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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015 - 18:20Nas asas

NAS ASAS

SÃO PAULO (merece) – O Alexandre Santiago mandou a notícia. O jornalista Carlos Bighetti, da TV Cultura, quer fazer um documentário sobre a história da Varig. Quando realizava uma reportagem sobre antigas companhias brasileiras para um quadro de telejornal da emissora (vídeo abaixo), Bighetti se deparou com algumas dezenas de horas de filmes inéditos de empresas que já encerraram suas atividades, como a Real, a Panair, a VASP e a Transbrasil. E teve a ideia de registrar a trajetória da companhia gaúcha que parou de voar em 2006. Da Varig, são pelo menos três horas de imagens que, segundo ele, são “inacreditáveis”. Acredito. E adoraria vê-las.

Para fazer o filme, Bighetti precisa de grana, claro. Aqui está a página para quem quiser participar. Tomara que dê certo. Tenho muitas saudades da Varig, certamente a empresa pela qual mais voei na vida. Durante um bom período de cobertura de F-1, eu era “Repórter Varig”, um esquema de permuta do jornal que trocava publicidade por passagens aéreas. Apesar do acordo, era só de Econômica que eu voava. Raramente, quando algum comissário ou comandante camarada me reconhecia, pingava uma Executiva se sobrasse lugar. Primeira, quase nunca. Mas chegou a rolar, em 747 — não me conformo que nenhuma companhia brasileira, hoje em dia, tem pelo menos um Jumbo, o avião dos aviões.

Mas não era um problema, viajar lá atrás. Sempre me acomodei bem em qualquer poltrona, miúdo que sou. E o serviço era muito legal — OK, no ocaso da Varig as aeromoças viviam de mau humor, o que era mais do que compreensível. Guardo algumas “nécessaires” daqueles tempos, assim como copinhos e talheres. Uma dessas bolsinhas, inclusive, de couro marrom, abriga as chaves dos meus carros até hoje. Os escritórios da Varig no exterior eram como embaixadas brasileiras, onde eu parava de vez em quando para tomar café e ler jornal do dia anterior.

Uma vez, voltando de um GP do Canadá com escala em Miami, me roubaram tudo do carro alugado no estacionamento de um shopping (a escala era de algumas horas e saí para comprar umas bobagens), inclusive passaporte e passagem. Naqueles tempos, não havia controle de passaporte da imigração americana para sair do país — ele tinha de ser apresentado no check in da companhia. Mas como era Varig, e tínhamos amigos que nos acompanhavam o ano inteiro, emitiram uma passagem na hora e me deixaram embarcar sem passaporte. Era legal, muito legal.

Sei da história da Varig e das sacanagens que fizeram nos anos 60, uma mutreta com os militares para arrebentar a Panair. Mas seus funcionários, mais de vinte anos depois, não tinham culpa disso. Faziam dela uma empresa aérea digna e respeitada.

Pena que acabou. Hoje não sinto grande empatia com as nacionais que dominam o mercado, como a Gol e a TAM. Falta alguma coisa que não sei bem o que é. Sinto saudades também das outras que concorriam com a Varig na época, porque o padrão era alto e todas queriam ser como a empresa gaúcha. Por isso, VASP e Transbrasil também se esforçavam para agradar. Fiz alguns voos internacionais nas duas, para a Europa, em aviões novinhos e com serviço impecável. Salvo engano, voavam para destinos pouco populares, como Bruxelas e Viena — a Varig tinha algum acordo com o governo que lhe garantia as rotas mais rentáveis, como Paris, Londres, Nova York e Tóquio.

Enfim, o mundo da aviação nunca foi tocado por vestais, a briga era de gente grande e milhares de pessoas se estreparam com o fechamento dessas três, Varig, VASP e Transbrasil. Dívidas milionárias, calotes, corrupção, extorsão, estelionato, tudo isso fazia parte do dia a dia dessas companhias na relação quase criminosa com os diversos governos com os quais conviveram. Quem se deu mal, claro, foi a turma da ponta mais frágil — os funcionários.

Nós, os passageiros, também ficamos na mão. Porque hoje, me parece, falta paixão nos ares. E aviação é paixão.

29 comentários

  1. Marcelo disse:

    O museu da TAM vai fechar, creio que seja uma notícia de interesse do público deste blog..

    http://aeromagazine.uol.com.br/artigo/museu-da-tam-encerra-atividades_2505.html

  2. Gomidez disse:

    Contribuí 300 paus, graças ao seu post, Flávio.

    Nos anos 90 fui 4 vezes do Brasil para o Japão, (de Varig, Canadian, Korean e Jal) e me perguntem qual deles foi o melhor voo? Foi a brasileira, e olha que é um voo estafante de 12 + 12 horas.

  3. Paulo F. disse:

    Varig, Vasp, Transbrasil, Cruzeiro. Voei em todas.
    PanAm, Braniff (lindos 727 e os aviões do Calder), Swissair.
    707 e DC10 (este um avião melhor para o passageiro que o 747).
    Saudades de uma aviação que aqui e no resto do mundo não existe mais.
    Mas o AVIÃO DOS AVIÕES era o CONCORDE. Não falo do TU144 pois era muito difícil voar nele. Mas eles tem um lugar sempre guardado no coração de quem aprecia aviação e aviões.
    PS: Connie é super-sexy. E os Electras são patinhos feios que viraram cisnes no Brasil.

  4. Müller disse:

    Hoje sobrou a Azul, que ainda mantém um certo nível. E a Avianca também, embora não seja exatamente brasileira.
    O que detonou o padrão de atendimento foram a má administração ao fim dos monopólios nos anos 90 e o aumento dos preços dos combustíveis. Quem sobreviveu apelou pro estilo “lowcost”, onde o que importa apenas é chegar inteiro. E dá-lhe barrinhas de cereal.

    Varig à parte, triste mesmo é ter visto todo o patrimônio da VASP literalmente apodrecendo por conta da lerdeza da justiça. Aviões que valiam milhões depois cotados pelo peso do aço, veículos de solo, equipamentos de manutenção, prédios… é de chorar.

  5. Durvaldisko disse:

    Não esquecendo da Paraense, cujo slogan”Pela Paraense você conhece este mundo e outro”.Claro que é um chiste, isso, devia-se ao fato de possuir apenas dois aparelhos ,Hirondelle, um fornecendo peças ao outro…

  6. Infelizmente os quadrimotores são uma espécie em extinção na aviação. O A340 saiu de linha ano passado, este ano não tivemos nenhum pedido novo para o A380 e a última versão do 747 fabricada, o 747-8 pena para se vender (A Lufthansa voa com 747-8 para GRU e GIG e a British ainda voa com 747-400 para GRU).

    O que aconteceu é que os motores evoluíram muito em desempenho e confiabilidade. Hoje um 777 vai mais longe que um 747 com praticamente a mesma carga e com dois motores a menos. A GE-90 dessa aeronave é um primor da engenharia. Então ninguém quer ter uma aeronave com 4 motores se uma com dois faz o serviço (são duas peças complicadas a menos para manutenção).

    Quadrimotores infelizmente ficarão para os cargueiros e museus…

  7. Bruno Abila disse:

    Olá Flávio, sobre o 747:

    Como se sabe, os tempos estão mudando. E na aviação, não é diferente.

    Assim como tudo indica que o carro elétrico é um caminho sem volta e os motores grandes serão descontinuados, os aviões gigantes já estão sendo substituídos por aviões menores, com cabines confortáveis e longo alcance.

    Até onde sei, não foi vendido nenhum 747 ou mesmo o novíssimo A380 no ano de 2015. Nada, nenhuma encomenda. Nem mesmo naqueles países de mentirinha, cheios de petróleo.

    Não tem jeito, é o custo. E olha que o petróleo está em baixa. Pode reparar que todos os lançamentos do mercado de aviões de grande porte são de modelos bimotores de longo alcance. Os grandes quadrimotores estão com os dias contados.

  8. LUIS FELIPE disse:

    Vivi isso de dentro. A Transbrasil foi pra Viena em 1995 (fui no voo inaugural) além de desde 92 ser a única que foi para Washington. Teve Córdoba também, e chegou a fazer Londres, A VASP em 96-97 fez Casabralaca (voei) e também Seoul e tinha Bruxelas realmente. A Varig, pouca gente sabe, mas além de ter feito Beirute, teve rota regular, acho que em 1986 , para Bagdá, além de chegar até a década passada ainda com voo para Copenhaguen

    • Flavio Gomes disse:

      E Bangcoc também.

      • LUIS FELIPE disse:

        Sim , vc fez este voo, citou dia destes. Sobre os 747 há uma questão que acho interessante. Eles se encaixavam melhor em empresas que, nos anos 80 para a entrada dos 90, já faziam voos de longa distância. Não era o caso de Vasp e TBRasil, que ao alçarem voos longos (a partir de meados da década de 1990) acharam melhor em equipamentos como o 767-300 ER e o MD 11, a medida que ambos eram o que tinha de melhor no período para voos com até 300 passageiros. Agora, sem dúvida, o 747 é o AVIÃO DOS AVIÕES, e os 747 da Varig (entre 1981-98) voaram nas duas pinturas.. Bons tempos MESMO ! Acabou ! Pena!

      • LUIS FELIPE disse:

        Sim, vi num comentário seu estes dias que fez este voo
        Inclusive. interessante é observar que, em meados da década de 1990 , quando Vasp e Transbrasil alçaram voos mais longos, o 747, sem dúvida o AVIÃO DOS AVIÕES (que na Varig voo por quase 20 anos com as duas pinturas), não compensava mais economicamente para voos com até 300 passageiros. Por isso optaram, respectivamente, pelo MD – 11 e 767-300 ER (sendo que na Tbrasil, o 777 era questão de tempo chegar, mas não ocorreu.)
        A tempo. Celso Cipriani, o cara que roubou a Transbrasil, genro do Omar, em qualquer país serio estaria preso. Crápula, capataz do DOPS e do TUMA E ladrão.

      • LUIS FELIPE disse:

        Desconsiderar primeiro comentário se perceber hehe… Abraço

  9. Gus disse:

    Viajei com a Varig quando era criança; ainda lembro da maletinha com talheres (inclusive escova de dentes e outras coisas) e da “música do avião” – não sei era de alguma propaganda ou uma versão new age que eu associei à classe e a fama da Varig na época: A companhia aérea!

  10. André Micheloto disse:

    De hoje, apesar de menor, a Azul é definitivamente a mais simpática e menos “protocolar”. Fora que aquelas comissárias ficam uma coisa de boininha…

  11. Rogerio disse:

    Eu era contra aquela historia de só a Varig poder fazer vôos internacionais, por ser a favor da livre concorrencia. Mas voei muito de Varig e Transbrasil, pouco de Vasp. Comida legal, bebida legal, tudo a vontade (melhor ainda no “lounge” do Electra….)
    Quando a TAM entrou, também era assim. Atendimento 10, comida e bebida a vontade. Sempre faziamos happy hour na volta do Rio às sextas a tarde, regados à Red Label…. Hoje, virou tudo uma merda, justamente pela falta de concorrencia.

    Uma pena.

  12. Renato Almeida disse:

    Li o texto e viajei ao passado quando via os aviões inconfundíveis da Varig cruzando os céus. Sendo um apaixonado por aviação como sou, me sinto bem triste em ver que as companhias brasileiras não tem um 747. É a coisa mais linda do mundo ver um jumbo decolando ou aproximando para o pouso….Mas a aviação de hoje é controlada por custos, e os quadrimotores estão sendo cada vez menos utilizados no mundo inteiro, por conta da manutenção mais cara e do maior consumo de combustível….Saudades também da época em que as companhias se preocupavam mais em satisfazer o cliente através de conforto e serviço de bordo diferenciado…Hoje é água e amendoim. Em algumas, você ainda tem que pagar a mais por isso.

  13. Marcelo disse:

    Viajei muito na Nordeste que vinha para Vitoria.tinha um café manhã excelente

  14. Voei um tempo com várias viúvas da Varig. E te digo que era muito chato, mas entendo o lado deles (ainda me irrito só de lembrar como era um porre ouvir a choradeira). Pra quem trabalhou voava nas linhas internacionais era tudo muito bom sim. Salário, diárias, hotéis, escala de voo razoável. Só era f. quando o comandante era um “vaca sagrada” (vocabulário deles). A autoridade desse ser passava por cima de qualquer coisa ou pessoa de lá. Talvez até de qualquer entidade sobrenatural q se arriscasse por lá. ..

  15. antonio stricagnolo disse:

    Trabalhei com equipamentos de rampa por 5 anos bem na epoca das 3 companhias,realmente é paixão e hoje tenho a impressão que estou tomando um onibus na rua.

  16. David Felix Krapp disse:

    Flavio, como ex-funcionario da gigante Varig, a estrela brasileira… vou colaborar…

    Eu como muitos trabalhamos arduamente ate o ultimo dia de existencia da empresa na va tentativa de salva-la da falencia… foi muito triste o fim que ela teve…

    Infelizmente muitos ex-funcionarios culpam o governo Lula por nao intervir, mas eu sempre tive a consciencia de que os verdadeiros culpados foram os anos e anos de ma administraçao…

    • Bento disse:

      Finalmente alguém (que vivenciou de fato o problema) para escancarar que o que de fato afundou a Varig foi não ter se preparado para o fim do monopólio (conseguido sabe-se muito bem como), acreditando que a mamata seria eterna. Uma pena que, como sempre, o elo mais fraco da corrente (a grande maioria dos funcionários que realmente trabalhavam pela empresa) foi quem foi penalizado.

  17. Mauricio P. disse:

    Pq nessas reportagens nunca aparece a cia. aérea Cruzeiro, que se não me engano, foi absorvida tbm pela Varig?

  18. Rafael Vázquez Doce disse:

    Boa tarde Flávio!

    Te vi sexta-feira passada passeando com seu lindo Belcar ’62 na USP e na politécnica. Tirei diversas fotos, até o momento em que vc virou e não parecia muito contente de eu estar te “perseguindo” para tirar fotos do carro. Sendo assim, peço desculpas caso tenha te causado algum constrangimento.
    Novamente, parabéns pelo lindo carro. Há uns meses achei ’65 em péssimas condições, mas que tinha um belo kit de rodas leve ligeiras, rapidamente passei o contato do vendedor para o meu amigo Mário, grande mecânico de DKW em Campinas.

    Abraços,

    Rafael.

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