JAIR, WILSON E MARCELO MENTEM

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Deodoro: tudo muito bonito, só falta saber quem vai pagar

RIO (rumo ao precipício) – Jair esteve hoje no Rio de Janeiro. Jair participou de uma cerimônia que teve as presenças do ex-juiz Wilson, de Jundiaí, e do pastor Marcelo, sobrinho do bispo Bezerra. Jair disse que a Fórmula 1 vai sair de São Paulo. “Após o resultado das eleições do ano passado, a direção da Fórmula 1 resolveu manter a possibilidade de termos provas no Brasil”, falou. “Em São Paulo, como tinha participação pública, uma dívida enorme, tornou-se inviável a permanência da F-1 lá.” Wilson, o de Jundiaí, acrescentou: “A Fórmula 1 iria deixar o Brasil. Após unirmos forças com o governo federal e o município, conseguimos convencer que o Brasil voltou a ser um país sério e com um futuro próspero. O embaixador da Inglaterra nos procurou aqui no Rio de Janeiro e, com o esforço e cooperação de todos, vamos permitir que o estado novamente seja mais um polo de atração turística com a Fórmula 1”. Jair foi além. Pelo Twitter, plataforma de comunicação na qual é muito ativo, assim como seus filhos, dizem até que um deles tem sua senha dessa rede social, comemorou: “Após nossa vitória nas eleições, a Fórmula 1, que iria embora do Brasil, decidiu não só permanecer, mas também construir um novo autódromo no RJ, que terá o nome do ídolo Ayrton Senna. Com isso, milhares de empregos serão criados, beneficiando a economia e a população do estado”. E seguiu, naquilo que se chama de “fio” nesta conhecida mídia cujo logotipo é um pequeno pássaro azul: “Importante ressaltar que o investimento será totalmente de iniciativa privada, com custo ZERO para os cofres públicos. Boa tarde a todos!”. Ao que, de imediato, foi saudado por seus seguidores com brados virtuais como “mito!”, “aço!”, “selva!”. O pastor Marcelo, então, informou: “Estamos lançando o edital, as empresas apresentarão suas propostas, em 45 dias sai o resultado e começaremos a obra”. De acordo com Jair, Wilson e Marcelo, a etapa brasileira do Mundial de Fórmula 1 já será realizada no Rio de Janeiro em 2020. Ano que vem. Segundo eles o autódromo será construído num terreno cedido pelo Exército na região de Deodoro, zona oeste da cidade. Pela previsão de Jair, em seis ou sete meses ele estará pronto.

Tudo que escrevi no parágrafo acima é verdade, aconteceu. Jair, Wilson e Marcelo disseram tudo isso.

Mas tudo que Jair, Wilson e Marcelo disseram é mentira.

A Fórmula 1 nunca condicionou sua permanência no Brasil ao resultado das eleições do ano passado, como afirmou Jair. Sua vitória nas eleições não foi objeto de nenhuma manifestação da Fórmula 1. O calendário de 2019 já havia sido publicado, inclusive. Com a presença do Brasil. E a Fórmula 1 não decidiu construir um novo autódromo no Rio. A Fórmula 1 não constrói autódromos, não é uma construtora. Mais: a presença da Fórmula 1 em São Paulo não se tornou inviável. Tanto que o GP foi realizado normalmente no ano passado. E será novamente neste ano, no dia 17 de novembro. O atual contrato da cidade com a Fórmula 1 expira em 2020. E as partes estão negociando sua prorrogação por mais alguns anos.

A Fórmula 1 não iria deixar o Brasil, como afirmou Wilson. Se ele conseguiu convencer o embaixador da Inglaterra de que o Brasil voltou a ser um país sério e com um futuro próspero para garantir a permanência da Fórmula 1 aqui, convenceu a pessoa errada. A Fórmula 1 pertence a um grupo de mídia dos Estados Unidos. As relações do diplomata inglês com a Fórmula 1 devem se resumir a uma provável torcida por Lewis Hamilton, seu conterrâneo. Mas talvez ele seja “old fashion”, fã de Nigel Mansell, e já nem se interesse tanto pelas corridas. Não sei, não conheço o embaixador da Inglaterra.

Marcelo pode lançar o edital que quiser. Ele nasce morto. Há uma sentença da Justiça Federal do Rio de Janeiro proferida em 19 de setembro do ano passado que suspende qualquer licitação visando a construção de um autódromo em Deodoro sem que seja apresentado um Estudo de Impacto Ambiental para a área, também conhecida como Floresta do Camboatá. O terreno, de dois milhões de metros quadrados, é reconhecido como Área de Preservação Permanente — contém resquícios da Mata Atlântica nativa, além de rica fauna silvestre, árvores e animais em risco de extinção etc. Resumindo, não dá para derrubar tudo e sair asfaltando um circuito ao seu bel-prazer.

Mas o que mais espanta nesse festival de insanidades é a afirmação taxativa do pastor Marcelo de que em 45 dias “sai o resultado e começaremos a obra”. Não vou nem comentar a estimativa de “seis ou sete meses” para construir um autódromo, feita por Jair. É verdade que ele tem conhecidos em alguns bairros do Rio que são até capazes de fazer construções rapidamente, e talvez tenha chegado a esse prazo tendo como referência obras menores, como edifícios de poucos andares. Só que não é a mesma coisa. Um autódromo demora bem mais. O de Xangai, na China, levou um ano e meio com três mil operários trabalhando no local 24 horas por dia. Custou 450 milhões de trumps, dinheiro público. Isso em 2003. Atualizado, esse valor chega a 630 milhões de trumps. Dois bilhões e meio de talqueis.

Jair disse que o custo para os cofres públicos será ZERO. Mais uma mentira, uma vez que o terreno é público e está sendo oferecido à “iniciativa privada” sem custo algum para a própria. De qualquer forma, não basta tuitar que um novo autódromo será construído no Rio para que ele passe a existir. É preciso que alguém pague pela construção.

O custo de um autódromo em Deodoro, de acordo com um projeto apresentado à Prefeitura do Rio em junho do ano passado, chega à casa de 850 milhões de talqueis. Como é que o pastor Marcelo pode afirmar com tanta certeza que em 45 dias “começaremos as obras”? Aliás, se o custo para os cofres públicos for mesmo ZERO, como promete Jair, Marcelo não pode se incluir entre os que vão começar as obras. Mas vamos considerar que o uso da primeira pessoa do plural foi apenas um ato falho, a questão nem é essa.

A questão é: quem, em pleno exercício de suas funções mentais, despenderia quase um bilhão de talqueis num negócio como um autódromo num país como o Brasil? Para recuperar esse investimento como? Com uma corrida de Fórmula 1 por ano? E qual a garantia de que a Fórmula 1 correria mesmo neste autódromo? Estes senhores — Jair, Wilson e Marcelo — sabem que a Fórmula 1 cobra uma taxa altíssima das cidades que recebem suas corridas? E que por isso a Fórmula 1 tem se debandado para países cujos governos bancam integralmente as despesas, inclusive construindo as pistas urbanas (como as de Baku e Singapura) e os autódromos permanentes (como Sochi e Abu Dhabi)? O Rio não consegue consertar uma ciclovia, bancar um serviço de bonde, manter corredores de ônibus, cuidar das pessoas que morrem em enchentes e desabamentos, terá dinheiro para pagar o “fee” de um GP de F-1? Eles têm ideia do custo de manutenção de um autódromo inserido numa área de dois milhões de metros quadrados e de como esses custos afastariam qualquer possível interessado nos termos desse edital?

Refazendo a questão, em três palavras: quem vai pagar?

Jair, Wilson e Marcelo mentiram na cerimônia, nas entrevistas, nos “press-releases” e nas redes sociais.

Jair não tem a menor ideia de como funcionam as relações entre Fórmula 1, cidades, autódromos, governos, promotores de corrida.

Jair não tem a menor ideia de quanto custa construir um autódromo. Não deveria se inspirar nos seus conhecidos da zona oeste do Rio, onde as exigências para erguer edifícios são menores, para afirmar que é possível concluir uma obra desse porte em seis ou sete meses.

Wilson, de Jundiaí, não tem nada a ver com essa história — o terreno era do Exército e quem pretende licitar a obra é a Prefeitura. Mas pelo menos ficou ocupado hoje durante uma parte do dia, para alívio dos moradores das comunidades pobres de Angra dos Reis.

Marcelo, o pastor, antes de prometer que em 45 dias “começaremos as obras” de um autódromo que nunca será construído, poderia se ocupar dos flagelos de sua cidade. Que não são poucos. O último deles, 24 mortos num prédio que desabou na Muzema.

Jair não falou uma palavra sobre os mortos da Muzema. O que é de estranhar, pois seus filhos têm conhecidos que moram ali do lado, em Rio das Pedras.

Jair não tem sido sequer um vizinho solidário.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

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Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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