Arquivodomingo, 26 de maio de 2019

STREET ART (7): QUASE-DRAMA

S
mond191
Hamilton: com capacete em homenagem a Lauda, vitória sofrida em Monte Carlo

RIO (quer passar a vergonha no crédito ou no débito?) – Se alguém realmente achou este GP de Mônaco incrível, um “thriller”, uma trama de suspense até o último minuto, puxa… O que é que você tem visto ultimamente na TV, hein?

OK, os pneus de Hamilton estavam horríveis. OK, ele reclamou pela primeira vez na altura da 20ª volta, e tinha mais 58 pela frente. OK, Verstappinho passou a corrida toda colado no rabo dele.

Mas qual a novidade?

A única coisa que poderia acontecer de grave seria um pneu estourado. Mas não era o caso. Os pneus estavam ruins, só isso. Em Mônaco, se os pneus estão ruins, o carro fica ruim de guiar. Mas se você está na frente e tem uma Mercedes nas mãos, tal problema só tem consequências se o piloto for ruim. E Hamilton é muito bom.

Sofreu, é verdade. Passou por momentos de incerteza e tensão. Chegou a dizer que só ganharia “por milagre”. Mas acho que exagerou um pouco. A corrida de hoje foi um “quase-drama”. Mesmo que Max passasse, estava punido com 5s desde o pit stop logo no início da prova, na volta 12, quando a Red Bull, no entendimento dos comissários, o liberou da parada em condição pouco segura e ele tocou em Bottas. Claro que tinha carro para abrir os tais 5s, mas para isso Hamilton teria de deixá-lo passar. Ricciardo fez a corrida toda no ano passado com o motor pifando e ganhou. Senna, em 1992, passou Mansell no fim — o inglês teve de fazer uma parada extra nos boxes — e segurou a onda sem nem olhar no espelho. Mônaco é assim. Não passa mesmo.

E quando tenta demais, pode se dar mal, como o pobre Leclerc, que conseguiu, sim, uma linda ultrapassagem sobre um desatento Grosjean na Rascasse, mas quando tentou fazer o mesmo com  Hülkenberg furou o pneu, porque o alemão da Renault não deu moleza. E aí sua corrida acabou.

mond199l (2)
Leclerc: pneu furou, acabou abandonando

Leclerc teve um papel, digamos, decisivo na prova por conta desse pneu furado, que espalhou detritos pela pista e motivou a entrada do safety-car na volta 11, fazendo com que todo mundo antecipasse o pit stop. Nesse momento, a Mercedes colocou pneus médios nos seus carros. Achou que dava, até porque esperava-se por uma chuva que se viesse levaria todo mundo aos boxes de novo.

A escolha mostrou-se equivocada. Primeiro porque apesar da previsão apocalíptica de 90% de chance de chuva feita antes da prova, não caiu uma gota sobre o Principado capaz de desfazer o penteado das madames nas varandas de seus prédios. Nada de água. E os pneus médios de Hamilton não duraram muito, mesmo, fazendo com que o líder do Mundial passasse três quartos da corrida reclamando pelo rádio. “Não sei onde vocês estavam com a cabeça quando colocaram esses pneus”, resmungou mais de uma vez com seu engenheiro, que tentava manter a calma e animar seu pupilo: “Confia que vai dar tudo certo”, dizia.

mond199k
Verstappen toca em Bottas na saída do pit stop: punição para o holandês

Seus potenciais adversários escolheram os pneus duros. Bottas, que estava em segundo na hora do safety-car, também colocou médios e na volta seguinte, ainda sob o regime de neutralização, voltou aos boxes para trocar por duros porque aparentemente teve um furo no toque com Verstappen nos boxes — que levou os comissários a punirem o holandês. Perdeu duas posições na pista, mas na prática era uma só, para Vettel. Como dali até o fim a corrida se resumiu a um trenzinho puxado por uma locomotiva limitada em velocidade, Hamilton cuidando da borracha com voltas na casa de 1min17s (a pole, para lembrar, foi anotada na faixa de 1min10s), Bottas sabia que era só ficar perto de Vettel e Verstappen para beliscar ao menos um pódio com o pênalti imposto ao menino da Red Bull.

Nem todo mundo tinha trocado pneus quando o safety-car deixou a pista, na volta 14. Mas a turma da frente, sim. As posições foram se acomodando atrás após as paradas dos coadjuvantes e só mesmo nas últimas dez voltas a temperatura da disputa subiu um pouco, quando Verstappen colou em Hamilton. Só que nos dois pontos da pista onde dá para acelerar um pouco, a reta dos boxes e o trecho do Túnel, Lewis enfiava o pé no acelerador e desgarrava do rival.

mond197
Max tenta no fim, mas não leva: única chance na saída do Túnel

Como até os pintassilgos da Côte d’Azur sabem desde a Era Paleozoica (licença poética; não sei se existem pintassilgos na Riviera Francesa e não lembro quando foi a Era Paleozoica, mas se havia pintassilgos por aquelas bandas naqueles tempos distantes, eles saberiam porque são espertos), para passar em Mônaco precisa entrar no túnel embutido no rival e se jogar na freada para a chicane, contando com a sorte e com a boa vontade de quem está na frente. Max teve essa possibilidade na volta 76. Tentou. Chegaram a tocar rodas, Lewis teve de cortar a chicane, mas não cedeu a posição e duas voltas depois recebeu a quadriculada em primeiro pela 77ª vez na vida.

Hamilton dedicou sua vitória a Niki Lauda, que recebeu muitas homenagens no domingo nublado de Monte Carlo. O inglês correu com um capacete igual ao do austríaco, que morreu segunda-feira em Viena. “Foi minha corrida mais difícil”, disse. “Lutei com o espírito de Niki. Sei que ele estava olhando para a gente. Fiz de tudo para deixá-lo orgulhoso.” Lauda foi lembrado também por Vettel, que com a punição a Verstappen terminou em segundo. “Quando vi que eles se tocaram no box percebi que tinha uma chance. Foi um bom resultado. Mas hoje era tudo para Niki, um ícone do passado e que continuará sendo no futuro.”

mond199f
Um minuto de silêncio: todas as homenagens a Lauda

Antes da largada, os pilotos fizeram um minuto de silêncio em volta de um capacete de Lauda. Todos usavam bonés vermelhos com o nome “Niki” bordado. Hamilton, que foi tirado da McLaren por ele no final de 2012, emocionou-se muito ao longo do fim de semana. A melhor maneira que tinha para homenagear o ex-piloto era essa: vencendo. Conseguiu, e foi a terceira vez em Mônaco. Com o resultado, saltou para 137 pontos, contra 120 de Bottas — o terceiro colocado na corrida. Verstappen, Gasly (que fez a melhor volta e levou o ponto extra), Sainz Jr., Kvyat, Albon, Ricciardo e Grosjean fecharam a zona de pontuação.

Já vimos corridas melhores em Mônaco. Mas também já vimos piores. E, no fim das contas, pouco importa. Como disse Vettel, era tudo por Lauda neste fim de semana.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

maio 2019
D S T Q Q S S
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031