NA CASA DO DÚ (12) | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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domingo, 11 de novembro de 2018 - 21:06F-1

NA CASA DO DÚ (12)

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SÃO PAULO (melhor que a encomenda) - Teve empurrão, punição na pista, “cuzão e idiota” pra cá, “pouco profissional” pra lá, e sobrou até uma pena de prestação de serviços comunitários aplicada pela FIA. Max Verstappen e Esteban Ocon foram os grandes personagens deste bom GP do Brasil vencido por… Lewis Hamilton, claro, que mesmo quando não merece acaba ganhando — não tem culpa nenhuma se uma molecada cheia de hormônios à sua frente contribui com vitórias que em algum momento parecem comprometidas por um ou outro motivo, e que acabam caindo no seu colo.

E foi assim.

A corrida de Interlagos já passara da metade e Verstappinho enchia os olhos de todos com uma atuação magnífica desde o início, que merece ser descrita em detalhes. Primeiro, superou Raikkonen na largada para logo depois fazer uma linda ultrapassagem sobre Vettel, na quarta volta, no S do Senna. Assim, mal a corrida tinha começado, ele já assumia o terceiro lugar do ferrarista, que tentava em vão perseguir a dupla da Mercedes à frente — Hamilton e Bottas, embora seja desnecessário dizer qual dos dois estava na frente.

Na décima, Max foi para cima do apático finlandês da Mercedes e, de forma até humilhante, deixou o carro prateado para trás.

(Vale o parênteses: com o carro que tem, Bottas não pode ser tão frouxo. A Red Bull tem motor Renault, longe de ser a oitava maravilha do mundo automotivo — as sete consagradas pelos historiadores e especialistas são, pela ordem, DKW, Trabant, Wartburg, Lada, SAAB, todos os VWs a ar e o Gol GT. O cara tem de lutar, resistir. Não entendo por que a Mercedes mente para si própria dizendo que ele é eficiente, bom camarada, homem de equipe. Tanto moleque bom preparado pela própria equipe a pé, e Bottas lá, plácido e sereno com seus belos olhos azuis, mas mais sem graça que pão de forma com margarina, vivendo de somar uns pontinhos, falando pouco e deixando para trás um legado nulo como competidor.)

Em segundo, atrás apenas de Hamilton, Max não deixava o inglês se distanciar mais do que 1s5 ou 2s, e seguia firme cuidando com carinho de seus pneus supermacios. Da turma da frente, só a Ferrari largou com os macios, mas acabou não funcionando a estratégia. Na volta 19, Lewis parou e colocou os médios em seu carro, numa decisão bastante conservadora da Mercedes. Como não chovia e fazia até calor (sol entre nuvens, 24°C, com quase 40°C no asfalto), a equipe achou por bem usar a borracha mais dura e resistente para ir até o final da corrida.

Hamilton voltou em sexto, a cerca de 18s do novo líder Verstappen. E nada de o holandês parar. Na 27ª, Vettel foi para os boxes e colocou médios, também. E nada de o holandês parar. Na 31ª, quem trocou foi Raikkonen, segundo colocado àquela altura. Voltou em sétimo e numa raríssima ordem de equipe invertida, a Ferrari pediu para que Vettel o deixasse passar para atacar Bottas, já que o alemão ciscava, ciscava e não conseguia muita coisa – oficialmente, tinha um problema num sensor do motor.

Verstappen só parou na volta 35, metade da corrida, e colocou pneus macios para as 36 voltas restantes — mais aderentes e rápidos, portanto, que os cautelosos médios daquele a quem deveria buscar para tentar uma vitória improvável: o pentacampeão antecipado Hamilton.

Não demorou muito. Na volta 39, no meio da Reta dos Boxes, de forma até surpreendente, Max passou o inglês e retomou a liderança. Rapidamente começou a abrir do britânico e a impressão de todos era a de que o garoto da Red Bull só encerraria sua exibição de gala quando visse a bandeira quadriculada.

Só que na volta 44 — coincidência macabra para Verstappen ser esse o número de Hamilton — sua alegria juvenil se transformou em ira. Ocon, retardatário, uma volta atrás, tinha acabado de trocar os pneus e vinha rápido com seus supermacios pela Reta dos Boxes. Na freada para o S do Senna, quem encontrou pela frente? O líder da prova. Velho conhecido, diga-se; com Max o francês travou intenso duelo pelo título da F-3 Europeia de 2014, derrotando o garoto-prodígio da Red Bull, inclusive.

Ocon foi por fora, Verstappen por dentro. O piloto da Force India chegou a colocar um pedaço do carro à frente, e os dois contornaram a primeira perna da curva, para a esquerda, lado a lado. Na segunda, porém, quando o S do Senna deriva para a direita e leva à antiga Curva do Sol, Max tinha ligeira vantagem e fez a tangência normal, como se não houvesse ninguém ali disputando espaço com ele. O toque foi inevitável. Os dois rodaram. Hamilton, que vinha atrás, não acreditou no que viu. Já conformado com um segundo lugar até discreto para quem largara na pole, passou entre os dois e caminhou para a vitória.

Não é vedado a nenhum piloto recuperar volta que perdeu, mesmo que para isso tenha de passar o líder. Até aí, Ocon não fez nada de irregular. Mas a insistência em disputar alguns metros de asfalto com o primeiro colocado naquele ponto da pista e naquele momento da corrida foi totalmente desnecessária. Deu a impressão de ser algo pessoal. Por outro lado, Verstappen não empreendeu a cautela que se exige de um líder de corrida em situações como essa. Há inúmeros casos de líderes que sepultaram vitórias certas em atritos com retardatários na história da F-1. Para ficar apenas com dois, bem conhecidos dos brasileiros: Senna com Nakajima em Interlagos/1990 e ele mesmo com Jean-Louis Schlesser em Monza/1988. Como disse Hamilton na salinha pré-pódio ao perguntar a Verstappen o que tinha acontecido, “você tinha muito mais a perder”.

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E perdeu. Perdeu a corrida, ainda que tenha conseguido voltar à pista 5s atrás do inglês e, com pneus mais novos, manter o público de Interlagos em suspense até o final, para receber a bandeirada 1s4 atrás do inglês da Mercedes — que venceu pela 72ª vez na carreira, décima no ano, segunda em São Paulo. Raikkonen cruzou a linha em terceiro e Ricciardo, com uma belíssima atuação vindo de 11º no grid, veio a seguir. Do primeiro ao quarto, apenas 5s de distância. Foi um belo final de prova. Para constar: Bottas, Vettel, Leclerc, Grosjean, Magnussen e Pérez foram os outros que pontuaram. Desses, apenas Bottas e Vettel acabaram parando uma segunda vez nos boxes para trocar pneus novamente.

Max ficou puto, muito puto. Pelo rádio, encerrada a contenda, Christian Horner falou: “Poxa, nem sei o que te dizer…”. O piloto retrucou: “Pois eu sei o que dizer. Espero encontrar ele no paddock agora, porque ele tá fodido comigo”. A tradução é livre, mas fiel. Poucos minutos depois, eles se encontraram na área em que os pilotos passam pela pesagem pós-corrida. Max foi para cima de Ocon e lhe deu vários empurrões. Uma câmera flagrou o destempero do rapaz. Esteban, que pelo incidente levou da direção de prova um stop & go de dez segundos, não reagiu.

No pódio, Verstappen não escondeu sua contrariedade. Não deu um sorriso sequer e nem quis saber de farra com champanhe. Pelo menos se livrou do constrangimento de sambar com as seis passistas da Acadêmicos do Tatuapé, numa exibição anacrônica e fora de moda — dos tempos em que o Brasil era mostrado ao mundo desse jeito meio caricato, com mulatas requebrando as ancas em todos os cantos, aeroportos, hotéis, restaurantes; se bem que é melhor isso, bem melhor, do que valentões branquelos fazendo arminhas com os dedinhos da mão.

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Ocon e Verstappen foram chamados à torre para dar explicações sobre a treta na área de pesagem do autódromo. O holandês acabou sendo “condenado” pela FIA a prestar dois dias de serviços comunitários nos próximos seis meses, porque deu mau exemplo como esportista. No paddock, os dois trocaram um aperto de mão protocolar. Fim de treta.

O resultado deu à Mercedes seu quinto título mundial seguido de construtores, muito comemorado pela equipe assim que Hamilton saiu de seu carro. O time domina a F-1 desde 2014, quando começou a era dos motores V6 turbo híbridos. Desde então, foram disputados 99 GPs. Hamilton venceu 50. Não tem muito o que dizer.

112 comentários

  1. Glaucio Augusto de Carvalho Silva disse:

    Ótima a análise sobre o Bottas, ri demais na parte “mais sem graça que pão de forma com margarina” e concordo com tudo! Show

  2. Zanetti disse:

    E quantas faltam para o Vettel devolver aquela do Mult 21 pro Weber?

    Fica quietinha para não passar vergonha!

  3. fernando disse:

    Hamilton resumiu perfeitamente a situação. Um não tinha nada a perder e ainda por cima lutando por um lugar ao sol na F1, seja em 2019 ou 2020. O outro já é considerado estrela mesmo sem ter ganho absolutamente nada. Mas é tão imaturo quanto foi otimista o pobre Ocon, que teve sim uma parcela de culpa. Mas ali, quem tinha que ponderar algo era o Max, ele sabe que até poderia passar o Ocon mais pra frente, a briga dele não era com o Ocon, tava com a faca e o queijo na mão pra ganhar a corrida. Ele tinha que ter dado espaço e deixado passar. Foi o Max quem jogou sua corrida no lixo, simples assim.

  4. Betinho disse:

    Prezado Flávio Gomes, pense que os conceitos de esquerda, direita e centro foram do tempo de Robespierre. O que temos a discutir agora é o que é bom ou não para o Brasil.

  5. Marmelada-44 disse:

    Falta apenas uma corrida para o Hamilton devolver a vitória roubada na Rússia para o Bottas.
    O carinha se diz fanzoca de Senna, mas ele curte mesmo é a vigarice do Alonso.

  6. Giuliano disse:

    Fala @Meianov ! cara , eu nao sou piloto, mas olhando e olhando a batida do Ocon com o Vestapinho , não vejo que o frances foi totalmente culpado…
    Ele estava no limite da pista e o toroloko veio pra cima.
    so acho.
    abraco Flavinho !!

  7. Maurício disse:

    Pela regra, retardatário deve dar passagem e não prejudicar pilotos que estão 1 volta à frente.
    Ok, no começo do Século Ocon estava em vantagem, mas na segunda perna Veratappen estava à frente e, nesta situação, Ocon deveria recolher e nem sequer prejudicar a tangência do Veratappen.
    Isto à parte, talvez seja didático o Veratappen sentir na pele como é ter uma corrida destruída por outro piloto.

  8. CRSJ disse:

    Lewis Hamilton acaba mesmo é fazendo sua festa do Pentacampeonato no Brasil, com sua vitória e com a conquista dos Construtores da Mercedes.
    Lewis Hamilton é mesmo um cara de sorte, ficaria em segundo, quando assumiu a liderança depois do choque entre Verstappen e Ocon no “S” do Senna ele até riu, melhor impossível pro Hamilton.
    Enquanto o Verstappen roubava a cena o Bottas e o Vettel decepcionavam, até o Ricciardo fez boa corrida saído lá de trás.
    Pobre Alonso, o máximo que deu pra ele era lutar pra não ser último na pista.
    O Kimi conseguiu mais uma taça pra sua coleção com seu terceiro lugar.
    Se eu fosse o Ocon iria direto pro Hotel, mas ele quis ficar esperando o Verstappen pra levar um sopapo.

  9. Bola da Vez disse:

    Gente, nem o vice esteve em disputa nessa corrida! O pessoal tá correndo atrás de um terceiro lugar no campeonato e olhe lá!

  10. Alberto disse:

    Desta vez ,eu diria que o Ocon estava mais para retardado otário.

  11. Celio ferreira disse:

    Interlagos teve uma ótima corrida, como sempre. Verstapinho ,arrogante como
    sempre, assim vai ficar difícil ser campeão , um dia. E Hamilton perfeito como
    sempre , corre sim pra ser melhor que Shumi.

  12. Fernando Monteiro disse:

    Bela corrida!! Já notaram que mesmo com os problemas de confiabilidade, o motor Renault tem melhorado muito? Ricciardo assim como Max tem feito excelente corridas, mesmo não vencendo, claro que o chassi da Red Bull ajuda pacas, mas mesmo assim o motor francês tem mostrado um bom fôlego. Será que a Honda vai entregar um motor afiado em 2019 para os taurinos? É melhor os japoneses botarem a barba de molho, pois se a língua do Alonso é afiada, não menos afiada é a de Christian Horner, Max Verstappen e a do Helmut Marko. Se a Honda não entregar um motor que não seja no mínimo melhor que o Renault a Honda vai sofrer na mão – ou na língua ´desses caras.

  13. Brabham-5 disse:

    Comparações com Senna até quando ERRA, “torcida brasileira” por ele…
    Sem NENHUMA pole na carreira, apenas 5 vitórias…
    “A salvação da F1″.
    Imaturo, NÃO TEM COMPORTAMENTO PROFISSIONAL COM NINGUÉM (da imprensa á direção da FIA, passando pelos companheiros de profissão e mecânicos) dentro e fora da pista.
    Mas como “tem muito talento”, toleram tudo, torcedor e imprensa,e ele vai achando que realmente pode tudo. (Como tem gente que não vale nada, né? Se o cara tem talento, sendo cafajeste, moleque, é até charmoso, “bonitinho”. “Rebelde”. Os fins justificam os meios).
    O fato é: Senna, Schumacher, Piquet, Alonso, Vettel, Hamilton já foram ‘tirar satisfações’ nos boxes com outros pilotos após uma corrida.
    Só que Max Verstappen, ATÉ AGORA, NÃO CONQUISTOU NADA.
    Mas se acha e tem muito bocó que também o acha um piloto mais e maior do que ele é.
    Ele que aproveite bem seus tempos de RBR na F1. Deveria ter aprendido a lição observando o que Alonso fez com a própria carreira na F1 por ser tão arrogante e péssimo de convívio.
    A diferença é que Alonso, quando começou a ser evitado, já tinha dois títulos pela Renault.
    E, vamos repetir, Verstappen NÃO CONQUISTOU NADA até agora. E o tempo vai passando…
    Ele que continue sendo “bad boy” mimadinho por mais uns anos SEM RESULTADO, e vai terminar como outro Romain Grosjean, outro “futuro campeão” que não foi.

  14. emerson disse:

    fico imaginando como a formula 1 esta tão sem emoção e previsível. vejo a Mercedes e Hamilton piloto e equipe constante e imbativel , a Ferrari é uma equipe sem um lider e Kimi ta saindo. e a Ferrari não contratou Ricardo que é um piloto completo so falta um carro a altura. Alonso vai fazer falta a formula 1 vide esses pilotos de videogame verstappen , Ocon, Leclerc e stroll. so fico triste por não ver um piloto brasileiro na F1. Felipe foi aposentado precocemente tinha muito a oferecer a categoria. vou deixar pra dizer que Hamilton vai fazer historia e provavelmente se não houver equilíbrio ele sai pra encerrar sua carreira na Ferrari e ser o maior piloto de todos os tempos. agora a equipe rede bull que n honrou o piloto ricardo e pior poderia contar com o alonso pra 2019 se n fosse tão arrogante em acreditar em um garoto de video game e não piloto de f1 verstappen . vai penar com o motor honda e pagar tudo qiue fez pra não coroar fernando alonso com o 3 titulo.

  15. Paulo Leite disse:

    Max pensou na hora: ‘Estou no país da justiça seletiva. Senador tucano foi pego com mala de dinheiro e não deu em nada. Presidente golpista foi pego com outra mala de dinheiro e não deu em nada. Ex-presidente foi pego com nada mas continua preso sem nenhuma prova. Juiz que julgou ex-presidente se junta ao inimigo do ex-presidente e não deu em nada. Piquet chutou Salazar e não deu em nada. Então, uns sopapos nesse francês petulante não dará em nada demais nessa terra sem lei’. Não deu !

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