Arquivoquarta-feira, 31 de julho de 2019

SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

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O desespero de Toto Wolff: tudo errado num domingo que a Mercedes pretendia festivo e dominante

RIO (tantas emoções) – Se vocês vissem minhas anotações feitas durante o GP da Alemanha em folhas de papel A4 dobradas, hábito que cultivo há bastante tempo, concluiriam, com razão, que daqueles garranchos não sairia nada que prestasse do ponto de vista jornalístico-literário. Em determinado momento, o momento-chave da corrida, acredito, rabisquei mais ou menos o que tinha acontecido com Hamilton acrescentando o veredito em um português, digamos, excessivamente coloquial: “SIFUDEU”, foi o que escrevi.

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Tudo anotadinho: por onde começar?

Está aí o papel que não me deixa mentir. Nem vou mostrar o resto, porque há uma profusão de pontos de exclamação e julgamentos dos quais me envergonho, às vezes (como um “ANTA!” ao lado de “HUL”, “Retardados!!!!” junto de “MAG x GRO DE NOVO PQP!!!”, “é pouco, caralho!” ao lado do registro de “pênalti +5s HAM” e “GAS com ALB: cagou outra vez”).

Como sou um cidadão de bem, católico, esposo, servo de Nosso Senhor Jesus Cristo, conservador, de direita, e creio que Deus acima de tudo deve ser o lema que guia nossa vida, pega mal expor este meu lado tosco e mal-educado.

Talquei?

Sendo assim, vamos ao rescaldo de uma forma meio caótica, como foi a corrida de Hockenheim. Que pode ter sido a última na pista, já que os alemães têm tido dificuldades para renovar seu contrato com a Liberty.

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Hockenheim: terá sido a despedida?

(Mas não acho que a prova será sacada do calendário no ano que vem. Não faz sentido, com a Mercedes voando e Vettel ainda protagonista do Mundial, imaginar um campeonato sem a Alemanha. De qualquer forma, os números não foram muito animadores para os organizadores: apenas 61 mil pessoas no domingo, para um público total de 153 mil pagantes nos três dias do evento.)

Falemos do resultado final. Pela primeira vez desde o GP do Portugal de 1992, dois carros empurrados por motores Honda foram ao pódio. Naquela ocasião, no Estoril, eles estavam espetados em modelos da McLaren: Berger foi o segundo e Senna terminou em terceiro.

A Honda tirou uma onda — trocadilho horrível — com o resultado. No Twitter, a montadora mandou o recado para quem vocês já devem imaginar quem seja: “He’s done it again. That’s GP2 victories in 2019”, tuitou o estagiário encarregado das redes sociais dos japoneses. Lembram de Alonso chamando o motor Honda de “GP2 engine” no Japão, quando corria pela McLaren? Pois é. No tuíte seguinte, os orientais escreveram: “2 GP* Autocorrect…”. Humor na terra do sol nascente é assim. Delicado e sutil.

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A vitória de Verstappen foi surpreendente, claro, porque todo mundo achava que a Mercedes ia nadar de braçada largando na pole e com a Ferrari fora de combate, com Leclerc em décimo e Vettel em último no grid. Mas o jovem Max é um fenômeno, e por isso seu triunfo não espantou tanto quanto a terceira colocação de Kvyat, que subiu ao pódio pela terceira vez na carreira — as outras foram na Hungria em 2015 (segundo) e na China em 2016 (terceiro), ambas pela Red Bull. É do soviético, pois…

A FRASE DE HOCKENHEIM

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Kvyat: troféu inesperado

“É incrível voltar ao pódio nesta ‘segunda carreira’. Pensei que isso nunca voltaria a acontecer de novo na minha vida.”

Daniil Kvyat, que estreou pela Toro Rosso em 2014, foi promovido para a Red Bull em 2015, rebaixado em 2016, demitido antes do fim da temporada de 2017, ficou sem correr em 2018 e voltou neste ano para a filial. A equipe só tinha um pódio em sua história, vitória de Vettel em Monza/2008. Na véspera, Kvyat soube que foi pai de uma menina. Ele é casado com Kelly Piquet, filha de Nelson. O pódio, por sinal, foi todo de crias rubro-taurinas.

Foi apenas a terceira vez, desde 2017, que um piloto de uma equipe diferente de Mercedes, Ferrari ou Red Bull subiu ao pódio. Stroll, pela Williams (terceiro no Azerbaijão/2017), e Pérez, pela Force India (também terceiro em Baku/2018), foram os outros dois.

Oito equipes estiveram representadas na zona de pontos, e apenas Toro Rosso e Haas com suas duplas. Ficaram de fora da festa a Renault (uma quebra e uma batida; depois, o caminhão do time se acidentou rumo à Hungria, já que tudo que está ruim sempre pode piorar) e a Alfa Romeo. Esta teve os dois pilotos punidos com 30s acrescidos ao seu tempo de corrida por conta de um ajuste irregular na embreagem na largada — Raikkonen e Giovinazzi tinham ficado em sétimo e oitavo, coitados.

Com isso, alvíssaras!, a Williams pontuou pela primeira vez no ano, uma vez que Kubica, que recebera a bandeirada em 12º, subiu para a décima posição. O que nos leva ao…

NÚMERO DA ALEMANHA

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Kubica: décimo

ale8…anos, 8 meses e 14 dias se passaram desde a última vez que o polonês pontuou na F-1. Foi no GP de Abu Dhabi de 2010, uma quinta colocação com a Renault. No ano seguinte, Kubica sofreria um grave acidente em prova de rali que acabaria afastando-o da categoria. O outro beneficiado pela punição à dupla da Alfa Romeo foi Hamilton, que subiu de 11º para nono.

Hamilton, que passou um fim de semana dos infernos por conta de uma forte gripe, chegou a pedir para abandonar a corrida quando se viu em último após a entrada do safety-car por conta da batida de Bottas — derradeira intervenção do Mercedão de segurança. A equipe não deixou, alegando que sempre pode acontecer alguma coisa numa corrida tão maluca. De fato aconteceu e ele somou dois pontinhos, completando 23 corridas seguidas nos pontos. O recorde é dele mesmo, 33 entre os GPs do Japão de 2016 e da França de 2018. O que faz uma chuvinha, não?

É o que pensa nosso genial cartunista Marcelo Masili:

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Eu tinha separado uma série de fotos significativas desta corrida e elas estão aí embaixo para vosso deleite. Pela ordem, da esquerda para a direita, a primeira coluna mostra Kvyat e Verstappen se cumprimentando; Hamilton escorregando na área de escape (revestida com um material usado em pistas de arrancada que virou um sabão no molhado) , saindo cabisbaixo do carro e num dos pit stops mais atrapalhados da história da Mercedes; na linha inferior: Verstappen recebendo o abraço do diretor da Honda, Bottas pedindo desculpas à equipe pela cagada, a Racing India Point Force festejando o lindo quarto lugar de Stroll e Vettel comemorando uma das melhores provas de sua carreira. Se quiser ver as imagens em tamanho família, é só clicar nelas.

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Ufa! Acho que estamos chegando ao final. E como sempre, para passar a régua…

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Red Bull: pit de 1s88

GOSTAMOS – De um dos cinco pit stops de Verstappen, com a troca de pneus feita pela <<< Red Bull em inacreditável 1s88, novo recorde para a F-1. A marca anterior pertencia à própria equipe no GP da Inglaterra deste ano, com uma parada de 1s91 de Gasly.

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Haas: dez pontos

NÃO GOSTAMOS – De ver, mais uma vez, a dupla da Haas >>> se estapeando na pista — a situação passou de todos os limites. Mesmo assim, com o pênalti aplicado à Alfa Romeo Grosjean terminou em sétimo e Magnussen, em oitavo. Com dez pontos, foi o melhor resultado do time no ano.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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