Arquivosexta-feira, 4 de dezembro de 2020

N’OVAL (1)

N

RIO (epílogo) – O que aconteceu hoje no “oval” do Bahrein era tudo que Valtteri Bottas temia. Um moleque mal saído das fraldas sentou no carro do companheiro de equipe, o multicampeão Lewis Hamilton, afastado com Covid-19, e meteu tempo nele. Foi o mais rápido nos dois treinos livres para a penúltima etapa do Mundial. Para piorar, no segundo o finlandês ficou em 11º.

Isso é o que vai ficar para a História, com H maiúsculo. Na papeleta de tempos — que não é mais de papel, nem sei se vocês sabem do que estou falando — está lá, na primeira posição: George Russell, 54s713. De manhã, no primeiro treino livre, foi ainda mais rápido: 54s 546. Oficialmente, a volta mais rápida da F-1 em todos os tempos, num dia em que todos os pilotos andaram abaixo de um minuto pela primeira vez desde 1974. Naquele ano, em Dijon-Prenois, Niki Lauda, de Ferrari, completou uma volta em 58s79. Na F-1 atual, a volta mais curta até as de hoje, completadas no traçado externo de Sakhir, foi a de Bottas na Áustria neste ano: 1min02s939. O circuito escolhido para o GP de Sakhir (nome do deserto onde fica a pista) tem 3.543 m de extensão e a corrida será disputada em 87 voltas.

O que a História não destacará é que Bottas teve sua melhor volta no segundo treino livre anulada por ultrapassar os limites da pista, e ela foi registrada em 54s506. Russell foi o primeiro a não se animar muito com a P1 na folha de classificação, admitindo que Valtteri fora mais rápido e que ele ainda tem muito trabalhar a fazer na sua estreia pela Mercedes. Quanto ao primeiro treino livre, talvez a História, sempre cruel com os perdedores, não se preocupe muito em registrar também que Bottas passou forte numa zebra na curva 8, arrebentou o assoalho de seu carro e, como ele mesmo disse, o resto da sessão foi um “desperdício de tempo”.

De qualquer forma, como se vê abaixo, nosso querido Sapattos estava um pouco ansioso demais, hoje, cometendo alguns errinhos que na situação em que está, ameaçado por um fedelho sorridente e sem pressão nenhuma, é melhor evitar.

Seja como for, Russell mostrou que é rápido, e que pode muito bem lutar pela pole e ganhar a prova domingo com o carro do heptacampeão mundial. Não seria uma supresa gigantesca. Hamilton, registre-se, está de cama “e não se sente muito bem”, segundo a Mercedes. Nada garante ainda que poderá estar no cockpit preto no dia 13, para o encerramento da temporada em Abu Dhabi.

Se isso acontecer — Russell na pole e no degrau mais alto do pódio –, será um vexame para Bottas. Ficar atrás no primeiro dia de treinos ainda não é. Acontecem, alguns imprevistos. Devagar com o andor, antes de atirar Valtteri na vala dos rejeitados. Melhor esperar o sábado e o domingo para esculhambar o rapaz definitivamente, ou para eleger Russell à categoria de fenômenos imberbes.

Russell: primeiro dia com melhor tempo

Da mesma forma, que ninguém se precipite, por causa de dois treinos livres, e saia dizendo “tá vendo? É o carro!” para desmerecer o que Hamilton vem fazendo nos últimos anos. É óbvio que é o carro. Mas não só isso. É o carro, o piloto, o trabalho do piloto junto ao seu engenheiro, a leitura de corrida do piloto, sua capacidade de concentração, de improvisar, de largar bem, de ultrapassar… Por favor, evitem simplificar as coisas. O que menos precisamos nestes dias são conclusões burras e binárias sobre tudo. Russell é bom, o carro é espetacular, Hamilton é sensacional, Bottas não é uma besta, e não é um dia de treinos num circuito esquisito que mudará nenhuma dessas realidades.

Mas que para Jorginho o dia foi bom, foi…

Pietro: bom trabalho no primeiro dia de GP pela Haas

No mais, vimos a estreia de Pietro Fittipaldi fazendo o que dá para fazer com a Haas. Ficou em 18º, a 1s397 de Russell. Magnussen, seu companheiro, foi o 14º, 1s025 atrás do inglês da Mercedes. Absolutamente normal. “Foi fantástico. Fazia um ano que não guiava um F-1 e oito meses que não dirigia nada numa pista”, disse o brasileiro, neto de Emerson. A equipe me ajudou muito, fomos melhorando passo a passo, estou muito feliz.” É isso aí. Não cometeu erros, cumpriu o que lhe foi pedido, e assim se começa. O mesmo vale para Jack Aitken, que ficou em 19º. O último foi Leclerc, que teve um problema no semieixo e não fez tempo. Mas a Ferrari foi mal. Vettel terminou o dia apenas em 16º.

Como a pista é curtinha, entre o primeiro e o 13º a diferença foi de 0s820. A classificação amanhã será tumultuada, especialmente no Q1, com todos na pista, tráfego, vácuo, uma zona. Sei que tem muita gente torcendo para o Russell — é muito legal quando essas fábulas são escritas na F-1. Mas, sendo bem realista, o favorito à pole é Bottas. E à vitória, também. Melhor esperar até domingo à tarde para avaliar se o segundão de Hamilton foi um vexame, ou não.

SALVEM AS PERUAS

S

RIO (forninho) – Antes de falar do Russell, uma indicação. Este perfil no Instagram mostra peruas e mais peruas, e merece ser seguido. Agora, a que escolhi pra mostrar a vocês. É uma Vemaguet de cabo a rabo, e por isso mesmo, linda. O modelo é uma Mercedes-Benz 300C Touring. Segundo a legenda, foram 12.190 unidades vendidas entre 1951 e 1957.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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