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O que restou do carro de Senna: a Tamburello não perdoou

RIO – Fechando a pretensiosa trilogia de textos que considero definitivos — da minha lavra, claro — sobre os eventos de abril/maio de 1994, segue o último texto, este escrito em 2014, na passagem dos 20 anos das mortes de Senna e Ratzenberger.

MEMÓRIAS DE UNS DIAS DE MAIO*

O grande drama de todos que estavam cobrindo o GP de San Marino em 1994 era conseguir alguma informação, qualquer uma, que ajudasse a esclarecer o que tinha acontecido no domingo. Havia duas perguntas básicas, a saber: 1) o que causou o acidente? e 2) o que matou Senna?

Não era fácil. Williams, FIA e autoridades italianas se fecharam num silêncio sepulcral. Quem sabia alguma coisa, não dizia. Quem não sabia nada, chutava. Se havia uma tragédia evidente, havia igualmente a necessidade de tentar explicá-la. Era para isso que estávamos lá, os jornalistas. Para informar, antes de chorar a morte de alguém com quem convivíamos regularmente — uns mais, outros menos.

Na segunda-feira pós-acidente, o trabalho se deu em duas frentes, Itália e Brasil. Para além da dor e da tristeza que os brasileiros sentiam, havia também um certo ar de indignação e de busca por culpados. É natural, em casos tão rumorosos. A indignação vinha do fato de a corrida ter sido realizada mesmo depois da morte de Ratzenberger, um dia antes. Mais tarde, essa indignação se estenderia à equipe, que acabou sendo acusada de negligência na solda da coluna de direção do carro de Senna.

As causas do acidente ainda são controversas. A perícia levada a cabo pela Justiça Italiana concluiu que a coluna quebrou. Há quem não acredite nisso. Damon Hill, por exemplo, tem outra tese. Companheiro de Senna em 1994, o inglês tem convicção de que a pressão dos pneus do carro do brasileiro caiu dramaticamente durante as voltas atrás do safety-car, novidade naquela temporada. Na Tamburello, que tinha ondulações respeitáveis, o carro bateu no chão e Ayrton perdeu o controle. “Ele estava para uma parada, com o carro pesado e muito rápido, pneus frios, pressão baixa. Se numa curva daquela o carro oscila por alguma razão, é muito fácil perder o controle. Dá para ver claramente pela câmera do Schumacher que o carro de Senna bate no chão. Quando isso acontece, ele dá uma balançada. Levanta o bico, e ele corrige. Aí bate de novo e vem uma grande ondulação. O carro balança de novo, aponta para o muro e vai direto. Ele freia, mas aí está na grama. E é isso. Tinha muita pressão sobre Ayrton naquele fim de semana. Ele não queria ser segundo para Schumacher de jeito nenhum.”

Esse depoimento de Hill está no livro ‘Senna versus Prost – The story of the most deadly rivalry in Formula One’, do jornalista Malcolm Folley (Arrow Books, 2009), do ‘Mail on Sunday’. No mesmo livro, Hill conta que depois do acidente de Senna a Williams desligou em seu carro o sistema de direção hidráulica que, pelo regulamento, não poderia ter outra função que não reduzir o esforço do piloto para virar o volante.

Tal informação vai ao encontro de o que me disse um dia, na Bélgica, o ex-piloto Emanuele Pirro, que participou como consultor das perícias feitas pelos italianos. Foi numa noite em que tomamos umas a mais no hotel em que nos hospedávamos em Malmedy, depois de uma animada partida de ping-pong. Pirro me contou que uma das hipóteses para o acidente era de que o sistema teve algum tipo de pane e a direção ficou louca, ou pesada demais, ou sei lá o quê. A Williams nunca teria admitido uma falha porque o sistema era, segundo ele, possivelmente irregular. O regulamento técnico, repito, dizia no item 4.2 do artigo 10 que tais sistemas eram permitidos. Na íntegra: ‘4.2 – Power steering systems which do anything other than reduce the physical effort required to steer the car are not permited’.

Mas o que havia naquele sistema da Williams que levou a equipe a desligá-lo no carro de Hill para o reinício da corrida? Jamais saberemos, desconfio. Talvez nada. Mas talvez a suspeita da própria equipe recaísse sobre ele.

Voltando à segunda-feira pós-acidente, eu precisava de alguma coisa além do factual que todos teriam: se o corpo seria submetido a alguma autópsia, quando seria liberado, quando iria para o Brasil, quais as medidas que seriam tomadas pela diplomacia brasileira na Itália, essas coisas.

Já surgiam, àquela altura, informações desencontradas sobre a suspeita de que Senna tinha morrido na pista. Algo que, na prática, não mudaria em nada a situação — ele estava morto, e suspeitava-se que Ratzenberger tinha morrido no circuito, também, embora tenha sido declarado morto oito minutos depois de chegar ao Hospital Maggiore. Mas era algo relevante na construção daquele quebra-cabeças, para tentar compreender a real causa da morte. Ninguém sabia, na segunda-feira, se ele tinha batido a cabeça no muro, se tinha quebrado o pescoço, se tinha tido um ataque cardíaco, nada.

Um dos episódios mais controversos daquele dia foi o do diálogo entre Bernie Ecclestone e Leonardo Senna, que teria ouvido do chefão da Fórmula 1 que ‘he is dead’, quando na verdade Bernie teria dito algo como ‘injuries in his head’. Isso nunca foi, igualmente, esclarecido. Como nunca se soube direito qual o teor de um suposto dossiê que Leonardo teria levado ao seu irmão com informações sobre sua namorada Adriane Galisteu, de quem a família não gostava. Senna estava, sim, mais tenso que o normal naquele fim de semana — disso me lembro bem. Sem saber de dossiê nenhum, que poderia ter contribuído para esfacelar seu estado de espírito, eu e todos que lá estavam, antes do acidente, atribuíamos seu humor especialmente amargo à situação dele no campeonato: duas corridas, zero ponto, com Schumacher já somando duas vitórias. E, de quebra, um carro dificílimo de guiar.

Algo que já tinha ficado claro para ele depois das primeiras voltas que deu no Estoril, em janeiro, com sua nova equipe. Era um carro complicado, arisco, nervoso, quase incontrolável. Eu estava nos boxes da equipe em Portugal, me escondendo do frio cortante daquele inverno, quando ele saiu do cockpit com cara de poucos amigos, passou do meu lado e eu mandei um singelo “e aí?”. Ayrton me respondeu com uma frase tão singela quanto: “Puta que pariu, bem na minha vez cagaram no carro”. Frase que repetiria semanas depois a amigos em Aida, no Japão. Depois, foram mais três dias de intenso trabalho com o híbrido FW15C e a conclusão: “Sem suspensão ativa, esse carro não é tudo isso que a gente via, não”.

A última entrevista, digamos, agendada de Senna naquele fim de semana de Imola aconteceu na quinta-feira, como em todas as semanas de GP. Ele recebia a imprensa brasileira no motorhome da equipe e falava sobre a corrida, sobre o campeonato, sobre os adversários e tal. Dela, me lembro de um detalhe irrelevante. Senna vestia uma calça impecavelmente branca e comia macarrão com molho de tomate enquanto falava. Eu achava que uma hora aquele molho ia respingar na calça. Não lembro direito o que disse. Mas escrevi, naquele dia, baseado na entrevista de Ayrton, algo que, visto 20 anos depois, tem ar de profecia: ‘O maior problema da Williams é a falta de estabilidade em pisos irregulares. O carro ‘salta’ muito e não desfruta de seu potencial aerodinâmico. A suspensão, muito dura, agrava os defeitos de nascimento do projeto — originalmente concebido para utilizar um sistema computadorizado, que mantém o carro a uma altura constante do solo (proibido neste ano pelo regulamento da F1).’

No dia seguinte, depois de fazer o melhor tempo no primeiro treino oficial (os tempos de sexta valiam para formar o grid e Ayrton largaria na pole com essa volta, já que não treinou no sábado depois do acidente de Ratzenberger), Senna continuava reclamando do carro. “Não dá para dizer muita coisa porque de manhã o carro estava razoável e de tarde impossível de guiar. Foi assim com todo mundo. Eu não consegui fazer uma volta inteira bem. Não conseguia me sentir tranquilo para guiar rápido.” Reclamou do vento. “O carro fica imprevisível. Vai bem numa volta e mal em outra. Faz bem uma curva e mal a outra. Você é pego de surpresa.”

No sábado, Senna não falou mais.

Segunda-feira, 2 de maio. Já sabendo que seria feita uma autópsia, que o corpo embarcaria no dia seguinte para o Brasil, que a polícia instaurara um inquérito para apurar as causas do acidente, fui atrás de algo que pudesse acrescentar à cobertura mais informações que ajudassem a esclarecer o que matou Senna. Queria falar com a médica que o recebeu no Maggiore, Maria Teresa Fiandri. Ir ao hospital achando que toparia com ela na recepção era fantasia. Foi quando me lembrei da minha namorada.

Maria Cristina Gervasi fora minha namorada em 1981, quando eu estava no terceiro colegial e morava em Campinas. Italiana, mudou-se para a cidade porque seu pai trabalhava com telecomunicações e veio para o Brasil para tocar um projeto qualquer durante um ano. Cris estudava na minha classe no Objetivo e começamos a namorar. Éramos apaixonados, como são os adolescentes. Acabou o ano, ela voltou para a Itália em meio a lágrimas e juras de amor eterno.

Mantivemos contato durante meses em 1982, quando eu já voltara para São Paulo para fazer faculdade. Meu único objetivo de vida era juntar dinheiro para morar com ela na Itália. Trocávamos cartas. Cris, que era de Roma, tinha entrado na universidade para fazer medicina. Em Bolonha.

Ainda em 1982, ela arrumou um namorado, engravidou e casou. A última notícia que tive dela foi essa. Estudava medicina em Bolonha e tinha casado. Perdemos o contato, tocamos a vida.

Achei que tinha uma chance ali. Se ela tivesse se formado em Bolonha, talvez trabalhasse na cidade e conhecesse a doutora Fiandri. Mas podia ser que tivesse desistido da faculdade, que tivesse mudado de país, qualquer coisa. Fui a uma cabine de telefone perto do IML, no centro da cidade. Se me jogarem em Bolonha hoje, saberei chegar àquela cabine sem grandes problemas. Algumas coisas daqueles dias permanecem muito claras na minha memória.

Naquela época, era possível consultar listas telefônicas nas cabines, presas com correntinhas para ninguém roubar. Era uma tentativa. A lista continha os números dos assinantes de Bolonha e das cidades da região metropolitana. Comecei a procurar o sobrenome Gervasi nas listas. Não tinha grandes esperanças. Ela tinha se casado, poderia estar usando o sobrenome do marido.

Passei por todas as cidades, até chegar a Casalecchio di Reno, pequena vila a sudoeste de Bolonha. No G, surgiu uma Gervasi. Gervasi, Maria Cristina, dottoressa.

Cris tinha virado médica e vivia nas redondezas. A chance de trabalhar no Maggiore aumentara consideravelmente. De conhecer a doutora Fiandri, idem. Eu precisava tentar alguma coisa. Coloquei alguns milhares de liras no telefone e liguei. Entrou uma secretária eletrônica. Reconheci a voz e devo ter sorrido brevemente. Era bom ouvir uma voz familiar àquela hora, mesmo sendo de alguém que eu não via, ou ouvia, desde 1981.

Deixei um recado em português. Imaginei que ela se lembrava de mim, mas me alonguei para explicar o que estava fazendo em Bolonha 13 anos depois. Não havia internet em 1994. Ninguém rastreava a vida dos outros como hoje. Para se ter notícias de alguém, só escrevendo ou telefonando. Eu não escrevia para minha ex-namorada fazia muito tempo. Muito mesmo.

Terminei minha mensagem dizendo onde estava hospedado, no Novotel de Bolonha, para onde me mudara depois do acidente. Na semana do GP de San Marino, sempre ficava em Riolo Terme, a uns 15 km de Imola. Naquela segunda-feira, saí de mala e cuia da pensão para ficar no mesmo lugar onde estavam os diplomatas brasileiros e a turma do Senna. Ali seria um ponto natural de concentração de informações.

À noite, quando voltei ao hotel, havia um recado para ligar para a dottoressa Gervasi. Liguei. Para quem não falava comigo havia 13 anos, ela foi até rude. “Onde você estava? Te procurei o tempo todo no IML!” Não entendi direito. Como, me procurou? Como você sabia que eu estava lá?

Cristina tinha uma irmã mais velha, Simona, que se casou no Brasil e ficou morando em Campinas. Naqueles anos todos, acompanhou meu trabalho no jornal e no rádio. Elas se falavam, e por isso minha ex-namorada sabia perfeitamente que eu tinha virado jornalista, que trabalhava na ‘Folha’ e na Jovem Pan, e que cobria F1. Assim, seria bastante plausível que eu aparecesse no IML na manhã de segunda-feira.

O que não era muito plausível, e isso eu não sabia, é que Cristina se formou em medicina e estava se especializando em Medicina Legal. Fazia o último ano da especialização e suas aulas eram ministradas no IML. Seus professores eram os médicos que fizeram a autópsia no corpo de Senna. “Eu sabia que você estava lá. Podia ter te mostrado o corpo!”, bronqueou. Parecia que tínhamos nos falado um dia antes. Engraçado, isso. Não havia tempo para muitas demonstrações de sentimentalismo, e ela entendia isso bem melhor do que eu.

Nos encontramos na terça-feira à noite, depois que o corpo de Senna embarcou, do aeroporto de Bolonha, num avião militar italiano rumo a Paris, de onde voltaria para o Brasil na classe executiva de um voo da Varig.

Cris me deu uma longa entrevista. Descreveu em detalhes tudo que viu, o que acompanhou, o que disseram os médicos. Contou sobre a aula que teve naquela terça-feira, dia em que a autópsia foi realizada, por um dos legistas que realizaram o trabalho, Pierludovico Ricci, um excêntrico professor que trabalhava sem luvas porque acreditava que vírus nenhum resistia à morte de um corpo — não entendo nada disso, mas a Cristina me disse que ele tinha alguma razão, cientificamente falando; não vem ao caso, porém.

Ricci, “estranho e psicótico”, saiu da autópsia e foi para a sala de aula com o jaleco sujo de sangue. Mal-afamado na cidade, era um doidivanas que conhecia todas as putas de Bolonha e costumava convocá-las para noites de luxúria no IML tocando uma corneta pela janela. Um dia os estudantes roubaram a corneta, enlouquecendo o médico. Mas Ricci tinha princípios éticos muito fortes e ministrou uma aula vigorosa sobre o que chamou de “morte Série A e morte Série B”, indignado com a indiferença a Ratzenberger, cujo corpo era vizinho do de Ayrton no IML.

Encontrei a Cristina algumas vezes depois daqueles primeiros dias de maio de 1994. Já não lembro bem quando. Três ou quatro anos depois, talvez. Jantamos uma noite em Bolonha, num belo restaurante numa colina, e em outra oportunidade visitei-a em Casalecchio, onde fiquei comovido com um cantinho de sua casa onde havia na parede uma placa de carro com o escudo da Portuguesa, algumas fotos nossas em porta-retratos e pequenas lembranças de nosso namoro adolescente.

Nos falamos de vez em quando pelo Facebook. Ela se casou novamente e divide o tempo entre a Itália e Zurique, de onde vem seu marido. Acabou de ter um bebê e está feliz da vida. Entrei em contato para lembrarmos aqueles dias de 20 anos atrás – [a conversa aconteceu em 2014, quando se chegou às duas décadas de morte do tricampeão].

Não foi uma conversa triste e melancólica. Médicos sabem lidar melhor com certas coisas como a morte. Me escreveu:

Trabalhar como médico legista lhe permite ver a vida a partir de um ponto de vista diferente. Ou, talvez, você pode apenas ver a sua vida… Corremos atrás de nossos sonhos e ilusões, corremos de manhã à noite, e quantas vezes nos perguntamos o que fazemos? No final, tudo é o resultado de nossas escolhas. Há os que escolhem uma vida de rotina, tranquila, e há aqueles que arriscam suas vidas, e fazem isso de modo bem consciente. E um dia o final da corrida vem, vem para cada um de nós.

Os mortos são todos iguais, não há mortes de série A ou de série B. Dois jovens saíram daqui há 20 anos com seus sonhos e suas esperanças, tirando as esperanças e sonhos de milhões de pessoas. Era o que tínhamos aqui no dia 1° de maio, no Instituto de Medicina Legal de Bolonha, onde eu cursava o último ano de especialização em medicina forense.

Não sou daquelas que seguem os eventos esportivos, por isso não sabia direito o que estava acontecendo quando me vi presa no trânsito da Via Irnerius, incapaz de chegar ao Instituto. Depois de muito tempo consegui alcançar o portão vigiado pela polícia, que só me deixou entrar quando mostrei minha identidade. Estacionei o carro no lugar de costume, em um pequeno recesso logo atrás do portão de entrada.

Notei os rostos consternados e as lágrimas de dor. Me lembro, na entrada para o necrotério, de várias pessoas que falavam com uma cadência e uma musicalidade que me trouxeram lembranças doces e nostálgicas da minha juventude. Eles falavam português e tinham a bandeira do Brasil nas mãos.

A entrada foi inundada com flores, flores em todos os lugares, nunca vi tantas flores juntas, bilhetes, mensagens… Nesse dia, as atividades normais do Instituto foram suspensas e ficamos na varanda observando esse estranho fenômeno que se desenvolvia sob nossos olhos.

Os dois jovens pilotos estavam na ante-sala da câmara frigorífica, e pareciam dormir. Senna tinha uma ferida costurada na parte frontal da base do couro cabeludo, mas seu rosto estava sereno e já não apresentava muito inchaço. Ratzenberger era de uma beleza típica do Tirol Austríaco. Um belo rapaz. Senna, o grande campeão. Ratzenberger, o piloto que fazia apenas sua terceira corrida. Ambos apaixonados pela mesma coisa, ambos rapazes que fizeram do risco e da velocidade suas vidas, e que estavam ali na nossa frente para mostrar como a existência é efêmera, a realidade concreta da transitoriedade da vida.

Com alguns colegas , oramos por suas almas, que agora corriam em direção a outros objetivos e para os seus entes queridos que precisassem de ajuda e conforto. Pegamos algumas rosas e colocamos nas mãos dos jovens pilotos antes do fechamento dos caixões. A rua estava cheia de pessoas que se amontoavam nos portões. E de jornalistas à espera de notícias. Mas não havia muito o que dizer.

Senna saiu em primeiro lugar, e centenas de pessoas com gritos e aplausos acompanharam o caixão saindo do beco atrás do Instituto. Aplaudiam um grande campeão que perdera a vida na Tamburello, deixando um enorme vazio nos corações de fãs em todo o mundo. No dia seguinte, saiu Ratzenberger. Em silêncio, sem aplausos, lágrimas ou câmeras de TV. Membros de sua família chegaram e nós, do Instituto, o aplaudimos. Aplaudimos o rapaz corajoso que perdeu a vida na busca de um sonho que nunca alcançou. Aplaudimos com todo vigor aquele cuja fama não tinha despertado o clamor do povo.

Os mortos estão mortos, e eles são todos iguais. Não há desculpas e/ou atenuantes para aqueles que “esqueceram” muito rapidamente que por aquela corrida, naquele circuito, dois jovens rapazes haviam perdido suas vidas. E que estavam viajando juntos na sua última corrida para a linha de chegada.

Reunimos todos os buquês, colocamos tudo em vários carros e levamos para o cemitério da cidade, que foi inundado de cores, doando uma beleza fúlgida e fugaz, como fora a vida daqueles jovens pilotos, a túmulos desbotados e esquecidos por suas famílias e amigos. Nesse dia, aqueles mortos puderam rever as cores da vida e o fascínio da natureza, num sofrido contraponto à realidade da morte e da dor.

Li com atenção e solenidade cada palavra da Cris, que escreveu em italiano. Já era madrugada em Zurique, onde ela estava no início desta semana, quando apareceu a bolinha verde na janela de mensagens do Facebook.

Posso fazer umas perguntas, Cris?, perguntei, depois das amenidades de praxe. “Sim, claro”, ela respondeu em português. Depois, só escreveu em italiano. E eu, sempre em português. Era assim quando éramos adolescentes. Para escrever, não falar. Minha namorada aprendeu português muito rápido. Era uma excelente aluna.

Cris me contou que a autópsia seguiu os padrões de sempre. “Começamos pelo crânio e depois vai descendo. Não se deve negligenciar nada, mesmo os órgãos aparentemente não atingidos. São retirados os órgãos principais, que são pesados e medidos, e deles retiramos pequenas amostras para análises. Durante uma autópsia, se descreve continuamente tudo que está sendo feito, para que seja gravado e, depois, transcrito.”

Foi Cristina quem, há 20 anos, me disse que a base do crânio de Senna tinha inchado de tal forma que ele ficou bastante desfigurado, “a cabeça em forma de pirâmide, com a base larga”. “O que eu me lembro foi que no estudo das meninges cerebrais foram encontradas lesões que lembravam ferimentos típicos de soldados que morreram em conflitos militares por explosões próximas de bombas.”

Cristina lembrava da roupa com que o corpo de Senna foi vestido: terno preto, gravata cinza e camisa branca, comprados em Bolonha. A cabeça desinchou porque os médicos usaram fármacos para reduzir os edemas cerebrais.

Ele morreu na pista?, repeti a pergunta feita há 20 anos no meu quarto de hotel em Bolonha. A resposta foi exatamente a mesma, a mesma que estaria no primeiro laudo dos legistas, que acabou sendo minha última matéria na “Folha”, porque me demiti depois. “Do ponto de vista jurídico, o conceito de morte não é o que mesmo que se usa em linguagem normal. O que se pode dizer é que as lesões encontradas eram incompatíveis com a vida, e como consequência ele podia ser considerado morto, sim.”

Fui encontrar a doutora Maria Teresa dez anos depois, em 2004, na penúltima vez em que estive em Imola. Foi no pequeno prédio na periferia de Bolonha, na Via dei Lamponi. Ela nos atendeu numa segunda-feira ensolarada e luminosa, com aquele céu de um azul pálido e profundo e um ar fresco que, por alguma razão, só se percebe na Emilia Romagna no começo da primavera. Ela nos recebeu em seu pequeno apartamento com cortesia e gentileza. Dias antes fomos à Tamburello, pelo lado de fora da pista, margeando o rio Santerno. As fotos não são boas.

Em 1994, não tínhamos celulares, ou câmeras digitais. Tampouco tínhamos o hábito de fotografar tudo, de quartos de hotel a pratos em restaurantes, como hoje. Mas de vez em quando fazíamos um ou outro registro. As fotos que acompanham este texto, que receio ter sido exaustivo e bocejante, foram feitas naquele fim de semana.

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Eu de chapéu, Cris ao meu lado: a turma do Objetivo de Campinas em 1981

Outras são de 1981, dos tempos de colégio, quando conheci a Cris, esta bela médica de sorriso tímido e olhinhos espertos que um dia entrou na minha vida e, como todas as pessoas que amamos um dia, nela ficou para sempre, porque ao contrário do que já escreveram tantos, nenhum amor acaba.

* Texto originalmente publicado em 1º/5/2014 na REVISTA WARM UP e modificado em alguns trechos por questões temporais.

Comentários

  • Em tempo, ainda vale o registro de seu brilhante relato jornalístico sobre o dia 1º de maio de 1994 no programa Fox Sport Rádio. Foi merecido o reconhecimento de seus colegas de bancada e dos telespectadores, dado o conhecimento técnico, memória, vivência e experiência em cobertura de F1, e – sobretudo – pela capacidade de saber contar uma história! Parabéns! Continue com o blog. Você escreve bem! Merece ser lido. Tem o que dizer! Abs.

  • Patrick Head chegou a citar que foi culpa do piloto, mas logo a verdade veio à tona com a barra de direção remendada, o circuito da San Marino já ficava pequeno com a evolução dos carros em 14 anos desde a primeira corrida realizada nesse circuito como GP da Itália em 1980 vencida por Nelson Piquet.

  • Discordo em relação aos pneus estarem com baixa temperatura, pois na volta anterior ao acidente a Williams sim, bate com força no solo, mas levou mais uma volta inteira até o fatídico acidente, então creio que daria para ter aquecido os pneus normalmente, e percebe-se pela câmera on-board (antes da imagem ser cortada) que o volante do FW16 desce antes do impacto. No mais o resto são cortina de fumaça para dispersar a verdadeira causa do acidente, incluindo aquele documentário mentiroso da National Geografhic que entre outras afirmou que a coluna de diração do FW16 se movimentava durante o uso.

  • Flavio, alguns fatos você já havia transmitido. Mas esse contexto daqueles dias na sequencia, é terrível e angustiante mas ao mesmo tempo é aquele momento de furos e fatos notáveis. E você foi atrás, até abdicando de um emprego. De minha parte acho que voce tem um dom na escrita de mostrar coisas e fatos que a maioria não se preocupa. Isso torna a sua narrativa mais humana. Parabéns.

  • “Os mortos estão mortos, e eles são todos iguais. Não há desculpas e/ou atenuantes para aqueles que “esqueceram” muito rapidamente que por aquela corrida, naquele circuito, dois jovens rapazes haviam perdido suas vidas. E que estavam viajando juntos na sua última corrida para a linha de chegada.”
    Eu já li esta reportagem umas três vezes e todas as vezes que leio esta parte sempre cai um cisco nos meus olhos… A lembrança de que havia um outro jovem piloto morto, sem fãs, sem torcida, é de uma profunda melancolia.

  • viviane senna fez neste 1º de maio para televisão uma declaração que considero importante para compreensão do que está por trás do fenômeno e adoração devotada ao senna por seus fãs quando disse que seu irmão, para os fãs, transformou-se numa figura mítica e como tal se encontra além do tempo e espaço…..

  • Esses posts me lembram algumas coisas específicas.
    A primeira é de quando eu tinha 8 anos. Foi no ano da morte do Kennedy. Me lembro perfeitamente de que a minha mãe estava ouvindo transmissão ao vivo do funeral pelo rádio (a valvulas). Ainda me lembro bem do som das patas dos cavalos no cortejo. Ainda acho o rádio um meio de comunicação insubstituivel, mesmo com a chegada da internet. Mais tarde li uns 3 livros sobre a morte dele.

    A vida de jornalista pode ser uma coisa sem comparação com outras atividades. Na prática foi um pequeno batalhão de jornalistas especializados que estiveram presentes em Imola e, portanto, poucos em condições de descrever o clima local, e o que viram ou ouviram depois. Profissionalmente um privilégio de poucos, embora trágico. O mesmo se aplica a quem acompanhou aqueles momentos do Kennedy. É tudo histórico.

    Dessa corrida me lembro de uma unica situação marcante pra mim. Estava vendo a corrida com o meu pai e num determinado momento fui na cozinha tomar água. Na volta vi um carro destroçado na pista. Como não imaginava quem era perguntei. Ele respondeu sem comentários – “O Senna”.
    Perdi na hora a vontade de ver a corrida e fui dar uma volta, nem assisti o restante. Não porque era o Senna, mas porque era mais um, que completou a tragédia. Fui perdendo o interesse na F1 e depois que o Mansell saiu não assisti mais. Uma coisa é corrida, outra coisa é circo de horrores. Acho que essa corrida mostrou o que realmente era, e é, a F1. Há tanta grana envolvida que se torna inviável cancelar um evento, ainda que as pessoas fiquem nervosas pela possibilidade de outra tragédia, dada a sequencia de eventos daquele fim de semana. Naquele ano deu-se outro acidente que quase ninguem mais lembra. O Cecotto bateu, quebrou as pernas e encerrou de vez a profissão. Os acidentes fazem parte, mas tem hora que a sequencia chateia, incomoda.

  • “meu jornal me manda aqui para cobrir um evento esportivo e eu sou obrigado a relatar uma carnificina”
    3 acidentes de trabalho no mesmo local
    1 gravemente ferido no 1. dia
    1 morto no 2. dia
    mais 1 morto no 2. dia
    e a polícia, ministerio do trabalho (oi coisa q o valha), sindicatos, ministério público… nada!
    ninguém parece ter se importado…
    e a williams? “seu” frank ?
    e a fia? e o diretor de prova?
    impunes, todos!
    e o autódromo – pq não foi INTERDITADO?!?!?!?
    3 imolados, 2 se foram – de forma cruel, vil e covarde
    nenhuma chance de defesa
    imagine a consciência de cada um dos “comprometidos” nestes 25 anos q se passaram e nos tantos q ainda terão…
    tsc tsc tsc

  • Caramba Flávio. Me prendi lendo sua trilogia. São 04:42 desta Quinta-Feira. Dois de Maio de 2019.

    Incrível como alguns relatos, aparentemente com intenções de homenagear ou trazer nostalgia aos fãs de um ídolo nacional, podem também entreter e desviar nosso interesse.

    Nasci em 1984. Ainda menino, me lembro com detalhes satisfatórios o que eu fiz no dia da tragédia. De alguma forma, algo grande sempre deixa marcas.

    Gostaria de agradecer por compartilhar os passos da sua profissão, e com ela, detalhes sutis da sua vida pessoal. Acho que mesmo sendo o mais profissional possível, sempre deixamos transparecer parte de nossa personalidade.

    Independente de outras sensações que seus textos possam causar nos seus leitores mais devotos, gostaria de dizer que, deixando em segundo plano o tema principal, foi muito bom ter a minha imaginação vagando em sua aventura.

    Talvez nem seja algo tão raro de acontecer, mas me surpreendi com algumas coincidências; um relacionamento adolescente, dois caminhos distintos. Destino esse, que talvez esteja ligado à um dom para exercer certas profissões. Quase não consigo acreditar que você, jornalista, ela estudando medicina legal pudesse estar ligado ao acaso.

    Mesmo havendo tantas outras matérias relatando outras perspectivas daquele dia infeliz, foram suas escolhas e a sua linha do tempo que conseguiram confortar algo quebrado dentro de mim. Não tenho nada além de admiração por um excelente piloto. Acho que todos nós, em alguma época da vida passa por perdas físicas, materiais ou espirituais e acabamos por encontrar semelhanças em casos completamente diferentes.

    Me senti realmente vivo enquanto lia sua matéria, ao mesmo tempo em que a minha mente calculavam as probabilidades do seu romance adolescente proporcionar acasos, para que você pudesse desempenhar a sua profissão com algumas exclusividades.

    Tocante as discrepância dos dois corpos vizinhos.
    Confortante e profunda a carta da Cris.

    Em nenhum momento eu bocejei ou achei tedioso.
    Parabéns!

  • Agora, que a Tamburello devia ter uma barreira de pneus devia. Incrível como desde 87 aquela curva já estava tendo acidentes quase todos os anos e nada era feito. Esperaram o mais fodastico da história morrer pra mutilarem a curva e o circuito. O Piquet é contra barreira de pneus. Mas se tivesse pneus ali, será que ele teria se tornado menos piloto do que ele era antes? Será que Senna teria morrido? As duas hipóteses acho provável que não. E pra vocês verem a importância dos pneus: Naquele acidente do Schumacher em Silverstone, ele teria saído vivo sem os pneus? Duvido muito! Foram os pneus que salvaram o Alemão.

    • Duas curvas com ângulos diferentes, feitas em velocidades diferentes. Tamburello lembra mais uma daquelas curvas de Indianápolis,. Acho que pneu ali seria pior, o carro com o piloto entraria com tudo neles.

  • Lendo a parte do Damon Hill eu chego a conclusão: O safety car matou o Ayrton. Não a toa a implicância que ele tinha com o safety car. Por causa do safety car, os pneus esfriaram muito e quando chegou na Tamburello a ondulação fez o carro se chocar com o chão. No momento que o carro se chocou com o chão, o braço de suspensão se rompeu e deu no que deu.

  • Prezado Fávio Gomes,
    Boa Noite.
    Me chamo Luiz Cesar e sou um dos amantes da Fórmula 1 que continuam acompanhando o Esporte e não seus ídolos. Hoje despretensiosamente liguei minha TV no Fox Rádio e me deparei a única reportagem ou narrativa com conteúdo sobre a morte do Ídolo Ayrton Senna. mais impressionante ainda é que isso poderia tranquilamente tornar-se um filme documentário tamanha a riqueza de detalhes e a forma como a sua vida pessoal te levou a ter informações privilegiadas. Imagino que os repórteres da época tenham se sentido pequenos diante grandeza de informações a que você teve acesso. Aliás a palavra que você procurou e não achou sobre o translado do Senna para o Hospital foi….Ele tinha seus sinais vitais PRESERVADOS…daí não ter sido decretada sua morte no Autódromo. Parabéns !!! Sensacional!!! Imagino que a Família Senna deveria gravar uma entrevista com você para eternizar este momento com tanta riqueza de detalhes. Isso sem falar no seu IMENSO
    MINI gravador. Isso é uma relíquia. Queria lhe dizer que não vejo o Fox Rádio porque apesar dos meus 62 anos, ainda trabalho “Graças a Deus”, por isso ter comentado sobre a coincidência de hoje ter tido essa iniciativa. Porém vejo sempre o Fox Nitro, que graças a Deus veio valorizar os milhares de amantes do Automobilismo que continuam acompanhando corridas e carreiras de pilotos Brasileiros no exterior. É sensacional ver o GRANDE Edgard de Melo Filho desfilando sua competência. Bem vinda Fox, que espero no futuro possa abraçar as transmissões de Fórmula 1. Aliás o que também me impressionou muito foi que nem a GLOBO, dona do Ayrton e suas memórias não ter chegado nem perto de tudo que você narrou hoje pela manhã. Tão pouco seus comentários sobre as entrevistas e sua coragem em mencionar as entrevistas mediáticas do nosso Ídolo. Você tem toda razão quando diz que ninguém é dono da Virtude. Com relação ao acidente, queria te dizer que o Livio Oricchio fez uma reportagem na UOL que responsabiliza a barra de direção pelo acidente, inclusive você disse que ela foi alongada e ele disse que ela foi diminuída (Isso é só um comentário por favor). Flavinho se é que você me permite chamá-lo assim, hoje muitas pessoas que nem tem ideia do seu tamanho deve ter se surpreendido com a sua competência e como você destruiu toda e qualquer especial sobre o acidente do Ayrton. Dez meu amigo, SENSACIONAL. Espero no futuro lhe ver comentando Fórmula 1 ao vivo na FOX. A Fórmula 1 é muito rica, alguns nem sequer se lembram de muitas coisas que vimos como, por exemplo o Projeto P6 da Tyrrell, você podia criar um quadro mostrando as diversas evoluções e caminhos que a Fórmula 1 percorreu. Aliás eu gostaria de ter uma explicação melhor sobre as unidades de potência. São sugestões ao amigo de um pequeno telespectador do seu programa. Felicidades e obrigado por me permitir esse ousado comentário.