SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

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O desespero de Toto Wolff: tudo errado num domingo que a Mercedes pretendia festivo e dominante

RIO(tantas emoções) – Se vocês vissem minhas anotações feitas durante o GP da Alemanha em folhas de papel A4 dobradas, hábito que cultivo há bastante tempo, concluiriam, com razão, que daqueles garranchos não sairia nada que prestasse do ponto de vista jornalístico-literário. Em determinado momento, o momento-chave da corrida, acredito, rabisquei mais ou menos o que tinha acontecido com Hamilton acrescentando o veredito em um português, digamos, excessivamente coloquial: “SIFUDEU”, foi o que escrevi.

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Tudo anotadinho: por onde começar?

Está aí o papel que não me deixa mentir. Nem vou mostrar o resto, porque há uma profusão de pontos de exclamação e julgamentos dos quais me envergonho, às vezes (como um “ANTA!” ao lado de “HUL”, “Retardados!!!!” junto de “MAG x GRO DE NOVO PQP!!!”, “é pouco, caralho!” ao lado do registro de “pênalti +5s HAM” e “GAS com ALB: cagou outra vez”).

Como sou um cidadão de bem, católico, esposo, servo de Nosso Senhor Jesus Cristo, conservador, de direita, e creio que Deus acima de tudo deve ser o lema que guia nossa vida, pega mal expor este meu lado tosco e mal-educado.

Talquei?

Sendo assim, vamos ao rescaldo de uma forma meio caótica, como foi a corrida de Hockenheim. Que pode ter sido a última na pista, já que os alemães têm tido dificuldades para renovar seu contrato com a Liberty.

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Hockenheim: terá sido a despedida?

(Mas não acho que a prova será sacada do calendário no ano que vem. Não faz sentido, com a Mercedes voando e Vettel ainda protagonista do Mundial, imaginar um campeonato sem a Alemanha. De qualquer forma, os números não foram muito animadores para os organizadores: apenas 61 mil pessoas no domingo, para um público total de 153 mil pagantes nos três dias do evento.)

Falemos do resultado final. Pela primeira vez desde o GP do Portugal de 1992, dois carros empurrados por motores Honda foram ao pódio. Naquela ocasião, no Estoril, eles estavam espetados em modelos da McLaren: Berger foi o segundo e Senna terminou em terceiro.

A Honda tirou uma onda — trocadilho horrível — com o resultado. F1/status/1155495701721300992?s=20" target="_blank">No Twitter, a montadora mandou o recado para quem vocês já devem imaginar quem seja: “He’s done it again. That’s GP2 victories in 2019”, tuitou o estagiário encarregado das redes sociais dos japoneses. Lembram de Alonso chamando o motor Honda de “GP2 engine” no Japão, quando corria pela McLaren? Pois é. No tuíte seguinte, os orientais escreveram: “2 GP* Autocorrect…”. Humor na terra do sol nascente é assim. Delicado e sutil.

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A vitória de Verstappen foi surpreendente, claro, porque todo mundo achava que a Mercedes ia nadar de braçada largando na pole e com a Ferrari fora de combate, com Leclerc em décimo e Vettel em último no grid. Mas o jovem Max é um fenômeno, e por isso seu triunfo não espantou tanto quanto a terceira colocação de Kvyat, que subiu ao pódio pela terceira vez na carreira — as outras foram na Hungria em 2015 (segundo) e na China em 2016 (terceiro), ambas pela Red Bull. É do soviético, pois…

A FRASE DE HOCKENHEIM

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Kvyat: troféu inesperado

“É incrível voltar ao pódio nesta ‘segunda carreira’. Pensei que isso nunca voltaria a acontecer de novo na minha vida.”

Daniil Kvyat, que estreou pela Toro Rosso em 2014, foi promovido para a Red Bull em 2015, rebaixado em 2016, demitido antes do fim da temporada de 2017, ficou sem correr em 2018 e voltou neste ano para a filial. A equipe só tinha um pódio em sua história, vitória de Vettel em Monza/2008. Na véspera, Kvyat soube que foi pai de uma menina. Ele é casado com Kelly Piquet, filha de Nelson. O pódio, por sinal, foi todo de crias rubro-taurinas.

Foi apenas a terceira vez, desde 2017, que um piloto de uma equipe diferente de Mercedes, Ferrari ou Red Bull subiu ao pódio. Stroll, pela Williams (terceiro no Azerbaijão/2017), e Pérez, pela Force India (também terceiro em Baku/2018), foram os outros dois.

Oito equipes estiveram representadas na zona de pontos, e apenas Toro Rosso e Haas com suas duplas. Ficaram de fora da festa a Renault (uma quebra e uma batida; depois, o caminhão do time se acidentou rumo à Hungria, já que tudo que está ruim sempre pode piorar) e a Alfa Romeo. Esta teve os dois pilotos punidos com 30s acrescidos ao seu tempo de corrida por conta de um ajuste irregular na embreagem na largada — Raikkonen e Giovinazzi tinham ficado em sétimo e oitavo, coitados.

Com isso, alvíssaras!, a Williams pontuou pela primeira vez no ano, uma vez que Kubica, que recebera a bandeirada em 12º, subiu para a décima posição. O que nos leva ao…

NÚMERO DA ALEMANHA

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Kubica: décimo

ale8…anos, 8 meses e 14 dias se passaram desde a última vez que o polonês pontuou na F-1. Foi no GP de Abu Dhabi de 2010, uma quinta colocação com a Renault. No ano seguinte, Kubica sofreria um grave acidente em prova de rali que acabaria afastando-o da categoria. O outro beneficiado pela punição à dupla da Alfa Romeo foi Hamilton, que subiu de 11º para nono.

Hamilton, que passou um fim de semana dos infernos por conta de uma forte gripe, chegou a pedir para abandonar a corrida quando se viu em último após a entrada do safety-car por conta da batida de Bottas — derradeira intervenção do Mercedão de segurança. A equipe não deixou, alegando que sempre pode acontecer alguma coisa numa corrida tão maluca. De fato aconteceu e ele somou dois pontinhos, completando 23 corridas seguidas nos pontos. O recorde é dele mesmo, 33 entre os GPs do Japão de 2016 e da França de 2018. O que faz uma chuvinha, não?

É o que pensa nosso genial cartunista Marcelo Masili:

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Eu tinha separado uma série de fotos significativas desta corrida e elas estão aí embaixo para vosso deleite. Pela ordem, da esquerda para a direita, a primeira coluna mostra Kvyat e Verstappen se cumprimentando; Hamilton escorregando na área de escape (revestida com um material usado em pistas de arrancada que virou um sabão no molhado) , saindo cabisbaixo do carro e num dos pit stops mais atrapalhados da história da Mercedes; na linha inferior: Verstappen recebendo o abraço do diretor da Honda, Bottas pedindo desculpas à equipe pela cagada, a Racing India Point Force festejando o lindo quarto lugar de Stroll e Vettel comemorando uma das melhores provas de sua carreira. Se quiser ver as imagens em tamanho família, é só clicar nelas.

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Ufa! Acho que estamos chegando ao final. E como sempre, para passar a régua…

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Red Bull: pit de 1s88

GOSTAMOS – De um dos cinco pit stops de Verstappen, com a troca de pneus feita pela <<< Red Bull em inacreditável 1s88, novo recorde para a F-1. A marca anterior pertencia à própria equipe no GP da Inglaterra deste ano, com uma parada de 1s91 de Gasly.

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Haas: dez pontos

NÃO GOSTAMOS – De ver, mais uma vez, a dupla da Haas >>> se estapeando na pista — a situação passou de todos os limites. Mesmo assim, com o pênalti aplicado à Alfa Romeo Grosjean terminou em sétimo e Magnussen, em oitavo. Com dez pontos, foi o melhor resultado do time no ano.

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