PIQUET, 25 | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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domingo, 7 de maio de 2017 - 23:23Indy, IRL, ChampCar...

PIQUET, 25

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SÃO PAULO (não, não é preguiça) – Hoje o acidente de Piquet em Indianápolis faz 25 anos. Aconteceu num 7 de maio, em 1992, e para quem não lembra, o relato está aqui.

Pensei em escrever, claro, sobre o assunto. Mas como este blog já é um decano da internet, é óbvio que na passagem dos 20 anos da batida eu também escrevi. É possível que tenha feito o mesmo nos 15 anos, em 2007. Não fui procurar. Fui atrás, sim, do texto postado aqui em 2012. Li com atenção. Acho que vou contar a história do boné hoje, pensei antes de reler o que já havia publicado cinco anos atrás. A história do boné estava lá. Todo o resto estava lá.

Assim, não faria sentido escrever tudo de novo, com outra palavras, só por escrever. Longe de mim ter a pretensão de já ter escrito “o texto definitivo” sobre qualquer assunto na vida. Mas, no que diz respeito a alguns episódios, deixo a modéstia de lado e concluo que sim, ao menos do meu ponto de vista e daquilo que sou capaz de fazer diante de um teclado, alguns textos são definitivos — minhas lembranças se encerram neles.

A não ser que algum fato novo tenha ocorrido, ou que eu tenha lembrado de algo que estava jogado numa gaveta qualquer da memória. Não é o caso. Assim, aí embaixo está o mesmo texto publicado em 2012, apenas atualizado como se tivesse acabado de ser escrito. Vocês vão entender.

E viva o Piquet.

Foi num 7 de maio, em 1992, que Nelson Piquet sofreu o mais pavoroso acidente de sua vida, num treino em Indianápolis. Tricampeão do mundo, Nelson não conseguiu equipe para seguir na F-1 ao final de 1991, quando a Benetton optou por não renovar seu contrato. Ele também não se esforçou muito. Briatore apaixonara-se por Schumacher, com razão, e Piquet percebeu que seu tempo ali tinha terminado.

Mas ele resolveu, a partir daí, realizar algumas vontades pessoais. Não vou dizer “sonhos” porque Piquet não é muito chegado a essas coisas melosas. Estava a fim de correr em Indianápolis e Le Mans antes de parar de vez. E foi para os EUA. Assinou um contratinho com a Menard aconselhado por Eddie Cheever, seu brother. Deram uma Lola-Buick na sua mão e lá foi Nelsão andar no oval. Até estampar o muro de frente num treino a 340 km/h.

O muro moeu os pés de Piquet. Ele quase ficou aleijado, quase morreu, quase tudo. Foi um drama desgraçado, mas jamais tratado com tom de tragédia nacional no Brasil, ao menos como seria se o personagem fosse outro. Não, não preciso fazer rodeios. Estou falando de como seria a cobertura da imprensa e a comoção popular se o acidentado fosse Senna e não ele. E por que essa comparação? Porque eram, os dois, os maiores nomes do esporte brasileiro em 1991, no más. Dois tricampeões, vitoriosos, excepcionais pilotos. Só que um era o queridinho da mídia. O outro cagava para a mídia.

Piquet deu sua primeira entrevista no hospital ao Reginaldo Leme, a quem chamou para falar. Não era para o “Fantástico” ou para o Faustão. Era para o Regi, a quem ele conhecia havia décadas, um amigo, um cara da mesma época, da mesma geração. Não foi uma matéria em tom choroso, pelo que me lembro. Feia, até, no visual — um quarto de hospital em Indianápolis sem grandes luxos, fundo pastel, a parede do quarto, e nada de uma produção caprichada com luzes indiretas, trilha musical e vídeos de apoio dos amigos com gente vertendo lágrimas de jacaré.

Piquet arrebentou os pés numa porrada monumental e foi sobre isso que falou. E um ano depois, de muletas, estava lá em Indianápolis de novo para realizar o sonho. Ou: para matar uma vontade pessoal. Nada de sonhos.

Cobri essas duas corridas, a de 1992 e a de 1993. No acidente, no entanto, não estava nos EUA ainda. Foi numa daquelas sessões de treinos livres que só têm cobertura da imprensa local, início dos trabalhos para as 500. Em 1993, cheguei a Indianápolis uma semana antes da prova e todos os dias ia ao autódromo para fazer minhas matérias. Quando encontrei o Nelson pela primeira vez foi muito legal, numa mesinha com guarda-sol num gramado, ao lado do motorhome da Menard. Estávamos em poucos jornalistas, três ou quatro, no máximo. Sentamos para falar merda, como sempre, porque com Piquet era difícil fazer entrevista, ainda mais com ele quarentão, cagando mais ainda para a mídia. Então a gente sentava e ficava falando merda.

A recuperação foi dolorosa e difícil, sofrida, uma batalha dos diabos, não é qualquer um que faria o que ele fez. Mas Piquet nem tocava no assunto, não transformava nada em uma epopeia, era prático e objetivo. Corro de carro, é perigoso, bati, me arrebentei, posso optar por ser um velho amargo que reclama da vida, ou por me recuperar e tocar o barco. Não arrotava nenhum discurso pautado pela superação, pela força de vontade, pela perseguição de um sonho, pela perseverança, pelo desejo de levar as cores do Brasil ao mundo e mostrar que não desistimos nunca.

Muito pelo contrário. O que poderia ter sido uma longa matéria sobre tudo isso, a superação, a força de vontade e o caralho a quatro, virou um festival de bizarrices e piadas sobre si próprio. Foi nesse dia que ele contou como fazia para comprar tênis e sapatos, por exemplo. Como um pé ficou maior que o outro, ele disse que pedia na loja vários pares iguais de números diferentes, via qual cabia em qual pé, misturava tudo, colocava os dois que serviam numa caixa e levava embora. A loja descobriria dias depois que tinha vendido um pé 39 e outro 42, e ele se mijava de rir contando essas coisas. Porra, os caras só se fodem quando vão vender sapato pra mim!

Aí havia uma miniatura do carrinho de 1992, esse aí da foto, em cima da mesa, e ele e me deu. Nem é o Piquet no cockpit, o capacete é do Al Unser, mas não tinham feito a miniatura com o capacete certo. Ou, se tinham, ele não tinha nem visto, não era algo com que se importava. Nem eu, claro, aceitei feliz da vida o presente e levei para casa. O carro de 1993 já era diferente, vermelhão, bonito, patrocínio da Arisco.

No dia da corrida, fui para o grid e fiquei lá do lado do carro do Nelson esperando ele chegar para a largada, para ver se dizia alguma coisa, e ele foi chegando sozinho, de muletas, sem ninguém para ajudá-lo. Quando se aproximou e me viu disse alguma bobagem qualquer, pediu para que eu segurasse as muletas para entrar no caro, tirou o boné que vestia e jogou na minha mão. Fica com isso aí, baixinho, e achei demais, óbvio, coloquei o boné, os mecânicos chegaram, desejei boa sorte, voltei para a minúscula sala de imprensa e lá deixei o boné junto com minhas coisas.

Piquet abandonou no início e roubaram meu boné. Fiquei emputecido e fui até a garagem da Menard, corrida rolando lá fora, e quando cheguei o Nelson estava todo feliz, tinha conseguido largar, deu algumas voltas, matou a vontade, fiz umas perguntinhas, ele respondeu, e no fim, meio envergonhado, contei que tinham roubado o boné. Ele me xingou de burro, retardado, débil mental, tirou o que estava usando e me deu de novo.

Guardo o carrinho e o boné com carinho, foi uma cobertura bacana, Piquet foi legal comigo, e assim foi.

Hoje faz 25 anos daquele acidente e pouca gente lembrou, exceção feita a sites especializados como o Grande Prêmio. Não recebi nenhum e-mail me cobrando para escrever sobre o assunto, como na semana passada, nos 23 anos da morte de Ayrton — aliás, só escrevo hoje sobre o acidente porque é número redondo, 25 anos e tal.

OK, ele não morreu no acidente, mas essa indiferença à efeméride nos diz muito sobre a relação fã-ídolo no Brasil.

105 comentários

  1. Anderson Viana disse:

    Meu ídolo desde 83, desde 91 quando parou nunca mais sentei a bunda no sofá pra ver F1 ao vivo, só em VT… Sempre fui mais Piquet que qualquer outro, pois era simples, acertava o carro pro fim de semana, corria e ia embora pra casa. Simples como a vida deve ser…

  2. Alfredinho disse:

    O interessante é que Piquet em uma entrevista, disse que se não fosse esse acidente, ele possivelmente voltaria à f1, como tantos outros campeões voltaram. E isso seria o máximo!

  3. Apm disse:

    Que sisma com o Senna. Ele não deu boné?

  4. Rocker disse:

    Esse texto é excelente e continuará sempre assim. Não precisa mudar nada.
    Parabéns, FG.

  5. Alexander disse:

    Na realidade os fãs do Piquet provavelmente lembram do acidente, o que é irônico no texto é o lamento por uma falta de atenção do público em geral para um cara que “não dava a mínima para a mídia”, não é mesmo? Não se contesta a qualidade do Piquet como piloto, mas como pessoa ele colheu o que plantou na vida, nada mais e nada menos. Creio que para ele não faz a menor diferença ser lembrado por um acidente, mas vejo que para você, como um fã, é doloroso ter que conviver com o fato do Senna ser constantemente lembrado. É bem provável que a imagem do Senna não fosse tão idealizada caso ele não houvesse falecido, talvez ele conquistaria mais alguns mundiais e se aposentaria como grande piloto que foi, mas morreu no auge da carreira e é essa lembrança que vai ficar, pois é extremamente mais relevante que o acidente do Piquet.

    • Zè Zanine disse:

      O.Senna era um excelente piloto!
      Se tornou o queridinho.da globo.porque o Piquet cagava para a midia nacional.
      O.Nélson colhe muitos frutos na vida, sempre soube desfrutar de seus amigos e da vida.
      É uma pessoa que se diverte com o.que propõe a fazer.

  6. Fumio Kurihara disse:

    Flavio, excelente texto antigo e novo. O Piquet merece ser lembrado sempre. Temos que manter a memoria de pessoas que deixaram algum legado. O brasileiro tem memoria muito curta e acha que só o bonzinho deve reverenciado. Temos que parar de aceitar o modelo Globo de “idolos”. O Piquet é tricampeão de F1. Quais pilotos tem mais títulos? Tem outros mais obscuros que passaram despercebidos mas que devem ter historias de luta. Flavio voce deve ter historias deliciosas de Gugelmin, Cristian, Zonta, Burti, Berger, Hakkinen, Villeneuve, Mansell, dos japoneses. Conte para nós.

  7. Juntando tudo na carreira do Nelson Piquet no automobilismo esse acidente em Indianápolis 1992 foi de longe o mais grave deixando em segundo aquele de Ímola 1987 na F-1. 25 anos se passaram e pra quem viu isso naquela época parece que foi ontem. Os acontecimentos do passado no automobilismo em geral não podem ser lembrados só pra quem morreu, e sim os vivos também merecem ser lembrados! A relação fã-ídolo não existe regras, tanto o fã quanto o ídolo pode ser qualquer um.

  8. Luiz (o outro) disse:

    Vida longa ao Nelsão!!!!

  9. Amaral disse:

    Apesar de ainda garoto, já acompanhava a Indy naquela época, por incrível que pareça, e curtia demais a velocidade dos ovais, era um jeito de sair do lugar comum da F-1. Dava meu jeito nos tempos pré-modem 56k (e bota pré nisso, fui ter computador quase dez anos depois disso aí). Olhar notinha de jornal na banca, chamadinha na parte esportiva do telejornal, caprichava no bombril na antena pra Bandeirantes funcionar “marromeno”…
    Pra quem não acredita, lembro que o Piquet quase sempre andava entre os dez primeiros nos (à época, intermináveis) treinos livres antes de bater. E que o motor Buick tinha fama de cavalo paraguaio, empurrava demais, mas que tinha fama de não aguentar até o fim, quebrava fácil. E que a Menard era uma equipe que fazia só as 500 milhas, o que pra mim soava estranhíssimo na época.
    Dane-se se ele cagava pra mídia. Melhor assim. Fez o que gostava, sabia do risco, quis respirar outros ares, respirou, matou a vontade, não se arrepende. Isso aí. E dane-se se ele não tem a metade da lembrança do Senna, mesmo se tivesse morrido naquela panca horrorosa. É tricampeão do mundo. Poucos são. Sempre foi bota demais, e isso é o que importa.

  10. Bruno disse:

    Piquet é um dos maiores brasileiros vivos, sucesso absoluto como piloto e como empresário.

  11. Alan disse:

    Valeu a lembrança Flávio… Como faz falta gente como o Nelsao nesse mundo de milionária mordaça aos pilotos… falta de humor. .. acidez… verdadeeeeeee!!! Vida longa a Nelsao, piloto sem igual… Não por ser meu ídolo. .. mas por ser único!!!!! Como uma vez o Zampa mencionou: “último piloto de caráter exposto!!!”

  12. jean carlo disse:

    acho que vai da definição de ídolo de cada um.
    é como hoje existem fãs de vettel, de alonso e de hamilton, cada um vai ver e analisar os pilotos pelos próprios olhos viciados.
    eu acho alonso melhor que vettel e hamilton e até me surpreendo como tem gente que acha os dois melhores.
    no caso de piquet e senna era diferente. eu preferia piquet, embora considere que senna possa ter realmente sido melhor ou igual.

  13. RONALDO ALVES BARBOSA disse:

    As pessoas não se lembram do Piquet porque o brasileiro não tem memória mesmo. Peguem os videos das temporadas que o Piquet correu pra ver contra quem ele correu e venceu 3 campeonatos fora os vices. O cara era o cara.
    E digo mais, se havia um piloto que em condições de igualdade derrotaria o Senna era ele. Pensem nele na McLaren no lugar do Prost em 88 e 89.

  14. Caroline disse:

    Eu penso que as pessoas colhem o que plantam. E o Nelson nunca foi, nem fez questão de ser, simpático ou carismático. Outros pilotos brasileiros são muito melhores neste quesito do que ele. E por isso são “mais” lembrados. E viva o talento dos nossos pilotos!

    • Mauricio disse:

      Piquet era “piloto” dos melhores de todos os tempos. Em tempos em que, não existia o politicamente correto hipócrita de hoje. Alguns ao que parece, preferem o carisma de um Massa ou Rubinho. Nelson tinha talento! E muita personalidade.

    • Rocker disse:

      Minha filha…ah deixa pra lá.

    • Brabham-5 disse:

      Não entendi o “colhem o que plantam”. Se refere ao acidente ou a “falta de popularidade”??
      De qualquer forma eu TENHO CERTEZA ABSOLUTA que:
      1. Você não viu/acompanhou os “anos Piquet” da F1 ( a F1 pré Senna);
      2. Você não conhece Piquet (mesmo á distância) e não entendeu até hoje que ele era “antipático” só com os puxa-sacos e aqueles que tentavam se promover ais suas custas.;
      3. Não sabe que Piquet não tinha problemas com a imprensa DE LUGAR NENHUM, tanto que os italianos, espanhóis, japoneses, ingleses, sempre o respeitaram e ele nunca teve problema com a imprensa (e os torcedores de F1) de outros países. Não confunda a “popularidade por dar acesso exclusivo á Rede Globo” como prova de simpatia, humildade. Pergunte a QUALQUER UM que cobria a F1 na época de Senna, como ele tratava MAL a imprensa quando as luzes das câmeras (especialmente da Globo) apagavam….Essa queixa você não vai ouvir sobre Piquet.
      4. Só esquece quem e/foram Nelson Piquet, Emerson Fittipaldi, José Carlos Pacce e preferem Felipe Massa, Rubens Barrichello e Senna por serem mais “humildes” e/ou “simpáticos!, quem não entende bulhufas de F1/automobilismo, nunca chegou a procurar conhecer quem são todos esses caras além da superficialidade “Global”. E pior ainda, falha na hora de fazer julgamento de caráter.
      É só no Brasil que existe essa baboseira que Schumacher e Piquet eram antipáticos e Sena o humilde e “simpático com todos”
      Procure se informar melhor, antes de chutar conceitos e teorias superficiais baseadas no achismo, ou pior na “desinformação”.

    • Edison disse:

      Acho que alguns comentaristas não entenderam o que a Caroline disse. Devem estar acostumados a ler só os comentários das redes “anti-sociais”.

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