Arquivodomingo, 12 de maio de 2019

TAPAS Y BESOS (3): SIESTA

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Hamilton: mais uma dobradinha e escrevendo a história

RIO (nada de novo) – A Fórmula 1 não é futebol e a Ferrari não é o Liverpool, embora vermelha. Portanto, esqueçam qualquer possibilidade de uma virada, uma “remontada” histórica como a da equipe inglesa em cima do Barcelona na Champions League. Depois da quinta dobradinha seguida da Mercedes no ano, desta vez no GP da Espanha, a única questão aberta para o campeonato é: Bottas será capaz de deter Hamilton?

Acho muito difícil. A reação de Lewis à esticadinha de pescoço de Bottas para fora do engradado foi imediata. Sapattudo fez a pole ontem com 0s6 de vantagem para o inglês e saiu dizendo, em bom finlandês, para quem quisesse ouvir: “Olen nyt uusi mies, katso partani!”. No dia seguinte, só conseguiu ficar perto do companheiro no pódio. E também na relargada no final, quando o safety-car foi acionado para limpar a sujeira deixada por Stroll e Norris, que bateram lá atrás.

Hamilton mostrou que a perda da pole ontem não lhe afetou assim que as luzes vermelhas se apagaram. Saltou à frente de Bottas e Vetttel veio junto. Acelera daqui, freia dali, e quem acabou aparecendo em terceiro, à frente da Ferrari #5, foi Verstappinho, que esperou para ver no que ia dar a refrega à sua frente. Apesar da boa partida, Sebastian acabou perdendo uma posição. E dechapou um pneu.

Como sempre em Barcelona, formou-se um longo trem com ninguém passando ninguém, até que na décima volta Charlinho, que estava em quinto, chegou em Vettel — que estava mesmo um pouco mais lento por conta da borracha frita na primeira curva. A Ferrari levou duas voltas para chegar à conclusão de que era melhor deixar o monegasco ir embora, e assim foi, na 12ª volta: Sebastian saiu da frente e Lec-Lec passou.

Nada mais aconteceu até o início das paradas, que indicariam as estratégias de cada um. Foi na 20ª volta que Vettel parou e colocou pneus médios, voltando em oitavo. Na passagem seguinte, Verstappen entrou nos boxes espetou macios — e aí não tinha dúvida, iria para dois pit stops. Hamilton, na liderança, ostentava folgados 10s de vantagem para Sapattudo na volta 26, quando Leclerc parou e colocou pneus duros. Insinuava uma única visita aos boxes. E então veio a Mercedes para fechar a janela, com Bottas na 27ª e Hamilton na 28ª — ambos colocaram pneus médios, o que deixava em aberto a estratégia; dependendo do rendimento desses pneus e do que fariam os adversários, poderiam ir até o fim. Se preciso fosse, parariam de novo.

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Ferrari: demora para decidir, mas nada que pudesse mudar o rumo da temporada

Na 33ª volta, foi a vez de Vettel chegar no parceiro de bochechas rosadas. E a Ferrari, novamente, demorou para tomar uma decisão. Bem mais rápido, com pneus mais macios, o alemão ficou três voltas atrás do monegasco até que ele abrisse passagem. A chance de pódio existia, porque Max teria de parar de novo. Mas as dúvidas quanto à tática adotada por Tião se dissiparam quando ele parou de novo na 41ª, colocando um novo jogo de pneus médios.

Verstappen faria seu segundo pit stop na 44ª volta. Hamilton liderava com folga, Bottas vinha em segundo e Leclerc, com uma parada apenas, era o terceiro. Seu ritmo, no entanto, era ruim. Verstappen e Vettel descontavam a diferença rapidamente e iriam chegar no monegasco logo. Na 46ª, Bottas parou e colocou macios. A Mercedes também iria para dois pit stops — tinha folga para isso. Foi quando Norris se enroscou com Stroll e o safety-car entrou.

A Mercedes foi rápida e chamou Hamilton para uma nova troca. Se vacilasse ali, o inglês perderia a corrida. Mas deu tempo, ele colocou macios como os do parceiro e voltou na liderança. Com os pneus duros rendendo nada, a Ferrari também pediu para Leclerc parar e o jovem Charles acabou caindo para quinto. Na relargada, na volta 53, Hamilton não teve grandes dificuldades para escapar de novo e seguiu tranquilo até a bandeirada. De quebra, fez a volta mais rápida da corrida e levou um ponto extra.

Nas últimas voltas, só deu para se divertir com o embate entre Magnussen e Grosjean pelo sétimo lugar, que quase levou a cúpula da Haas ao hospital com infartos coletivos. Se tocaram, correram o risco de bater — e de perder a pontuação dupla –, e no fim o dinamarquês se deu melhor. Grosjean ainda perderia outras posições, mas pelo menos marcou seu primeiro ponto no ano.

Hamilton, Bottas e Verstappen foram ao pódio. Max ganhou do amigo internauta o prêmio de piloto do dia, por ter deixado as duas Ferrari para trás — Vettel em quarto, Leclerc em quinto. Gasly, Magnussen, Sainz Jr., Kvyat e Grosjean fecharam a turma dos pontos. Com a 76ª vitória de sua carreira e terceira no ano, Lewis tirou a liderança do campeonato de Bottas. O placar agora aponta 112 a 105 para o britânico. Verstappen foi a 66, aumentando ainda mais o vexame da Ferrari no ano — Vettel tem 64 e Leclerc, 57.

O mais emburrado no pódio era Bottas, intrigado com o que chamou de “comportamento estranho da embreagem” na largada. Foi a explicação que deu para o mau começo de prova. Hamilton festejou o quinto 1-2 da Mercedes dizendo-se feliz por “estar ajudando a escrever a história“. E está mesmo, porque além de ser inédito um início de temporada assim, o time igualou a marca de cinco dobradinhas seguidas que apenas dois times conseguiram na F-1: os próprios prateados, em 2014 e 20015/2016, e a Ferrari, em 1952 e 2002.

Mas Lewis foi humilde, até. Mais do que ajudar a escrever a história, pode-se dizer que ele já é a história.

Faz algum tempo, inclusive.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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