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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017 - 12:02F-1

QUATRO ANOS

2006_FlavioGomes+MichaelSchumacher_MCJ_7996i SãoPaulo

RIO (só torcer) – Da mesma forma que a cada 1º de maio somos impelidos a falar de Senna, a cada 29 de dezembro, desde 2013, nós que trabalhamos com automobilismo nos sentimos na obrigação de falar de Schumacher.

Ele não morreu, ao menos não do ponto de vista legal. Mas apagou há quatro anos num tombo de esqui e nunca mais acordou. É quase a mesma coisa.

Sua situação — já devo ter dito, ou escrito, ou ambos — é mais triste que a de Ayrton. O brasileiro não agonizou por dias, semanas, meses, anos. A morte foi instantânea, horrível, violenta, trágica, mas tudo se encerrou ali. O drama de Schumacher é duradouro e angustiante. Também já devo ter dito isso algumas dezenas de vezes, mas nunca deixo de me fazer muitas perguntas: o que será que se passa com quem está numa situação como a dele? Seu cérebro funciona? Seus pensamentos ainda fluem? Ele tem vontade de morrer? Consegue se comunicar? Ouvir? Ver? Sentir? Existe uma alma ali dentro? Ela já se foi? Aquilo é apenas um corpo humano em funcionamento com ajuda de aparelhos? Tecnicamente ele está vivo? O que é estar vivo tecnicamente? Faz algum sentido isso?

Torço muito para que não haja atividade cerebral nenhuma, porque não consigo imaginar nada pior do que estar aprisionado num corpo sem conseguir se mover, falar, enxergar, escutar, dizer a alguém o que sente, onde dói, o que quer, numa espera interminável pelo fim.

Já devo ter publicado essa foto aí em cima várias vezes, também. É a única que tenho com Michael, porque o Miguel Costa Jr. tirou — não tenho fotos com pilotos, quando alguém for escrever minha biografia (ninguém fará isso) vai achar que é mentira que cobri Fórmula 1 por 18 anos em todas as corridas porque simplesmente não há registros fotográficos. Ninguém ficava tirando foto de qualquer coisa nos anos 80/90/2000, até surgirem os celulares com câmeras capazes de compartilhar imagens, e quando isso aconteceu eu já estava fora.

É de 2006, a última coletiva dele como piloto da Ferrari, na véspera da despedida em Interlagos. A Ferrari me pedia para apresentar esses eventos e eu ia na boa e ainda me pagavam uns cobres. Achava divertido, e esse dia foi, realmente. Ao final, o pessoal do “Pânico” fez uma pergunta. Eu deixei para o encerramento mesmo, para eles não zoarem a entrevista toda. E foi boa: amanhã, já aposentado, se você acordar e olhar no espelho e aparecer a imagem do Barrichello, o que você faz? Eu achei engraçado, traduzi para ele (acho que a foto é desse momento), ele riu e sem dizer uma palavra fez um gesto esfregando os olhos, que podia ser interpretado como “eu tentaria acordar do pesadelo” ou “eu choraria”. E acabou a coletiva com todo mundo dando risada. Mas aí o doido do “Pânico” (ouvi dizer que o programa vai acabar, é verdade?) pediu para eu entregar um presente ao Schumacher, e me deu uma tartaruga de plástico. “Se chama Barrichello!”, gritou o rapaz.

A coletiva estava terminada, todos no recinto curtiram a galhofa e foram cuidar de suas vidas. Mas os fotógrafos, claro, registraram o momento em que Schumacher fez um gracejo com a tartaruga batizada de Barrichello, colocou um boné sobre ela e a imagem foi destaque nas primeiras páginas de jornais e portais do mundo inteiro. Rubinho, que estava na Honda na ocasião, ficou puto, achou que fui em quem armou aquela arapuca (ao menos é o que me disseram; nunca entendi por que ele achou isso, eu jamais teria a ideia de dar uma tartaruga a um piloto) e, por causa disso, nunca mais falou comigo. Paciência.

Sempre admirei demais Schumacher. Em 1991, fui o primeiro brasileiro a fazer uma entrevista com ele no modelo que, em jornal, a gente chama de “ping-pong”, com perguntas e respostas. Não lembro se foi em Spa, mesmo, na estreia, ou em Monza, na corrida seguinte, quando ele tirou o lugar de Moreno na Benetton. Acho que foi em Monza. Não deve ser difícil encontrar no site do acervo da “Folha de S.Paulo”. Claro que, na primeira ou na segunda corrida de sua vida, não seria possível imaginar onde chegaria. Dava para ver que era bom, claro, e a situação toda que envolveu sua chegada à F-1 ajudava a fazer dele uma boa história. Michael, para quem não lembra, substituiu de última hora Bertrand Gachot, que havia sido preso em Londres por se envolver numa briga de trânsito e jogar gás paralisante na cara de um motorista de táxi.

O caso era ótimo, um piloto belga preso às vésperas do GP da Bélgica, comoção nacional, seus colegas vestindo camisetas onde se lia “Free Gachot”, o asfalto de Spa pichado pelos torcedores, a Jordan sem ninguém para o lugar, e a Mercedes, que tinha algumas intenções ainda não muito claras para a categoria, pagou 300 mil dólares ao time estreante para alugar a vaga. Eddie Jordan, figura interessantíssima que hoje é comentarista de TV, aceitou a grana, claro, e colocou aquele alemão queixudo para correr. Schumacher fazia parte da equipe Sauber-Mercedes no Mundial de Protótipos e era apadrinhado da fábrica. O resto, como se diz, é história bem conhecida.

Muita gente me pergunta sobre Schumacher, se tenho alguma informação, se sei algo. Não, não tenho e não sei. Apenas tenho a convicção de que a próxima notícia que teremos dele será a da sua morte.

94 comentários

  1. Marcelo Campos disse:

    Lembro que na madrugada desse dia houve uma luta de MMA, em que o Anderson Silva quebrou a perna. Curiosamente, o primeiro meme que apareceu no meu Facebook foi a batida do Schumacher em Silverstone, cuja legenda era algo como “Schumacher te entende, Anderson Silva”. Após acordar pela manhã, eu vi a notícia do Schumacher, e me questionei se o meme, ou até mesmo a notícia, seriam um sonho. A notícia podia ter sido.

  2. Alfredinho disse:

    Eu acredito, como muitos também, que a próxima notícia do sete vezes campeão será a notícia derradeira.

  3. Bola da Vez disse:

    Triste para quem sofre. Triste para quem cuida.

  4. Lago disse:

    esses textos como antigamente sobre carros, pilotos e equipes, o que realmente importa para quem ia a banca pelo JT e suas noticias completas e os sorvia com calma……jornalista….muito bons! Tempos esquisitos os atuais, em que fatos não são mais noticias, são apenas posts que se esvaem um após o outro sem relevância.. Envelheci!

  5. Mario Aquino disse:

    Quem de nós durante o sono não já se sentiu fora do corpo e fazendo voos rasantes em cima de árvores, postes, construções, às vezes sentimos medo, mas na verdade devemos sim curtir o momento, isto se chama desdobramento espiritual, da mesma forma o alemão enquanto não se libertar deste envoltório carnal, estará preso a esta situação de erraticidade.

  6. Brabham-5 disse:

    Keep Fighting Schumi!!

  7. Elaine disse:

    Saudades… sempre. também acredito que a noticia que teremos será de sua morte.

  8. Eduardo Britto disse:

    E estás com as cores da Lusa na foto! Agora, falando sério, sempre achei um enorme desrespeito com os fãs e aficcionados do esporte esse silêncio em torno da situação do ídolo. Ele ficou famoso e enriqueceu ás custas de seu mérito, mas também do dispêndio, da grana gasta por milhares e milhares de torcedores ao longo dos anos, comprando ingressos, comprando camiseta, souvenires, eventualmente até Ferraris… E esses não ficam sabendo de nada, nenhuma notícia sobre o´ídolo? Já pensaram se esse silêncio fosse em torno do Senna, nessa situação? Não concordo nadinha com isso!!

  9. Leo Gavio disse:

    Faz 12 anos (ou mais) que eu não entrava neste blog, eu era um dos torcedores numero 1 do Schumacher, me lembro que sempre entrava no blog pra acompanhar o os treinos de sexta e sabado e o warmp-up, a paixão pela F1 era imensa, o som dos motores V10… pura nostalgia.

    Mas lendo os comentários a situação continua parecida, as viúvas do Senna (não confundir com fãs do Senna) implicam com Schumacher até hoje e implicam com jornalistas que admiram Schumacher, não mudou nada.

    Se a F1 não morreu em imola 94 e cresceu como cresceu até a aposentadoria do Schumacher em 2006, credite-se essa façanha a este alemão que foi, sem duvida, o maior piloto de todos os tempos.

    Futebol: Pelé
    Basquete:Michael Jordan
    Natação: Michael Phelps
    Atletismo: Usain Bolt
    Automobilismo: Michael Schumacher

    O choro das viuvas é livre, a historia e os números não mentem.
    Não questiono o carater dos esportistas, nem suas vidas pessoais, quando você quer avaliar o talento e a competencia de alguem para uma atividade especifica você não pode julga-lo por aquilo que ele faz no seu cotidiano, fora do ambiente de execução da atividade.

    Dentro da pista, e trabalhando com a equipe no desenvolvimento do carro e disputando corridas, Schumacher foi o maior de todos. Principalmente pela atitude de sair de uma equipe vencedora e ir para uma equipe perdedora e faze-la vencer, e vencer muito.

  10. Julio disse:

    Depois desse episódio você e o Rubens nao se falaram mais, melhor dizendo ele nao falou mais com você? Você chegou a procura-lo para conversar?

  11. Paulo Pinto disse:

    Feliz Aniversário, Guerreiro!

  12. Pavezi disse:

    Caro, partilho do mesmo pensamento seu. Parabéns pelo texto.
    Saudações!

  13. Marcelo Faviere disse:

    Qual a melhor biografia do alemão, seja em inglês, português ou até mesmo em italiano ?

    Só li “A Máquina” da Alicia Klein, que achei legal.

  14. Andre disse:

    Flavio, o fato da Ferrari ou dos organizadores da coletiva não terem colocado uma plaqueta de identificação com seu nome (como a do alemão) te emputeceu quantos % ?

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