Arquivoterça-feira, 21 de maio de 2019

ANDREAS NIKOLAUS LAUDA

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RIONiki Lauda recebeu a extrema-unção em 1976 depois de queimar dentro de uma Ferrari em Nürburgring. Seis semanas depois estava de novo dentro de um carro para lutar pelo Mundial até a última corrida, em Fuji.

Chovia muito. Ele recusou-se a continuar na pista por falta de segurança. Campeão vigente, perdeu o título para James Hunt. No ano seguinte, conquistaria a taça pela segunda vez. Em 1979, de repente, resolveu parar para cuidar de sua companhia aérea. Voltou em 1982 para salvar a empresa e em 1984 conquistaria o tri. Correu mais um ano e parou.

Se eu tivesse apenas algumas poucas linhas para falar sobre Lauda, acho que escreveria isso. Mas teria de deixar de lado tanta coisa, tanta coisa…

Lauda não zombou da morte. Antes, a viu de perto, sentiu seu calor e passou a temê-la por absoluto conhecimento de causa. Voltar a correr não foi um desafio à figura caricata vestida de negro com a foice na mão, clichê que não fazia muito seu tipo. Voltar a correr foi simplesmente retomar a vida de onde ela tinha parado. Negar-se a chance de uma nova glória foi sua maneira de mostrar que a respeitava.

Andreas Nikolaus Lauda tinha um jeito bastante peculiar de enfrentar a vida e seus obstáculos. “A felicidade é uma inimiga, ela te enfraquece porque, de repente, você percebe que tem algo a perder”, disse um dia. Talvez por isso não fosse alguém de riso fácil. Via a felicidade com alguma desconfiança. Defendia a ideia de que nas derrotas se aprendia alguma coisa, não nos triunfos. Achava as vitórias aborrecidas. “Falar sobre elas é chato”, dizia. “Você aprende muito mais com o fracasso do que com o sucesso.”

Tal visão de mundo fez com que ele, trinta anos depois de parar de correr, ainda fosse alguém a ser ouvido por todos na Fórmula 1. Um sábio à disposição daqueles que a ele recorriam. Não é exagero repartir com Lauda o sucesso que a Mercedes alcançou nos últimos tempos. Era o homem dos conselhos incômodos e das decisões difíceis. Um oráculo, não uma esfinge.

A maior tragédia da vida de Niki Lauda não foi seu acidente em Nürburgring, mas a queda do voo 004 da Lauda Air na Tailândia, em maio de 1991. As 223 pessoas a bordo morreram. Ele nunca se recuperou da catástrofe, mas fez questão de apurar por conta própria as causas do desastre, revirando os destroços para concluir que o reverso de uma das turbinas se abriu em pleno voo. Um ano depois, as investigações oficiais constataram que ele estava certo.

Aviões, mais do que corridas, eram sua grande paixão. Muitos achavam que, no auge de sua carreira, se aventurar na aviação comercial era um risco desnecessário para alguém que já tinha escapado da morte e poderia desfrutar de uma aposentadoria tranquila e confortável. Mas Lauda também tinha uma noção bem particular daquilo que considerava essencial para viver. Para descrevê-la, usava o próprio esporte  como metáfora: “Muitos criticam a Fórmula 1 e dizem que correr de carro é um risco desnecessário. Mas o que seria da vida se fizéssemos apenas o necessário?”, perguntava.

Lauda foi necessário aos que com ele conviveram até o último de seus dias. Foi uma bela maneira de viver.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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