25 DE ABRIL LÁ E CÁ

SÃO PAULO(linda) – Meia-noite e vinte, e a rádio católica Renascença toca a senha. A segunda, na verdade. Pouco antes das onze da noite, em outra emissora lisboeta, a primeira senha, também musical, foi ao ar. Uma, no dia 24. A outra, nos primeiros minutos do dia 25 de abril de 1974, 40 anos atrás.

E assim um golpe militar destituía do governo o sucessor de António Salazar, que morrera quatro anos antes depois de tomar um tombo de uma cadeira. Salazar instituíra uma ditadura ultraconservadora, o Estado Novo, em 1933 — quando se tornou presidente do Conselho de Ministros de Portugal. Ficou no poder até 1968, quando caiu da cadeira. Bateu a cabeça, sofreu lesões cerebrais e ficou tchola. Marcello Caetano assumiu, mas Salazar, até a morte, achou que era ele que mandava, ainda. Nunca lhe contaram a verdade.

De 1933 a 1968, foram 35 anos no poder. Até 1974, 41 anos de ditadura salazarista num país tristonho e cinzento, incapaz de reagir à violência da PIDE, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, que prendia e soltava, batia e matava, censurava e oprimia qualquer sinal de oposição. Era ela que sustentava, na porrada, o fascismo de Salazar. Portugal demorou para reagir.

E só o fez porque os militares já não aguentavam mais as guerras de independência na África, que deslocaram mais de 1% da população do país para colônias como Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau. Eram 100 mil soldados e oficiais tentando evitar o inevitável, naqueles anos em que vários países europeus se viam às voltas com movimentos revoltosos em suas colônias. Comparando, é como se hoje o Brasil mantivesse um exército de dois milhões de soldados lutando em países distantes. Economia de país algum sobreviveria a isso. Menos ainda se fosse este um país pequeno e pobre, como Portugal.

A ditadura militar brasileira foi derrubada por civis, embora nenhuma revolução tenha acontecido por aqui. Lá, os militares derrubaram o ditador civil. E, depois, aos trancos e barrancos, instalaram uma democracia que se encarregou de colocar as coisas nos seus devidos lugares. A Revolução dos Cravos foi detonada por duas canções, “E depois do adeus”, na noite do dia 24, e “Grândola, Vila Morena”, à 0h20 do dia 25.

É pueril, mas foi assim. Quando a primeira música tocasse pelos Emissores Associados de Lisboa, as tropas deveriam tomar posição; na hora em “Grândola” fosse executada no programa “Limite”, da Renascença, a ordem era tomar o poder. O golpe foi organizado pelo MFA, o Movimento das Forças Armadas, que não disparou um tiro sequer. A população distribuiu cravos vermelhos para os soldados, que colocaram as flores nos canos de seus fuzis.

Nada pode ser mais bonito e poético.

Aqui, dez anos depois, em 25 de abril de 1984, a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada no Congresso cercado pelos militares porque os deputados covardes da velha Arena, então PDS, ou votaram contra, ou não foram votar. As Diretas-Já não passaram e Tancredo Neves só seria eleito indiretamente pelo mesmo Congresso no ano seguinte. Há quem diga que o matreiro político mineiro até achou melhor que fosse assim. Seria mais fácil ganhar do candidato da situação, Paulo Maluf. Os militares já estavam mesmo tirando o time de campo, a ditadura tinha caído de podre. Tivemos de esperar até 1989 para votar para presidente de novo, 28 anos depois da última eleição direta no país, que colocou o doido Jânio Quadros no Planalto. O resto, como se diz, é história.

“Grândola, Vila Morena” virou um hino à liberdade. Tivemos os nossos, também — “O bêbado e o equilibrista” é o que me ocorre agora. Mas não sei se eles falam tanto ao coração dos brasileiros quanto toca o coração lusitano a canção de Zeca Afonso, que naquela madrugada do dia 25 de abril de 1974 fez Portugal sair das sombras.

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