumoto fazem chacota com o piloto, que na corrida de Ribeirão Preto, em abril do ano passado, chamou os dirigentes da entidade de “um bando de imbecis” por conta de uma confusão na bandeirada. Com razão.

E, sem razão, o STJD da CBA suspendeu o piloto por uma corrida, comprometendo sua luta pelo título.

Os envolvidos disseram que a troca de mensagens foi uma “molecagem” e a CBA se defendeu dizendo que nesse nível, de comissários esportivos, não há como alterar resultados de corridas, premeditar punições, ou coisa que o valha. Que os regulamentos são “quase uma ciência exata”, e que se as punições são pautadas por alguma subjetividade no âmbito esportivo, nas decisões técnicas “não há dúvidas” — palavras de Nestor Valduga, diretor de competições da entidade e presidente do CTDN (Conselho Técnico Desportivo Nacional). A Vicar, organizadora da Stock Car, diz que não tem ingerência nenhuma no cumprimento dos regulamentos, que ficam por conta da autoridade esportiva em questão, a CBA.

Os dois comissários da conversa pelo WhatsApp foram afastados para que possa ser conduzida uma investigação — que na opinião deste que vos bloga não vai dar em nada, porque jamais serão mudados os resultados de corridas passadas.

Cacá tem razão de reclamar, porém. No mínimo, as conversas mostram uma predisposição de autoridades esportivas contra ele. É difícil afirmar que essa predisposição tenha tirado títulos do piloto no passado por conta de punições contestadas na época — o poder dos comissários é limitado, embora sejam eles os responsáveis pelas “denúncias” de infrações à direção de prova. Esta, de posse da uma denúncia de irregularidade apontada pelos comissários, leva a cabo as investigações que determinam eventuais punições.

Mas Matsumoto diz em determinado momento que “Cacá foi 3 vezes vive pq eu não estava a fim de deixar ele ser campeão! Kkk”, rindo no final. E Ygor responde que “E tbm não faz muito que ele não foi campeão por uns pontinhos que tiramos dele…”. Bueno foi vice em 2003, 2004 e 2005. Houve pelo menos uma desclassificação polêmica nesse período, em 2004, em Curitiba. Ele não foi o único punido, porém. Em 2010, Cacá também foi vice depois de uma desclassificação em Campo Grande — igualmente outros pilotos foram punidos. No ano passado, houve a já mencionada suspensão por uma corrida e mais um vice.

Há um padrão? Talvez, porque outros pilotos também foram vítimas de punições quase sempre contestadas. Talvez seja só bravata. Talvez seja só molecagem. Mas, na boa, automobilismo profissional não é lugar para bravatas e/ou molecagens. E nisso, Cacá, de novo, está coberto de razão ao colocar sob suspeita todas as decisões que o prejudicaram nos últimos anos. Ele é o melhor piloto da categoria faz muito tempo. Vive brigando na frente. Quando não ganha, bate na trave – são cinco títulos e cinco vices nos últimos 13 anos, um currículo admirável. Num mundo melindroso como o do automobilismo, gente assim, que alia talento e profissionalismo a uma língua nervosa que não poupa ninguém, coleciona desafetos.

Rodrigo Mattar chama da CBA de “Casa da Mãe Joana”. Concordo. E se é verdade que essas denúncias não vão mudar resultados passados, não é menos verdade que a comunidade automobilística espera que, pelo menos, esse tratamento leviano e irresponsável das coisas do esporte  por parte de quem deveria cuidar dele com zelo e seriedade seja extinto imediatamente.

Agora, um pequeno parêntese.

Me surpreendi ao ver a chamada da reportagem que detonou o escândalo na Primeira Página da “Folha”, assinada pela jornalista Paula Cesarino Costa. Automobilismo deixou de ser assunto para o jornal faz tempo. E Paula não cobre o assunto. É uma excelente jornalista, com quem trabalhei durante muitos anos e que está na “Folha” há décadas. Já foi secretária de Redação e não atua como repórter faz tempo — chefia, com muita competência, a sucursal carioca do jornal e de vez em quando assina a coluna “Rio” na página 2, que tem como titulares Carlos Heitor Cony e Ruy Castro.

A reportagem é impecável. Ouve todos os lados e é precisa em datas e fatos — OK, tem um nome errado de piloto, mas Átila Abreu saberá perdoar. Material típico da “escola Folha” criada nos anos 80 da qual eu e ela, entre muitos outros, somos filhotes. Mas, conhecendo o jornal, é tema que só ganhou o destaque que ganhou por ter sido levantado por alguém com o peso que a Paula tem na Barão de Limeira. Há um lado bom e outro ruim, nisso. O bom é ver alguém do porte da Paula, com vasta história na “Folha”, mergulhar nos seus tempos de reportagem e tratar de automobilismo, que está longe de ser sua especialidade e mais ainda de ser prioridade do jornal. O ruim é que dificilmente o tema ganharia a visibilidade que ganhou se as denúncias tivessem chegado a alguém menos estrelado na Redação.

Seja lá quem passou as informações para o jornal, portanto, passou para a pessoa certa. Assim surgem os furos. Assim é o jornalismo.

33 comentários

  1. Eduardo disse:

    Olá Flavio.
    Gostaria de dizer que, não sou fã e muito menos que gosto do Cacá Bueno. Mas desde de que o mesmo foi punido eu achei aquilo uma bela sacanagem.
    A stock car para mim é uma categoria de quinta, sem identidade própria, quer imitar a NASCAR mas tenta seguir padrões europeus. Uma categoria que se diz ser a principal do Brasil, tinha que ter montadoras por trás pelo menos vinte corridas anuais e maior duração de tempo de prova, por exemplo 300km de Interlagos.
    E quanto ao Cacá Bueno, aconselho a ele que vá tentar andar numa categoria de calibre mundial, vá tentar andar na Nascar, se ele é tido como um dos melhores pilotos de turismo pode se dar bem lá ,mas lá não tem mimi e punições porque “um me fechou”, “o outro não gosta de mim”, lá é automobilismo puro e muuuito sério .
    Um abraço a todos.

  2. Chupez Alonso disse:

    Tão ou até mais ridículo do que isso é ver o Paulo Gomes, ex-piloto campeão da Stock, pai do atual “campeão”, e que trabalha na própria CBA, não achar nada demais nas mensagens dos comissários.

    Está na cara que o título de 2015 foi manipulado. Cacá foi punido por reclamar de um erro absurdo ocorrido contra ele, e foi suspenso de uma rodada dupla que teve como vencedor o Marcos Gomes. Tivesse vergonha devolveria o troféu.

    Alonso está fazendo história na Stock.

  3. Joao Reis disse:

    O que acho triste é que muitos ficam contra o Cacá só por ele ser filho do Galvão. Não são capazes de separar o fato de não gostar do narrador da Globo com as denúncias contra os comissários.

  4. TJ disse:

    Meu caro Fox Golf,

    Existe lugar onde não existam estas merdas?

  5. Marcos Aldred Ramacciotti disse:

    Após ler o comentário de todos, o que os pilotos podem e devem fazer é se unirem e caso não tenha nenhuma mudança que haja uma grande boicote.
    Se os melhores pilotos caírem fora da Stock ela morre de vez, a própria Globo já não passa mais as corridas ao vivo.

  6. sandro disse:

    Se bem me lembro o Cacá entrou na sala de controle totalmente “descontrolado”, foi punido por isso e acabou se descontrolando nos pontos. Se existe algo OK vamos achar que sim, mas naquela prova ninguém pode fazer o que ele fez.

    • Pastor Turando disse:

      Ninguém pode fazer o que a CBA fez… Colocar uma modelo que nunca viu um carro de corrida na vida, para dar a bandeirada, e ele não dar a bandeirada para o vencedor. Pior, com o segundo colocado tentando ultrapassar, na pseudo “última volta”.

  7. André disse:

    Automobilismo brasileiro está na UTI, respirando com dificuldade, faz muito tempo…

    Questão de tempo para dar o ultimo suspiro…

  8. Brabham-5 disse:

    Que vergonha.
    Num ambiente dito “muito profissional”, não deveria haver espaço para “molecagem”.
    Exceto é claro, se você estiver no Brasil.
    Mediocridade.

  9. Diogo Terra disse:

    Típico caso de síndrome de pequena autoridade, esse flagelo nacional.

  10. Jornalista Clássico disse:

    A matéria é tecnicamente correta. E aborda tema relevante.

    Mas a essência da matéria é tola. Foram só umas bobagens ditas por uns idiotas no Whatsapp. Nós jornalistas nos encantamos com esse tipo de coisa porque enxergamos uma revelação, uma espécie de grampo. Como se pudessemos ouvir, por exemplo, o que o Balestre dizia enquanto deliberava contra Senna. Não é assim.

    O que esses caras da Stock disseram no celular, em tom de bravata, não é necessariamente relacionado ao que fizeram na prática. Não invalida suas decisões públicas. Seria preciso investigar, caso a caso, o que essa turma fez, e ver se há indícios ou não, caso a caso, de erro.

    Quero deixar claro que não estou defendendo nenhum deles. E quero deixar claro, também, que a reportagem citada nada tem de excepcional. É correta, apenas. Como deve ser.

    • Jornalista Clássico disse:

      Completando. A reportagem é correta, como deve ser – mas quase todas as demais não são. Daí a vontade de aplaudir um tipo de texto que deveria ser (e, até coisa de dez anos atrás, era) mera e honrosa regra.

  11. Daniel Baron disse:

    Aposto uma perna que o Cacá se emputeceu de vez e esse é o último ano dele na stock. Tem cacife e talento pra correr numa Nascar ou DTM da vida. No mais, Galvão já se pronunciou no Instagram que vai brigar forte nos tribunais, acho que não vai virar pizza isso, não.

  12. Robertom disse:

    Não achei a reportagem tão impecável assim.
    Como a reportagem teve acesso às mensagens?
    Quando, como e porque surgiram as denúncias?
    O Cacá é um puta piloto, mas é bocudo, e isso se torna muito incômodo para o Sr. Clayton , que aliás deveria estar em CANA, devido as absurdas irregularidades com as despesas jurídicas da CBA.

  13. Diego - Floripa/SC disse:

    Sei lá, depois dessa se o cara continuar nessa categoria de quinta é porque gosta de levar ferro. O cara tem capacidade de ir mais longe no turismo mundial.

  14. Alvaro Moreira disse:

    Casa da mãe Joana é o WhatsApp. Parei hoje.

  15. Flavinho, o melhor disso tudo é que essa reportagem escandalosa sai um dia após “Spotlight” ganhar o Oscar de melhor filme do ano.

    Em tempos de caça às bruxas nas redações, demissões e desprestígio da profissão, ver uma matéria como esta fazendo muita gente ficar com o c* na mão, é no mínimo, reconfortante.

  16. tevez disse:

    Bizarro… Irresponsável e digno de investigar fundo, o cara se fode pra arrumar milésimas e sacaneiam desse jeito

  17. smoker disse:

    é velhinho, é melhor ganhar umas aqui que lixar sem ganhar nada lá fora.

    lá fora o trem não é facil assim… entendeu?

  18. perna quebrada disse:

    Os caras da CBA já absolveram os comissários antes de investigar… Não vai dar em nada…

  19. Adriano Santi disse:

    Como você bem diz, provavelmente acaba em pizza, porque a CBA é o que é. Agora, imagina uma situação similar acontecendo na Alemanha com comissários do DTM?

  20. Guga disse:

    Concordo com você Danilo… e não sei como a Red Bull se submete a estas punições. Já deveriam ter largado a Stock. Me parece que falta união entre equipes e pilotos quando ocorrem estas punições arbitrárias também.
    Nos últimos anos não faltaram punições medonhas para diversos pilotos, mas nunca ví alguém defendendo publicamente um “colega” de alguma delas.

  21. Paulo disse:

    FG, o fato da notícia envolver o Cacá Bueno, filho do Galvão Bueno, não seria um motivador neste interesse da Folha em publicar a matéria com tal destaque?

    • Antonio Prado disse:

      Exatamente minha dúvida. Ótima consideração, Paulo. Creio que não estaria na primeira página não fosse Cacá filho de quem é, já que a mesma matéria provavelmente terá grande destaque no Hlobo.

    • sandro disse:

      Óbvio que sim, mas a vida é assim mesmo, se um desconhecido bate o carro será mais um, agora, se um artista bate o carro sai em todos os jornais, isso é completamente normal, ainda mais na Folha.

  22. Luiz Freire disse:

    uma puta denuncia de sacanagem e você ´preocupado com o carteiro?!
    você não tem jeito mesmo!!!
    obs (também não gosto do cacá, mas porra!!)

  23. Danilo disse:

    Não sei como o Cacá Bueno e outros pilotos brasileiros ainda perdem tempo nessa merda de país numa organização que como bem dito nesse texto,é uma casa da mãe Joana.Já era pra eles terem saído desse lixo há muito tempo.Poderiam fazer como o João Paulo de Oliveira por exemplo,que é ídolo no Japão ou o Augusto Farfus.Pronto falei.

    • Tito Pereira disse:

      Concordo. Um piloto do calibre so Cacá Bueno não deveria perder mais tempo numa categoria como a Stock Car. Não pela categoria mas pelos que a gerenciam.
      A questão é que o cara faz o que gosta e por causa da falta de notoriedade e investimentos no esporte, por parte das empresas, muitas vezes é preciso colocar dinheiro do próprio bolso, pra correr fora.

      • Diego disse:

        Neste caso não é quem gerencia a categoria… a promotora não tem ingerência sobre o regulamento técnico, apenas o esportivo definindo a fórmula de disputa, a ser homologada pela CBA… Cacá e cia não saem do Brasil porque ganham bem aqui, tem retorno satisfatório, mas essa palhaçada só fazem com que os pilotos percam o tesão pela coisa, e patrocinadores fujam do evento. A promotora deve sim pronunciar-se e cobrar providências, pois foi em seu evento, se não fizer isto, aí consente com o erro…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>