Arquivoquarta-feira, 1 de maio de 2019

SENNA, 25 (6)

S
tamb2
O que restou do carro de Senna: a Tamburello não perdoou

RIO – Fechando a pretensiosa trilogia de textos que considero definitivos — da minha lavra, claro — sobre os eventos de abril/maio de 1994, segue o último texto, este escrito em 2014, na passagem dos 20 anos das mortes de Senna e Ratzenberger.

MEMÓRIAS DE UNS DIAS DE MAIO*

O grande drama de todos que estavam cobrindo o GP de San Marino em 1994 era conseguir alguma informação, qualquer uma, que ajudasse a esclarecer o que tinha acontecido no domingo. Havia duas perguntas básicas, a saber: 1) o que causou o acidente? e 2) o que matou Senna?

Não era fácil. Williams, FIA e autoridades italianas se fecharam num silêncio sepulcral. Quem sabia alguma coisa, não dizia. Quem não sabia nada, chutava. Se havia uma tragédia evidente, havia igualmente a necessidade de tentar explicá-la. Era para isso que estávamos lá, os jornalistas. Para informar, antes de chorar a morte de alguém com quem convivíamos regularmente — uns mais, outros menos.

Na segunda-feira pós-acidente, o trabalho se deu em duas frentes, Itália e Brasil. Para além da dor e da tristeza que os brasileiros sentiam, havia também um certo ar de indignação e de busca por culpados. É natural, em casos tão rumorosos. A indignação vinha do fato de a corrida ter sido realizada mesmo depois da morte de Ratzenberger, um dia antes. Mais tarde, essa indignação se estenderia à equipe, que acabou sendo acusada de negligência na solda da coluna de direção do carro de Senna.

As causas do acidente ainda são controversas. A perícia levada a cabo pela Justiça Italiana concluiu que a coluna quebrou. Há quem não acredite nisso. Damon Hill, por exemplo, tem outra tese. Companheiro de Senna em 1994, o inglês tem convicção de que a pressão dos pneus do carro do brasileiro caiu dramaticamente durante as voltas atrás do safety-car, novidade naquela temporada. Na Tamburello, que tinha ondulações respeitáveis, o carro bateu no chão e Ayrton perdeu o controle. “Ele estava para uma parada, com o carro pesado e muito rápido, pneus frios, pressão baixa. Se numa curva daquela o carro oscila por alguma razão, é muito fácil perder o controle. Dá para ver claramente pela câmera do Schumacher que o carro de Senna bate no chão. Quando isso acontece, ele dá uma balançada. Levanta o bico, e ele corrige. Aí bate de novo e vem uma grande ondulação. O carro balança de novo, aponta para o muro e vai direto. Ele freia, mas aí está na grama. E é isso. Tinha muita pressão sobre Ayrton naquele fim de semana. Ele não queria ser segundo para Schumacher de jeito nenhum.”

Esse depoimento de Hill está no livro ‘Senna versus Prost – The story of the most deadly rivalry in Formula One’, do jornalista Malcolm Folley (Arrow Books, 2009), do ‘Mail on Sunday’. No mesmo livro, Hill conta que depois do acidente de Senna a Williams desligou em seu carro o sistema de direção hidráulica que, pelo regulamento, não poderia ter outra função que não reduzir o esforço do piloto para virar o volante.

Tal informação vai ao encontro de o que me disse um dia, na Bélgica, o ex-piloto Emanuele Pirro, que participou como consultor das perícias feitas pelos italianos. Foi numa noite em que tomamos umas a mais no hotel em que nos hospedávamos em Malmedy, depois de uma animada partida de ping-pong. Pirro me contou que uma das hipóteses para o acidente era de que o sistema teve algum tipo de pane e a direção ficou louca, ou pesada demais, ou sei lá o quê. A Williams nunca teria admitido uma falha porque o sistema era, segundo ele, possivelmente irregular. O regulamento técnico, repito, dizia no item 4.2 do artigo 10 que tais sistemas eram permitidos. Na íntegra: ‘4.2 – Power steering systems which do anything other than reduce the physical effort required to steer the car are not permited’.

Mas o que havia naquele sistema da Williams que levou a equipe a desligá-lo no carro de Hill para o reinício da corrida? Jamais saberemos, desconfio. Talvez nada. Mas talvez a suspeita da própria equipe recaísse sobre ele.

Voltando à segunda-feira pós-acidente, eu precisava de alguma coisa além do factual que todos teriam: se o corpo seria submetido a alguma autópsia, quando seria liberado, quando iria para o Brasil, quais as medidas que seriam tomadas pela diplomacia brasileira na Itália, essas coisas.

Já surgiam, àquela altura, informações desencontradas sobre a suspeita de que Senna tinha morrido na pista. Algo que, na prática, não mudaria em nada a situação — ele estava morto, e suspeitava-se que Ratzenberger tinha morrido no circuito, também, embora tenha sido declarado morto oito minutos depois de chegar ao Hospital Maggiore. Mas era algo relevante na construção daquele quebra-cabeças, para tentar compreender a real causa da morte. Ninguém sabia, na segunda-feira, se ele tinha batido a cabeça no muro, se tinha quebrado o pescoço, se tinha tido um ataque cardíaco, nada.

Um dos episódios mais controversos daquele dia foi o do diálogo entre Bernie Ecclestone e Leonardo Senna, que teria ouvido do chefão da Fórmula 1 que ‘he is dead’, quando na verdade Bernie teria dito algo como ‘injuries in his head’. Isso nunca foi, igualmente, esclarecido. Como nunca se soube direito qual o teor de um suposto dossiê que Leonardo teria levado ao seu irmão com informações sobre sua namorada Adriane Galisteu, de quem a família não gostava. Senna estava, sim, mais tenso que o normal naquele fim de semana — disso me lembro bem. Sem saber de dossiê nenhum, que poderia ter contribuído para esfacelar seu estado de espírito, eu e todos que lá estavam, antes do acidente, atribuíamos seu humor especialmente amargo à situação dele no campeonato: duas corridas, zero ponto, com Schumacher já somando duas vitórias. E, de quebra, um carro dificílimo de guiar.

Algo que já tinha ficado claro para ele depois das primeiras voltas que deu no Estoril, em janeiro, com sua nova equipe. Era um carro complicado, arisco, nervoso, quase incontrolável. Eu estava nos boxes da equipe em Portugal, me escondendo do frio cortante daquele inverno, quando ele saiu do cockpit com cara de poucos amigos, passou do meu lado e eu mandei um singelo “e aí?”. Ayrton me respondeu com uma frase tão singela quanto: “Puta que pariu, bem na minha vez cagaram no carro”. Frase que repetiria semanas depois a amigos em Aida, no Japão. Depois, foram mais três dias de intenso trabalho com o híbrido FW15C e a conclusão: “Sem suspensão ativa, esse carro não é tudo isso que a gente via, não”.

A última entrevista, digamos, agendada de Senna naquele fim de semana de Imola aconteceu na quinta-feira, como em todas as semanas de GP. Ele recebia a imprensa brasileira no motorhome da equipe e falava sobre a corrida, sobre o campeonato, sobre os adversários e tal. Dela, me lembro de um detalhe irrelevante. Senna vestia uma calça impecavelmente branca e comia macarrão com molho de tomate enquanto falava. Eu achava que uma hora aquele molho ia respingar na calça. Não lembro direito o que disse. Mas escrevi, naquele dia, baseado na entrevista de Ayrton, algo que, visto 20 anos depois, tem ar de profecia: ‘O maior problema da Williams é a falta de estabilidade em pisos irregulares. O carro ‘salta’ muito e não desfruta de seu potencial aerodinâmico. A suspensão, muito dura, agrava os defeitos de nascimento do projeto — originalmente concebido para utilizar um sistema computadorizado, que mantém o carro a uma altura constante do solo (proibido neste ano pelo regulamento da F1).’

No dia seguinte, depois de fazer o melhor tempo no primeiro treino oficial (os tempos de sexta valiam para formar o grid e Ayrton largaria na pole com essa volta, já que não treinou no sábado depois do acidente de Ratzenberger), Senna continuava reclamando do carro. “Não dá para dizer muita coisa porque de manhã o carro estava razoável e de tarde impossível de guiar. Foi assim com todo mundo. Eu não consegui fazer uma volta inteira bem. Não conseguia me sentir tranquilo para guiar rápido.” Reclamou do vento. “O carro fica imprevisível. Vai bem numa volta e mal em outra. Faz bem uma curva e mal a outra. Você é pego de surpresa.”

No sábado, Senna não falou mais.

Segunda-feira, 2 de maio. Já sabendo que seria feita uma autópsia, que o corpo embarcaria no dia seguinte para o Brasil, que a polícia instaurara um inquérito para apurar as causas do acidente, fui atrás de algo que pudesse acrescentar à cobertura mais informações que ajudassem a esclarecer o que matou Senna. Queria falar com a médica que o recebeu no Maggiore, Maria Teresa Fiandri. Ir ao hospital achando que toparia com ela na recepção era fantasia. Foi quando me lembrei da minha namorada.

Maria Cristina Gervasi fora minha namorada em 1981, quando eu estava no terceiro colegial e morava em Campinas. Italiana, mudou-se para a cidade porque seu pai trabalhava com telecomunicações e veio para o Brasil para tocar um projeto qualquer durante um ano. Cris estudava na minha classe no Objetivo e começamos a namorar. Éramos apaixonados, como são os adolescentes. Acabou o ano, ela voltou para a Itália em meio a lágrimas e juras de amor eterno.

Mantivemos contato durante meses em 1982, quando eu já voltara para São Paulo para fazer faculdade. Meu único objetivo de vida era juntar dinheiro para morar com ela na Itália. Trocávamos cartas. Cris, que era de Roma, tinha entrado na universidade para fazer medicina. Em Bolonha.

Ainda em 1982, ela arrumou um namorado, engravidou e casou. A última notícia que tive dela foi essa. Estudava medicina em Bolonha e tinha casado. Perdemos o contato, tocamos a vida.

Achei que tinha uma chance ali. Se ela tivesse se formado em Bolonha, talvez trabalhasse na cidade e conhecesse a doutora Fiandri. Mas podia ser que tivesse desistido da faculdade, que tivesse mudado de país, qualquer coisa. Fui a uma cabine de telefone perto do IML, no centro da cidade. Se me jogarem em Bolonha hoje, saberei chegar àquela cabine sem grandes problemas. Algumas coisas daqueles dias permanecem muito claras na minha memória.

Naquela época, era possível consultar listas telefônicas nas cabines, presas com correntinhas para ninguém roubar. Era uma tentativa. A lista continha os números dos assinantes de Bolonha e das cidades da região metropolitana. Comecei a procurar o sobrenome Gervasi nas listas. Não tinha grandes esperanças. Ela tinha se casado, poderia estar usando o sobrenome do marido.

Passei por todas as cidades, até chegar a Casalecchio di Reno, pequena vila a sudoeste de Bolonha. No G, surgiu uma Gervasi. Gervasi, Maria Cristina, dottoressa.

Cris tinha virado médica e vivia nas redondezas. A chance de trabalhar no Maggiore aumentara consideravelmente. De conhecer a doutora Fiandri, idem. Eu precisava tentar alguma coisa. Coloquei alguns milhares de liras no telefone e liguei. Entrou uma secretária eletrônica. Reconheci a voz e devo ter sorrido brevemente. Era bom ouvir uma voz familiar àquela hora, mesmo sendo de alguém que eu não via, ou ouvia, desde 1981.

Deixei um recado em português. Imaginei que ela se lembrava de mim, mas me alonguei para explicar o que estava fazendo em Bolonha 13 anos depois. Não havia internet em 1994. Ninguém rastreava a vida dos outros como hoje. Para se ter notícias de alguém, só escrevendo ou telefonando. Eu não escrevia para minha ex-namorada fazia muito tempo. Muito mesmo.

Terminei minha mensagem dizendo onde estava hospedado, no Novotel de Bolonha, para onde me mudara depois do acidente. Na semana do GP de San Marino, sempre ficava em Riolo Terme, a uns 15 km de Imola. Naquela segunda-feira, saí de mala e cuia da pensão para ficar no mesmo lugar onde estavam os diplomatas brasileiros e a turma do Senna. Ali seria um ponto natural de concentração de informações.

À noite, quando voltei ao hotel, havia um recado para ligar para a dottoressa Gervasi. Liguei. Para quem não falava comigo havia 13 anos, ela foi até rude. “Onde você estava? Te procurei o tempo todo no IML!” Não entendi direito. Como, me procurou? Como você sabia que eu estava lá?

Cristina tinha uma irmã mais velha, Simona, que se casou no Brasil e ficou morando em Campinas. Naqueles anos todos, acompanhou meu trabalho no jornal e no rádio. Elas se falavam, e por isso minha ex-namorada sabia perfeitamente que eu tinha virado jornalista, que trabalhava na ‘Folha’ e na Jovem Pan, e que cobria F1. Assim, seria bastante plausível que eu aparecesse no IML na manhã de segunda-feira.

O que não era muito plausível, e isso eu não sabia, é que Cristina se formou em medicina e estava se especializando em Medicina Legal. Fazia o último ano da especialização e suas aulas eram ministradas no IML. Seus professores eram os médicos que fizeram a autópsia no corpo de Senna. “Eu sabia que você estava lá. Podia ter te mostrado o corpo!”, bronqueou. Parecia que tínhamos nos falado um dia antes. Engraçado, isso. Não havia tempo para muitas demonstrações de sentimentalismo, e ela entendia isso bem melhor do que eu.

Nos encontramos na terça-feira à noite, depois que o corpo de Senna embarcou, do aeroporto de Bolonha, num avião militar italiano rumo a Paris, de onde voltaria para o Brasil na classe executiva de um voo da Varig.

Cris me deu uma longa entrevista. Descreveu em detalhes tudo que viu, o que acompanhou, o que disseram os médicos. Contou sobre a aula que teve naquela terça-feira, dia em que a autópsia foi realizada, por um dos legistas que realizaram o trabalho, Pierludovico Ricci, um excêntrico professor que trabalhava sem luvas porque acreditava que vírus nenhum resistia à morte de um corpo — não entendo nada disso, mas a Cristina me disse que ele tinha alguma razão, cientificamente falando; não vem ao caso, porém.

Ricci, “estranho e psicótico”, saiu da autópsia e foi para a sala de aula com o jaleco sujo de sangue. Mal-afamado na cidade, era um doidivanas que conhecia todas as putas de Bolonha e costumava convocá-las para noites de luxúria no IML tocando uma corneta pela janela. Um dia os estudantes roubaram a corneta, enlouquecendo o médico. Mas Ricci tinha princípios éticos muito fortes e ministrou uma aula vigorosa sobre o que chamou de “morte Série A e morte Série B”, indignado com a indiferença a Ratzenberger, cujo corpo era vizinho do de Ayrton no IML.

Encontrei a Cristina algumas vezes depois daqueles primeiros dias de maio de 1994. Já não lembro bem quando. Três ou quatro anos depois, talvez. Jantamos uma noite em Bolonha, num belo restaurante numa colina, e em outra oportunidade visitei-a em Casalecchio, onde fiquei comovido com um cantinho de sua casa onde havia na parede uma placa de carro com o escudo da Portuguesa, algumas fotos nossas em porta-retratos e pequenas lembranças de nosso namoro adolescente.

Nos falamos de vez em quando pelo Facebook. Ela se casou novamente e divide o tempo entre a Itália e Zurique, de onde vem seu marido. Acabou de ter um bebê e está feliz da vida. Entrei em contato para lembrarmos aqueles dias de 20 anos atrás – [a conversa aconteceu em 2014, quando se chegou às duas décadas de morte do tricampeão].

Não foi uma conversa triste e melancólica. Médicos sabem lidar melhor com certas coisas como a morte. Me escreveu:

Trabalhar como médico legista lhe permite ver a vida a partir de um ponto de vista diferente. Ou, talvez, você pode apenas ver a sua vida… Corremos atrás de nossos sonhos e ilusões, corremos de manhã à noite, e quantas vezes nos perguntamos o que fazemos? No final, tudo é o resultado de nossas escolhas. Há os que escolhem uma vida de rotina, tranquila, e há aqueles que arriscam suas vidas, e fazem isso de modo bem consciente. E um dia o final da corrida vem, vem para cada um de nós.

Os mortos são todos iguais, não há mortes de série A ou de série B. Dois jovens saíram daqui há 20 anos com seus sonhos e suas esperanças, tirando as esperanças e sonhos de milhões de pessoas. Era o que tínhamos aqui no dia 1° de maio, no Instituto de Medicina Legal de Bolonha, onde eu cursava o último ano de especialização em medicina forense.

Não sou daquelas que seguem os eventos esportivos, por isso não sabia direito o que estava acontecendo quando me vi presa no trânsito da Via Irnerius, incapaz de chegar ao Instituto. Depois de muito tempo consegui alcançar o portão vigiado pela polícia, que só me deixou entrar quando mostrei minha identidade. Estacionei o carro no lugar de costume, em um pequeno recesso logo atrás do portão de entrada.

Notei os rostos consternados e as lágrimas de dor. Me lembro, na entrada para o necrotério, de várias pessoas que falavam com uma cadência e uma musicalidade que me trouxeram lembranças doces e nostálgicas da minha juventude. Eles falavam português e tinham a bandeira do Brasil nas mãos.

A entrada foi inundada com flores, flores em todos os lugares, nunca vi tantas flores juntas, bilhetes, mensagens… Nesse dia, as atividades normais do Instituto foram suspensas e ficamos na varanda observando esse estranho fenômeno que se desenvolvia sob nossos olhos.

Os dois jovens pilotos estavam na ante-sala da câmara frigorífica, e pareciam dormir. Senna tinha uma ferida costurada na parte frontal da base do couro cabeludo, mas seu rosto estava sereno e já não apresentava muito inchaço. Ratzenberger era de uma beleza típica do Tirol Austríaco. Um belo rapaz. Senna, o grande campeão. Ratzenberger, o piloto que fazia apenas sua terceira corrida. Ambos apaixonados pela mesma coisa, ambos rapazes que fizeram do risco e da velocidade suas vidas, e que estavam ali na nossa frente para mostrar como a existência é efêmera, a realidade concreta da transitoriedade da vida.

Com alguns colegas , oramos por suas almas, que agora corriam em direção a outros objetivos e para os seus entes queridos que precisassem de ajuda e conforto. Pegamos algumas rosas e colocamos nas mãos dos jovens pilotos antes do fechamento dos caixões. A rua estava cheia de pessoas que se amontoavam nos portões. E de jornalistas à espera de notícias. Mas não havia muito o que dizer.

Senna saiu em primeiro lugar, e centenas de pessoas com gritos e aplausos acompanharam o caixão saindo do beco atrás do Instituto. Aplaudiam um grande campeão que perdera a vida na Tamburello, deixando um enorme vazio nos corações de fãs em todo o mundo. No dia seguinte, saiu Ratzenberger. Em silêncio, sem aplausos, lágrimas ou câmeras de TV. Membros de sua família chegaram e nós, do Instituto, o aplaudimos. Aplaudimos o rapaz corajoso que perdeu a vida na busca de um sonho que nunca alcançou. Aplaudimos com todo vigor aquele cuja fama não tinha despertado o clamor do povo.

Os mortos estão mortos, e eles são todos iguais. Não há desculpas e/ou atenuantes para aqueles que “esqueceram” muito rapidamente que por aquela corrida, naquele circuito, dois jovens rapazes haviam perdido suas vidas. E que estavam viajando juntos na sua última corrida para a linha de chegada.

Reunimos todos os buquês, colocamos tudo em vários carros e levamos para o cemitério da cidade, que foi inundado de cores, doando uma beleza fúlgida e fugaz, como fora a vida daqueles jovens pilotos, a túmulos desbotados e esquecidos por suas famílias e amigos. Nesse dia, aqueles mortos puderam rever as cores da vida e o fascínio da natureza, num sofrido contraponto à realidade da morte e da dor.

Li com atenção e solenidade cada palavra da Cris, que escreveu em italiano. Já era madrugada em Zurique, onde ela estava no início desta semana, quando apareceu a bolinha verde na janela de mensagens do Facebook.

Posso fazer umas perguntas, Cris?, perguntei, depois das amenidades de praxe. “Sim, claro”, ela respondeu em português. Depois, só escreveu em italiano. E eu, sempre em português. Era assim quando éramos adolescentes. Para escrever, não falar. Minha namorada aprendeu português muito rápido. Era uma excelente aluna.

Cris me contou que a autópsia seguiu os padrões de sempre. “Começamos pelo crânio e depois vai descendo. Não se deve negligenciar nada, mesmo os órgãos aparentemente não atingidos. São retirados os órgãos principais, que são pesados e medidos, e deles retiramos pequenas amostras para análises. Durante uma autópsia, se descreve continuamente tudo que está sendo feito, para que seja gravado e, depois, transcrito.”

Foi Cristina quem, há 20 anos, me disse que a base do crânio de Senna tinha inchado de tal forma que ele ficou bastante desfigurado, “a cabeça em forma de pirâmide, com a base larga”. “O que eu me lembro foi que no estudo das meninges cerebrais foram encontradas lesões que lembravam ferimentos típicos de soldados que morreram em conflitos militares por explosões próximas de bombas.”

Cristina lembrava da roupa com que o corpo de Senna foi vestido: terno preto, gravata cinza e camisa branca, comprados em Bolonha. A cabeça desinchou porque os médicos usaram fármacos para reduzir os edemas cerebrais.

Ele morreu na pista?, repeti a pergunta feita há 20 anos no meu quarto de hotel em Bolonha. A resposta foi exatamente a mesma, a mesma que estaria no primeiro laudo dos legistas, que acabou sendo minha última matéria na “Folha”, porque me demiti depois. “Do ponto de vista jurídico, o conceito de morte não é o que mesmo que se usa em linguagem normal. O que se pode dizer é que as lesões encontradas eram incompatíveis com a vida, e como consequência ele podia ser considerado morto, sim.”

Fui encontrar a doutora Maria Teresa dez anos depois, em 2004, na penúltima vez em que estive em Imola. Foi no pequeno prédio na periferia de Bolonha, na Via dei Lamponi. Ela nos atendeu numa segunda-feira ensolarada e luminosa, com aquele céu de um azul pálido e profundo e um ar fresco que, por alguma razão, só se percebe na Emilia Romagna no começo da primavera. Ela nos recebeu em seu pequeno apartamento com cortesia e gentileza. Dias antes fomos à Tamburello, pelo lado de fora da pista, margeando o rio Santerno. As fotos não são boas.

Em 1994, não tínhamos celulares, ou câmeras digitais. Tampouco tínhamos o hábito de fotografar tudo, de quartos de hotel a pratos em restaurantes, como hoje. Mas de vez em quando fazíamos um ou outro registro. As fotos que acompanham este texto, que receio ter sido exaustivo e bocejante, foram feitas naquele fim de semana.

tamb3
Eu de chapéu, Cris ao meu lado: a turma do Objetivo de Campinas em 1981

Outras são de 1981, dos tempos de colégio, quando conheci a Cris, esta bela médica de sorriso tímido e olhinhos espertos que um dia entrou na minha vida e, como todas as pessoas que amamos um dia, nela ficou para sempre, porque ao contrário do que já escreveram tantos, nenhum amor acaba.

* Texto originalmente publicado em 1º/5/2014 na REVISTA WARM UP e modificado em alguns trechos por questões temporais.

SENNA, 25 (5)

S

fiandrimt

RIO – O segundo texto da trilogia, escrito em 2004, quando dos dez anos da morte de Senna. A entrevista tão esperada com Maria Teresa Fiandri, a médica que recebeu o piloto no hospital Maggiore, de Bolonha.

“BELO E SERENO”

Era uma dívida que tinha comigo mesmo. Na semana do acidente, foi a única pessoa que quis muito entrevistar e não consegui. Entre outras coisas porque me demiti do jornal. E, de certa forma, ela foi a grande responsável por umas das matérias mais importantes que fiz, minha última na “Folha”. Porque a forma que imaginei para chegar a ela passava por encontrar uma antiga namorada que eu sabia que tinha voltado à Itália, 13 anos antes, para estudar medicina em Bolonha. Encontrei essa ex-namorada procurando a doutora Fiandri. Cristina, o nome dela, tinha se formado em Bolonha e trabalhava como médica legal. Fez parte da equipe que realizou a autópsia em Senna. E me contou muita coisa sobre a morte, o estado do piloto, detalhes que só mesmo quem chegou muito perto teria condições de relatar.

Foi uma boa entrevista, essa com a doutora Fiandri dez anos depois. Mas, curiosamente, meu gravador não funcionou. Tenho problemas com gravadores quando se trata do Senna. Ainda em 1994, eu e o Nilson Cesar, então meu colega de Jovem Pan, fomos à quinta perto do Estoril onde estava vivendo Adriane Galisteu. A casa pertencia ao Braguinha, empresário conhecido, ex-presidente do Bradesco, muito amigo de Senna e tal. Adriane ficou lá por meses depois da morte do namorado.

Era a primeira vez que a namorada de Ayrton falava após o acidente e fizemos ao vivo, por telefone, durante o programa “São Paulo Agora”, da Pan. Era semana do GP de Portugal. Ficou ótima e está gravada nos arquivos da rádio, possivelmente. Mas eu também gravei. Coloquei o gravador ali do lado, play e REC e vamos embora. Quando terminamos, entramos no carro e eu disse ao Nilson: vamos escutar pra ver se ficou legal. Coloquei no toca-fitas, estava tudo OK, boa tarde ouvintes, estamos aqui em tal lugar e tal, começo, primeira pergunta, segunda e, de repente, silêncio total. Por alguma razão, o bendito gravador parou de gravar. Nunca vou entender essa porra. Fiz todos os testes e estava funcionando direitinho. Mas não gravou a Adriane na quinta de Portugal. Só o começo.

Com a doutora Fiandri foi parecido. O Fábio Seixas estava comigo e deve lembrar de mais detalhes. Ou o gravador não funcionou, ou eu apertei o botão errado, ou esqueci de levar um gravador. Só sei que não gravei. Por sorte, anotei as respostas num bloquinho. E, também curiosamente, elas estavam muito bem gravadas na minha cabeça, de forma clara e cristalina, quando sentei para escrever o texto.

Enfim, essa entrevista foi publicada quando este blog ainda não existia e acho que não coloquei aqui antes. Então coloco agora.

prediofiandriO prédio é idêntico aos milhares que perpassam a paisagem das cidades do norte da Itália: baixo, quatro andares, pintado de bege, numa rua tranquila e arborizada da periferia de Bolonha. Via dei Lamponi, número 1. Ali, no segundo andar, vive a pessoa que avisou ao mundo, há dez anos, que Ayrton Senna não mais vivia. Foi por suas mãos que ele passou ao chegar ao Hospital Maggiore, 32 minutos depois de bater no muro da curva Tamburello, em Imola, a 35 km dali. Foi de sua boca que saiu, após uma agonia de quatro horas, a notícia que abalou as estruturas da Fórmula 1, chocou o mundo e deixou um país dobrado sobre sua própria dor.

A médica Maria Teresa Fiandri parou de trabalhar no Maggiore em 2001, depois de 36 anos de serviços. Naquele 1º de maio, era a chefe do setor de Anestesia e Reanimação. Como sempre, desde que o circuito passou a receber a F-1, em 1980, fazia parte das equipes de emergência que poderiam ser chamadas a qualquer momento para atendimento em casos de acidente.

Naquele 1º de maio, não precisou esperar o bip convocá-la. Quando Senna bateu, ela se levantou, vestiu o jaleco branco e já estava pronta para sair de casa rumo ao hospital quando o piloto mexeu a cabeça pela última vez.

Fiandri estacionava seu carro no pátio reservado aos médicos do Maggiore quando viu o helicóptero cor-de-laranja se aproximar. Trazia Senna e uma equipe de reanimação que tentava mantê-lo vivo. No helicóptero mesmo ele já havia recebido uma transfusão de 4,5 litros de sangue.

Ayrton tinha batido na abertura da sétima volta do GP de San Marino, a segunda sem o safety-car na pista. Seu carro, na entrada da Tamburello, guinou para a direita. Ele freou e reduziu marchas, de acordo com a telemetria. O impacto frontal, às 14h12 locais, aconteceu a 216 km/h. A barra da suspensão dianteira direita voltou-se contra o capacete, penetrou a viseira e atingiu sua cabeça pouco acima do olho direito. Ele morreu na hora. “Da pista, o doutor Gordini já tinha me avisado que havia pouco a fazer”, conta Maria Teresa.

Mas, como todo médico, Maria Teresa Fiandri fez o possível, mesmo sabendo que o quadro era irreversível. “Do ponto de vista cerebral, já não havia mais atividade imediatamente após a batida. Ele chegou ao hospital com o pulso fraquíssimo, quase sem pressão. Mas, depois, voltou ao normal. Só que não havia mais atividade cerebral, era apenas uma questão de tempo para que ele fosse legalmente considerado morto.”

Maria Teresa Fiandri, cinco filhos, três netos, todos homens, lembra de tudo, em detalhes. Ela diz ter consciência de que participou de um episódio histórico, mas não revela, no tom de voz suave e tranquilo, nenhum tipo de emoção especial, não diferente da que provavelmente teria se relatasse outros casos de pacientes que passaram por suas mãos.

E guarda, de Senna, uma imagem bem diferente daquela transmitida pelos que viram seu rosto, horas depois do acidente: “Ele chegou a mim pálido, mas belo e sereno”.

Pergunta – Doutora, em que condições Ayrton chegou aos seus cuidados, logo depois de descer do helicóptero?
Fiandri – Ele já havia recebido os primeiros socorros na pista e no helicóptero. Estava pálido, mas belo, sereno… Um jovem bonito, com os cabelos revoltos, os olhos fechados. É a imagem que guardo. Tinha um corte na testa, três ou quatro centímetros. Mais nada. Era a única ferida. Chegou ainda de macacão. Mas quando o viramos, vi que tinha muito sangue. E eu me perguntava: “mas de onde vem tanto sangue?” Saía de trás, da base do crânio. Lembro do macacão, quando lavamos, para devolver à família, tinha tanto sangue… E eu disse à Monica, uma assistente de enfermagem: “Não podemos entregar isso a eles assim”. Mas era colocar na água e a água ficar vermelha.

Pergunta – Ficou gravada na memória de todos aquele sangue na pista…
Fiandri – Foi da traqueostomia. O sangue era dele.

Pergunta – Onde a senhora estava no momento do acidente?
Fiandri – Em casa, assistindo à corrida pela TV. Quando vi a batida, e a cabeça dele caindo para o lado, já me vesti, antes mesmo de me chamarem. Nem esperei pelo bip. Sabia que seria necessária minha presença no hospital. Eu estava chegando com meu carro quando o helicóptero estava descendo.

Pergunta – Pela TV, deu para ter idéia da gravidade?
Fiandri – Pelo movimento da cabeça, eu concluí na hora que era algo muito grave. Ali ele já entrava em coma, mas o coma é um fenômeno muito estranho. Por isso foi só quando vimos o resultado da tomografia que tive certeza de que não havia nada a fazer, embora o doutor Gordini [Giovanni Gordini, que o atendeu na pista] já tivesse me avisado que não tinha volta. Aí fizemos um eletroencefalograma. Já não havia mais atividade elétrica. Quando ele chegou, o pulso estava fraquíssimo e quase sem pressão. Mas antes do eletro, tinha voltado tudo ao normal. Por isso, até ver a tomografia, quem sabe… Mas quando vimos, todos nós… Bem, aqui não há nada a fazer.

Pergunta – Já no hospital, como a notícia foi dada àqueles que estavam no 12º andar?
Fiandri – Eu me lembro de seu irmão, não sei se ele tinha noção da gravidade da situação. Eu o levei para ver os resultados dos exames. Expliquei que já não havia mais atividade elétrica. Mas quem assumiu o controle de tudo foi uma moça, que parecia tomar as decisões naquele momento [ela se refere a Betise Assumpção, então assessora de imprensa de Senna, hoje casada com Patrick Head, um dos sócios da Williams].

Pergunta – A senhora tinha a percepção de que participava, de certa forma, de um momento histórico?
Fiandri – Tinha. Mas mesmo assim, nessas horas você deixa isso de lado e segue os protocolos precisos de atendimento. A, B, C, D, todos os procedimentos. Isso ajuda a vencer a emoção. Alguns anos antes, houve um acidente de trem em Bolonha, e as primeiras vítimas que chegaram ao hospital eram crianças de 3, 4, 5 anos. Aí a disciplina é importante, senão você não faz nada. Eu fui para um canto e chorei por 30 segundos. “Agora chega”, disse. “Ao trabalho”. Com Senna, não chorei. Segurei a emoção. É uma forma de disciplina. Estávamos todos emocionados, mas isso não condicionou nosso trabalho.

Pergunta – Houve alguma chance de sobrevivência?
Fiandri – Não. Quando vimos o resultado do eletro… Bem, pela lei ele não estava morto, era preciso esperar o coração parar de bater. Mas não, não havia nenhuma esperança. Foi imediata a profundidade do coma na batida.

Pergunta – A senhora se lembra se dormiu naquela noite?
Fiandri – Em dias como aquele não se dorme sem umas 20 gotas de Valium… Era um jovem, um piloto, ele em particular, um pouco herói, carismático… Eu recebi muitas cartas do Brasil, de gente me perguntando se ele tinha recuperado a consciência… As pessoas tinham necessidade de saber algo.

Pergunta – A senhora é religiosa?
Fiandri – Não praticante. Mas penso em Deus, e isso ajuda. Depois vim a saber que ele era assim. Sabe, me parece que ele sempre achou que iria morrer jovem. “Morre jovem quem ao céu é caro”, dizem os mais antigos. Talvez se envelhecesse, não teria havido essa comoção. Ele deixou uma história que não deixaria se envelhecesse. É só uma opinião, mas eu acho que se ele pudesse escolher entre morrer jovem e envelhecer… Acho que pagaria esse preço.

SENNA, 25 (4)

S

proface 009

RIO – Vão-se 25 anos daquele fim de semana e creio que nesse tempo todo já disse e escrevi tudo que sabia sobre o assunto. Neste post e nos dois seguintes, vou republicar uma pretensa trilogia sobre Imola, 1994. Espero que gostem.

“IMOLA, 1994″*

Há nove meses ensaio a abertura deste texto. Por uma série de circunstâncias eu, o enviado especial do maior jornal do país que estava lá, em Imola, naquele dia, nunca escrevi sobre a morte de Ayrton Senna. De certa forma, sou um privilegiado. Não caí na vala comum. Não elaborei teorias. Não filosofei em público. Fui demitido antes. Estou isento. Ninguém pode me acusar de omissão.

“È morto”, assim imaginei a primeira frase. Abrir com aspas, desde que seja uma declaração forte, importante, decisiva. É o que ensinam alguns manuais de redação. “È morto.” Estávamos parados na fila do pedágio, na entrada de Bolonha, no carro que eu aluguei. Um Fiat Punto vinho metálico, sem rádio. Eu dirigia. Ao meu lado, Mario Andrada e Silva, do Jornal do Brasil. Meu partner, o cara que começou no jornalismo comigo, na Folha, em 88. Eu editor-assistente, ele um ex-economista que resolveu virar jornalista, o sujeito que mais conhece Fórmula 1 no Brasil. Foi meu repórter, eu editor, depois trocamos as funções, mais adiante viramos concorrentes.

“È morto.” Sem rádio no carro, eu e o Mario vivíamos momentos de uma agonia indescritível. Saímos de Imola logo depois da corrida, direto para o Hospital Maggiore de Bolonha. No meio de um congestionamento monstruoso, a falta de notícias dava nos nervos. Sabíamos que ele ia morrer, arriscávamos até que já estava morto quando entrou naquele helicóptero. Mario dormiu no caminho. Era seu jeito de enfrentar a tensão. Eu, agitado, procurava algum jeito de fugir daquele mar de carros. Não dava. No pedágio, pedi a ele que perguntasse ao carinha do carro ao lado se havia alguma notícia sobre Senna. “È morto”, respondeu o rapaz. Eram quase sete da noite. Comecei a tremer. Enquanto pegava as moedas no console, repetia “puta que pariu, puta que pariu, puta que pariu”.

É horrível admitir que minha primeira reação tinha a ver com o que me esperava nas próximas horas. De uma maneira ridícula, esqueci qualquer tipo de sentimento para me envolver com a cobertura. Não me venham com o papo furado de que fiz o que qualquer bom jornalista teria que fazer. É balela. Preferia ter chorado. Puta que pariu, puta que pariu. A gente não sabia onde ficava o Maggiore. Seguimos as placas e achamos. Descemos do carro correndo, como se fosse possível registrar os últimos suspiros do Ayrton, como se ele estivesse nos esperando para morrer.

Não gosto de lembrar, e provavelmente vou rechear estas linhas de clichês, coisas como “parece que foi ontem”. Mas parece mesmo. É indiscutível que essa foi a cobertura da minha vida, que jamais vou passar por coisa parecida. Por isso é natural lembrar de tantos detalhes com tamanha precisão. Fiz questão de guardá-los. Senti que poderia ser a última corrida da minha vida. Era preciso preservá-la.

Imola, sábado à noite. Saio do autódromo com uma sensação esquisita. Nunca tinha visto ninguém morrer ao vivo, perto de mim. Dou carona a uma jornalista alemã, Karen, que estava hospedada num hotel ao lado do nosso, em Riolo Terme – uma cidadezinha a 15 quilômetros do circuito. Ela chorava feito doida. Ratzenberger era seu amigo. Karen se envolvia demais com os pilotos. No caminho, exercitando um desconhecido inglês sentimental, tentava estancar aquela choradeira com as bobagens de sempre: acontece, esse negócio é perigoso, a F1 precisa rever seus conceitos, calma, a gente tá vivo ainda, porra.

Não saímos para jantar. Estávamos no quarto eu, Mario e o Marcelo D’Angelo, da Rádio Eldorado. No mesmo andar, Lemyr Martins e Alex Ruffo, da ‘Quatro Rodas’. Cansados, fomos direto para a cama. O fim de semana vinha sendo desgastante. Na sexta, o acidente de Rubinho. Para piorar, um furgão da Williams atropelou a mala onde eu levava meu computador, na saída do autódromo. Foi uma aventura fazê-lo funcionar à noite. No sábado, morre um cara. Chega. Acaba logo antes que piore.

Como sempre, eu, Mario e Marcelo acordamos tarde no domingo. Um cappuccino urgente e pista. Duas horas antes da largada, cada um em seu posto. Os dois na cabine da Eldorado. Eu, na da Jovem Pan, onde era comentarista. Em Ímola, as cabines de rádio ficam em contêineres sobre o terraço do edifício dos boxes. No andar logo abaixo fica a sala de imprensa. É muito ruim para transmitir. Locutores e comentaristas só têm à disposição dois monitores: um com as imagens da TV e outro com os tempos. O ar-condicionado não funciona direito e não há janelas.

Logo na largada, uma batida feia de Pedro Lamy em J.J. Lehto. Um sinal, talvez. Quando Ayrton bateu, berrei ‘”Senna!” no microfone. Apesar dos precedentes, não era para morrer. Caramba, o cara mexeu a cabeça! Não, não ia morrer. Mas percebi que havia algo de errado quando os comissários de pista chegaram ao carro e se mantiveram a distância. A partir daquele momento, a correria atrás de informações era frenética. Eram 9h13 quando Senna bateu na Tamburello. Subi e desci as escadas atrás de notícias uma dezena de vezes. Na segunda, terceira, sei lá, passei pela cabine da Globo. Galvão Bueno me perguntou se eu sabia de alguma coisa. Idiota, respondi que a corrida iria recomeçar, como se aquela fosse a informação mais importante do momento. “Eu quero saber se ele está vivo, porra!”, me disse o Galvão. Foi até gentil demais.

Soube que Ayrton estava morto – ou que, se não estava, não tinha mais volta e morreria a qualquer momento – ainda no autódromo, pelas informações que chegavam de Bolonha por telefone, transmitidas por repórteres italianos que haviam corrido para o hospital. Tivera paradas respiratórias e morte cerebral. Mas eram informações desencontradas e não-oficiais. A corrida não tinha terminado, e relutei em matar Senna antes da hora, no ar. No corre-corre, entre a cabine e a sala de imprensa, liguei para a redação do jornal. Não havia ninguém. Só consegui falar com meu editor por volta das 11h, horário de Brasília, no final do GP. “Pode se preparar para o pior”, disse. “O cara morreu.” Ouvi, do outro lado da linha, que iríamos fazer um caderno de oito páginas. Ok, ok, estou indo para o hospital.

“È morto.” Quando entrei no saguão do Maggiore, a primeira pessoa que vi foi o Luís Roberto, da Rádio Globo/CBN, de São Paulo. Com um celular, me colocou no ar, ao vivo. Não sabia direito o que dizer. Fazia meia hora que Senna tinha morrido e eu ainda não tinha me dado conta do tamanho da notícia. Procurei ser sensato. Disse que estava chocado e que o Brasil perdera um grande esportista. Muito original. A cabeça estava em outra. Quem ouviu a Adriane? E a família? E a Xuxa? E o presidente? Pela primeira vez, em oito anos de Folha, sentia que a edição fugia do meu controle. Maldito vício, esse de repórter que já foi editor querer editar tudo à distância. À minha esquerda, Nílson César, o locutor da Pan, me chama para uma entrada ao vivo também pelo telefone. No aparelho ao lado, Cândido Garcia, da Bandeirantes, faz o mesmo. Ameaço chorar quando ele se refere ao Mario, “seu grande amigo”, que disse não sei o quê. Naquele momento, naquele exato momento, caí na real. Percebi que uma fase da minha vida, das nossas vidas, tinha chegado ao fim. “Meu grande amigo” Mario. Será que voltaríamos a nos ver uma vez a cada 15 dias, cada vez num país diferente, eu filando seu Marlboro Menthol Lights, ele usando meu shampoo?

É gozado esse egoísmo que tomou conta de mim. Pensava na minha vida, na minha carreira, na família que a gente formava e que nunca mais seria a mesma. Fim, fim. Não chorei e fiz um discurso indignado, algo do tipo “meu jornal me manda aqui para cobrir um evento esportivo e eu sou obrigado a relatar uma carnificina”. Cara, quanta bobagem.

Ficamos no hospital até as 21h30, quando, no 12º andar, vi uma maca passar à minha frente, com um corpo coberto por um lençol. Subi num banco para poder enxergar melhor. Abracei o Galvão. Abracei a Betise, assessora de imprensa do Senna. Não derramei uma lágrima. Precisava falar com o jornal, urgente.

Não havia mais nada a fazer no Maggiore. Tinha a hora da morte, 18h42, o comunicado da médica-chefe do Centro de Reanimação do hospital, vi as pessoas chorando no saguão, sabia o que tinha acontecido com Senna. Voltamos para o autódromo. Era hora de escrever. Jamais havia imaginado que um dia escreveria sobre a morte daquele sujeito. Antes, liguei para o jornal. “Temos isso, temos aquilo, temos fulano?”, falava, sem parar. Meu editor tentou me tranquilizar. “Se precisar, a gente faz tudo daqui.” E reiterou: “Nada de emoção nos textos”.

Fiquei puto. Como, a gente faz tudo daqui? Claro que vou escrever sem emoção! Mas quero um espaço para um texto em primeira pessoa. Vamos ver, vamos ver. Quando cheguei de volta a Imola, me informaram que não precisava de texto na primeira pessoa.

Havia poucas pessoas na sala de imprensa. Eu, Mario, Celso Itiberê, de ‘O Globo’, a Karen desesperada, alguns ingleses e japoneses. Poucos italianos, já que era 1º de maio e a maioria dos jornais não circulou no dia seguinte. Liguei meu velho Toshiba T1000 e o lead, surpreendentemente, saiu fácil. Tinha usado o ideal no dia anterior: “A Fórmula 1 matou ontem o austríaco Roland Ratzenberger…” Era bom.

Mas decidi escrever o texto mais gelado e despido de emoções da minha vida. Nem precisava. Há certos fatos que falam por si só. Dane-se o que o jornalista pensa. Resolvi usar uma construção inédita do meu repertório: “O brasileiro Ayrton Senna da Silva”. O brasileiro. Nunca tinha chamado Senna de “o brasileiro”. “O brasileiro Ayrton Senna da Silva, piloto profissional de Fórmula 1, morreu ontem…” Ficou legal.

Escrevi rápido. Cinco ou seis matérias. A Williams, a suspensão, o hospital, a pista, essas coisas. Quando terminei de transmitir tudo, me veio uma sensação horrível de trabalho malfeito. Aquela coisa de não interferir na edição. Cheguei a escrever um recado emocionado aos colegas da redação que ajudaram naquele dia, que tiveram suas folgas cassadas, que colaboraram na elaboração de um produto bom num episódio tão trágico. Meu drama interior era um só: não fiz nada que os outros não tenham feito. E o resultado da edição do dia seguinte dependia muito mais de quem estava em São Paulo do que de mim. Ninguém nunca leu esse recado, que está guardado num disquete em casa ao lado da caneta que eu usei para minhas anotações naquele domingo. Uma caneta que eu achei na sala de imprensa de Aida, com a ponta mordida. Ninguém leu porque o texto não chegou a ser transmitido. A linha caiu, deu ocupado, sei lá. Desisti.

Os dias seguintes foram piores que o domingo. Na segunda-feira, fomos cedo para o Instituto Médico Legal de Bolonha, sempre eu, Mario e Marcelo. Tinha gente para todos os lados e nenhuma notícia. Às 8hs de Brasília, 13h na Itália, falei com meu pauteiro de um telefone público num bar. Não tinha muito a dizer, daria retorno mais tarde, e ele me avisou que alguém na redação queria falar comigo antes de eu desligar. Era uma moça, Cleusa Turra, secretária-assistente de redação. Pensei o pior. Vão querer que eu entreviste o caixão, o muro, essas coisas da ‘Folha’. Caí do cavalo. Cleusa queria saber apenas se eu estava legal. Me emocionei pela segunda vez. Não esperava nada muito humano do jornal. Estou legal, respondi.

Foi um dia fraco de notícias, cheio de desencontros e alarmes falsos. A ‘Folha’ enviara um fotógrafo para Bolonha, o Pisco Del Gaiso, hoje na ‘Placar’. Só o vi no IML. Perdemos o contato depois. No fim da tarde, nos transferimos de mala e cuia para o Novotel de Bolonha, onde estava instalado o QG da diplomacia brasileira que iria cuidar da transferência do corpo no dia seguinte. Alguns colegas voltaram ao Brasil na segunda à noite, no mesmo vôo que levou o irmão de Senna, Leonardo. Os que ficaram viraram atração; só eu fui entrevistado por uma rádio italiana e uma TV alemã. À noite, liguei para o jornal. “Chegou tudo?”, perguntei. Sim, chegou. Eram 22h aqui, 3h de terça-feira lá.

Fulana quer falar com você. Era a secretária de redação do jornal, uma figura que raramente me cumprimentava na redação. Vinha bomba, com certeza. Resumo da nossa conversa, um tanto quanto áspera: nossa avaliação (deles) é de que ‘O Globo’ saiu melhor, blá-blá-blá. E achamos que você deveria ter ido para o hospital na hora do acidente. Por que não foi? Porque achei que não deveria ficar uma hora no escuro, sem informações, sabendo que ele poderia morrer a qualquer momento. Não foi por causa da rádio?, insinuou a secretária. Ali percebi que meus dias na ‘Folha’ estavam contados. Inventaram uma desculpa para me implodir.

Na terça-feira, irritado com a insinuação da véspera, alguns quilos mais magro (não dava tempo de comer direito e faltava apetite, essa é a verdade), vivi novos momentos de emoção. O corpo embarcou no fim da tarde num avião da Força Aérea Italiana, em Bolonha. Não vi a decolagem. Estava falando com o jornal. Na mesma hora, a maioria dos jornalistas brasileiros embarcou para Paris, de onde voltariam a São Paulo no mesmo vôo do caixão. Me senti só. Ficamos eu e o Mario em Bolonha. O resto foi embora. Foi nessa terça-feira que consegui minha melhor matéria. Uma ex-namorada, de 13 anos antes, quando eu ainda morava no interior, era legista no IML de Bolonha. Consegui encontrá-la. Brigou comigo, depois de tantos anos, porque eu não a procurei antes. “Eu te mostrava o corpo!”, me disse, num português bastante razoável. Foi até meu hotel e me deu uma longa entrevista. Descreveu a cabeça de Senna, contou que colocou uma rosa na sua mão antes de fecharem o caixão, falou sobre os legistas, seus professores. E me revelou que o laudo iria concluir que ele morreu na pista. Foi uma grande matéria. Minha última na ‘Folha’, manchete do jornal no dia seguinte, 4 de maio.

Naquela noite, no mesmo horário, três da manhã, liguei para a redação para avisar que estaria voltando no dia seguinte. A secretária de redação queria falar comigo de novo. Dois assuntos: 1) você não pode mais colaborar com a rádio; 2) decidimos que você vai ficar na Itália acompanhando o inquérito. Como acompanhar o inquérito? Isso vai levar meses! Pela primeira vez na minha vida, gritei com alguém no telefone. Queria voltar. Tinha motivos de sobra para isso. Primeiro, os jornalísticos: havia o velório, o enterro, todos os pilotos estariam no Brasil, eu precisava cobrir essa merda! Além do mais, um inquérito policial é um negócio que demora muito tempo. Não vou descobrir um assassino para o Senna, argumentei. Todo mundo já foi embora. “A ‘Folha’ não é todo mundo”, ouvi. Seguiu-se um bate-boca. Chegamos a um impasse. Apelei para o pessoal. Queria voltar, estava estressado, emagreci cinco quilos, precisava ver gente viva. “Nós decidimos. Você vai ficar e pronto”, me disse a secretária. Eram três da manhã e eu não queria esticar aquele papo. Fui bem claro: “Quem decide o que eu faço sou eu. Peço demissão e estou voltando amanhã”. Do outro lado da linha, ela tentou contemporizar. “Não é bem assim, vou falar com fulano e te ligo depois”, disse. Eu encerrei de vez: “Não, ninguém me liga mais hoje. São três da manhã e eu tenho um avião amanhã cedo. Tchau”. Desliguei e pedi à recepção que não passasse mais nenhuma ligação para meu quarto. “Eles vão dar para trás”, resmungou o Mario, que já dormia. Ligaram, eu soube depois. Mas eu já estava dormindo. Pela primeira vez, desde a morte de Senna.

Na quarta-feira, saímos os dois do hotel. Mario para Pisa, onde pegaria um avião para Londres. Eu para Milão, de onde voaria para Madri. Ambos, como sempre, atrasados. Mas, também como sempre, chegamos a tempo. No aeroporto de Linate, devolvi o Punto vinho e só embarquei porque era brasileiro. Ficaram com pena de mim. Cheguei a Madri, fui para o bom e velho Trip Hotel, liguei para meu editor, comuniquei-lhe que estava demissionário e fui ao cinema assistir ‘Proposta Indecente’. No fim da noite, emocionei-me pela quarta vez: na TV, mostraram as imagens do Morumbi lotado gritando o nome de Senna antes do clássico São Paulo × Palmeiras. No gramado, um jogador, ajoelhado, rezava. Era Gilmar, zagueiro são-paulino, hoje na Portuguesa.

Tentei esquecer Senna, a F1 e a ‘Folha’. Na manhã seguinte, embarquei em Barajas levando um monte de acessórios que comprei numa concessionária Renault para meu carro novo, que eu ainda não tinha nem visto. Cheguei a São Paulo na quinta à noite, logo depois do enterro. Minha mulher me esperava. Nos abraçamos em silêncio. Tentei manter a pose. Na Avenida Tiradentes, vi bandeiras negras, faixas, ônibus com a inscrição “Valeu Senna”. Na sexta, fui ao jornal para oficializar minha saída. Não fui recebido pela direção de redação. O pessoal da editoria não sabia que eu estava fora. Minha coluna, ‘Warm Up’, estava diagramada para ser publicada no dia seguinte. Ela nunca foi escrita. Fui demitido na segunda-feira, por insubordinação.

* Este texto foi originalmente publicado em outubro de 1994 e modificado em alguns trechos por questões temporais.

SENNA, 25 (1)

S

RIO – O leitor Igor Rabelo me mandou pelo Twitter a reprodução da narração do acidente de Senna há 25 anos em Imola. Nilson Cesar era o narrador da Jovem Pan, emissora para a qual eu trabalhava na época, além da “Folha de S.Paulo”. Claudio Carsughi era o comentarista, nos estúdios de São Paulo. A gente, no autódromo, ficava num contêiner em cima dos boxes.

Eu acho que nunca tinha escutado isso.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

maio 2019
D S T Q Q S S
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031