AO MESTRE COM CARINHO | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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terça-feira, 25 de abril de 2017 - 19:35FOX, Gomes

AO MESTRE COM CARINHO

euemellonovolvo

SÃO PAULO (vale tudo, no fim) – Era para ser apenas uma terça-feira em Interlagos, o que é sempre bom. A Fox fez um evento para clientes importantes e ofereceu a eles uma programação chamada “Um dia de piloto”, com o apoio do pessoal da Escola de Pilotagem Roberto Manzini. Claro que todos adoraram. Os convidados tiveram aulas práticas e teóricas, andaram com instrutores, depois deram muitas voltas na histórica pista com um carrinho delicioso, um Volvo de corrida com uns 150 HP, pneus slick, tudo no lugar, uma graça. Tenho certeza que foi inesquecível para todos que participaram.

Aí nos chamaram para o evento. Thiago Alves, eu e Edgard Mello Filho. O trio que faz o “Fox Nitro”, programa semanal de automobilismo da casa.

Almoçamos, conversamos, trocamos impressões, foi ótimo.

Mas para este que vos bloga, foi especial num nível muito acima da média.

Como vocês sabem, sou metido a piloto de vez em quando, com meus carrinhos antigos que tanta alegria me trouxeram nos últimos 15 anos. Imagino que tenho mais ou menos a noção de como guiar um carro de corrida, e numa pista como Interlagos, mais ainda.

Só que hoje quem estava do meu lado era o Edgard.

Conheço o Mello, pessoalmente, desde 1989. Na época eu fazia F-1 para a “Folha” e ele, para a Rádio Bandeirantes. Fomos colegas de viagens por muitos anos, e depois a vida se encarregou de dar a cada um caminhos que, embora semelhantes, não se cruzaram tanto quanto gostaríamos. Um belo dia o Edgard virou administrador do autódromo, depois foi fazer TV, depois voltou ao rádio, nos encontramos em muitas coberturas, mas aquele sujeito, para mim, sempre foi mais do que um ídolo. Sempre foi um exemplo de retidão, picardia, talento, capacidade, atributos que eu jamais alcançaria em grau tão elevado.

Mello, para começo de conversa, foi campeão brasileiro de um monte de coisa. Começou a pilotar guiando um DKW do Crispim, outro mestre com quem divido meus dias atualmente aprendendo a cada palavra que ele diz. Passou por Opala, Maverick, Fiat, tudo que se pode imaginar. Depois virou jornalista, o melhor de todos. Suas narrações do DTM na TV Manchete, por exemplo, são históricas. Aulas. Verdadeiras aulas.

Impossível fugir do clichê, mas quis o destino que no ano passado a Fox contratasse o Edgard para nosso time, e a convivência foi retomada com a ternura de sempre. E hoje o cara estava ao meu lado num carro de corrida.

Primeiro, fui eu dirigindo. Apavorado, sabendo que nunca mais na vida levaria no banco do carona alguém que entendesse tanto do assunto quanto ele. Dei umas quatro ou cinco voltas. Não cometi nenhum erro crasso na primeira, o que foi aliviando a tensão aos poucos. Não olhei para o lado. Tinha medo de ver nos olhos do Egdard qualquer traço de… decepção. Sim, essa é a palavra. Eu apenas não queria decepcionar. Por isso fui de capacete fechado e Hans, para não olhar para o lado.

Descemos do carro e notei que ele sorria. Vai você agora, falei. E pulei para o outro banco.

Então, passei alguns minutos de um êxtase difícil de descrever. Fui saber, bem depois, que fazia 23 anos que ele não dirigia um carro de corrida em Interlagos. Foi só passar WD40, falou. Já desenferrujei.

Ah, Mello… O jeito de trocar as marchas, de segurar o volante, de frear no ponto certo, de encontrar o traçado perfeito, de atacar as curvas, de se irritar com um erro, de fazer o punta-taco, de vestir o automóvel, lamento, mas essas coisas ou o sujeito sabe, ou não sabe.

Eu achava que sabia. Hoje, percebi que o que ainda sei é me encantar. O que já está de bom tamanho.

108 comentários

  1. Garcia disse:

    Belo texto e justa homenagem ao mestre. Valeu, Miguelito.

  2. Daniel disse:

    Lembro dele narrando DTM, era realmente sensacional, lembro que ele tinha um carinho especial quando falava das Alfas 155 rsrs. Muito bom compartilhar essas experiências Flavio. Obrigado!

  3. Helio França disse:

    Espetacular, nao tem preço, poderia ter imagens

  4. Luiz disse:

    Edgar de Melo filho, você é FODASTÍCO.
    A Nascar que já era boa, ficou muito melhor quando é você o comentarista.
    Sou seu fã, monstro sagrado.

  5. Vladimir F Reis disse:

    Feliz pelo Edgard estar na tv, comentando automobilismo, afinal ,é o melhor narrador/comentarista desse esporte. Só está faltando um programa para ele comentar a F1.

  6. Flávio disse:

    Aquela crônica do Edgard quando o Ayrton Sena foi a interlagos e eles deram umas voltas na pista ao contrario. O Edgard instigando e o Sena mandando ver deveria ganhar o Pulitzer. Sensacional

  7. Farid Salim Junior disse:

    Caramba! De repente, leio essa obrade arte, que se rende ao talento e à história desse grande piloto, escrita por outro piloto – que também é fã do personagem citado e homenageado no texto e, fico emocionado!
    Edgard Mello Filho é para o automobilismo, o que foi o Nilton Santos para o futebol. Ou seja, merece a alcunha de “Enciclopédia do automobilismo”!
    Vivo a folhear minha coleção de revistas $ Rodas e Auto Esporte, principalmente dos anos 70 e, fico a relembrar das corridas em que ele tomou parte, muitas vezes como protagonista _ afinal, foi campeão nacional de Divisão 1 Classe C, vencendo pilotos de qualidade ímpar, como Os Irmãos Clemente, Paulo Gomes, Marivaldo Fernandes, entre outros!
    Quero lhe agradecer, Flávio, por nos repassar essas emoções! Valeu! Forte abraço!

  8. Luiz Roberto Sala disse:

    Falar o que ! O cara é sinistro, mestre, bruxo e um “baita bota” da melhor qualidade. Mas o principal é que ele alem de tudo ainda consegue ser amigo, humano e talvez um dos maiores corações que já encontrei. E claro um grande jornalista e o melhor narrador do esporte a motor,seja do que for).
    Flavio meus parabéns pelo texto e por poder ter o privilégio de conviver com o mestre, parece que você esta se tornando um expert em conviver com mestres “Edgar e Miguel Crispim, precisa mais.

  9. lauro kennedy disse:

    Rapaz, é tanto comentário q não vou nem conferir se estou repetindo a pergunta, mas esse “carrrrrrro estilinga” ou não?

  10. Antonio Seabra disse:

    texto maravilhoso, como sempre, experiência de dar agua na boca e inveja !!!!
    já ouvi o Mestre Edgar falando de tudo, até mesmo apresentando programa de aviação !!!! E sempre fazendo (toda) a diferença!!!!
    assistir o cara desfilar todo o seu conhecimento, sensibilidade, criatividade e com a capacidade adicional de criar figuras de linguagem “inenarraveis”, eh um prazer indescritível. Ainda mais lembrando que quem está falando foi um piloto rápido e de sucesso, que eu assisti algumas vezes disputando freadas e ganhando corridas em.cima da nata do automobilismo de competição brasileiro na época de ouro da Dív 1/stock car. Pra quem não viu, na pista o Edgar tinha a mesma verve e a mesma fluência verborragica que ele mostra mas suas transmissões!!!

    me emocionou a frase do filho dele: “o coroa eh sinistro” ! Flavio, voce bem que podia colher essa narrativa das descidas da Anchieta de Saveiro, e mostrar pra nós, né?

    Antonio

  11. Capra disse:

    Grande homenagem ao mestre Edgar. Escutei várias corridas da F1 pelo rádio (fazenda, no meio do nada, no Mato Grosso…). O texto arrepia para quem reconhece a grandeza do Edgar…

  12. João papa disse:

    Te leio todo dia. Quieto. O texto é, normalmente, bom pra caralho.

    Vez ou outra, porém, – tal qual hoje – você me lembra que a nossa língua é linda.

  13. Evandro disse:

    Cara, você não consegue escrever um texto ruim na vida não, só uma vez? =D

    Sensacional!

  14. Vitor Jr disse:

    Muito bom!
    Lembro quando narrava a DTM e se referia ao assovio do câmbio: “Olha o Mercedão! Já ouviram câmbio barítono, Si Be Mol, Ré maior…”
    Achava o máximo e muito descontraído! Rsrsrs

  15. CorredorX disse:

    Simplesmente sensacional!! Edgard é o cara!!

  16. Casali disse:

    Texto fantástico!
    Parabéns!

  17. Edgard Mello Neto disse:

    Obrigado pelo carinho com o Paizão Flavio!! Emocionante!! O coroa realmente é sinistro!! Claro que os tempos são outros…mas…um dia te conto pessoalmente como eram as nossa ” descidas” na Anchieta de madrugada indo pra cada da minha Vó em São Vicente quando muleke!!! AFF…inesquecíveis…com uma Saveiro Vermelha que tínhamos que o motor era uma “USINA” como diz ele!!! Um dia te conto pessoalmente!! Grd abraço!!

    • Zé Maria disse:

      Edgard Mello Neto, seguinte:
      Não é apenas o FG quem idolatra o seu pai, mas sim uma legião de aficcionados por automobilismo, que reconhece na figura dele provavelmente o mais capacitado e qualificado profissional do ramo aqui no Brasil, e um dos maiores do mundo, ok!
      E digo isso pelo conjunto da obra, ontem pelo grande campeão que foi dentro das pistas, andando praticamente de tudo o que tínhamos de disponível por aqui, hoje na área do jornalismo especializado, despejando conhecimento, capacidade, técnica, enfim absolutamente tudo o que se espera de um profissional que se considere como tal, tudo isso temperado com uma certa dose de picardia, malícia, gíria, traquejo, tarimba e outros quetais.
      Dê um grande abraço no seu e no nosso Mestre também, agradecendo-o por tudo que nos proporcionou nesse nosso tempo de convivência, ainda virtual infelizmente, quem sabe um dia eu e outros tenhamos a chance de um encontro real com essa verdadeira lenda viva do esporte à motor.
      Grande abraço.
      Zé Maria

    • Marco Marinho disse:

      Pô Edgard , você é simplesmente sensacional , um mestre , sabedor de tudo que envolve automobilismo , todos os seu comentário e opiniões são precisos e corretos . Tudo que você comenta sobre automobilismo é de uma convicção ímpar e ao mesmo tempo uma paixão enorme por tudo que envolve carro de corrida . Você tem meu respeito e muito !!!!! Grande abraço de mais um de seus milhares de Fãs !!!

      • Marco Marinho disse:

        Desculpe Neto , pensei que o comentário fosse do seu pai , mesmo assim sinta- se orgulhoso por ser filho de um exemplo de pessoa e profissional .

  18. Paulo F. disse:

    Aproveita enquanto o “Sueter” não acaba com o Templo.
    Edgar é referencia. Ponto.

  19. tevez disse:

    Ele consegue transformar a + monotona das corridas em uma aula para assistir sem pestanejar….Idolo Idolo Idolo

  20. Bruno Mantovanelli disse:

    Eu costumava abaixar o volume da televisão e ligar o rádio no AM 840 para ouvir o Edgard.
    Lembro em Interlagos 91 quando o Edgard percebeu que o Senna estava andando sem marchas muito antes da TV.
    Parabéns a Fox Sports por trazer esse Mito a ativa novamente.

  21. Josué disse:

    De arrepiar, simples assim!!!

    Belo texto, Flávio, sou grande fã do Edgar.

    Parabéns.

  22. Sergio Magalhaes disse:

    Que show, Flavio!
    Embora ainda não tive – espero ter – o prazer de conhecer pessoalmente o Edgard, eu o tenho também como um mestre do automobilismo. Se você lhe perguntar, acho que o Edgard lembrará meu nome dos tempos em que ele cobria a F1 pela Rádio Bandeirantes.
    Naquela época eu vivia enviando correspondência para o POLE POSITION que ele criou, apresentou, depois ficou com o saudoso (também amigo) Cândinho Garcia, depois passou por você, e o programa está até hoje no ar.
    E sempre fiz questão de chamar o Edgard de “Professor”. Sim, porque ele foi e continua sendo meu professor de automobilismo.
    Um abraço, Flavio!

  23. Gabriel P. disse:

    Na “era Senna” eu achava o Edgard um dos melhores comentaristas de rádio, é uma pena não tê-lo mais durante as corridas de F1.
    Outra pena é eu não ter a FOX e nem poder assistir.
    3º Pena é ninguém da Globo lembrar de Edgard ou, ele não aceitou.
    Agora um pedido
    Flávio,
    Vê se consegue a participação de Edgard em alguns Paddock GP.

  24. Zè Zanine disse:

    Pô FG não postou o vídeo destas voltas?….não posso acreditar que você deixou de colocar sua GoPro nessa máquina!!!!!!!!!!!!!
    libera o vídeio meu caro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  25. Alessandro Neri disse:

    Edgard Mello Filho ? Lenda, mito, ícone, mestre, guru….

  26. Kleber disse:

    Grande FG…
    Mais um texto espetacular!!!

    Sobre o Edgar Melo Filho… duas lembranças bacanas dele…
    DTM na Manchete, eu assistia, sozinho… lembro das narrações dele… irreverente… lembro que havia um carro (não tenho certeza se era o Mark Martin… juro que não), com patrocínio do McDonald’s… ele não falava, mas soltou… “Olho esse carro, já lembro do meu filho: Paiê, leva eu lá!”… kkkkkk…

    A outra… o texto que ele conta como foi andar ao lado do Ayrton Senna, numa perua Audi (não lembro qual), pouco antes do GP Brasil… ao contrário do traçado… ele irritando o cara… kkkkkkkkk… sensacional!!!

    Grande abraço!!!

    • Marcos disse:

      Era uma Avant S2, a “mãe” da super Audi RS2. Bem legal esse relato, mesmo. Quando ele descreve em detalhes uma freada específica que o Ayrton provoca uma saída de traseira e controla direitinho, é fantástico.

      • Fabio de Souza disse:

        Eis o texto: Estava na minha sala no autódromo quando o celular tocou. Era o chefe.

        “Tudo bem aí?”
        “Tudo, chefe, o que manda?”
        “Seguinte, preciso ver algumas coisas aí. Preciso dar uma olhada porque o belga (Roland Bruynseraede, o Charlie Whiting da época) vai chiar, vai ter que mexer no Berger e no Mergulho.”
        “Você vem com o Esquilo e vamos dar uma volta com a Onça.”

        Onça era um Opalão quatro cilindros, preto, quatro portas. Um coitado. Ele estava caindo de podre e graças ao querido amigo Paulo Taliba consegui pegar o carro para o autódromo num rolo inacreditável entre departamentos. E acredite se quiser: o chefe se divertia muito guiando a Onça.

        Uma vez, duas ou três semanas antes do GP do Brasil de 1994, ele me ligou e disse: “Vou aí dar uma repassada nas obras, faz o shakedown do Onça”.

        O shakedown era colocar 42 libras nos pneus dianteiros e 39 nos traseiros (aliás, as únicas coisas novas do carro, presente dos bons amigos da Pirelli, quatro radiais 185 nos trinques), além de checar o arame da porta dianteira direita para ver se estava firme sem ataques de ferrugem.

        Ele ria muito e nos divertíamos, principalmente quando eu, para dar um tempero, imitava o locutor da TV e narrava as voltas contra um imaginário piloto de pequena estatura e nariz enorme, docemente apelidado de “Narizinho”.

        E um grande urso inglês chamado “Roaaarrr”, com suas luvas uma de cada cor, vermelha na mão direita e azul na mão esquerda. Um canhão, rapidíssimo. Daqueles tipos que você acabava até gostando.

        A gozação em cima de “Roaarr” é que demorava um pouco para cair a ficha dele. Deixei a Onça pronta, mas aquele dia seria especial.

        Ele chegou por volta das 17h20, com uma Perua Audi S2. X-tudo. Turbo, cinco cilindros, jogada no chão, aquelas rodas absurdas. Aquele barulho metálico ardido de motor bravo (as BMWs também têm esse barulho característico de isca, pega).

        Sentei no lado direito, passei o cinto e já cutuquei:

        “Isso aqui anda ou é para ir à missa?”
        “Por quê?”
        “Nada, só estou perguntando.”

        Entramos pelo portão de cima mesmo e viramos à direita, rumo ao “S” com o nome dele. No começo da descida, paramos. Ele ficou olhando para a brita.

        Não perdi a viagem:

        “Está lembrando do esparramo que o teu parceiro made in USA (Andrettinho) fez na largada do GP desse ano, aqui?”
        “Isso acontece”, desconversou.

        Na saída da segunda perna, ele contou:

        “Aqui foi a primeira vez que a luz de pressão de óleo acendeu no final do GP do Brasil. Eu vi de relance e fiquei imaginando se não tinha sido impressão. Me preparei para olhar na outra volta e a tensão aumentou porque eu estava controlando o Damon e o alemão que vinham atrás. Eu estava muito ligado neles porque o Damon usava aquele carro de outro planeta e o alemão tinha aqueles cavalinhos a mais que o meu motor, por estar usando uma série à frente”.

        Perguntei, seco:

        “Não tem jeito de mexer neste contrato da Benetton com a Ford?”.

        A resposta foi meio desanimadora:

        “O Ron está tentando, mas não vai ser fácil, o Flavio (Briatore) está marcando em cima”.

        Foi a deixa para matar a curiosidade:

        “Além da distribuição pneumática, tem mais alguma coisa na usina, não tem?”, perguntei.

        A confirmação veio, como sempre, discreta:

        “É, tem algumas coisinhas”.

        Emendei para não perder o momento:

        “Quantos cavalinhos o motor do alemão tem a mais que o teu?”

        Ele, como sempre modesto, respondeu:

        “Um pouco”.

        Cheguei junto, agora é a hora:

        “Um pouco quanto? Uns 90 hp?”.

        Estava difícil tirar informação do homem.

        “Não, menos”, falou.

        Resolvi forçar mais um pouco, já perto do limite:

        “70? Fala aí!”

        Ele manteve a guarda alta:

        “Não sei”.

        Agora vou cutucar para tirar o cidadão do sério e arriscar o meu pescoço:

        “Senhoras e senhores, estamos entrevistando um piloto de F-1 que não sabe quantos cavalos tem o seu motor, é espantoso!”

        Foi o tempo de encolher o pescoço e levantar os ombros. O que veio a seguir foi em três idiomas: português, inglês e sou capaz de jurar que alguma coisa em japonês:

        “Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii” (censurado). Ficou piiiiiiiiii da vida.

        Senti que poderia ser o momento e mandei uma paralela:

        “Não apela, vou chutar 40 a 45 burritos a mais”.

        Silêncio, deu até para ouvir um pouquinho do CD do Phill Collins. Armou um bico e completou com um muxoxo:

        “Hummm, por aí”.

        Precisei dar uma descontraída no ambiente:

        “Respeitável público, além de perder o lugar para o anão na Williams, ainda guia corrida a corrida com 40 cavalitos a menos no motor!”

        A seguir, momentos de uma leve baixaria e muita risada. Quando estávamos no final da Descida do Lago, já apontado para a subida do Laranjinha, o chefe veio com mais uma:

        “Essa saída do Lago me preocupa, se der uma escapada em pêndulo, com chicotada ao contrário, vai bater feio, precisava dar um jeito de mexer aqui”.

        Rebati:

        “Já pedi para os engenheiros da Emurb darem uma olhada no que é que dá para fazer. Aqui tem um complicômetro, chefia: a confluência dos lagos. A única saída de emergência é colocar o guard-rail mais próximo da pista para não deixar ganhar velocidade na hora que esparramar. O problema, chefe, é a hora que der uma pregada bem caprichada do lado esquerdo. A lâmina vai devolver e o “elemento” vai cruzar a pista de volta para o lado direito. Precisa ver se não pega ninguém, nenhum anu errante no contrapé da biaba”.

        Ele me deu uma olhada, armou uma risada de canto de boca, e conferiu:

        “Elemento, anu errante, contrapé da biaba?”

        Devolvi bem curta:

        “Chefia, você entendeu, não estica”.

        Quando chegamos ao cotovelo – ou Bico de Pato -, ele comentou:

        “Aqui acendeu de novo a luz da pressão e desta vez eu vi e envelheci. Só me faltava esta, estava no final da prova. Na África do Sul devia ter chovido 15 voltas antes, e aqui, essa?! Ainda bem que o motor, que já tinha dado umas amarradas nas voltas atrás do safety-car, aguentou, já estava uma barra e agora a FISA ainda me penalizando não sei até agora por que. Fiquei um tempão atrás do Erik (Comas, que foi o rei do ventilador no GP, pois arrumou time pênalti para todo mundo) e, quando ele tirou o pé e me mandou passar, os caras me deram o pênalti”.

        Subimos a Junção e, no final do Café, ele diminuiu. Levou a X-tudo para o lado direito, deu uma provocada para o lado esquerdo e chamou o freio de mão. Currupeio perfeito. Viramos 180º e já estávamos voltando para o Café, iniciando a descida para Junção. Pensei: acho que é agora, vou atiçar.

        “Respeitável público, no espetáculo de hoje teremos Don Becon e sua peruazinha”, brinquei.

        Peruazinha foi a palavra mágica. Cutuquei a fera com vara curtíssima.

        “Você vai ver o que isso anda”.

        Infernizei:

        “É bom mesmo, porque os caras da BMW estiveram aqui na semana passada e eu executei uma M3. Achei que anda muito, por isso estou achando isso aqui meio lerdo”.

        Aí o homem pegou no breu:

        “Então vamos ver quanto vira nesta pista ao contrário, você tem idéia?”, perguntou.

        Pensei comigo:

        “Consegui incendiar a fera…”

        Completei jogando mais um pouco de gasolina:

        “Não sei, mas vou abrir o relógio e navegar. Atenção, Siviero para Biasion, Junção à direita, freada forte e quarta, pé embaixo”.

        A partir deste momento foi só pintura. Adrenalina pura, movimentos precisos, derrapagens controladas, controle absoluto, um conjunto de ordens e contra-ordens que a S2 obedecia docilmente, como que sabendo quem manda, quem é o dono. O carro não ia para onde queria, e sim para onde “ele” queria e colocava. O cheiro de borracha queimada já era forte dentro do habitáculo. Começando a subir o Mergulho, mandei:

        “Pironnen para Kankkunen, direita de alta, quarta, pé embaixo”.

        Quando ia avisar do Bico de Pato, o cotovelo tinha chegado. O problema é que saímos meio atravessados para o lado contrário da curva que era para a esquerda (nós estávamos andando ao contrário). Nos últimos metros antes de passar do ponto e com um improviso espírita, ele “inventou” um pêndulo que, sinceramente, não sei onde ele foi buscar. Absurdo, já todo torto, ele deu uma provocadinha e a barata entrou na dele, ameaçou voltar, eu só ouvi ele dizer: “Te peguei!”.

        A partir daí foi mais ou menos assim. Na pequena balançada da direita para a esquerda, ele percebeu antes e pendurou nos alicates (ABS). O barulho lá embaixo na frente era característico: “Cram… Cram… Cram…” Tradução: não vai travar. Quando a frente ameaçou entrar, ou melhor, quando a traseira ameaçou soltar, eu só ouvi um “rrrrrrrrrrrrrrrriiiiiippp”. Freio de mão puxado, ni qui travou o eixo lá atrás, foi-se a traseira. Quando ela foi, assinou a sentença de execução do carro.

        O torpedo como um todo começou a contornar, girando sobre um eixo imaginário bem no meio do carro, fazendo uma meia lua, até chegar perto da metade da entrada do Bico de Pato. Não sei se vocês estão percebendo a magia da manobra. Até aí, ele só vinha trabalhando com forças atuantes, sistema de freio em sequências de derrapagens controladas. Naquela sucessão de manobras, ele já vinha com a mão direita selecionando uma marcha adequada para a saída. A curva que era para ter passado, não passou.

        Nós estávamos dentro dela, quase apontados para a saída, com a marcha ideal selecionada e a plataforma motriz em stand-by esperando a vez dela. Chegou. Lembro que bati os olhos no velocímetro estávamos entre 95 e 105 km/h. Aquele era o ponto.

        O pé direito dele foi junto com o meu berro: “Dá-lhe gás!”. Naquele momento eu relembrei a ira dos deuses enfurecidos e a brutal potência da usina turbocomprimida da casa de Ingolstadt. Absurdo, absurdo, eu não conseguia definir se era castigo do céu ou coice de mula: com as costas coladas no banco, via a S2 seguir uma trajetória muito bem definida a caminho do Pinheirinho. Sem deixar cair a peteca, emendei:

        “Kivimavi para Allen, terceira marcha cravado sem tirar o pé”.

        Mas sempre tem um mas. Quando ele apontou puxando para a direita, o foguete empurrou um pouquinho à frente, ameaçando alargar a trajetória. Junto com a tentativa de reação, ele imediatamente telegrafou o acelerador, fazendo a traseira escorregar e ficar mais ou menos a uns 15º apontada para o lado de dentro da curva. Era tudo o que ele queria para chamar potência no acelerador. Fizemos o Pinheirinho e o “S” (antigo) em dois pêndulos. Quando chegamos perto da zebra saindo do “S” e a caminho do Laranjinha (só relembrando que estamos andando ao contrário na pista), comentei:

        “Nossa o que é no chão esse torpedo! O que fala essa usina e uma estupidez!”.

        Ele completou

        “Você vai ver nas de alta”.

        Ao ouvir aquilo fiz uma reflexão:

        “Senhor, vou testemunhar a verdade, vou conhecer de perto o toque divino de um dos eleitos”.

        O motor urrando, o turbo descarregando, a velocidade crescendo, o Laranjinha, a Subida do Lago velocíssima com freada forte para a segunda perna na entrada da reta a caminho do Berger. Todo o Berger à direita (nós estamos andando ao contrário). O pêndulo veloz direita-esquerda para subir o “S” dele. E mais, a encardida chegada da Junção morro abaixo, quinta a pleno.

        Não teria como descrever para vocês, não encontraria palavras. São sensações que você sente quando por exemplo entra num Louvre e descobre nomes como Leonardo da Vinci, Raffaello, Sanzio, Michelangelo, Merisi, Rembrandt, Harmensz. Ou quando ouve Antonio Vivaldi, Franz Schubert, Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig von Beethoven, Johann Sebastian Bach ou mesmo uma “Rhapsody in Blue”, de Gershwin. Quando você percebe que está com alguém que faz parte desta lista dos “eleitos”, como os citados acima, você se sente especial. Você vive um pequeno momento especial, que você vai levar para o resto da sua vida sem esquecer um detalhe. Poesia ou não, sempre tive a impressão que Deus manda uns caras aqui na Terra para mostrar como Ele faz as coisas.

        Mas, Edgard, não dá para contar?

        Desculpe, não dá. Eu não tenho como descrever reações, comportamentos, atitudes, antecipações, acima de 200 km/h. Você simplesmente fica olhando sem querer perder nada. É isso. Não dá para contar, é uma coisa sua, como foi de Gagarin, Carpenter, Armstrong e Buz Aldrin. Como você quer ver tudo e não perder nada, alguma coisa você registra. O resto, você absorve. Acho que demos umas oito voltas, depois da terceira virou rotina, conversamos, demos risada, eu xinguei a FISA (para variar)… O cheiro de borracha queimada não parou, nem diminuiu, nós é que acostumamos com ele. Lá pela sexta volta perguntei sobre Donington a resposta você já sabe.

        A “peruazinha” S2, um demônio, serve até para ir à feira, mas não leva desaforo para casa. Aquele motor não tem cavalos, tem búfalos enlouquecidos que, quando provocados, fazem desabar uma tormenta. Perto do portão de saída, falei:

        “Me deixa aqui, vou andando até a minha sala. Falou, até mais, chefia”.

        Preocupado, me pediu:

        “Qualquer coisa, me liga. Se chegar algum pedido da FISA, me passa por fax”.

        Para não perder o costume, provoquei na saída:

        “Fica frio. Da próxima vez, vem com um A8, tá bom?”

        Ele deu uma gargalhada e se perdeu no transito da Teotônio Vilela. Fico imaginando que, para quem pudesse andar com Jim Clark, Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve, Jackie Stewart, Nelson Piquet e Michael Schumacher, a sensação deveria ser a mesma. Só sei que, lá pelas tantas, em casa, já na madrugada, olhei para o relógio e vi que o cronômetro ainda estava funcionando. Eu tinha esquecido de parar aquela volta que fiquei de marcar.

        Naquele momento, 1h30 da manhã, descobri que oito horas atrás eu tinha vivido uma aventura que ficaria na minha lembrança para o resto dos meus dias. Simplesmente ela se juntava a outras como o meu primeiro DKW de corrida, a minha primeira vitória com o Opala, a vitória nos “1000 Km de Brasília”, a vitória nas “12 de Goiânia”, a vitória no “Troféu José Carlos Pace” em Brasília, meu primeiro Campeonato Brasileiro de D3, o segundo, meu primeiro vôo num PA18 (todo mundo chamava de teco-teco).

        Lembranças, memories, coisas que você não esquece mais. Não sei se isso ajudou, mas por essa e outras experiências eu não tive nenhuma dúvida em ir para a frente das câmeras da TV Manchete naquele maio maldito e ficar berrando, durante oito ou nove horas, que podiam esconder todas as fitas que quisessem, mas ele não tinha errado. Alguma coisa tinha quebrado ou acontecido. Está bem, não discuto, tinha chegado a hora dele, ninguém foge dos desígnios de Deus. Mas ele foi de pé, como um grande campeão. Reduziu três marchas e freou. Quer mais consciência do que isso de uma situação de emergência?

        Os números podem falar o que for, pouco me importa.

        Eu sou feito de emoção. Nasci, vivi e vou morrer assim. A vida sem adrenalina simplesmente não tem graça.

        Jamais vou separar a emoção do coração.

        Por isso, onde você estiver:

        — ACELERA, AYRTON. ACELERA, CAMPEÃO! “

  27. ANTONIO LUIZ DE SAMPAIO disse:

    Fantastico, Edgard e alguém especial a todos nós…
    gratidao e reconhecimento, Algo raro hoje.
    Parabens.

  28. Emerson Vieira disse:

    Fantástico…
    Momentos que se leva para o resto da vida!
    O Mestre Edgard sempre foi genial e é ótimo vê-lo novamente na Tv.
    abraços

  29. Flavio, parabéns.. Me senti no banco de trás desse Volvo (se é que tinha), ao ler seu texto. O Edgar, eu acompanho faz tempo. Ví uma corrida dele em Jacarepaguá memorável. Salvo engano ele pilotava um Chevette branco oficial da GM. Eu era moleque e estava nos boxes e pude ver de perto todo o seu talento. Como você sou um “piloto” e de vez em quando dou minhas voltinhas.

  30. Pedro disse:

    Eu gosto das onomatopéias que ele faz quando narra : “Tóim”, “powwww”, olha a usina trabalhando….huahauaauh esse cara é mito!

  31. Ninguém disse:

    Flávio, não tem como convidar o Edgard para um bate-papo no Paddock GP?

  32. Rafael Friedrich disse:

    Gostei do capacete estilo Cevert. Um dia ainda vou ter um clássico para acelerar em Interlagos.

  33. Renato disse:

    Sou fã do Edgar… Infelizmente não tenho TV por assinatura para acompanha-lo, mas lembro de quando fazia a transmissão de F1 na Bandeirantes, despejando potência e chamando no alicate.

  34. DAVERSON disse:

    Flávio,
    Texto muito bom e uma excelente homenagem a um dos melhores jornalistas do Brasil. Parabéns! Pelo conjunto da obra, oportunidade, capacidade, sorte e alegria!

  35. Virgo disse:

    Algumas coisas do Edgard me ficaram na memória de forma indelével: uma crônica que ele escreveu – e creio que publicou aqui – lembrando de uma das ultimas vezes em que ele andou com Ayrton Senna (o Senna pilotando) pelo autódromo de Interlagos, era a perfeita descrição da admiração que ele tinha pelo ídolo de todos nós. Também lembro dele comentando na radio Bandeirantes, na época do Piquet, com aquela língua afiada, e expressões que só ele mesmo poderia usar: “o fulano deu uma panca enternecedora…” é um bom exemplo. Grande Edgar!

  36. Gus disse:

    Ouvir e ver Edgar é sempre um enorme prazer; que cara bacana, gente boa e de uma sapiência exemplar. Como gostaria de ser amigo pessoal desse cabra!

  37. Fernando disse:

    Pô essa sua experiência foi show de bola com certeza!!! O coroa é sinistro e a amizade entre vocês é muito maneira…então só o que pode ser dito é parabéns a ambos por essa experiência incrível que vai ficar marcada para sempre.

  38. Carlos disse:

    Cara… Edgard é muito foda!
    Eu vibrava com as transmissões dele de DTM no início dos anos 90… Eu e meus amigos do colegial pirávamos com as corridas e com o Edgard.
    Era lindo como o Edgard falava com paixão dos carros da DTM… Em especial das BMW que ele chamava carinhosamente de “as pequeninas M3″.
    Em 2008 (acho) cruzei com ele atrás da arquibancada da reta dos boxes de Interlagos, era o fim de semana de GP Brasil de F1, e contei pra ele sobre como eu e meus amigos adorávamos as transmissões dele. Ele parou pra conversar comigo e ficou todo sorridente quando falei das pequeninas M3.
    Sujeito sensacional!

  39. João Ernesto disse:

    Se tem uma coisa que joga cisco nos meus olhos é HONRA… outra é HUMILDADE.

    Atributos raros nos dias de hoje…

    Agora é respirar fundo e esperar os ciscos dos meus olhos saírem.

  40. Fernando Silva disse:

    Lembro também daquelas transmissões da Manchete…no Youtube é possível achar algumas e relembrar a época em que eu, um mero pré-adolescente que até então só assistia e conhecia F1 e um pouco de Indy, começava a me deparar categorias como DTM e Nascar…depois encontrei narrações dele (espetaculares) pela internet no “Racing TV”, principalmente de corridas do extinto GT3 Brasil e da também extinta Copa Chevrolet Montana. Fiquei “doido” quando li que o Mestre comentaria uma prova da Truck Series no ano passado e fiquei muito feliz em ver que o canal o foi escalando para mais transmissões até definitivamente integrar a equipe.
    Hoje, acompanho todas as transmissões a motor do canal…gosto de todas e ainda torço para o canal escalar o Mestre Edgard para a maior prova de todas: As 24h de Le Mans…como ele mesmo diz: “Vai voar Pena!!”

  41. José Leão disse:

    Estou aqui tentando achar algo para escrever que simbolize a beleza deste texto, mas esta difícil. Só me resta portanto mandar um grande abraço ao Edgard que acompanho desde os tempos em que eu pulava o muro de Interlagos para assistir as corridas, do tempo em que eu tirava o som da TV para ouvir o Edgard na Bandeirantes e agora poder acompanha-lo também na FOX.
    Parabéns ao Flavio pelo excelente texto e pelo reconhecimento de um grande talento que é o Edgard, e claro, se hoje nos “encantamos” com tudo isso é pela presença de profissionais deste nivel..

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