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sexta-feira, 29 de abril de 2011 - 10:23Diários de viagem

MINHA LONDRES

SÃO PAULO (preciso voltar) – Vendo hoje as imagens do casamento de William e Kate, e acho o maior barato essas coisas, lembrei da última vez que estive em Londres, no dia dos atentados de julho de 2005. Aí escrevi umas bobagens. Errei até o número de soldadinhos de chumbo. Fui descobrir quando os tirei da caixa de sapatos. Se interessar a alguém, aí vai…

London, London

As lembranças.

Dois soldadinhos de chumbo, um com aquele chapéu enorme, o outro da guarda de honra da rainha. Restam numa caixa de sapatos.

Uma tarde de verão de 1989, a chuva que para, o sol que aparece fugidio, é o tempo de bater o retrato, que fica lindo, ela de capa num pequeno jardim que nunca mais vou saber onde é, a luz dourada, o sorriso largo, os braços abertos, a foto de que mais gosto.

O sinal para o ônibus em Hyde Park, o passeio no andar de cima, comendo sanduíche e tomando coca-cola, sem destino, Abbey Road, nem sei se era mesmo, ficou sendo.

O jantar no restaurante indiano, a pimenta ardida, o chefe que virou amigo e nunca mais vi, o banho de banheira, as malas entupindo a salinha pequena a visita à BBC que eu ouvia em ondas curtas.

O barco com nome de uísque, a linha do tempo, da hora certa, dos dias certos.

E é tudo que guardo de bom desta cidade, porque depois, quando voltei, e foram muitas vezes, sempre a encontrei fria, opressiva, cor de chumbo.

Nunca mais morri de amores por ela, fui-me distanciando, porque acho que nunca fui capaz de vê-la como o bardo que ao cruzar suas ruas sem medo, notar o verde de sua grama, o azul de seus olhos, o cinza do seu céu, a dor e a felicidade silenciosas de sua gente, disso tudo tirou versos e fez música.

Então a sangram, não mais será possível andar por ela sozinho sem sentir medo, e a vida vai aos poucos roubando nossa inocência e enterrando meus soldadinhos de chumbo e minha foto dourada.

Na madrugada fria rodo por ela, aqui e ali uma sirene, lá embaixo ainda há fumaça, destroços e carne, mas como só sei, e não vejo, vejo sim como ainda é bela aqui em cima, cruzando o rio e acertando o relógio, e como as madrugadas são sempre silenciosas é possível olhar para ela com outros olhos, o cinza desaparece, as luzes amarelas lhe dão uma estranha tonalidade, pequenos sóis que só surgem de noite e iluminam pouco, o bastante para sentir ternura.

Na desgraça a ternura volta, comigo é assim, mas é algo que não dá para explicar. Não é pena, não é dó, não é compaixão, não é nada disso, é apenas ternura por um lugar onde há séculos tirei uma fotografia e subi no segundo andar do ônibus vermelho, magrelo, cambaleante e divertido, barulhento e encardido, eu e o ônibus.

Londres, Londres, não somos mais os mesmos.

19 comentários

  1. Leonardo Araújo disse:

    Mais um belo texto, FG.Especialmente sua honestidade em mostrar, ao mesmo tempo, a proximidade e a distância com o atentado.

  2. Nuno disse:

    Parabéns, belíssimo texto, eu e minha esposa demos muita risadas juntos, pois também fomos jantar em um restaurante indiano, porém no dia seguinte minha esposa teve um pequeno problema intestinal kkk conheceu todos os banheiros públicos de Londres…voltando ao seu texto realmente muito bom!!

  3. marcio riva disse:

    Ótimo texto, pura poesia. Parabéns

  4. Oldair disse:

    Quase sem palavras;Já li este texto cinco vezes…as outras foram em dias diferentes e;cada vez me surpreende(se escreve assim?) Muito bom!!!!!!!!!!!

  5. marcio ximenes lopes disse:

    Puta que pariu. Vai escrever bem lá longe. Me empolgo com seus textos. Voce deveria publicar mais vezes . Quem sabe, com isso, ilustrar um pouco mais a cabeça de tantos que mal sabem ler. Por falta de bons textos , talvez.
    Mais uma vez parabens pela cronica.

  6. Danilo Candido disse:

    Muito legal também este Auto Union, provavelmenrte um Typ C escala 1/18 da CMC, à direita na foto. Bela pecinha, hein Flávio ?

  7. pedro no ar da CPI disse:

    correção Aston Martin DB6 MARK II 1969

  8. pedro no ar da CPI disse:

    Caro FG
    Uma das melhores coisas do casamento foi o Aston Martin BB6 MARK II 1969 azul perfeito, que proporcionou a saída triunfal dos noivos para “mudarem de roupa”, que papai Charles emprestou pro filhinho recém casado. Vc não gostaria de ter um desses? Eu tive momentos de príncipe a bordo do meu Puma GTS spyder descendo a Av. Niemeyer no fim da tarde, de óculos escuros, capota baixada ouvindo América, já me sentia o dono do mundo, com uma gatinha plebéia carioca ao lado, imagine naquele carro e neto da rainha? rs
    FG não faça um post sobre o automóvel acima mencionado, sei que vc não gosta de modelos conversíveis que só servem para esfriar a cabeça. Por favor, mesmo que ajam muitos pedidos, sou frontalmente contra… rs

  9. ivo disse:

    Flavio, achei o casamento um saco.
    O que salvou um pouco foi aquele Aston Martin no final…ae tá certo!!!
    abç

  10. Ralph Spegel disse:

    Comento raríssimas vezes em blogs. Mas esse seu texto foi arrasador para uma sexta feira. Parabéns pela dialética!

  11. Plow King disse:

    Nossa, esse texto parece que foi o Bial quem o escreveu. Que desgraca ter que reler coisas que escrevemos……

  12. oscar disse:

    Não custa falar também do desfile de carrinhos, coroado pelo Aston DB 6 que o principe saiu dirigindo, acompanhado pelo avião no banco da esquerda. Merecia ter a foto postada aqui, não?

  13. Rodrigo Garcia disse:

    huuum, me chamou mais a atenção a grade de um modelo ali na direita da foto.. seria uma baratinha?? qual modelo fg??

  14. Ricardo Bigliazzi disse:

    Esses ingleses são o máximo mesmo… um povo recheado de tradições.

    Acredito que deve ser dificil pacas se formar em “Historia” na Inglaterra… o curso deve durar bem uns trinta anos… rs rs rs!!!

    Além das tradições admiraveis o que admiravel é o seu espirito guerreiro… que o digam os nossos Hermanos Argentinos… rs rs rs!!!

    Abraços

    Imperador

  15. Silvio Viana disse:

    FG, chego a rir dos esquerdopatas que dizem ser esse tipo de transmissão – falo do casamento real – como razão da pasmaceira do povo Brasil. Isso é entretenimento, diversão, não chega a ser pão e circo. É como dizer que são tolos os que vão assistir a troca de guarda.
    A propósito, adorava meu forte apache que as mudanças dispersaram… ou os brancos exterminaram meus sioux?

  16. José Brabham disse:

    Green grass, blue eyes, gray skies, God bless… silent pain and happiness….

    Quantas vezes cantarolei baixinho esses versos andando sozinho pelas ruas de Londres.

    Também nunca fui muito fã da capital inglesa… ela nunca “entrou muito” em minha cabeça. Nunca sei se a Torre de Londres fica na margem norte ou sul, ou se Saint Paul´s fica a montante ou a jusante do Parlamento.

    Paris é mais fácil

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