LUSA, 100

L

Gosto de te ver em silêncio, quando passo pela Marginal à noite. Indo ou vindo. Gosto da placidez das tuas torres apagadas, das arquibancadas escuras, do vento balançando de leve as copas das árvores em teu redor.

Gosto de te ver do alto, do avião, quando ele faz a curva pelo norte. O retângulo verde, o anel de concreto que parece inacabado, as traves adormecidas, as redes recolhidas, o campo de areia — já não está, mas em mim está –, as alamedas, os bancos de cimento nas alamedas, as gentes pelas alamedas. Do alto, são lindas as alamedas.

Gosto de parar o carro sempre no mesmo lugar. Gosto de chegar um pouco mais cedo e dar cavalo-de-pau no campo de areia. Gosto de ver os meninos, antes de entrarmos pelo portão ao lado dos vestiários, comendo bolinho de bacalhau encharcado no azeite. Deixo os dois no balcão da estranha construção circular, me afasto um pouco, acendo um cigarro, encosto numa das pequenas mesas redondas de alvenaria e me vejo neles, anos atrás. Camiseta vermelha, moletom amarrado à cintura. Altivos, solenes.

Gostava de descer na Ponte Pequena, caminhar sob a linha do metrô até a Cruzeiro do Sul, me embrenhar pelo terreno baldio ao lado da Escola Técnica Federal tomando cuidado para não sujar demais a calça branca e chegar ao clube pela rua da Piscina, 33.

Gostava de entrar pelo portão ao lado da pequena loja que vendia chaveiros, canecas, camisas, cachecóis, bonés, agasalhos, canetas, broches, bonecos. Gostava de comprar um saco de tremoço do homem que ficava do lado esquerdo da escadaria, gostava de subir seus degraus e parar no topo, o campo à minha frente, prescrutar o cenário, calcular quantas pessoas, escolher onde ficar.

Gostava de como era antes, bem antes, de mal ver o que acontecia por ficar lá embaixo, sob as bandeiras, nos estranhos bancos de cimento, como passei a gostar de depois, bem depois, de ver tudo que acontecia lá de cima, bem do alto, as perninhas curtas dos meninos mais se divertindo do que penando para escalar o que, para eles, devia parecer uma pirâmide com vista para o Nilo, o mundo e a vida aos seus pés assim que a escalada se consumava.

Gosto de perceber como depois, com o passar dos anos, encontramos nosso lugar mais ou menos cativo, à meia altura, a uma distância apropriada para ir e vir, ver e enxergar, gritar e escutar, gritar e se fazer ouvir.

Gostava de dizer a eles, e dizia sempre, que ali eles podiam gritar o que quisessem, e — isso era muito importante — quem estivesse lá dentro iria ouvir. Que podiam xingar à vontade e com sinceridade, que lá de dentro seus algozes se sentiriam atingidos. E que, nisso, éramos diferentes; aquilo era a vida real.

Gosto de olhar para trás e lembrar o que já vivemos ali. O trânsito para chegar, o mais novo sugere ir pelo Anhangabaú, o mais velho por trás da Sé, não há aplicativos a nos informar quanto tempo levaremos, é a experiência que nos diz a que hora devemos sair e calcula a hora de chegar, a ansiedade aumentando ao ver as torres iluminadas, a dúvida permanente sobre o portão que estará aberto — durante a semana, à noite, sempre foi tudo muito tenso e apressado. Nos sábados e domingos, à tarde, a pressa não era nossa inimiga, ao contrário, o ritual incluía o restaurante cheio de fotografias e camisetas ali do lado, ou a taverna já em nossos domínios, o bacalhau com batatas ao murro, os rostos familiares, os acenos dos conhecidos, a sangria na mesa que no fim eu tomava sozinho — eles cresceram, mas ainda preservam certo pudor e pedem refrigerantes.

Gostava de soltá-los lá dentro subindo e descendo degraus quando ainda não entendiam direito o que faziam naquele lugar cada vez mais íntimo, sem medo de perdê-los porque alguém sempre estaria de olho, como gosto de soltá-los hoje, a intimidade com o lugar consolidada, porque é de seu irrestrito direito viver exatamente o que vivi à minha maneira, e eles têm de viver aquele lugar como quiserem.

Gosto de cumprimentar as pessoas, de esbravejar, vociferar, sonhar, berrar, pular, abraçar, beijar, de elevar à condição de semideuses os que lá dentro nos representam de verde e vermelho, sejam quem forem.

Gosto das vitórias e aceito as derrotas, gosto de ligar o rádio no carro e ouvir as explicações, de renovar as esperanças, de voltar sempre pelo mesmo caminho, fazer as contas, reviver um lance, lamentar a bola que não entrou e dizer a eles: é assim, a vida é assim, a gente precisa aprender a ganhar e perder, quando é o próximo´?, onde é o próximo?

Gosto de saber que o que mais me une aos meninos é você, Portuguesa. Gosto de levar sua cruz no peito. Você nos apresentou o amor.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

28 Comentários

  • Flávio sou torcedor do Santos FC más fui associado da Lusa por alguns anos gostava de ir aos sábados ou domingos sem jogos para fazer um churrasco em família fazia amizade com muita facilidade lembro do Sr. OSVALDO T. DUARTE cheguei a conversar com ele e com Sr. WILSON BRASIL Bons tempos.

  • Lindo texto Flávio !
    Me faz lembrar muito as músicas do Renato Russo … sobre a vida, seu cotidiano e seus amores …
    Não querendo desmerecer as lives, que são ótimas, mas deveria fazer mais textos inspirados assim, que muito nos inspiram. Textos maravilhosos como este fazem faltas num país que arfa ódio em textos mal escritos, impensados e cagados (não escritos)…

  • Eis que FG comete um dos mais belos textos deste blog. Um primor de texto que já nasce histórico. Mais uma obra pra ler e reler de tempos em tempos.
    Eu queria escrever como esse mocinho que é um dos melhores textos do Brasil.
    Um relato que emocionou este velho blogueirinho tão deprê e sumido nestes tempos bicudos.

    Obrigado, Fla. Se eu fosse te pagar por momentos sublimes como esse que você acabou de me proporcionar a conta estaria bem alta.

    Bitocas..

    Nick B

  • Mal sabem os que maldosamente acusam a lusa de ter uma torcida que cabe numa kombi, de terem feito um elogio dos mais envaidecedores, porque não é pra qualquer torcida ser tranposrtada por uma jóia da industria automobilística mundial. Lusa e kombi vivem!

  • Flávio

    Disparado o jornalista que melhor escreve sobre qualquer assunto no Brasil.

    O cidadão é inspirado. E é inspiração. Querida Lusa minha algoz dos 14 pontos duas vezes em loteria esportiva, com resultados que somente a Portuguesa seria capaz de proporcionar. Zebras absurdas.

    Espero que possa retornar aos seus dias de glória. Nosso adversário tradicional desde sempre (torço para o SP)

    Seu texto exprime muito o amor Pelo clube pelos meninos e pela vida. Parabéns. Tu não és um mezzo escriba. Trata-se de um puta escriba.

  • Linda homenagem à grande Portuguesa, quase destruída pela incompetência e ganancia de dirigentes mal intencionados.
    Mas ainda mais bonita tua homenagem aos seus filhos e a valorização da convivência entre gerações.
    Adoro ir com meus meninos assistir o Operário Ferroviário, cantar, gritar, xingar, reclamar, aplaudir e como você escreveu, lá pode fazer tudo mesmo…

  • Sou mais velho que você Flávio e minha lembrança me leva ao antigo Morumbi em 73 quando a Lisa ganhou do Santos de Pelé, Edu, Carlos Alberto, Clodoaldo e Cenas. Não levou porque Armarinho Marques anulou 2 gols e o último do Cabinho aos 35 min do segundo tempo. Pena que aos 17 anos eu não sabia ainda dimensionar o que estava vivendo. Long life Lusa!

  • mais bonito que o texto só a experiência que voce tem com seus moleques

    nessas horas eu admito a importância do futebol, eu que larguei a coisa a partir do lazaroni em 90

    um troço interessante: seu texto tem muita relação com o primeiro livro do nick hornby, “febre de bola”/“fever pitch”.

    é uma boa parte do climão da história do livro, condensado nessa sua crônica… ambos excelentes.

    portanto, tamos aí na espera do seu livro novo!

  • Aprecio uma crônica de quem gosta, e sabe, escrever. Nossa memória afetiva, os neurônios que perfazem as ligações diretas à alma, ao periespírito de uma criança, onde a luz da felicidade pura irradia, e suga, a energia do universo. Essa energia continua com a gente, só é necessário sabermos onde ela está. Flávio descobriu onde está a dele.

  • Meus sentimentos e minhas vivências são muito parecidas às suas, Flávio.
    Meu pai, que infelizmente o perdi em agosto de 2016 aos 73 anos vítima de um aneurisma fulminante, me fez um torcedor de arquibancada, despertando em mim a paixão que ele sempre teve pelo Esporte Clube Vitória, um clube centenário, o decano no nosso Estado.
    Nos idos dos anos 1980, meu pai sempre me levava para a velha Fonte Nova(o gigante estádio Octávio Mangabeira à época), isso na idade dos teus filhos, para ver os jogos do Vitória seja com quem fosse(nos domingos á tarde ou nas quartas feiras à noite). Só alguns anos depois o Vitória mandaria seus jogos no seu santuário, o estádio Manuel Barradas, o Barradão, no complexo da Toca do Leão.
    Vi, logicamente, o Vitória em 1993 na final do Brasileiro com o Parmalat Palmeiras(a seleção brasileira da época) e 3 anos depois imagino que sentir algo relativamente parecido com a Portuguesa naquela final com o Grêmio.
    Tanto o Vitória como a Portuguesa se tivessem sido agraciados com os títulos brasileiros teriam, de certa forma, mudado de patamar. O Vitória ainda faria boas campanhas em 1999, 2004 na copa do Brasil e em 2010 a final da mesma com o Santos de Neymar, Robinho, Ganso e cia. Outro time muito forte para o azar do rubro-negro baiano.
    Em 2011, acompanhei diversos jogos da BarceLusa pelo canal Sportv e como torci junto ao Vitória, obviamente. Em 1992 o Vitória foi vice do Paraná Clube na Segunda Divisão do campeonato Nacional, e como chorei, chorei muitos com os meus catorze anos de idade ainda mais que foi o primeiro jogo em minha vida que não tive a companhia de meu pai que estava fora de Salvador na noite da final na Fonte Nova lotada com mais de 62 mil pagantes.
    Nosso mascote é o mesmo. Nossos sentimentos são muitos parecidos. Somos torcedores de arquibancada(de cimento) e que gostamos de manter as esperanças, sempre, por este amor indelével aos nossos clubes.
    Que a Portuguesa consiga se reerguer e venha a fazer novos confrontos com o meu amado Vitória seja na Série A em alguns anos ou mesmo na Copa do Brasil desde de que em fase mais agudas(que são financeiramente importantes para os cofres destes clubes).

  • Sou flamenguista por razões geográficas, infantis e Arturantunianas…mas continuo achando o maior barato os Leões da Fabulosa. Como hoje, vivo no litoral paulista, ostento com certo orgulho minha camiseta da coirma paulista, a Briosa. Tenho o maior carinho pela Lusa, Juventus, Defensor de Montevideo e outras preciosidades do futebol raiz.

  • Conheci dois torcedores da Lusa. O Sr. Toninho da Lusa e meu colega de trabalho , Anderson Marques, que Deus o tenha. Eles me deram o prazer de conhecer o Canindé, assisitir ao jogo pertinho do gramado e comer os famosos bolinhos de bacalhau na lanchonete dentro do estádio. Assim, passei a nutrir uma grande simpatia pela Lusa, embora torcefor do SPFC. Bons tempos aqueles.

    • Não conheço a capital paulista mas qdo. tiver uma oportunidade de ir com certeza o Canindé(que deve ser um dos estádios antigos mais charmosos do Brasil) estará entre os pontos de visitação haja vista meu longo apreço pela Portuguesa.
      Adquirirei uma camisa bonita da Lusa e degustarei muitos bolinhos de bacalhau encharcados no azeite.

  • Prezado Flavio,
    MUITO OBRIGADO….a escrita reflete exatamente aquilo que sinto (com excecao dos tremossos, que nao gosto); entendo perfeitamente o ensinamento aos teus filhos, uma vez encontrei voces na arquibancada e eles eram ainda pequenos mas o mais novo gritava e xingava com vontade rsrs….na epoca me assustei um pouco, pelos palavroes e pela idade dele mas, hoje, entendo perfeitamente…quem sabe um dia ainda nos encontraremos novamente em nosso estadio, o mais simpatico de Sao Paulo ? abracos

  • Mesmo dando ao futebol em geral a mesma atenção que dou à segunda divisão do campeonato mongol de críquete, sinto falta da Lusa nas primeiras divisões. Ela não merece essa situação. Vida longa, Lusa!

  • Que bonito. Gosto sempre de observar os escudos dos times. Sou torcedor do Campinense Clube da PB. Acho o escudo lindo, pela simplicidade. Mas o escudo da portuguesa está seguramente entre os mais belos do mundo, também por sua simplicidade.

    • Sou um torcedor do rubro-negro baiano, o Vitória que é meu clube de coração e identidade mas tenho simpatia pelo Campinense por vestir as mesma cores.
      Sou, também, rubro-negro no Maranhão com o Moto Club, em Goiânia com o Atlético.
      Sobre a Portuguesa, é daqueles clubes que mesmo não sendo rubro-negro eu gosto assim como: O Ferroviário-CE, Tuna Luso-PA, América-MG, Criciúma-SC, entre outros.
      Esses clubes são verdadeiras resistências perante os ditos “maiorais” nos seus respectivos Estados.

Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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