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domingo, 17 de janeiro de 2010 - 2:19Rádio Blog

EU FUI

SÃO PAULO (nothing really matters) – Então foi assim. 1984, começo, talvez meio do ano. Compramos ingressos para o Rock in Rio. É bom que se explique. Comprava-se por telefone, creio. Não. Posso estar redondamente enganado, mas não era por telefone, não. Era uma agência do Banco Nacional na rua Domingos de Morais. Uma agência que se parecia com os boxes de Jacarepaguá. Será que estou sonhando?

Eu tinha talão de cheque, já. Do Bamerindus. Minha primeira conta. Bamerindus, agência em São Caetano do Sul, ao lado de um dos portões da GM. Eu era loucamente apaixonado pela moça do caixa. Ela tinha olhos verdes e cabelos lisos castanhos. Pele morena, talvez dourada. Sempre pegava a mesma fila. Minha primeira conta bancária. 19 anos de idade. O primeiro cheque eu passei na rua. Perto do Mercado Municipal. Um cara vendia guias de ruas de São Paulo. Estacionei o carro e fiz o cheque no capô do meu Gol LS. Disso eu lembro bem. Do primeiro cheque.

Ela era linda, a moça do caixa. Só a via da cintura para cima, atrás da máquina de autenticar. Aí descobri que se ela fosse ao fichário consultar minha assinatura, ficaria de pé. E a via de costas. Às vezes, de calça branca. Linda. Descontava meus próprios cheques para vê-la de pé.

Casei-me com ela várias vezes, ao me deitar. Imaginava uma pequena casa geminada, talvez lá mesmo no ABC, onde ela devia morar. Ela devia ter um nome no crachá. Disso não me lembro.

1984. Eu estava na faculdade e tinha 20 anos. Rock in Rio. Vamos? Vamos. Juntei o dinheiro do salário que ganhava do meu pai por tocar a empresa de água mineral na rua Piauí. Odiava aquilo. De noite, fazia faculdade. De tarde, escrevia para um jornal. Saía de São Caetano para a faculdade, passava no jornal, no Centro, e chegava atrasado às aulas, carregando laudas que comprovavam meu sucesso como jornalista. Não ganhava nada no jornal.

Vamos? Vamos. Compramos os ingressos. Sim, foi na agência do Banco Nacional. Acho que foi. Venha buscar em não-sei-quantos dias. Fui buscar no dia que sabia quantos eram. Vieram num envelope. Eu já trabalhava, não podia ir a todos os shows. Os três primeiros dias e os três últimos. Algo assim.

No envelope, um adesivo. EU VOU. Colei no vidro do Gol, que tinha também um escudo do meu time e um adesivo da rádio Cidade, prateado. 96,9. Era a rádio que eu escutava no meu Rio de Janeiro com equalizador Tojo.

EU VOU. Motivo de enorme orgulho, porque ia mesmo. Aí, no fim do ano, comecei a namorar. Ela não queria que eu fosse, mas fui. Eu sou assim, faço muitas coisas que não querem que eu faça.

Fomos numa Caravan, rebocando duas motos. Uma DT 180 e uma CG 125, esta do meu tio. Ficamos em Ipanema, no apartamento da tia de um de nós. Éramos quatro, duas motos. Eu dirigia uma, com um de nós na garupa.

Não tínhamos grana. Mas tínhamos cheques. Os meus, do Bamerindus. Os de um de nós, do Banco Real. Passávamos cheques. Comprávamos camisetas, Malt 90 e Bob’s burgers. Deitávamos na lama para ouvir quem estivesse lá.

Éramos 300 mil no primeiro dia, disseram. 300 mil. Puta que pariu. 300 mil. Na lama, tomando Malt 90. Ney Matogrosso abriu o festival. Nosso Woodstock. Vaias. Ele nem aí, quase nu, abrindo os braços para a multidão. Havia metaleiros por todos os lados, porque era noite também de Whitesnake e Iron Maiden. Mas antes teve Erasmo Carlos, Pepeu Gomes e Baby Consuelo. Quem mais imaginaria juntar Baby Consuelo e Iron Maiden na mesma noite? Eu olhava tudo encantado, como se não fizesse parte daquilo tudo. Nunca me senti fazendo parte de nada. É assim até hoje. Não sou parte de nada para ninguém.

E para fechar, Queen. Quando veio “Love of my Life”, eu já tinha me perdido dos outros. E por alguma razão, fiquei chorando na chuva e na lama. Eu só tinha 20 anos e era eu quem estava cantando, ninguém mais, para 300 mil pessoas.

Minhas lembranças são muito dispersas. Acho que vi James Taylor e Rod Stewart. B52s, com certeza, Blitz também. E Paralamas, quem são esses caras? Um deles usava óculos, era tímido, mas cantava pra caralho. Lembro de Scorpions e de Yes, fechando o festival. Eu tinha uma mochila azul emborrachada. No último dia, comprei um adesivo escrito EU FUI.

11 a 20 de janeiro de 1985, foram os dez dias do Rock in Rio. Acho que estive em seis deles. Tivemos de voltar no meio da semana para trabalhar, éramos todos rapazes responsáveis, que bebiam muito, mas não fumavam maconha, nem cheiravam cocaína. Éramos medrosos e caipiras. Eu era um garoto de 20 anos que nada sabia de nada. Mas que chorou ao ouvir “Love of my Life”. Talvez eu soubesse de tudo.

Quando eu era pequeno, perguntei ao professor de religião quantos anos a gente iria viver. Ele disse que 100 anos. Era mentira, poucos vivem 100 anos, mas me fiei no mestre e 100 anos passou a ser minha ideia de vida. Daquele Rock in Rio, passaram-se 25, um quarto. Some-se os 20 que tinha, estou quase na metade, e é claro que não chegarei aos 100 anos, em que pese a convicção do professor de religião, assim já se foi a metade, ou mais.

Não contei para a menina do caixa do Bamerindus que a amava e que queria viver com ela numa casinha geminada. Acho que não fiz grande coisa até agora.

135 comentários

  1. Fábio disse:

    Flavio, de 1984 pra cá já foram 35 anos! Já passou da metade, infelizmente…

  2. Eduardo disse:

    Você pode discordar de muitas coisas do que o FG diz, mas definitivamente não da maneira como escreve. Mais uma vez, belo texto!
    A minha geração ficou entre os Hollywood Rocks e o RiR de 2001, o que, convenhamos, estava a anos-luz deste primeiro. Como sou um cara fora do tempo-espaço, quis ir em 2001 apenas para ver Neil Young, mas não fui.
    Os tempos são outros, mas a essência transgressora e rebelde (deve) estar sempre lá, e, a cada geração, isso se perde um pouco: nada contra Fergie, Ivete ou seja lá quem for, mas o mundo hoje é pálido, inerte, de jovens em um show com as mãos para cima, filmando e fotografando, esperando que os iClouds registrem a sensação que o Flavio descreveu, da lembrança de estar cantando “Love of My Life” “sozinho”…

  3. Fábio Fernandes disse:

    Flavio, a agência está lá, só mudou para HSBC. E me lembro dessa empresa de água, morei 10 anos na rua Piauí! Saudade danada…

  4. Luciano M disse:

    Mais um texto memorável deste monstro (?) que é o Flavio Gomes ! Dar os parabéns, na minha opinião, é algo meramente decorativo, já que todos os seus textos são no mínimo excelentes. Mas assim mesmo não posso deixar de dar os meus parabéns por mais essa obra prima ! Que puta relato ! Em 1985 eu tinha 10 anos, e foi o ano em que o mundo acabou (pelo menos para mim). Foi meu Armagedon. O ano em que os céus caíram sobre minha cabeça. O ano em que eu soube que as coisas nunca mais seriam como antes. O ano em que perdi minha mãe. Mas ler um texto como esse, em que vc fala da moça de olhos verdes da agência do Bamerindus perto da GM (pertinho lá de casa), e do São Francisco com equalizador TOJO !!!! Ler coisas assim faz tudo valer a pena ! Mais uma vez parabéns e, por favor, continue nos encantando com essas escritas, e com sua autenticidade e sinceridade ! Emocionante !

  5. Rafael Rodrigues disse:

    FG, sabia que Brian May é PhD em Astronomia? O cara é gênio em tudo!!

  6. Hugo disse:

    Pô, eu também ouvia uma Rádio Cidade aqui em Brasília com essa mesma sintonia, devia ser a mesma que só toca o bom e velho rock and roll.
    Malt 90? Já que era no Rio bem que podia ser Bhrama…

  7. JanineJ. Inocente disse:

    Texto maravilhoso! Fiquei emocionada.

  8. Luc Monteiro disse:

    É por essas e outras que eu sou fã desse sujeito. Lindo texto.

  9. Ricardo Pla disse:

    Esse post é uma poesia, principalmente para quem viveu aquela época. O Flavio mostra que é uma daquelas pessoas que guarda as emoções mais fortes sem deixar que o tempo as faça desaparecer, pois elas são o que levamos desta vida.

  10. Marcelo Larsen disse:

    Caro amigo, tocasse nuns temas que todos nós gostamos de lembrar: Carros garotas e musica.
    Quando lí seu texto, lembrei do meu Fiat 147 82, que tive em 1996, das garotas da época e dos shows do U2 no Brasil que nunca fui.
    Cada um na sua época, mas todos gostamos das mesmas coisas: carros, mulheres e rock.

  11. Mais um!!!!
    Mais um texto para comentar, ótimo!!!
    O pior é que temos quase a mesma idade e passamos e curtimos coisas muito parecidas, Também “Fui”, Malte 90…também adorava ir ao banco por uma morena de olhos verdes…
    não lembro onde emiti o meu primeiro cheque,
    foi a alguma festa no Morro da Lua ou aos showsde rock no Pq Aclimaçâo?
    Abs

  12. Filipe disse:

    Eu enquanto Português sou um previlegiado.
    Fui ao Rock In Rio em 2004, 2006 e 2008.
    Ja tenho tambem bilhete para o Rock in Rio 2010 (em Lisboa, claro).

  13. Christian J. Miola disse:

    FANTÁSTICO esse post!!!

    E eu assisti o ROCK IN RIO II pela TV hehehehehe

    O primeiro acho que só por noticiários pela TV, afinal nao foi ao vivo.

  14. Jakob disse:

    Excelente post.

    Essa agencia do Nacional na Domingos de Moraes ainda existe. Hoje e unibanco. Mas ainda tem os arcos que a fazem parecer com os boxes de jacarepagua…..

    abs

  15. Juvenal Jorge disse:

    Demais Flávio, muito bom mesmo.
    Onde estará a moça do caixa ?

  16. Claudio Luiz disse:

    Eu achei muito legal sua história…., tbm me remete …, aquela época…, nos qual eramos mais responsaveis…, Brother continue escrevendo assim…., VC escreve muito bem, devia por mais seus textos ….,
    Valeu
    Claudio Luiz

  17. Victor Rodrigues disse:

    Adoro ler as suas histórias Flávio. A sua melancolia, timidez e espirito impulsivo muito me lembrar Bukowski e até a mim mesmo. Também me causa dúvida a sua vida particular. Fico feliz toda vez que consigo descobrir algo seu. Aquele Marlboro Vermelho no “porta trecos” do Gerd, por exemplo. Foi bacana descobrir que tu fuma, sei lá, conexões que criamos com pessoas totalmente alheias a nossas vidas, unidas por coisas em comum.

    Você me responderia se é casado ou tem filhos? Sempre tive essa curiosidade, a sua rebeldia e liberdade me causam estranhamento, num mundo jornalistico onde todos jornalistas parecem correr na Redação pra voltar para suas esposas.

    Um sincero abraço.

  18. Acarloz disse:

    EU FUI, e vi o James Taylor, um ícone pra mim até hoje. . .

  19. Pacheco disse:

    Belo texto. O blogueiro oficial deveria largar mão de escrever sobre F-1, já que, do ponto de vista humano, ela é, mesmo, uma perda de tempo.

  20. Rodrigo Meira - Niterói RJ disse:

    AMPLIFICADOR TOJO: EU AINDA TENHO UM DO MEU PAI…

  21. Ron disse:

    Grande texto!
    Acho que todo mundo conseguiu se “transportar” para essa sua experiência.
    Parabéns.
    PS. A essa hora deve ter um monte de marmanjos indo algum banco para ver se acha uma caixa bonita e tem uma chance com ela.

  22. Rodrigo Meira - Niterói RJ disse:

    Com minha idade, fui ao Rock In Rio 3 em 2001.

    Consegui acompanhar, Foo Fighters, R.E.M, Guns (com direito a assistir o velho AXL “Baleia” Rose), Oasis e Red Hot Chilli Pepers.

    Fui no sábado, 13/01, domingo, 14/01 e no último dia, domingo, 21/01.

    Show de bola.

    Roupas imundas de lama, várias tendas com diversos estilos musicais… Muita gente… Muito calor.

    E o melhor: Acho que cada ingresso custou R$ 35,00.

    Hoje, qualquer show internacional custa, nio básico, R$ 150 pratas.

  23. Rogerio disse:

    Parabéns FG
    Todos os dias eu vejo os seus textos e hoje pela primeira vez me emocionei. Afinal, eu também tinha 19 anos, estava no primeiro emprego, duro e EU FUI. Fui nas 10 noites e assisti 60 shows.
    Bons tempos.

  24. heraclito disse:

    Eu olho esse site todo dia, na maioria das vezes tem uma fotos legais de uns carros velhos que eu adoro (tenho 4 carrinhos velhos), e umas noticias completamente desiteressantes para mim, mas de vez em quando, aparecem uns textos geniais, vai escrever bem assim lá na casa do caralho.

    A propósito bem que vc poderia dar uma notinha lembrando que seu time enfiou uma sacolada em um timinho de patricinhos ontem né.

    um abraço.

  25. Felipe disse:

    Parabéns, Gomes.
    Excelente.

    E, pqp, eu morei 26 dos meus 31 anos na Rua Piauí (ou muito perto dela). Que mundo pequeno.

    Abraços.

  26. Fabiano disse:

    Porra FG, Coisa linda Rio de Janeiro + Tojo !!!

    Eu cheguei só no Miami IV + Tojo… 4 canais !!! hehehehe

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