MARCO CAMPOS, 20

M

SÃO PAULO – Hoje faz 20 anos do acidente que levou à morte de Marco Campos, lembra o Alessandro Neri, que enviou a compilação de vídeos abaixo. Marco corria pela Draco e estava em sua primeira temporada na F-3000. Era a última volta da última prova do ano, em Magny-Cours, e ele tentou uma ultrapassagem na disputa pela nona posição — que não dava pontos. O toque roda com roda com o italiano Thomas Biagi fez seu carro decolar, bater no muro que separava as duas retas ligadas pela curva Adelaide, virar de cabeça para baixo e, quando aterrissou, o capacete de Marco se chocou violentamente na mesma mureta.

Não havia como sobreviver. Ele foi levado a Paris e sua morte foi constatada dois dias depois.

Paranaense de Curitiba, vitorioso no kart, Marco foi para a Europa correr a F-Opel pela mesma Draco, de Adriano Morini, em 1994. Morini era uma espécie de pai de pilotos brasileiros. Passaram por suas mãos em algum momento, como lembra aqui o bravo Felipe Giacomelli, Rubens Barrichello, Felipe Massa, Augusto Farfus, Ricardo Zonta, Bruno Junqueira, Gualter Salles, Djalma Fogaça, Rodrigo Sperafico, Leonardo Nienkotter, Wagner Ebrahim, Ricardo Teodosio, Luiz Fernando Uva, Alberto Jacobsen, Paulo Garcia, Eduardo Merhy Neto, Alexandre de Andrade e Sergio Paese, além de Marco.

Morini deixou as corridas no fim de 2010. A Draco encerrou suas atividades em 2011.

A temporada de Marco na F-3000 (há um relato detalhado aqui) não foi das mais brilhantes. Depois de ganhar o título da F-Opel, a ideia era correr na F-3. Mas apareceu um Lola de F-3000 na Draco, ele testou, foi bem, e Morini resolveu apostar no salto para a categoria — então, o último degrau antes da F-1.

O equipamento não era dos melhores, mas mesmo assim Marco conseguiu um ou outro resultado interessante. Seria importante, no ano seguinte, fazer uma segunda temporada num time de ponta e, aí sim, o caminho para a F-1 estaria pavimentado. Isso porque, naqueles tempos, o pessoal do andar de cima olhava com muita atenção para o andar de baixo. As provas preliminares da F-1 eram um verdadeiro celeiro de talentos. Todo mundo chegava mais cedo aos autódromos para ver de perto a molecada.

E Marco impressionava. Na F-Opel, fez corridas extraordinárias sem conhecer pista alguma, sem falar uma palavra em inglês ou italiano — a língua de sua família adotiva da Draco –, sem experiência alguma com carros, já que tinha vindo direto do kart.

Sua morte aconteceu um ano e meio depois da de Senna, traumatizando ainda mais o automobilismo brasileiro. Marco Campos foi o piloto brasileiro que mais me impressionou em categorias de base. Eu era um desses que ficava pendurado na mureta para vê-lo correr nas provas de apoio dos GPs. Manino tímido, virava bicho quando colocava o capacete. Tinha um futuro esplendoroso pela frente.

Seu irmão Julio corre hoje na Stock Car e usa um capacete igual ao de Marco. Já venceu na categoria e atualmente está em oitavo na classificação. Apesar da tragédia de 1995, a família seguiu nas pistas, mantendo viva a paixão do garoto brasileiro mais talentoso que vi depois de Senna.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

17 Comentários

  • Viajamos juntos para fazer um teste na Draco em 93 (junto com o Ricardo Tedeschi) e ele realmente impressionou e ficou com a vaga. O Marquinho era engraçado e quase deixou o Ricardo louco de tanto aprontar na viagem. Pra se ter uma ideia, ganhamos da compania aérea uma estadia no hotel 5 estrelas do aeroporto de Frankfurt devido ao mau tempo, e ele conseguiu acionar o alarme de incendio do quarto! Foi um corre-corre, alarme tocando, policia batendo na porta, e o coitado do Ricardo tentando explicar que foi um engano…
    Sobre o acidente, foi realmente chocante e um golpe duro pra mim, que estava ainda em uma cadeira de rodas, todo estrupiado, por causa de um acidente um mes antes. Viviamos ainda o trauma do Senna e meus pais não queriam nem um pouco que eu voltasse a correr.
    Época sombria…

  • Talvez, estou colocando talvez, essa seria uma morte evitada pelo cokcpit fechado, muito embora à essa época não se discutia esse tema ainda.
    Há, e não q eu defenda o fechamento do cokcpit, masssssssss…

  • Fico feliz em saber que você, que manja muito mais do riscado, pensava a mesma coisa a respeito dele.

    Depois da morte do Ayrton, os únicos caras que eu imaginava chegarem perto dele eram o Marco Campos e o Danilo Dirani, que na prática nunca saiu do kart.

  • Eu convivi com o Marquinho durante alguns anos de infância, fomos bastante próximos e nossas famílias tinham algum convívio social.
    Uma passagem que me marcou aconteceu em meio à uma gincana que organizaram em nosso condomínio. Houve uma atividade, na qual os nossos pais competiram em duplas. Eram vários casais competindo num jogo que lembrava aqueles circuitos de ginastica que fazíamos nas aulas de educação física. Até onde me recordo, e eu devia ter uns 7-8 anos naquela época, uns 15 casais devem ter competido. Meus pais ficaram em segundo lugar e os pais do Marquinho foram os ganhadores. Eu escutei piadinhas sobre a minha derrota familiar por diversas semanas…
    Esse era bem o espírito dele. Um carinha super competitivo desde criança! Jamais aceitava perder, seja nas brincadeiras de pega-pega ou nas corridas de bicicleta.
    Meu pai era kartista amador e eu frequentava com ele o kartódromo de pinhais nos finais de semana. E não demorou muito para o pai do Marquinhos, um grande empresário de curitiba, se interessar pela brincadeira e com isso começava a historia de um grande talento do automobilismo.
    Eu não acompanhei de perto esta trajetória, nossos caminhos se separam, mas o dia que soube da noticia de sua morte, depois de aproximadamente uma década sem contato, tive aquele profundo sentimento de perda, do meu amigo de infância, que levava consigo parte destas maravilhosas memórias de um passado, como vc bem diz, que passou e jamais será novamente.
    Depois disso, eu sempre vejo nos grandes pilotos que despontaram nas principais categorias mundo afora, as mesmas características pessoais que o Marquinho demonstrava em nossas brincadeiras de rua e no seu jeito de ser.
    Um cara extremamente competitivo, tremendamente provocador e, de certa forma, até bastante egoísta, que somado à uma estrutura familiar, financeira, mas acima de tudo social e psicológica, permitiram que ele tivesse tido esta chance que muitos de nós, amantes do automobilismo, também sonhamos um dia poder ter vivido.
    Imagino que a perda para a família deve ter sido devastadora mas também tenho certeza que o Marquinho seguiu muito presente na memória de todos e seguramente serviu de incentivo para o Julio seguir com sua carreira.

  • Na época em que ele começou no kart eu fazia a cronometragem das provas em São Jose dos Pinhais. Contemporâneo de outros curitibanos famosos (Bernoldi e Tarso ), mas com muito menos recursos financeiros, sempre mostrou um arrojo e técnica que indicavam que chegaria longe no automobilismo. Seu acidente encurtou uma provável grande carreira.

  • Corri com ele de kart num brasileiro em Anápolis em 93. Com sessenta karts inscritos largaram só 40. A nata do kartismo brasileiro na época. Ele foi campeão na regularidade, com um equipamento inferior. Realmente um piloto talentosíssimo. Uma grande perda para nosso automobilismo.

  • Marco Campos foi uma grande perda para o automobilismo, realmente, poderia ter ido longe.

    Em relação aos pilotos brasileiros na Draco, está um a mais, já que o Ricardo Teodósio era português. Ainda hoje corre, cá em Portugal, em ralis e dando sempre grande espectáculo.

    A Draco e a família Morini foram também importantes para os pilotos portugueses, pois além do referido Teodosio, foram também pilotos do italiano o Pedro Lamy, sucessor de Barrichello como campeão de Fórmula Opel, o Pedro Couceiro e o Manuel Gião, estes com menor sucesso.

    Há anos atrás li uma entrevista de Manuel Gião onde este referia que tinha um projeto conjunto com o Marco Campos para a Fórmula 3000 em 1996, o que, pelos tristes motivos bem conhecidos, não viria a ocorrer.

    No entanto, nem sempre a Draco praticou o bem… Em 2006 teve como piloto um tal de Maldonado. No entanto, este até foi razoavelmente bem. Talvez o apoio da família Morini o tenha acalmado um pouco.

  • O que acho curioso é que, das categorias de base mais badaladas depois do fim da F2, sem contrar a F3, o único campeão que saiu foi Lewis Hamilton. Da própria GP2 os únicos pilotos que saíram para vencer corridas foram ele, Rosberguinho e …. Maldonado!

  • Imagem fortíssima do acidente, muito doloroso lembrar disso mesmo!!!! Eu não o conheci, nunca tinha ouvido falar, triste, muito triste!!!! Parabéns por lembra-lo Flávio!!!! Não deve ser nada fácil para a família ver o Julinho também nas pistas!!!

  • Eu tinha apenas 14 anos, mas lembro do acidente, da espera e do anúncio da morte, fiquei chocadíssimo, coisa que só se repetiu com a morte do Greg Moore, e esse ano com Jules Biancchi.

    Mas como na época era realmente dificil (ou impossivel) acompanhar categorias de base mais profundamente para quem era entusiasta, nao sei avaliar o quao bom ele realmente era. Ouvir de alguem com a tua vivencia e a sua temperanca pra falar sobre os pilotos brasileiros, realmente é algo pra ser levado a sério.

    Gostaria de saber mais sobre a carreira do Marco Campos no automobilismo.

Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

outubro 2015
D S T Q Q S S
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031