N’INGLATERRA (3)

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SÃO PAULO (de arrepiar) – O GP da Inglaterra estava chatinho até a antepenúltima volta, quando começaram a furar pneus. Primeiro Bottas, depois Sainz, depois Hamilton. Todos na turma da frente. Claro que para Lewis o furo teve menor efeito: ganhou a corrida do mesmo jeito. Valtteri, que estava em segundo, terminou em 11º. Sainz, quinto, recebeu a bandeirada em 13º.

Ganhar com três pneus não é para qualquer um. E Hamilton, obviamente, não é qualquer um. Além disso, como disse Christian Horner pelo rádio a Verstappen, segundo colocado, “é um cara de sorte”. De fato. O pneu do hexacampeão — esquerdo dianteiro, que sofre barbaridade em Silverstone — poderia ter explodido um pouco antes. Como aconteceu com Bottas, que teve de dar uma volta inteira se arrastando até chegar aos boxes. Sua borracha se foi na volta 50, a duas do final. Ou com Sainz, que não tinha vantagem confortável para ninguém quando viu seu pneu indo pelos ares e perdeu todas as posições possíveis.

E a sorte foi tão grande que Verstappinho, assim que assumiu o segundo lugar com a tragédia de Bottas, sentindo umas vibrações estranhas no mesmo pneu, foi para os boxes para colocar um jogo de macios com dois objetivos: 1) garantir que chegaria ao final; e 2) fazer a melhor volta da prova e levar um pontinho extra.

Max chegou 5s atrás de Hamilton. Na última volta, foi 28s mais rápido. Claro que todos já chegaram à mesma conclusão: se não tivesse parado para colocar os pneus macios e fazer a melhor volta, teria vencido a corrida.

É provável que sim, mas nunca garantido. Horner, o chefe da Red Bull, meio que para se auto-consolar, disse que “talvez Max não chegasse”. O próprio piloto procurou enxergar o lado meio cheio do copo. “A gente pode dizer que tive azar, ou sorte. No caso do Lewis, a mesma coisa. Mas no fim, ele teve um pneu furado. Um azar. Enfim, eles foram mais rápidos e mereceram a vitória. Estou feliz com o segundo lugar.

Verstappen: podia vencer, mas também podia estourar o pneu

Não duvido que esteja. Mas até a eternidade ficará a dúvida. Será que daria?

O festival de borracha voando deveu-se à entrada do segundo safety-car na corrida, após batida de Kvyat na 13ª volta. Antes, o Mercedão de segurança já havia sido acionado entre as voltas 2 e 5, por conta de uma refrega entre Albon e Magnussen que terminou com o dinamarquês no muro e o tailandês punido — Alex ainda faria uma interessante corrida de recuperação, termo cunhado, registrado e eternizado por Galvão Bueno — para terminar em oitavo.

Enquanto o russo saía de sua AlphaTauri arrebentada e dava um tapão no cameraman que registrava seu desgosto profundo, todo mundo foi para os boxes fazer a parada única prevista para a corrida (a exceção foi Grosjean, que por conta disso apareceu em quinto na relargada, na volta 18, e ficou atrapalhando geral até receber duas bandeiras brancas e pretas, que não eram do Ceará nem da Juventus de Turim, mas sim de advertência por se mover nas freadas, ameaçando mandar para o espaço quem vinha para ultrapassá-lo).

E aí é que se explica o drama pneumático do final. A Pirelli calculava que quem tivesse largado de médios deveria fazer seu pit stop entre as voltas 21 e 24. A turma dos macios, entre a 18 e a 22. Como todos anteciparam a parada para aproveitar o safety-car nas voltas 13 e 14 — e todos colocaram pneus duros –, significa que no segundo stint os pneus teriam de durar umas dez voltas além daquilo que os borracheiros consideravam aconselhável. E deu no que deu.

Hülkenberg nem largou: será que o box 13 deu azar?

Até então, sejamos honestos, o que de mais emocionante havia acontecido no GP da Inglaterra fora a desventura de Nico Hülkenberg. Cheio de dores por todo o corpo, afinal eram nove meses de inatividade, o pobre coitado já tinha se enchido de Dorflex e adesivos Salonpas para disputar a prova no lugar do contaminado Sergio Pérez. Mas na hora de entrar no carro, alguma coisa não funcionou. “Alguém tem a chave?”, perguntou para os mecânicos quando viu que o motor não girava. “Não tem chave”, respondeu alguém. “Tem alarme?”, seguiu Hulk. “Tem não”, respondeu o mesmo mecânico. “Joga uma gasolina aí no carburador que pega!”, implorou. “É injetado”, suspirou seu interlocutor. “Não dá pra empurrar e pegar no tranco?”, sugeriu, por fim, o piloto. Àquela altura, a corrida já tinha começado. Nico nem alinhou. Por um desses mistérios da tecnologia, a unidade de potência de seu Force Point simplesmente se recusou a ligar.

Albon: bobagem no início, recuperação cheia de valentia

O início da prova foi tranquilo, as duas Mercedes sumiram na frente e, tirando a lerdeza da Ferrari de Vettel e um duelo divertido entre os carros da McLaren e da Renault, nada de muito interessante aconteceu até os pneus furarem no fim. Outro que dava dó, como Tião Italiano, era Raikkonen, ultrapassado até por Lentifi. Individualmente, destacavam-se Gasly e Albon lutando bravamente para se colocarem na zona de pontos. Stroll, de quem se esperava mais com a Mercedes rosa, fazia uma prova decepcionante. Acabou num opaco nono lugar, e isso graças aos estouros de Sainz e Bottas.

Passadas todas as aflições, Hamilton teve a companhia de Verstappen e Leclerc no pódio. E, aqui, palmas para o garoto monegasco criado nas comunidades pobres dos morros de Monte Carlo. Com uma charanga irritantemente lerda e difícil de guiar, conseguiu chegar em terceiro e fez seu segundo pódio no ano. Ricciardo, Norris, Ocon, Gasly, Albon, Stroll e Vettel fecharam a zona de pontos.

Lewis disse que seu coração quase parou quando viu sua borracha desmilinguindo na última volta, mas respirou fundo (de novo) e se preocupou em levar o carro até a quadriculada, enquanto pelo rádio o engenheiro informava a distância que ainda tinha para Verstappen. Foi a 87ª vitória de sua carreira, terceira no ano, e sétima na Inglaterra. Tornou-se o piloto com mais vitórias em casa na história da F-1, superando os seis triunfos de Alain Prost na França. “Valtteri estava num ritmo muito forte e talvez por isso seu pneu tenha ido embora antes que o meu”, especulou. “A gente percebeu que o ritmo era muito forte dos dois e que poderíamos ter problemas no fim, mas deixamos os dois livres para correr”, contou Toto Wolff, o chefão da Mercedes.

De fato, Bottas andou o tempo todo colado em Hamilton, com a diferença nunca passando de 2s até a volta 48, quando o finlandês diminuiu o ritmo depois de informar pelo rádio que seu carro vibrava muito, e que o pneu já tinha ido para o saco. “Foi muito azar”, lamentou Sapattos, que tinha 18 pontos no bolso e saiu zerado da quarta etapa do Mundial. Com isso, Hamilton abriu 30 pontos de vantagem na classificação, 88 a 58. Verstappen tem 52 e Norris, quinto colocado hoje, é o quarto com 36.

Semana que vem Silverstone recebe a quinta etapa do campeonato, mas a corrida deverá ter características um pouco diferentes. Para combater a mesmice, já estava combinado que os pneus para a prova, batizada de GP do 70º Aniversário (ainda não decidi como vou chamar esse negócio), serão um degrau mais moles que os usados neste fim de semana. Ou seja: o que hoje foi pintado de amarelo e era médio será pintado de branco e vai ser o mais duro à disposição; o médio de hoje vira macio amanhã; e o macio para a corrida será o composto supermacio na vida real. Pode parecer complicado, mas não é. O resultado é que ninguém vai conseguir fazer as 52 voltas da prova com apenas uma parada. No mínimo, duas. Ainda mais se fizer calor, o que hoje não aconteceu — estava sol, mas a temperatura não passou dos 21°C.

Leclerc: terceiro inesperado, segundo pódio no ano

E a Ferrari?

Claro que o terceiro lugar de Leclerc foi muito festejado e inclusive, como me contou o informante Gola Profonda, o piloto ganhou de presente do chefe Binotto uma miniatura de borracha do Relâmpago McQueen, que tinha sido prometida no começo do ano se ele andasse bem na pré-temporada, o que não aconteceu. Por causa disso, disse Gola, a reunião pós-corrida com os engenheiros teve de ser adiada em meia hora para que ele pudesse brincar com o carrinho na banheira (“Charlito só toma banho de banheira”, explicou o espião).

Ando meio farto dessas irrelevâncias que me reporta Gola, e por isso pedi que ele falasse mais sobre Vettel, que me parecia muito triste com o resultado. Até li em algum lugar uma declaração preocupante dele, na linha “não tinha confiança para fazer o que gostaria em nenhuma volta, tem algo de muito errado com o carro ou comigo”, depois de descrever a dificuldade para guiar um automóvel nitidamente ruim.

“Não foi nada disso que ele falou”, me corrigiu Gola. Ah, não? O bom de ter informantes em postos estratégicos é isso, a gente apura os fatos e eles nos chegam com maior precisão e fidelidade. O que Vettel disse, então?, perguntei, já pegando papel e caneta para anotar alguma frase de impacto, certamente. “Seb chegou cabisbaixo, sentou numa cadeira de plástico num canto, tomou um gole de água, nem colocou máscara e desabafou comigo. Disse que devia estar contente por ter conseguido tudo que quis, mas confessou, abestalhado, que estava decepcionado. Porque foi tão fácil conseguir, e agora estava se perguntando ‘e daí?’, e que tem uma porção de coisas grandes pra conquistar e não pode ficar aí parado.”

Anotei tudo, achei o desabafo de fato impactante, e creio que essas palavras que demonstram desolação, angústia, decepção, sofrimento, desengano, tristeza e frustração deverão ter algum destaque nos jornais italianos de amanhã. E pra domingo que vem, Gola, o que ele está pensando? “Não sabemos. O dia começou esquisito, já. Ele postou uma imagem estranha no nosso grupo de manhã com uma mensagem misteriosa, e depois desapareceu.” Você pode me mandar?, pedi. Segundos depois veio a foto no meu WhatsApp. Na legenda, estava escrito: “Não é meu, não é de ninguém. Quero ver o rosinha funcionar sem isso aqui”.

Depois disso, Gola não me falou mais nada porque caiu a ligação.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

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Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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