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quinta-feira, 24 de novembro de 2016 - 19:26Autódromos

AS CASCATAS DA HORA

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SÃO PAULO (ah, o mundo real…) – O futuro secretário de Desestatização e Parcerias da Prefeitura de São Paulo, Wilson Poit, deu uma entrevista hoje à “Folha de S.Paulo”. Falou sobre as privatizações pretendidas pelo prefeito-suéter, cuja lista inclui Interlagos, Pacaembu, Parque Ibirapuera e Anhembi. Poit trabalhou na gestão do atual prefeito, Fernando Haddad.

Como o que nos cabe aqui é Interlagos, segue o trecho em que ele fala do autódromo:

O lugar é uma joia. Levamos o Lollapalooza para lá [na gestão Haddad]. É um evento de 160 mil pessoas e 60% do público é de fora, por isso dorme na cidade por três noites. Podemos alugar o espaço da grama de Interlagos [para show]. Em 2014, após 20 anos, o balanço do autódromo entrou no azul pela primeira vez.

Vamos ouvir as pessoas para fazer o edital. Poderemos ter shopping, grandes restaurantes, museus de automobilismo, hotelaria e eventualmente empreendimentos imobiliários residenciais. A pista será usada alguns dias do ano pela prefeitura.

Muito bem. Às vezes algumas pessoas precisam de um choque de realidade, e creio ser o caso deste moço.

O lugar é uma joia? Bem, se é, por que se livrar dele? O Lollapalooza foi levado para lá pelo atual prefeito. Dá dinheiro para a cidade e para o autódromo. Qual a grande novidade? Ah, “alugar o espaço de grama de Interlagos”. É isso? Bem, que eu saiba, já é feito. O Lollapalooza, até onde se sabe, não acontece no asfalto, nem dentro dos boxes. É ótimo “alugar o espaço da grama”. Melhor ainda se o dinheiro do aluguel ficar na Prefeitura, em vez de ir parar no bolso de algum amiguinho.

Mas vamos em frente. Os demais planos: shopping, grandes restaurantes, MUSEUS de automobilismo (o destaque para o plural é meu), hotéis, empreendimentos residenciais.

Fico me perguntando, quando leio essas coisas, em que mundo essa gente vive. Um shopping dentro do autódromo, é isso? Onde, exatamente? Entre o S do Senna e a antiga Curva do Sol? Na Ferradura? Na área de escape do Laranjinha? Gostaria de lembrar ao douto futuro secretário que a 5,5 km do autódromo fica um shopping curiosamente batizado de Interlagos, que inclui no seu complexo o Shopping Interlar Interlagos, um hipermercado Carrefour, um atacadista Makro, uma loja da Leroy Merlin, um hotel Ibis, uma Cobasi e um prédio do Detran. O complexo recebe 115 mil pessoas por dia. O shopping sozinho (sem contar os outros centros comerciais), inaugurado em 1988, tem 190.000 m² de área construída, 300 lojas, dez salas de cinema, 4,8 mil vagas de estacionamento.

Quem é que vai se interessar em fazer algo parecido a 5 km dali?

Seguimos. Grandes restaurantes. Bem… Claro, qualquer um pode idealizar um “espaço gastronômico” onde bem entender. Mas esbarramos em problema semelhante ao do shopping. Que tipo de “grande restaurante” o futuro secretário-de-suéter imagina? Habib’s? McDonald’s? Maní? Quem é que se deslocaria até Interlagos para comer no Maní/Unidade Zona Sul?

Ah, Habib’s e McDonald’s já tem. Na rua do autódromo.

Sobre os museus de automobilismo, não sei se dou risada, ou choro. OK, se quiserem construir um galpão para que eu possa colocar minha coleção lá dentro, aceito. Vira museu, e nem cobro entrada. Estamos em 2016, e há 25 anos um brasileiro não conquista um título na F-1. Há sete, não vence uma corrida na categoria. O único acervo de carros de corrida de verdade no Brasil está em Passo Fundo e é uma coleção particular que jamais sairá de lá. Quanto custa fazer um museu? Quanto custa formar um acervo? Quantas entradas devem ser vendidas para que o investimento se pague? Afinal, imagino que a ideia de um museu será oferecida ao mercado. “Senhor Banco Santander, que tal bancar um museu de carros em Interlagos? Vai custar 50 milhões para fazer o prédio e mais 10 para juntar uns carros. Se o senhor vender ingressos a 20 reais, com três milhões de visitas o investimento está pago.” Muito atraente.

Três milhões de pessoas dá mais ou menos o público acumulado em 50 GPs do Brasil de Fórmula 1.

Hotéis e empreendimentos residenciais. Bom, tem um negócio chamado barulho, em Interlagos. Barulho de carros de corrida. No autódromo, eles aparecem de vez em quando, esses carros. OK, um hotel pode ter janela anti-ruído. Prédios, também. Só não dá para usar a varanda gourmet de dia. Nem deixar as janelas abertas para arejar. Depois, acho justo perguntar: quem precisa se hospedar num hotel em Interlagos? Quais as grandes atrações da região?

Ah, tem o GP e o Lollapalooza. Verdade. Eventos que duram seis dias — no acumulado de ambos. O ano tem 365. Quanto aos prédios residenciais, um breve lembrete ao futuro secretário-de-suéter: quem quer construir edifícios e ganhar dinheiro vendendo apartamentos deve comprar terrenos e erguer suas obras; como cidadão deste município, não acho legal lotear um espaço público para quem quer que seja. Interlagos não é um loteamento.

Enfim, faço esta, digamos, leitura crítica das declarações do futuro secretário porque acredito que há limites para o embuste. Não se pode sair por aí falando um monte de asneiras sem que alguém conteste — e isso, pelo que vejo, a antiga imprensa já não sabe fazer.

As questões que levanto acima poderiam ter sido colocadas ao futuro secretário-de-suéter por quem o entrevistou. Mas não foram, e também não tenho nada com isso, não sou dono do jornal, nem chefe do repórter. Minha função, atualmente, é dar palpites sobre quase tudo. Principalmente sobre aquilo que conheço.

E eu conheço Interlagos, conheço restaurantes, conheço museus, conheço hotéis e sei onde as pessoas moram. Vamos esperar pelos próximos quatro anos. Guardem a data de hoje: 25 de novembro de 2016. No dia 25 de novembro de 2020, se eu ainda existir, me lembrem de voltar a este post para que possamos conferir quantos restaurantes, museus, hotéis e edifícios residenciais foram construídos na área do autódromo, que é uma joia, pela doce iniciativa privada.

85 comentários

  1. Eduardo disse:

    Pera,

    To confuso. Se Interlagos se paga e quem quer correr lá precisa pagar, então eles vão esperar reaver o dinheiro investido, correto? Isso quer dizer que para assistir as corridas lá custa caro? Quanto custa para ir ver uma corrida lá? Aliás, se o autódromo é público e tem tantos defensores para que continue “do povo”, por que precisa-se pagar para entrar? Será que é do povo mesmo ou só de alguns que preferem ter que lidar com prefeito do que com empresário que realmente precisa manter seu negócio vivo? Eu mesmo moro a 600mts do autódromo há 26 anos e nunca, nunquinha pisei ali dentro. Posso escolher onde a prefeitura investe a minha parte da renda que recebe por meio de impostos? Posso escolher que 0% vá para o autódromo e 100% vá para programas educacionais nas periferias?
    A reforma, essa que ninguém dos milhões de paulistanos que NUNCA foram ao autódromo viu, custou 160 milhões de reais (ou pelo menos anunciou-se que custaria isso). É sério que desses 160 milhões, 100% está sendo bancado pelas corridas que ocorrem em poucos dos 52 finais de semana do ano?
    Eu também já fui defensor do Estado (aquele “do povo”) possuir equipamentos, para que cuide dele conforme “o povo” necessite. E o resultado é esse aí: aeroportos, autódromos, zoológicos, estradas, bancos, petroleiras, tudo caindo aos pedaços. Hoje mais do que nunca nos diferenciamos do primeiro mundo nesses quesitos justamente por tê-los confiado ao “poder público”.
    Eu, pessoalmente, como morador do bairro de interlagos, como benfeitor da região (por conta própria mesmo, porque a prefeitura nada faz por mim), adorarei ver um centro de compras, turístico, que mostre a história do automobilismo brasileiro com a condição de que irá me fascinar (ou não recebe do meu dinheiro), no local. Com certeza visitarei. Quem sabe até passeie por lá aos finais de semana.
    E, como nada disso afetará os parcos eventos automobilísticos que lá ocorrem, nesses dias estarei contente por saber que eles estão ocorrendo e que não estou pagando por nada disso.

  2. Anderson Viana disse:

    Espero que Interlagos não tenha sido tratado com o mesmo desleixo do Anhembi, que infelizmente está à mingua e destruído graças a essas últimas gestões paulistanas.

  3. Paulo F. disse:

    Parabéns Flavio.
    Belo texto.
    E pela paciência com os “iluminados” defensores do ” sistema de Jestão (é assim mesmo) praticado no Tucanistão”

  4. PC Crusca disse:

    O destino de Interlagos é o mesmo do Farol da Barra em Salvador. Muitos Geddéis ganhando dinheiro, usando essa religião “neoliberalismo estado mínimo”. Estado mínimo, só para o interesse coletivo da população. Para os coronéis de sempre, é´ estado máximo. E assim vamos degradando o meio ambiente, a história das cidades, os equipamentos públicos… Tudo em nome do “progresso”. Admiram Londres, Berlim, Paris, mas aplaudem políticos que fazem com as cidades daqui o oposto do que é feito no mundo civilizado…

  5. Sergio Miami disse:

    Privatizar Interlagos hoje em dia é imaginar que a licitação ou pregäo público tenham mais lances que o leilão do Canindé. Imaginem essas lindas torres que seriam erguidas cobrindo toda a visão do autódromo… imaginem ainda se SP perder o GP.. vc vende o empreendimento depois não tem mais corridas… ou se um truck desgovernado adentrar hall adentro… tenham dó… alias Flavio foi voce mesmo que disse que Interlagos é uma cessão, um tipo de comodato.. como se privatisa algo que não é seu?

  6. SAMUEL MIRANDA COLARES disse:

    Parabéns pela análise! O secretário parece ter sido atingido pelo “raio privatizador” que um certo candidato sucesso da Internet espalhou por aí. Tomara que seja só cascata, porque se ele pretende levar a sério suas palavras ele não merece ser secretário…

  7. Allan lira disse:

    Esse cara trabalhou na gestão Haddad endeusada pelo Flávio mas reprovada pela maioria do povo de SP.
    Essas promessas dele são iguais a do Trump 80% ele não faz … só falou besteira e água e todo mundo sabe disso… político e tudo igual seja psdb pt ou qualquer outra merda dessas. No Brasil não existe ideologia política quem veste camisa de Che Guevara jamais iria pra uma guerra so quer dinheiro e assim como quem veste o Suéter apenas os meios são diferentes mas o objetivo e o mesmo.

  8. Eduardo_SC disse:

    Sei lá, depois que o Hermann Tilke cagou com Hockenheim, não fará mais falta. Tem Nurburgring, mas nem com o peso de tantos pilotos campeões tiram a racionalidade dos alemães. Pior despedida mesmo será a do Brasil na F1 caso Nasr não resolva a vida dele

  9. Ron disse:

    O futuro secretário até começou bem com o primeiro parágrafo, mas depois bateu o desânimo.
    Está anotado. Se eu não mandar um lembrete no dia é porque a minha conta de e-mail por algum motivo deixou de existir.

  10. Eduardo Britto disse:

    Só sei que o quase ex-prefeito colocou R$ 160 milhões pra reformar Interlagos, mas não teve a capacidade de colocar metade desse dinheiro para viabilizar o Parque Augusta 100%, deixando-se dobrar pela força do mercado imobiliário (leia-se Cyrela). A última área verde do centro da cidade está em risco!

    Tudo está mudando, ter carros correndo um atrás do outro soltando CO2 já não cabe numa metrópole sem qualidade de vida. Mas precisamos de parques e áreas verdes, com muito lazer e cultura para as crianças e jovens. Parque Augusta 100% já! Pista de Interlagos? Já foi seu tempo…

    • Paulo F. disse:

      Acho que esta equivocado.
      Prefeito sueter vai se dobrar a mercado imobiliário em ambas as situações ( e em mais outras que porventura se apresentem).
      E aqui é um blog para quem gosta de carros correndo um atrás do outro. Portanto: vade reto Satanás!

  11. CArlos H. disse:

    Flavio, caí aqui de paraquedas, não entendo de gestão de autódromos, então pergunto, fazer o que para Interlagos se pagar e gerar algum benefício para a população e não ser somente mais um brinquedo público de gente rica?

    • Flavio Gomes disse:

      Interlagos se paga, é uma praça esportiva, quem corre lá precisa pagar. Há vários equipamentos públicos que têm várias destinações. Nem todo mundo corre ou anda de bicicleta no Ibirapuera. Nem por isso alguém deve defender que se venda o Ibirapuera porque “é um brinquedo público para o povo de Moema fazer exercício”.

  12. claudio disse:

    CHEGA DE CASCATAS ,
    QUEREMOS ALGO QUE PRESTA !!!!!

  13. Ricardo disse:

    Alemanha sem GP em 2017… com o maior Campeão da F-1 de todos os tempos, com um tetra campeão da categoria em ação e com mais um piloto alemão (novo) prestes a levar mais um caneco.

    Pobre Brasil… Brasil Pobre… pobre Interlagos.

    Já disse que o problema não é o Autódromo, é sim a situação econômica vexatória em que o Brasil se encontra. DESTROÇARAM a oitava economia do Mundo.

    Acho que Interlagos deve ser mantido como um bem publico e não ser privatizado. Apenas tenho duvida de onde seria tirado o dinheiro para se manter esse patrimônio em bom estado. É muito fácil quebrar um Pais, basta epenas colocar um cara com uma boa oratória como lider do Pais e deixá-lo fazer um monte de bobagens, sempre cito o exemplo do… HITLER para comprovar que um dos povos mais inteligentes do mundo podem ser engabelados por um picareta com boa lábia… o que não seria possível fazer em um pais de analfabetos como o Brasil????

    Estamos quebrados!!!! O Pais está destroçado… e o pior é que fico vendo gente preocupada com os puloveres ao invés de se preocupar com o prato de comida que anda a faltar na mesa dos Brasileiros.

    Interlagos é um assunto subliminar diante das mazelas brasileiras a que fomos submetidos. Que fique com o setor publico, mas que não se espere muito disso, do jeito que a nossa economia foi destruída não podemos esperar muito dinheiro sendo injetado em Interlagos.

    Volto a dizer, nem a Alemanha (riquissima) conseguiu viabilizar o GP para 2017 (tá certo que lá os caras são caros para caralho) muita hipocrisia da gente acreditar que o Autodromo deva ser mantido no setor publico (quebradérrimo) esperando que o mesmo receba todas as verbas necessárias para as obras de investimento em infraestrutura bem como para o custeio do parque existente.

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