Arquivodomingo, 28 de julho de 2019

CHUCRUTE (3): CHUVA, TE AMAMOS!

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Verstappen: sétima vitória, segunda no ano, em corrida histórica na Alemanha

SÃO PAULO (que corrida, que corrida!) – Ah, a chuva…

Já devo ter começado algumas dezenas de textos com essa expressão que na língua irritante das redes sociais, hoje, deveria ser seguida da hashtag #gratidão. Oxe, não tem nada mais brega.

Então, comecemos de novo.

Só a chuva poderia tirar da Mercedes uma vitória hoje em Hockenheim, depois de uma pole tranquila de Hamilton ontem e das desgraças que se abateram sobre a Ferrari na classificação, atirando Vettel para a última posição no grid e ancorando Leclerc em décimo. A Red Bull, ainda que tivesse Verstappinho na primeira fila, não significava uma ameaça real — a diferença de tempo entre ele e Lewis indicava isso.

E não é que ao fim de 64 voltas alucinantes foi a Red Bull que venceu com Max exuberante? E a Ferrari chegou em segundo com um Vettel esplêndido? E a Mercedes saiu com meros dois pontos da corrida que mais queria ganhar no ano, em casa, quando tudo deveria ser festa em seu 200ºGP?

Agradeçamos a chuva, pois. Foi ela a grande estrela do domingo alemão, responsável por um sem-número de reviravoltas numa prova que teve de tudo, e se juntou aos GPs da Áustria e da Inglaterra numa sequência inesquecível na temporada: três corridas espetaculares que tão cedo não serão esquecidas.

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O dia amanheceu chuvoso, 21°C, e a prova começou com três voltas atrás do safety-car e aquela sensação de que a direção iria dar a largada em movimento, por causa do piso muito molhado e do spray levantado pelos carros. Aquele excesso de cautela que tanto tem aborrecido os fãs da F-1 nos últimos tempos.

Mas aí veio a mensagem no monitor, emitido pela torre de controle: vão largar parados. Que bênção! As três voltas foram subtraídas do total previsto de 67 e foi todo mundo para suas posições no grid. Quando as luzes se apagaram, começou o thriller da Floresta Negra.

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Largada: Max patina, Mercedes salta na frente e começa o caos

Verstappen e Gasly patinaram loucamente e a primeira volta foi uma deliciosa amostra do caos que viria pela frente. Hamilton e Bottas saltaram na frente e Max se virou como pôde para reparar os danos da má largada, retomando o ritmo em quarto, atrás de Raikkonen. Vettel, lá no fundão, ganhou seis posições logo de cara. Sem perder muito tempo, o holandês passou Kimi e se posicionou para atacar a dupla da Mercedes. Então veio o primeiro safety-car, na volta 3, depois de uma aquaplanagem de Pérez que acabou com seu carro rosa no muro.

Como a turma tinha largado de pneus para chuva extrema e a pista começava a melhorar, um monte de gente foi para o box colocar os pneus intermediários, mais apropriados para aquelas condições. Alguns, no entanto, não pararam. O que fez com que, do nada, aparecessem Norris, Russell e Kubica em oitavo, nono e décimo. E Magnussen em segundo!

Alguma coisa estava, como dizia Caetano, fora da ordem.

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Na relargada, duas voltas depois, Hamilton, Bottas e Verstappen lideravam o pelotão e Leclerc começava a dar seu showzinho particular, assumindo a quarta posição. Vettel, endiabrado, já estava em oitavo. E as coisas, aparentemente, estavam seguras para os prateados.

O asfalto começava a secar, mas ninguém tinha coragem, ainda, para colocar pneus slicks. Leclerc fez uma segunda parada durante um safety-car virtual acionado após o estouro do escapamento de Ricciardo, mas foi para novos intermediários. Hamilton, na volta 20, voava em céu de brigadeiro já com 5s5 de vantagem para seu companheiro de equipe. Parecia tudo bem para o líder do Mundial.

Só que na volta 23 Magnussen deu a senha e colocou pneus macios para piso seco. O trilho sem água no asfalto era visível. Na volta seguinte, Vettel fez a mesma coisa. Na 26ª, Verstappen espetou médios — para, no caso de a chuva parar de vez, ir até o fim da corrida. Quando retornou à pista, Max levou um susto. Rodou, deu um 360° e por um instante quase botou tudo a perder. Mas segurou a onda e tocou o barco em frente. Bottas seguiu o exemplo do piloto da Red Bull e também colocou médios. Mais um safety-car virtual foi acionado — abandono de Norris — e então foi a vez de Hamilton trocar para pneus macios, voltando ainda na liderança.

A chuva, então, apertou. E fez a primeira vítima real do dia: Leclerc, em segundo, deu na proteção de pneus ao escapar da pista na última curva, que seria a vilã do domingo para vários pilotos. O safety-car foi chamado na volta 29 para remover os cacos da Ferrari do monegasco, que não se conformou com o erro besta. Mas instantes depois, mesmo em ritmo lento, Hamilton escapou no mesmo lugar num erro bobo que não combinava com seu currículo. Começava ali a jogar sua corrida fora.

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Leclerc bate: desespero do jovem ferrarista

Lewis resvalou a asa dianteira na barreira de pneus e decidiu atravessar a pista para aproveitar que estava perto dos boxes e consertar a cagada. Por ter entrado no pitlane de maneira irregular, seria punido depois com 5s. Mas o pior não foi isso. Quando encostou na garagem, a Mercedes não sabia direito quais pneus deveria colocar em seu carro. Primeiro, os mecânicos vieram com um novo jogo de slicks macios. No meio do caminho, desistiram e foram buscar intermediários, porque a chuva aumentou ainda mais. Uma zona incomum num time conhecido pela perfeição em suas ações.

O resultado é que o inglês voltou em quinto, enquanto todo mundo aproveitava o safety-car para colocar intermediários de novo. Na volta 34 foi autorizada a relargada e comunicada a punição a Hamilton. Verstappen era o novo líder, com Hülkenberg em segundo, Bottas em terceiro e um incrível Albon em quarto.

Os dois mercêdicos passaram o alemão da Renault sem maiores dificuldades e na volta 41 foi o pobre Hulk quem bateu na mesma curva. Desolado, abandonou. Talvez nunca tenha estado tão perto de um pódio na vida — ele nunca ganhou um troféu na categoria, com 167 GPs no lombo desde a estreia, em 2010.

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Hülkenberg desolado depois de chegar perto de uma tacinha: 167 GPs e nenhum pódio

Quem pôde aproveitou mais uma entrada do safety-car para colocar novos pneus intermediários. Max foi um deles. Vettel, que estava em sétimo, fez o mesmo. O holandês se segurou na ponta. Sebastian caiu para décimo. Na 46ª, a relargada. E um espanto nos boxes: Stroll, que até ali vinha andando da metade para trás do pelotão, colocou pneus slicks.

As três voltas seguintes foram as mais malucas da temporada. A pista secou de repente. Quem tinha trocado para intermediários novos voltou aos boxes para colocar slicks, como fizera o canadense da Racing India Force Point. Hamilton chegou a liderar uma dessas voltas malucas. Stroll, acreditem, também. Max caiu para sétimo. Lewis parou e despencou para 12º, depois de pagar a punição. Na volta 50, Verstappen estava em primeiro de novo, com Stroll em segundo e Kvyat — sim, o soviético da Toro Rosso que se tornara pai na noite anterior — em terceiro.

De onde vieram esses caras? Do caos. O GP da Alemanha converteu-se numa corrida na qual a única missão de quem se mantinha na pista era fugir do caos. Quem, definitivamente, não conseguia, era Hamilton. Rodou sozinho, trocou pneus de novo — foram seis pit stops para o inglês — e saiu da briga por qualquer coisa aceitável.

Kvyat passou Stroll e foi para segundo. Bottas empacou atrás do menino Lance e na volta 57 completou a tragédia da Mercedes no domingo molhado de Hockenheim. Estampou o muro sem dó e abandonou também, levando Toto Wolff, nos boxes, ao desespero total — será nossa “imagem do dia” no rescaldão do GP, durante a semana.

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Bottas se arrebenta: domingo trágico para a Mercedes

Safety-car de novo, claro, para a remoção do que restou de seu carro. Verstappen, Kvyat, Stroll, Sainz Jr., Vettel e Albon eram os seis primeiros àquela altura e ninguém acreditava no que via. Não bastassem as posições incomuns da maioria deles, Hamilton, simplesmente, estava em 14º. O último entre os sobreviventes.

Da relargada, na volta 59, até a quadriculada, quem brilhou foi Vettel. Passou Sainz, primeiro, depois Stroll (volta 62) e Kvyat (63) para cruzar a linha em segundo, levando o público alemão ao delírio — o mesmo que no ano passado acompanhou com certa indiferença o início de seu inferno astral, quando bateu em Hockenheim liderando a corrida e o campeonato.

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Verstappen, depois de uma rodada e cinco visitas aos boxes para trocar pneus, venceu pela segunda vez no ano e sétima na carreira, consolidando a fama de ser um dos melhores pilotos na chuva que já se apresentaram ao front da F-1 nos últimos anos. Depois do redimido Vettel (também cinco pit stops) veio Kvyat, para conquistar o pódio mais surpreendente do ano — terceiro de sua carreira, os dois anteriores pela Red Bull — contabilizando quatro paradas. A Honda, assim, levou dois carros ao olimpo. E a Toro Rosso conseguiu seu segundo pódio na história (o outro fora a vitória de Vettel em Monza/2008). Quem diria…

Fechando a zona de pontos vieram Stroll (cinco paradas), Sainz (apenas três), Albon (quatro), Raikkonen (quatro), Giovinazzi (quatro), Grosjean (cinco) e Magnussen (seis). Horas depois da corrida, a dupla da Alfa Romeo foi punida com 30s por irregularidades nos ajustes de embreagem para a largada. Ambos perderam suas posições e os pontos. Grosjean e Magnussen subiram para sétimo e oitavo. Hamilton, que terminara em 11º, ganhou dois pontinhos de lambuja alçado ao nono lugar. E Kubica, que recebera a bandeirada em 12º, ascendeu para 10º fazendo o primeiro ponto da Williams na temporada. Lewis, agora, tem 225 pontos, 41 de vantagem para Bottas.

Tudo isso posto, foi mais um domingo redentor para a F-1. No paddock, viam-se sorrisos rasgados por todos os lados, abraços e beijos, alegria de quem sabia ter feito parte de uma corrida histórica — exceção feita à Mercedes, claro, que viu a chefia (leia-se Wolff) cuspindo marimbondos e pedindo “foco” e “seriedade”, talvez numa crítica ao clima excessivamente festivo que cercou o fim de semana do time em casa.

Deu gosto de ver, mais uma vez. Depois de três corridas seguidas assim, pode-se dizer que o ano está ganho para quem gosta deste negócio.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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