A OBRA DE LOLÔ | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
MENU

quinta-feira, 18 de agosto de 2016 - 10:02Autódromos

A OBRA DE LOLÔ

6KAh6Y77

SÃO PAULO (tá difícil) – Linda a matéria da Evelyn Guimarães com Ayrton “Lolô” Cornelsen, projetista do autódromo de Jacarepaguá que, desde o dia 5, se tornou o centro do mundo do esporte. Sem pista, sem carros. Mas, sim, como Parque Olímpico da Rio 2016.

O circuito, que teve um oval incorporado nos anos 90 e sediou provas de F-1, Indy e MotoGP — são pouquíssimos os que tiveram essa honra, e gostaria que vocês fizessem a lista, para ver se estão afiados –, foi mutilado para os Jogos Pan-americanos de 2007 e definitivamente assassinado para a Olimpíada.

Falaram, quando decidiu-se pelo uso da área para a construção de arenas, piscinas e quadras, que uma nova pista seria feita em Deodoro. Não será. O automobilismo acabou no Rio. Ninguém vai construir um autódromo numa cidade que cresceu desesperadamente para o oeste e cujos terrenos, todos enormes, passaram a valer muito. Deodoro não é um lugar legal. O Rio é meio apertado. Não tem demanda por automobilismo. Esqueçam. Ali, acabou.

E, então, o que fazemos? Choramos, nos descabelamos?

Desde o início, fui contra a destruição de Jacarepaguá. Achava que havia espaço suficiente na Barra para que instalações olímpicas fossem erguidas sem ter de acabar com a pista. De fato havia, mas convenhamos: Jacarepaguá era bem mais apropriado: uma área já urbanizada, e aquele monstrengo subutilizado. É fato. O autódromo já não tinha mais a vitalidade que teve nos anos 80 e 90. Como o automobilismo, aliás. Alguém é capaz de negar que é um esporte em crise?

Acho que não. Por isso, hoje, alguns anos depois de consumada a morte do autódromo, e depois de conhecer o Parque Olímpico nas últimas semanas cobrindo os Jogos, tendo a acreditar que o fim do circuito era inevitável. Se não fosse a Olimpíada, seria outra coisa. Não sei, sinceramente, se manter um autódromo num país que tem um automobilismo tão frágil é um bom negócio. Não tem quem pague a conta.

O que escrevo agora depõe contra opiniões que já sustentei e, pior, contra meu ganha-pão. Mas é preciso reconhecer que os tempos mudaram. Ninguém fez nada, nos anos finais de Jacarepaguá, para que aquela pista se sustentasse. O carioca não tem um interesse especial por corridas, e aquele momento dourado de Senna e Piquet na Fórmula 1 já passou faz muito tempo. O mesmo pode ser dito da Indy, que viveu um “boom” na década de 90, mas murchou até desaparecer – o Brasil hoje é indiferente à categoria.

Há uma tendência mundial pela redução da importância do esporte a motor, essa é a verdade. Quando se olha para fora, dá para contar nos dedos os autódromos permanentes construídos nos últimos anos. Sochi? Faz parte de um complexo olímpico de inverno e só foi erguido porque Putin manda e desmanda na Rússia sem perguntar muito quando resolve fazer alguma coisa. Abu Dhabi? É uma ilha da fantasia. Austin? Os caras estão suando sangue para fazer aquilo virar. Bahrein e China? São coisas de governos tão autoritários quanto o russo.

O que tem pingado aqui e ali é circuito de rua, como os de Cingapura e Baku. Iniciativas recentes como as pistas da Turquia, Índia e Coreia do Sul, nasceram mortas. O que foi feito desses autódromos? Nada. Elefantes brancos que receberam, juntos, apenas 14 GPs — sete na Turquia, quatro na Coreia, três na Índia. Quem ficou com o prejuízo? Bernie, certamente, não.

Assim, a morte de Jacarepaguá, deixando a paixão de lado, era apenas uma questão de tempo. Falando de Brasil, Curitiba sobreviveu porque o momento não é de investir em empreendimentos imobiliários nababescos. O ímpeto refreou. Brasília está abandonada. Tem pista no Sul correndo risco, como Santa Cruz. O mesmo vale para o Velopark.

Não sei direito onde vamos parar. Curvelo é uma exceção das exceções, e louvo a coragem de quem está investindo ali. Goiânia foi reformulada e ficou muito bacana. Velo Città é uma pista particular, não tem sequer autorização para receber público. Interlagos passa por uma reforma muito ampla, mas a obra é totalmente vinculada à F-1. A existência do autódromo, suspeito, depende do GP do Brasil. Não fossem as exigências da FIA e da FOM, receio que a pista ficaria do jeito que estava, sem grandes atenções do poder público. Até morrer de inanição.

O Parque Olímpico da Barra — já não se usa o nome original, Jacarepaguá — é bonito. Aparentemente, há planos para cada uma das arenas ali construídas e as coisas não serão abandonadas. Certamente terá um uso mais intenso do que teria o autódromo, se não tivesse sido destruído. Como apaixonado por corridas, olho para o fim de Jacarepaguá com tristeza e melancolia. Já tive raiva do que fizeram ali. Hoje, acho que só restou mesmo saudade. Caminhando pelas alamedas do complexo esportivo, vendo de perto o que brotou ali, ginásios, piscinas, estádios, observando a alegria das pessoas e um quase total desconhecimento da maioria de que naquele lugar, um dia, correram carros e motos, a sensação que tenho é que ninguém deu muita bola para o fim do autódromo.

Pena que não sobrou nada, rigorosamente nada, para lembrar da pista. Podiam tem mantido um pedacinho dos boxes. A torre cilíndrica. Alguma coisinha, um memorial, sei lá. Jacarepaguá foi muito importante. Com o passar do tempo, foi deixando de ser. É duro. Mas é a verdade.

78 comentários

  1. Eduardo disse:

    FG e amigos, minhas memórias são mais já de Interlagos, mas me lembro bem das imagens do calor do Rio em meio ao início da temporada de F1 nos anos 80, além das surras que tomava da pista em “Super Monaco GP”…
    Para mim, é como aquele lugar onde você foi feliz com uma namorada, uma paquera: depois de alguns anos, casado, é bom não voltar mais, pois dá a sensação melancólica do que poderia ter sido.
    Jamais entenderei (ou gostarei da) a sanha da granda por, atualmente, mais destruir do que erguer coisas belas, assim como nunca compreenderei por que é preciso colocar algo no chão para refazer a história, apagando-a.
    Sempre me lembrarei do autódromo ao passar por Jacarepaguá, assim como sempre nos lembramos daquela pracinha, daquele cinema onde fomos felizes na tenra idade.
    Enfim, vida que segue.

  2. Mello disse:

    Também achei uma desgraça para a cidade, o fim do autódromo.
    Creio que poderiam ter colocado pelo menos uma placa na entrada do parque, informando quantas vitórias Alain Prost teve ali e que a última vitória de Michael Doohan foi ali. Ou um pequeno memorial com imagens e documentos da época.

  3. Felipe Cardoso disse:

    Excelente sua atitude e exemplo, pois é aceitação e complacência que os que destroem, não só o esporte, mas tudo nesse país desejam… Que seja apenas mais um funcionário de cabeça baixa e sem reclamar…

    Assim caminha a humanidade;

    Só para constar, as instalações darão lugar a condomínios das construtoras muito em breve… E, esses mesmos prédios irão afundar na lagoa… Assim como a Vila do Pan.

    Em tempo: Eu vi JPA lotado em tempos de Indy e Moto GP, mas também o vi encher em seus últimos dias de Stock, Porsche, Truck e Mini… Mas, carioca não gosta de automobilismo, né?…

    E, queria ver se fosse o estádio da preciosa Portuguesa que tivesse sido destruído para dar lugar a um (in)útil Parque Olimpico… Acho que você não teria a mesma opinião.

  4. marcos andré rj disse:

    Realmente o automobilismo no RJ foi assassinado por inanição !

    O rio merece um autódromo, um autódromo pode sim ser multifuncional, basta ter boa vontade, basta fazer sem roubar, se parcerias forem bem feitas com certeza o espaço não fica ocioso…

    O texto como sempre , muito bom , mesmo me deixando triste… com a dureza da realidade.

    Vamos aguardar o legado olímpico, vamos ver se realmente o povão vai pode desfrutar ou ter algum beneficio de modo geral.
    Tomara que as instalações móveis não se percam pelo caminho, como se perderam as vigas da perimetral que eram gigantes e nunca mias foram encontradas…. que o espaço não se torne um grande condomínio fechado, beneficiando apenas as pessoas que poderão comprar um imóvel alí.

  5. Thiago Sabino disse:

    Então….

    Ler de um jornalista especializado em automobilismo, que o fim de um autódromo foi algo , até certo ponto, bom, é pra realmente passar a régua , e repensar tudo que envolve colocar engenhos autopropulsados de quatro rodas numa pista.

    Acaba que, dessa forma, perde-se total sentido. Em que pese a luta incansável do André e seu insólito SOS Jacarepaguá, sabíamos que era um Davi contra Golias. A questão da discussão do automobilismo no Brasil é bem mais profunda, e isso aí acaba se tornando questão interna, intra-muros. Coisa pra gente , nós, que gostamos de corridas, e não é de hoje.

    Como nos tornamos um gueto, ao ponto de, em 25 anos virar rodapé de jornal – ou, atualizado, rodapé de portal – nota-se a irrelevância para onde o automobilismo caminha. Concorrer com munição pesada, do quilate de gângsters como Nuzman, Maia, e Edu Paes, e até mesmo fogo amigo de um Clayton , porque não , virou tarefa inglória. Enxugar gelo.

    Até porque, a tática dessa galera , é vencer pelo cansaço. Mesmo tendo eles , o facão na mão, pra encerrar a contenda a qualquer hora.

    Mas , numa tática maquiavélica, esticaram, estenderam, procrastinaram…

    Numa boa? Dava pra fazer como sochi. E não fizeram, porque sabiam da irrelevância a qual o automobilismo como um todo se encontra. Não me recordo de, algum piloto ter comprado essa briga publicamente, se desgastar, dar a cara pra porrada…. Não… Não houve.

    Então, pra resumir: quando um Flavio Gomes, que tem no seu ganha pão , justamente a matéria prima que é discutida aqui, e aceita de até certa forma resignada , o fim de um autódromo histórico, é porque realmente, já foi o fim da picada faz tempo.

    Deodoro foi o argumento da malandragem, com conivência criminosa da CBA.

    Na qual muita gente caiu que nem um pato. Menos nós.

    Aguardaremos, pois, o fim dos outros.

  6. Gustavo disse:

    Flavio
    Um dos pontos que você abordou em seu texto eu pude comprovar agora quando estive nas Olimpíadas. Quando mencionei para meus amigos que onde fomos no parque olímpico era o autódromo de Jacarepaguá, todos, sem exceção, sabiam que lá era o autódromo.
    E ficaram muito boas as instalações. Tomara que sejam utilizadas pela população, e que de lá, saiam muitos atletas.

  7. Zeca disse:

    O automobilismo no rio começou a acabar quando aterraram o kartódromo para construção do oval com a complacência dos pilotos e da federação e confederação.
    O kart é o berço do automobilismo

  8. O Seu Ayrton “Lolô” Cornelsen, projetista do finado autódromo de Jacarepaguá é um personagem Anônimo do automobilismo brasileiro que infelizmente nunca será lembrado. Pobre Brasil!

  9. Saima disse:

    Destruiu-se o autódromo pra fazer as Olimpíadas – no mínimo questionáveis e pelas quais pagaremos muito, muito caro por muito, muito tempo. O prejuízo não será, certamente, do COI, do COB, do prefeito que apoia espancador de mulher e nem do presidente mordomo de filme de terror C. A Viúva que se exploda e pague tudo, como sempre.
    Havia muito mais povão feliz e se divertindo em qualquer evento de automobilismo em Jacapareguá ou Tarumã do que houve em qualquer jogo da Copa ou agora. Por incrível que pareça, o automobilismo poderia ser mais democrático que muito esporte, era só ter alguma boa vontade e iniciativa. FG, eu era criança há vinte anos e tinha campeonato de marcas, de cilindrada, disso, daquilo, com 2 ou 3 baterias com um monte de pilotos cada. Passava na manchete, na band. Não dava mesmo pra continuar?
    Aliás, continuaremos sendo insignificantes nos esportes, exceto pelo futebol e pelo vôlei. Mais grana indo pelo ralo pra ficar em décimo-quarto no quadro de medalhas. Foi pontual. Daqui a quatro anos voltaremos a ficar em trigésimo-alguma coisa.
    Não haverá nenhum benefício de fato pra população. Parte dessa, inclusive, que foi ou despejada pra que se construísse as coisas ou que foi excluída na marra pra que inglês não a visse nas ruas gentrificadas, cheias de gente bonita sorrindo com a boca lotada de dentes.
    No fim, foi um evento pros bacanas da zona sul, pros endinheirados que podem viajar e pra Globo. Quem disser que foi pro povo, pra inclusão social, pra inserir o esporte na vida das crianças é um ingênuo ou um salafrário total.
    A partir de amanhã, vem a conta pra gente. A matéria da moça foi animal e o seu texto, FG, o ótimo de sempre. Abraço.

  10. Douglas Borges Oliveira disse:

    Foi, não será mais. Acho que você fala algo parecido.

  11. fernando delucena disse:

    Sem dúvida, podiam ter mantido alguma coisa. Aquela estrutura dos boxes era uma marca muito forte e bonita.

    Automóveis não são mais tão interessantes como no passado, por diversas razões. O pessoal da Formula-E que está sabendo tirar bom proveito disso. Curioso é que as corridas estão voltando para a rua, exatamente como no começo de tudo. Parece um caminho necessário de retorno, a fim de encontrar muita coisa que foi perdida no esporte durante sua história.

  12. Eduardo_SC disse:

    Apesar de ser um saudosista, nada se justifica pelas glórias do passado para se manter aos pedaços. Jacarepaguá virou um descampadão sem sentido depois que foi preterida por Interlagos. Construir um autódromo para essa F1 que está aí e projetado pelo Tilke que tem boa parte de culpa de toda essa situação, melhor deixar do jeito que está.

  13. Mauricio Teixeira disse:

    Com esse tipo de jornalismo não tem automobilismo e nem qq outro esporte que sobreviva. Péssima matéria!

  14. Rafael Rodrigues disse:

    Flavio, estive muitas vezes no Autódromo. Concordo que morreu de inanição. Pena. Como você diz, a conta não fecha.

    Estive também no Parque Olímpico. 4 dias para ser exato. Há pouco estive no Maracanã para a final feminina e estou estupefato. Já visitei inúmeros lugares muito legais. No Brasil e fora dele. O Parque é uma das coisas mais legais que eu já vi. A Olimpíada foi uma experiência que vou guardar para sempre. Ímpar. Se o autódromo morreu para virar o Parque, considero então que foi “reciclado”.

    Frise-se que os Jogos foram obra e mérito de Lula, queiram coxinhas ou não.

    Sobre corridas no Rio, ouso dizer que embora tombado, com algum ajuste o Aterro do Flamengo / Enseada de Botafogo poderia ser o circuito de rua mais belo do planeta. Não seria difícil como fazer um autódromo do zero e não seria custoso, posto que não seria permanente.

    Meus 2 centavos…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>