Arquivosexta-feira, 30 de outubro de 2020

N’EMILIA-ROMAGNA (1)

N

SÃO PAULO (debaixo d’água) – É claro que a volta da F-1 a Imola será repleta de momentos emocionantes e lembranças por conta de 1994. O único piloto do grid que já disputou um GP de F-1 na pista onde Senna e Ratzenberger morreram foi Raikkonen, que já estava na categoria em 2006, ano do último GP no histórico autódromo Enzo & Dino Ferrari. Hamilton estava na GP2 naquela temporada, ainda.

Assim, hoje foi dia de romaria ao memorial erguido para Senna logo depois de sua morte — onde foi instalada uma estátua de bronze com ar muito triste, no lado interno da Tamburello. É local visitado o ano inteiro por fãs do brasileiro e da F-1 como um todo. Já estive lá algumas vezes. Muitas, na verdade, porque cobri todos os GPs de San Marino até 2005. Aquele local sempre rende uma matéria, uma foto, alguma coisa.

Imola não é marcante na carreira de Senna só pela óbvia razão de ter sido o circuito onde morreu há mais de 26 anos. Foi lá, também, que ele não conseguiu se classificar para o grid de um GP pela primeira vez, em 1984 — uma treta da Toleman envolvendo fornecedor de pneus, a troca de Pirelli por Michelin, acabou zoando todo seu fim de semana. Depois, faria sete poles seguidas na pista, de 1985 a 1991 (as três primeiras de Lotus, as outras com a McLaren), ganharia três corridas (1988, sua primeira vitória pela McLaren, 1989 e 1991) e, numa delas, explodiria de vez sua briga com Alain Prost. Foi em 1989, quando o brasileiro desrespeitou um acordo interno que proibia disputa de posição entre os dois na primeira volta do GP. Na segunda largada — a prova fora interrompida pelo acidente de Gerhard Berger na Tamburello –, Ayrton não quis nem saber e foi para cima do francês.

E com toda essa rica história que envolve as corridas em Imola — tem muito mais, como Prost rodando na volta de apresentação, público torcendo contra piloto italiano para ver a Ferrari vencer, boicote de equipes, batida de Piquet… –, digo a vocês que ficou lindo o cartaz que a Racing India divulgou para promover a prova deste fim de semana. Reparem no pódio. Quem vocês veem? Legal, legal demais.

E quem conhece Imola bate o olho na ilustração e, na hora, lembra dessas mesinhas e desses banquinhos atrás das arquibancadas. Um dos lugares mais gostosos do mundo para se sentar, comer uma fatia de pizza e tomar uma Nastro Azzurro no intervalo entre um treino e outro, olhando o movimento e sentindo a F-1 de verdade. Cansei de almoçar aí, no meio do povo, mesmo podendo comer nos motorhomes das equipes — que na Itália capricham. Pelo menos uma vez a cada GP escapava do paddock, atravessava o túnel e caía no meio da galera.

Saudades de lá, adoro o lugar.

Homenagens à parte, a semana também tem sido pródiga em anúncios para o futuro próximo do Mundial. Resumindo:

  • A AlphaTauri anunciou a renovação com Pierre Gasly, mas ainda não com Kvyat. Que deve sair. Yuki Tsunoda, da F-2, deverá ser seu substituto. O japonês tem 20 anos e vínculos com a Red Bull. E é bom piloto.
  • Alfa Romeo e Sauber ampliaram a parceria até o fim de 2021 e a equipe suíça segue usando o nome da marca italiana.
  • Pouco depois, o time confirmou a permanência de Raikkonen e Giovinazzi para o ano que vem. “É minha família”, disse Kimi cheio de ternura, lembrando que a equipe está repleta de gente que já estava lá quando ele chegou, em 2001.
  • O anúncio, até surpreendente, tira de Mick Schumacher a chance de estrear na próxima temporada pela Alfa Romeo. Mas não nos esqueçamos da Haas, que também usa motores Ferrari — o filho de Michael vem da academia ferrarista. A Haas já avisou que vai trocar os dois pilotos. Por isso, uma dupla com Mick Schumacher e o russo endinheirado Nikita Mazepin, ambos oriundos da F-2, passa a ser a possibilidade mais concreta no time americano.
  • A Williams também anunciou a permanência de George Russell e Nicholas Latifi para 2021. Azar do inglês, que merece coisa melhor. Mas não há vagas disponíveis. Nicholas é lento, mas traz grana para a equipe. Tem lugar garantido enquanto o pai pagar.
  • E Pérez? Só sobrou, na prática, um cockpit na Red Bull. Aliás, o próprio Pérez já falou: hoje, é a única opção que considera. Se a equipe optar por mudar sua política e colocar alguém mais experiente num de seus carros, em vez de um novato formado nas suas escolinhas, Albon roda e o mexicano assume. Intuição? Acho que é o que vai acontecer.

Todas as homenagens a Senna são justas e merecidas — Gasly, por exemplo, vai correr com uma pintura de capacete que lembra o do brasileiro. O mesmo vale, claro, para Ratzenberger. O austríaco não ganhou estátua nenhuma em Imola e o memorial informal no local de sua morte, a curva Villeneuve, é menos concorrido pelos visitantes do Parco delle Acque Minerali, onde fica o autódromo. Não vi ainda nenhuma foto dos pilotos naquele ponto do circuito, mas não quero ser injusto. Acho, até, que a maioria deve ter ido lá.

Na pista, será um fim de semana também diferente por reduzir as atividades a dois dias. Amanhã de manhã haverá um treino livre de 90 minutos e, depois, a classificação. A corrida, domingo, começa às 9h10 no horário de Brasília. Como já comentei outro dia, é um ensaio da Liberty para chegar a um calendário de 25 etapas em algum momento. Para isso, será preciso que algumas dessas provas tenham apenas dois dias de atividade. Não creio que teremos um Mundial com todas os eventos resumidos a sábado e domingo. Mas vai saber…

Carro de Bottas no pitlane de Imola: portas dos boxes com janelas, marca registrada do circuito

E essas portas dos boxes com janelinhas que lembram escotilhas? Tem coisa mais com a cara de Imola que isso? Espero que a corrida seja sensacional para, um dia, o circuito voltar a receber a F-1 para sempre, porque ainda sonho em ver um GP ali sentado na Colina da Paixão no meio dos torcedores mais divertidos do mundo, que são os italianos.

Ah, e quem está em Imola é outro veterano, que também já disputou vários GPs de San Marino e venceu um deles, em 2005 — o deste ano, reforcemos, se chama GP da Emilia-Romagna. Trata-se de Fernando Alonso, que foi confirmado pela Renault para fazer dois dias de testes no Bahrein, com o carro de 2018. Com a volta de Alonso e a permanência de Raikkonen, teremos nada menos do que 14 títulos mundiais na pista em 2021: os sete de Hamilton (estou contando o deste ano), os quatro de Vettel, os dois de Fernandinho e um de Kimi.

Não é pouco, não.

Alonso: rolê em Imola, onde venceu em 2005 pela mesma Renault

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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