Arquivosábado, 31 de outubro de 2020

N’EMILIA-ROMAGNA (2)

N

SÃO PAULO (clássicos são clássicos) – Reparem na elevação em tons de verde à direita da foto acima. Ali fica a Colina da Paixão. Antigamente, em Imola, não havia os degraus para a turma se sentar. Era uma colina mesmo, gramada, e ela ficava abarrotada de gente para ver as corridas. Quando chovia era uma desgraça, saía todo mundo sujo de barro. Mas ninguém reclamava. Depois fizeram essa arquibancada meio improvisada para tentar organizar a bagunça, mas o espírito festivo se manteve. Vivêssemos tempos normais, a colina estaria lotada hoje, para aplaudir a bela pole que Valtteri Bottas fez para o GP da Emilia-Romagna, na volta da F-1 a Imola depois de 14 anos.

Como o campeonato está decidido, sigo me apegando às irrelevâncias para tentar dar alguma cor a estes intermináveis textões de fim de semana de corrida. No caso, hoje, fiquei atento ao encantamento que o circuito causou em pilotos que nunca tinham pisado em Imola antes. Alguns, é verdade, já tinham corrido lá. De F-1, só Raikkonen. Outros já haviam disputado provas de categorias menores — como Hamilton, na GP2, Verstappen, na F-3, e talvez um ou outro em formulinhas de base; confesso envergonhado que não fiz um levantamento preciso e não sei exatamente quem já tinha estado no especialíssimo Parco delle Acque Minerali, que dispensa tradução.

Em Imola, aliás, as curvas têm nome, e isso distingue um circuito clássico dessas coisas meio plastificadas que surgiram nos últimos anos. Vejam abaixo:

Curvas com nomes, não números: assim são as pistas antigas, com personalidade e história

Do traçado original, desapareceu a Variante Baixa, que ficava mais ou menos onde está escrito “Paddock 2” no desenho acima. Foi nela que Barrichello bateu nos treinos para o GP de San Marino de 1994, o primeiro dos graves acidentes daquele fim de semana trágico. A Tamburello, claro, já não é mais a mesma. A curva que vitimou Senna foi modificada já no ano seguinte, com a criação de uma chicane. O mesmo foi feito na Villeneuve, onde morreu Ratzenberger.

Mas os nomes estão lá, e são muito familiares a quem acompanha a F-1 há mais tempo. Sempre falamos dessas curvas com certa intimidade. Você viu como Fulano chega na Tosa? Quem faz melhor a Piratella? Na Acque Minerali a Williams ganha tempo. Zezinho não consegue fazer bem a Variante Alta. É na Rivazza que a gente vê como Joãozinho guia. E por aí vai. Ou ia. Hoje, os pilotos só se referem às curvas por números, uma tristeza.

Mesmo com as modificações feitas ao longo dos anos, Imola segue sendo uma pista muito rápida. Se perdeu velocidade com a adição das variantes na Tamburello e na Villeneuve, ganhou com a remoção da Variante Baixa, e a média da pole de Bottas hoje superou os 240 km/h.

Todos amaram a pista, alguns até literalmente. “A gente aprende muito nestas pistas clássicas. Imola, te amo!”, escreveu Grosjean no seu Twitter, talvez já saudoso do que não vai viver mais — o francês, tão simpático quanto atrapalhado, já recebeu o bilhete azul da Haas e está de malas prontas para tentar a vida na Indy. “Precisamos de mais pistas como essa, definitivamente”, falou George Russell, que tinha 8 anos de idade quando a F-1 passou pela última vez pelo circuito de Santerno. “Nunca me diverti tanto numa volta de classificação andando no limite, isso aqui é demais!”, extasiou-se Daniel Ricciardo.

Mesmo Hamilton, um tanto desgostoso com a perda da pole que, segundo ele, deveu-se a “uma volta miserável”, derreteu-se em elogios ao traçado. “É um lugar lindo, as velocidades que atingimos são inacreditáveis”, disse. Mas fez a ressalva: “A corrida amanhã vai ser chata. Há pouquíssimas chances de ultrapassagem e onde dá para passar me parece que a pista é muito estreita.”

Quando fala em beleza, é às imagens acima que Lewis se refere. Os velhos fotógrafos da F-1 mataram as saudades da luz muito particular da Emilia-Romagna, que me pareceu semelhante agora, no outono europeu, à da primavera — quando o GP de San Marino era realizado antes, no final de abril ou começo de maio. JR Duran, que nos lê de vez em quando, pode explicar essa história da luz. Não entendo nada disso, apenas sinto. Aquela região da Itália sempre me pareceu muito especial e nisso incluo suas cores, sons, cheiros e sabores.

Falando do que aconteceu hoje na pista, nenhuma grande novidade ver a Mercedes na pole de novo — fez todas neste ano –, e nem mesmo o fato de Bottas ter ficado em primeiro deve causar algum espanto. Ele virou em 1min13s609 e foi apenas 0s097 mais rápido que Hamilton. “O suficiente”, como disse pelo rádio ao comemorar a 15ª pole de sua carreira e quarta no ano. Está 9 x 4 para Lewis no placar das classificações, um placar que espelha bem o que vem sendo esta temporada.

Gasly: quarto no grid, grande fase e destaque do dia

Surpresa mesmo foi ver Gasly em quarto, sua melhor posição de grid até hoje, e o glorioso título de “melhor dos outros”, atrás dos três primeiros que têm sido cativos na frente no ano: a dupla da Mercedes e Verstappen. Max ficou em terceiro apesar dos problemas no início da classificação, quando seu carro começou a perder potência. Na correria, a Red Bull identificou uma vela defeituosa, trocou e o holandês teve de se virar para arrancar um tempo com pneus médios no Q2. No Q3, confirmou a posição que já havia conseguido outras seis vezes no ano.

O quinto foi Ricardão, seguido por Albon, Leclerc, Kvyat, Norris e Sainz nas dez primeiras colocações. O Q2 registrou algumas decepções, como as eliminações precoces da dupla da Aston Point, Pérez (11º) e Strolll (15º). Vettel em 14º, atrás de Russell, nem pode ser chamado mais de vexame. Foi a nona corrida seguida que o alemão amargou sem chegar ao Q3. Ocon, em 12º, sim, desapontou. Tem sido batido constantemente por Ricciardo e não faz um bom campeonato. E no Q1, que riscou da briga Grosjean, Magnussen, Raikkonen, Latifi e Giovinazzi, lamento apenas por Kimi. Teve sua melhor volta cancelada (por favor, parem de dizer “deletada”) por exceder os limites da pista na Piratella.

Bottas: pole faz dele o favorito à vitória amanhã

Apesar da fase de Hamilton, alguma coisa me diz que Bottas vai vencer a corrida de amanhã. Se a prova for chata como prevê o líder do Mundial, o finlandês é o favorito pelo simples fato de largar na pole. Se conseguir sair bem, faz a Tamburello e a Villeneuve na frente. Só precisa se cuidar na freada da Tosa para não ser surpreendido. A partir daí terá Hamilton em seus calcanhares o tempo todo, é verdade, mas com alguma frieza é capaz de controlar o parceiro — que não vai forçar barra nenhuma nas primeiras voltas.

Mas é só palpite. Imola não é muito amigável com erros, está cheia de áreas de escape com brita que atraem intervenções do safety-car e para quem não consegue manter a concentração em nível máximo pode ser uma pista traiçoeira. Como são esses velhos circuitos, onde a verdadeira história da F-1 foi escrita.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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