VITÓRIA PARCIAL

V

RIO (certo alívio) – Há uma enorme insistência dos, hum…, “empreendedores” que querem fazer um autódromo em Deodoro em derrubar a Floresta do Camboatá. Nas últimas semanas, eles sofreram uma derrota com a apresentação do parecer desfavorável do INEA (Instituto Estadual do Meio-Ambiente), apontando diversos buracos e imperfeições — para não dizer irregularidades — no estudo de impacto ambiental encomendado pelo consórcio Rio Motorpark. O Ministério Público do Rio de Janeiro também já se manifestou contra o evidente crime ambiental que representaria derrubar uma floresta com mais de 200 mil árvores, solicitando que a CECA (Comissão Estadual de Controle Ambiental) indefira o pedido de licença para a construção do que quer que seja no local.

Há componentes políticos aí, no entanto, que não podem ser ignorados. O relatório do INEA sobre o estudo de impacto ambiental foi exemplar. Elaborado por técnicos comprometidos com suas funções, explicitou com dados e informações muito claras e baseadas na ciência as inconsistências do estudo. Mas em suas conclusões finais, não foi explícito ao recomendar, pura e simplesmente, que a licença não seja concedida. Segundo informações apuradas pelo Grande Prêmio, essa solicitação de indeferimento do pedido fazia parte do texto original, mas o trecho foi suprimido na versão final por pressões políticas de gente do governo fluminense que ocupa posições de comando no instituto.

Assim, caberia à CECA analisar o relatório e decidir pela negativa da licença. Só que a reunião do órgão, ontem, tinha cartas marcadas. Por 10 votos a 3, decidiu-se pelo reenvio do processo ao consórcio de, hum…, “empreendedores” para que sejam respondidos os pontos que o INEA apontou como irregulares e determinantes para que a licença não seja concedida. Os votos pelo indeferimento — que sepultaria de vez essa loucura — foram do Ministério Público, do CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura) e da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). São órgãos independentes e cientes do potencial de destruição que o, hum…, “empreendimento” apresenta. Os outros membros da comissão, escolhidos a dedo pelo governo do Estado sabe-se lá com qual preparo para analisar a questão, determinaram que novo estudo seja feito.

Assim, a vitória celebrada a partir do extenso relatório feito pelos técnicos do INEA acabou sendo apenas parcial, já que os, hum…, “empreendedores” vão insistir em liberar a área do Camboatá para suas estripulias imobiliárias. Como diz o André Buriti, que na época da demolição de Jacarepaguá se transformou no principal defensor do velho autódromo, o placar foi de 10 a 3 “pela procrastinação” do caso — aliás, recomendo firmemente a leitura de seu último artigo, neste link.

Vamos ver até onde essa gente esquisita vai insistir com o tema, ainda mais depois das pancadas que levou — como a perda dos direitos de TV da F-1, estranhamente “vendidos” pela Liberty ao consórcio, e a renovação do contrato da categoria com Interlagos por mais cinco anos. O mais importante, agora, é saber que a floresta, pelo menos por enquanto, está salva.

Sobre o Autor

Flavio Gomes

Flavio Gomes é jornalista, mas gosta mesmo é de dirigir (e pilotar) carros antigos.

26 Comentários

  • Eu acho que já tá bom, esse projeto é um absurdo, o atual estado de nossa economia não necessita disso, porque no final sempre vai sobrar para os cofres públicos mesmo que venham com esse papo furado de que a iniciativa privada vai bancar.
    O brasileiro não aprende? As despropositadas Olimpíadas e a Copa do Mundo não serviram de lição? Tudo isso é só motivo para a roubalheira, independente do governo, seja ele de esquerda ou de direita, basta!
    O Brasil precisa de trabalho e de geração de riqueza, não de eventos esportivos dispendiosos.

  • Ainda é possível reconstruir Autódromo de Jacarepaguá, espaço do parque olímpico da Barra da Tijuca está ocioso e micou
    Talvez o maior desafio seja a poluição sonora com a vizinhança, mas há tecnologias para resolver isso
    #voltaAutoJPA
    #OttoCycleMatters

    • Querem destruir a floresta para a criação de grandes “hum” empreendimentos, não automobilístico e sim imobiiário … Vão ganhar uma burra de dinheiro com as especulações imobiliárias seja da própria floresta quanto do entorno. Tudo custeado com verbas públicas !

  • Flavio, a bem da verdade as arvores correm risco e não por causa de um autodromo. O risco é apenas a ambição imobiliária sobre o terreno.

    Vai por mim, essa historinha do autódromo vai virar um super centro empresarial e residencial.

    Me faz lembrar aqui em São Bernardo no antigo “campo da Vilares” onde em uma noite foram cortados todos eucaliptos cinquentenários para que cinco prédios fossem construidos.

    E o pulha do Prefeito Marinho ainda teve a cara de pau de falar para nós do bairro que para cada eucalipto cinquentenario foram plantadas 20 arvores… o que não explicou até hoje foi o porque das arvores terem sido cortadas na madrugada.

    Dinheiro meu amigo… não tem cor de preferencia… não é verde,.. azul… e muito menos vermelho.

    Obs.: Acabara com os Eucaliptos, com o Campo de Futebol, com a Sede do Grupo de Escoteiros e com um pedaço da memoria de meus filhos… quantos sabados a tarde forama passados junto aqueles gigantes cinquentenários.

  • Meu Deus…as drogas que uso (lícitas e compradas em farmácia) devem estar afetando a mibha cabeça. Adiar uma decisão de se derrubar ou não uma floresta? Não há racismo no Brasil! É muito para um dia só!!!

    • Essa Floresta já era, o Autódromo serviu apenas como uma cortina de fumaça. Essas arvores não estarão de pé em menos de 2 anos. Isso já está sob a mira da especulação imobiliária. Acho que deve ter gente até bem chateada do alarido que foi feito em cima do Autódromo, era muito melhor terem ficado na “miúda” e feito o serviço sem muito “oba oba”.

      Corta tudo e depois fala que para cada arvore derrubada foram plantadas 20 arvores… segue o jogo…

      Obs.: Pergunta para o Marinho aqui em São Bernardo do Campo… ele fez isso a menos de 2km da Prefeitura, não foi na periferia da cidade.

  • Saudações Flavinho Gomes !

    Enquanto não chegar a eleição presidencial de 2022, vamos viver como se estivéssemos num carro de F1 sem cinto de segurança, fazendo a curva parabólica de Monza.

    Você que agora mora no Rio, já deve ter presenciado in loco, o que acontece nas lagoas de Jacarepaguá, nossa ciclovia, nossos parques olímpicos, nosso BRT, nossa Av. Brasil (trans olímpica) , o caos de uma cidade que já foi a capital do Brasil…

    Como narrava Osmar Santos, é “Tiro-lirolá, tiro-liroli, ” Pimba na Gorduchinha…

    abs

    • Na relatividade das eras, na sua (dele) Ele é o maior entre todos os maiores. Isso é fato, basta cruzar a fronteira com a Argentina para perceber que a cada ano que passo o Fangio guia cada vez melhor (isso era uma piadinha na Argentina a tempos atrás).

  • Não entendo a insistência de fazer autódromo na floresta do Camboatá se há espaço até maior cerca de 500 m à frente, no Gericinó, próximo do estande de tiro do Exército e da Transolímpica — via que poderia ser esticada até a Dutra, Via Light e Linha Vermelha para que os equipamentos das categorias internacionais não cruzem a cidade, deixando um pequeno legado no caótico trânsito do Rio.

Por Flavio Gomes

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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