N’ABU DHABI NÃO VAI NADA? (1) | Blog do Flavio Gomes | F1, Automobilismo e Esporte em geral
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sábado, 24 de novembro de 2018 - 14:34F-1

N’ABU DHABI NÃO VAI NADA? (1)

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RIO (algo em comum) – Esse carinho de Hamilton com seu carro é uma das coisas que me fazem admirá-lo profundamente, ainda que possa achá-lo meio exagerado às vezes em algumas coisas – um mix de Neymar e Senna, com o que de pior ambos possuem/possuíam, no gestual e no discurso.

Gostar de carros, tratá-los como gente, parece coisa de maluco. Talvez seja mesmo. Mas me identifico. Vivo falando com os meus. E com os três de corrida — o #96, Meianov e Bon Voyage –, conversava constantemente. Em geral, ao final de uma corrida ou treino, voltando para os boxes. Quase nunca durante uma volta pretensamente rápida, ou no meio de uma prova pretensamente espetacular. Sempre fui grato aos carros pelas alegrias que me dão. Pela liberdade que me oferecem. Pela lealdade que me entregam.

Carros, carros.

“Foi uma classificação muito emocionante para mim, porque foi a última com esse carro”, disse Lewis a Coulthard, mestre de cerimônias em Yas Marina. “Eu provavelmente sou mais próximo a este carro do que já fui a qualquer outro. Foi um privilégio trabalhar com ela este ano.”

Notem que Hamilton chama o W09 de “ela”. Nunca parei para pensar no gênero dos automóveis em inglês. A gente aprende que o idioma tem uma pessoa “neutra”, para “coisas”, o “it” — usa-se o “she/her” para feminino e o “he/him” para masculino. Em italiano, carro é sempre feminino: “la macchina”. Por isso, lá, todos os carros são tratados como garotas. Lembro com carinho do meu querido amigo Stefano Zaino, do “la Repubblica”, contando um episódio com “sua” Tipo durante um protesto contra a conferência do G8 em Gênova em 2001. Ele jura que seu Fiat Tipo branco apareceu em várias imagens na TV e em fotos nos jornais do mundo inteiro. Procurei aqui e não encontrei. Mas ele/a se salvou, em meio a muitos carros virados e incendiados. Zaino estava na redação do jornal, o pau comendo lá fora, quando se lembrou que tinha estacionado o Tipo na rua. Correu para a televisão e viu o pobre Fiat no meio dos conflitos entre manifestantes e policiais, fogo, bombas, cacetetes e fumaça por todos os lados. “Perdi minha Tipo!”, choramingou. No final do dia, quando a situação já tinha sido controlada, foi até o local onde o carro deveria estar e… estava! Intacto, nem chamuscado. Eu me mijava de rir com essa história, que cada vez que ele contava aumentava ainda mais.

Em português brasileiro, há um hibridismo nessa história automotiva. Referimo-nos aos carros, em geral, no masculino. “Meu” carro. “Meu” Opala. “Meu” DKW. “Meu Chevette”. Mas nossa inefável ideologia de gênero marxista-globalista separa “carros” de “peruas”. “Minha” Caravan. “Minha” Vemaguet. “Minha” Marajó. Não sei se nos será permitido seguir com essa pornografia a partir de 1º de janeiro. Tem que acabar com essa safadeza aí, tá ok? Esse Hamilton aí, tem que ver isso daí! É “o” W09 e ele chama de “ela”. É o quê? Transexual? Tem que ver isso daí, tá ok? Acabar com essa doutrinação, tá ok? Sexo é em casa com o papai e com a mamãe, tá ok?

Denúncias, por favor, façam diretamente ao novo ministro da Educação.

Em todo caso, registro aqui minha admiração pelo amor de Hamilton à sua menina prateada — Vettel também batiza seus carros com nomes de mulher. Coulthard perguntou a ele se iria levá-la para casa ao final do campeonato, e ele disse que era segredo. Depois brincou: “Não cabe no meu apartamento, ficará melhor no museu da Mercedes em Stuttgart. Poderei visitá-la quando quiser”.

Fico imaginando o que vai passar pela cabeça do pentacampeão mundial quando, daqui a alguns muitos anos, ele entrar nesse museu e reencontrar a moça, agora silenciosa e à vista de todos em sua intimidade. Um carro, costumo dizer, carrega dentro de si tudo que se passa dentro dele. Amores, namoros, casamentos, brigas, aflições, expectativas, tudo, tudo que acontece num carro fica registrado em suas entranhas, e é por isso que os respeito tanto — os de corrida potencializam tal sentimento; por isso quase choro quando vejo um carro de corrida abandonado.

Hamilton fez a pole para a última etapa do Mundial 2018 sem muita dificuldade, colocando 0s162 sobre Bottas, seu companheiro de equipe. É a quinta primeira fila seguida da Mercedes em Abu Dhabi, façanha inédita em qualquer circuito — nunca um time fez cinco primeiras filas consecutivas na mesma pista. Deve ganhar amanhã, partindo de um grid que mostra exatamente o que foi a temporada: Ferrari logo atrás, com Vettel e Raikkonen em terceiro e quarto, e Red Bull na sequência, Ricciardo em quinto e Verstappen em sexto. Grosjean, Leclerc, Ocon e Hülkenberg fecharam o grupo dos que foram ao Q3.

No balanço de poles do ano, foram 11 para Hamilton, cinco para Vettel, duas para Bottas e Ricciardo e uma para Raikkonen.

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Alonso, com uma câmera voltada para seu rosto que será a imagem que a Espanha verá neste fim de semana, ainda conseguiu o milagre de levar a deprimente McLaren ao Q2 e partirá de 15º em seu derradeiro GP. Só outro milagre para pontuar. Espero que pelo menos não quebre e consiga receber a bandeira quadriculada com todas as homenagens que merece — e que começaram com um churrasco no paddock, que deve ser seu melhor momento no fim de semana.

Fernando não conversará muito com seu carro, provavelmente. Talvez o afeto por ele se dê apenas por ter sido o último na categoria que o consagrou. De positivo, no ano da despedida, somente o fato de ter largado à frente de Vandoorne, seu companheiro, nos 21 GPs. Um massacre não muito importante, honraria inglória. Como diz o outro, não é nada, não é nada, não é nada mesmo.

Emoção deve haver amanhã, sim, na Red Bull. Daniel Ricciardo encerra sua longa convivência com o time que o adotou lá atrás, ainda na F-Renault Italiana, em 2007 — a escalada rumo à F-1 foi clássica, incluindo título na F-3 Inglesa em 2009 e um vice na World Series 3.5 da Renault em 2010, quando esse campeonato dividia prestígio com a GP2. Foi ele mesmo quem decidiu não renovar com a fábrica de energéticos, como contou num lindo depoimento ao “The Players’ Tribune” semana passada, em busca de uma nova aventura.

É de novas aventuras que se vive.

33 comentários

  1. Alfredinho disse:

    E pensar que um dia acreditamos que 65 poles era o limite do possível.

  2. Paulo Pinto disse:

    Eu tive a impressão que os espanhóis assistiram outro canal…

  3. Confederado Lee disse:

    BolsonariÂnus estão com um Ministro da Educação atravessado na garganta. Mas eu torço que tudo de certo, principalmente o Black Friday que vai iniciar. Precisamos pagar os banqueiros. Quanto a F1 o zerinho dos 3 campeões no final foi a imagem do ano. E também importante salientar como BOTTAS realmente foi sacrificado na MErcedes , em pró do ano brilhante de HAmilton, assim até minha avó né o HAmilton. Coitado do Bottas ficou atras do RAikonen na geral. Bottas é excelente piloto, quem assiste f1 a um bom tempo sabe disso. Esse foi o verdadeiro “empregado do ano”. Até o Raikonen fez das suas rebeldias. Pobre BOttas.

  4. Caco Brandenburg disse:

    Fala em “acabar com essa doutrinação”, mas passa 6 anos usando o termo PRESIDENTA… Vai entender…

  5. CRSJ disse:

    Pode ter jogo de equipe com a Mercedes presenteando o Bottas com uma vitória.

  6. Cayo disse:

    Mais um texto maravilhoso do Flavio para a galeria. Parabéns

  7. João Paulo Toledo Piza disse:

    O título já vale um comentário , #nabunadanãovaidinha kk abs

  8. Coyote disse:

    Deixe-me dar uma incrementada nisso daí.
    ““Minha” Caravan. “Minha” Vemaguet. “Minha” Marajó””, minha Defender (Land Rover, Defender 90, 110 ou 130)…. A minha 110 é a Catarina Papa Léguas e eu o Coyote. Entendeu agoram né? Então talquei (é assim que se escreve)?
    Em francês temos La voiture, quero dizer, é feminino tbm.
    Abç.

  9. Marmelada-44 disse:

    É a última e grande oportunidade de Hamilton devolver a vitória roubada na Rússia ao seu escudeiro. E não tem desculpa, já que ambos largam na primeira fila.
    Detalhe: Bottas, dentre os pilotos das três grandes equipes, foi o único que não venceu este ano.

  10. Adriano Francisco dos Reis disse:

    Até quando suportaremos esta pista medíocre no calendário? A tragédia do Autódromo de Abu Dhabi não é ter um traçado ruim… é ter um traçado ruim feito co rios intermináveis de dinheiro à disposição!

    • Comentarista Crítico disse:

      A FIA tem que tirar Mônaco e Abu Dhabi da F1. São as piores pistas da F1 atualmente. Mônaco pela absoluta falta de velocidade. E Abu Dhabi pelas curvas todas de 90°. Além de serem as duas pistas com menos ultrapassagem. No lugar de Mônaco poderiam voltar com Ímola ou Portugal na montanha russa de Portimão. E no lugar de Abu Dhabi colocavam Dubai que tem um ótimo traçado sem curvas tilkanizadas. Rússia também é outra corrida que poderia sair.

  11. Hanri Marcell disse:

    Flavião, tudo bem?
    Não precisa publicar se não quiser, mas apenas para sanar a sua dúvida, moro nos EUA e é muito comum, embora não seja uma regra gramatical, os homens usarem a expressão “she” para o carro ao passo que as mulheres se referem ao mesmo como “it”. Um homem ao elogiar o seu carro ou de outra pessoa normalmente usa a expressão “She is beautiful”. O mesmo se extende, por exemplo, ao trato dado pelos presidentes americanos e sua equipe ao Força Aérea Um (avião presidencial). Eles usam a expressam “She is waiting” para dizer que o avião está pronto e aguardando o presidente, ou pouso, ou decolagem.

  12. Fernando disse:

    Quem diz “não é nada mesmo”? Estou torcendo por uma vitória do Bottas pra fechar o ano

  13. Zé Maria disse:

    Flavio, tudo bem!
    Como você mesmo os citou, permita-me uma pergunta:
    Sua trajetória nas pistas está definitivamente encerrada?
    Abraço.
    Zé Maria

  14. Eduardo_SC disse:

    Realmente, é um misto de frivolidade e paixão.

  15. Valter disse:

    Alonso vai, Lecrerc chega.

  16. carllos disse:

    Ótimo texto. Leitura excelente. O leitor agradece. Bravo!

  17. Comentarista Crítico disse:

    E Abu Dhabi já era pra ter saído há muito tempo da F1. Pista boa do Oriente Médio é o Autódromo de Dubai. Se participasse da F1 seria a melhor pista asiática depois de Suzuka. Deveria ser o GP dos Sheiks pois é bem melhor que esse lixo de Abu Dhabi.
    https://m.youtube.com/watch?v=rXFugghmHzo

  18. Comentarista Crítico disse:

    Pqp, que bosta! Vai dar pra devolver a vitória ao capacho mor

  19. Edgard disse:

    Confesso que pensei o mesmo do primeiro parágrafo, no superlativo emocional fake lacrimoso inventado…no mais, perfeito!!!

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