OS CARROS

SÃO PAULO(e vamo que vamo) – Muito bem. Seis carros novos e não tão novos assim foram apresentados já para a temporada que começa dia 28 no Bahrein. Pela ordem, aí no alto, veem-se o McLaren MCL35M, o AlphaTauri AT02, o Alfa Romeo C41, o Red Bull RB16B e o Mercedes W12 E Performance. Este último acabou de sair do forno. Falaremos detidamente sobre cada um deles mais adiante.

Mas, antes, mostremos o sexto automóvel do lote, o Alpine A521, que também foi apresentado hoje. Ei-lo:

ALPINE A521

É uma das novidades de 2021. A Renault resolveu mudar de nome, adotando a marca esportiva que lhe pertence desde a década de 60. O tradicional amarelo da montadora foi substituído pelo azul dominante com detalhes em vermelho e branco. É um carro com a cara da França, uma Ligier dos novos tempos!

A Alpine foi ressuscitada pela Renault para vender superesportivos com o DNA das competições das quais sempre fez parte. A empresa foi criada em junho de 1955 por Jean Rédélé, filho de um concessionário da marca em Dieppe, na Normandia. Resumidamente, Rédélé começou a fazer uns carros de corrida que deram certo, a Renault gostou, foi lá e comprou a fábrica.

Vou ficar devendo o significado do 5 em A521, mas o A é bem óbvio (todos os carros feitos pela Alpine têm A e três números) e o 21, também — ano da graça, como se diz. Se alguém souber o que é o 5, explique.

Para além da mudança de nome e cor, o que mais interessa na Alpine em 2021 é a volta de Fernando Alonso, dois anos depois de largar a F-1 para correr do que colocassem à sua frente com quatro rodas. Ocon não me empolga muito. Lutar pelo terceiro lugar entre as equipes é a meta. Acho bem difícil. Mas quem sabe?

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Em anos anteriores, vocês lembram, era uma postagem para cada carro no dia do lançamento, as piadinhas de sempre com a otimização dos fluxos de ar etc. Nesta temporada, nestes tempos esquisitos, tudo tem mudado bastante. Inclusive este blog. São dias tão cinzentos, tristes, sombrios, que até a vontade de escrever se vai. Leitores aqui rareiam. Migrou todo mundo para as redes sociais. É lá que os combates são travados. Todo mundo xingando todo mundo. Eu, inclusive. Está chegando a hora de dar um tempo por aquelas bandas.

(Olha eu aqui fazendo terapia em público.)

Mas a ausência do blog tem outras razões, e os leitores mais assíduos merecem explicações. No fim do ano mudei mais uma vez de cidade, voltei do Rio para São Paulo, perdi o emprego, decidi largar o jornalismo — menos o blog! –, estou escrevendo um novo livro, reeditando outro… Enfim, o tempo é curto para tanta coisa, mas prometo que não vou abandonar ninguém aqui falando sozinho.

Aos outros carros, pois, em breves pílulas!

McLAREN MCL35M

Algo que notei quando a McLaren apresentou seu novo carro, e é o mais novo de todos, porque a equipe trocou de motor, foi a ausência do logotipo da Mercedes em sua carenagem. Juro que procurei e não achei. Na frente, atrás, dos lados. Será que deixei escapar?

A equipe laranja foi a que se viu obrigada às maiores modificações em seu carro, porque na F-1 trocar de motor não é só tirar um espetar outro. Todo o projeto tem de ser concebido para os sistemas que compõem a unidade de potência, como os motores elétricos, as baterias, os sistemas de refrigeração, a arquitetura do turbo etc.

Daniel Ricciardo e Land Norris serão os meninos responsáveis por tentar acabar com um jejum muito incômodo da McLaren: desde 2012 o time não vence uma corrida. Não é candidata natural a vitórias em 2021. Mas quando a gente lembra que até a Racing Point e AlphaTauri venceram GPs no ano passado, não custa nada sonhar com algo parecido.

Sobre o nome-código, a McLaren deixou de usar o prefixo MP4 da época de Ron Dennis e adotou MCL seguido do número do chassi. No caso do modelo deste ano, meteram um M de Mercedes, o que deu MCL35M. O carro do ano passado era MCL35 também, o que indica claramente, apesar das modificações necessárias para a adaptação de um motor diferente e com as novas regras aerodinâmicas vigentes, que o time considera esse uma evolução do modelo de 2020, e não um carro totalmente novo.

ALPHATAURI AT02

Abusando do azul escuro, quase preto (ano passado o tonto aqui achou que o carro era preto e branco), a filial da Red Bull mostrou semana passada seu AT02. Também é uma evolução do carro de 2020, mas a equipe optou por dar sequência à série inaugurada no ano passado com o AT01, primeiro carro do time sob novo nome — para quem não lembra, era Toro Rosso. Acho que não precisa explicar a sigla AT, né?

Sem grandes pretensões, apesar da vitória de Gasly em Monza no ano passado que poderia insinuar projetos mais ambiciosos, a AlphaTauri manteve o piloto francês e promoveu o estreante Yuki Tsunoda, de apenas 20 anos, que faz parte do pacote de fornecimento dos motores Honda. O japonês assume o lugar de Daniil Kvyat, que tende a desaparecer do noticiário.

Que não se ignore o rapaz, porém. Tsunoda é muito veloz e fez bom trabalho na F-2. Não chega à F-1 toa.

ALFA ROMEO C41

A apresentação do novo carro da Alfa Romeo aconteceu em Varsóvia, na Polônia. Boa parte da grana que vem sustentando o time tem origem nos cofres da Orlen, petrolífera polonesa que patrocina Robert Kubica — terceiro piloto da equipe.

É uma situação inusitada. O piloto pagante da Alfa Romeo é seu reserva, não um titular. Por motivos bem conhecidos: Kubica não tem mais condições físicas de correr um campeonato inteiro. Só o fato de dirigir, ainda, já é uma façanha. Mas como tem o patrocínio vindo de seu país, e é um patrocínio gordo, participa de testes e alguns treinos durante a temporada. E ajuda, porque é experiente e inteligente.

A Alfa Romeo fez um péssimo campeonato no ano passado e qualquer coisa que conseguir nesta temporada além de um nada absoluto já será lucro. Raikkonen, veteraníssimo, não faz besteiras e se tiver um carro decente na mão é capaz de alguns pontinhos. Giovinazzi tem altos em baixos e, sendo bem franco, ainda não justificou sua presença na categoria. A tendência é continuar andando lá atrás, a não se que algum milagre ocorra.

O C41 do nome segue a linhagem inaugurada pela Sauber, da qual a Alfa Romeo é sucessora. Peter Sauber dava nome a seus carros usando a letra inicial do nome de sua mulher, Christine. Coisa fofa.

RED BULL RB16B

A Red Bull, como a McLaren, optou pelo mesmo nome do modelo do ano passado e acrescentou uma letrinha para indicar que as pequenas mudanças feitas no carro o distinguem da versão anterior. Assim seu modelo para 2021 é o RB16B.

A gente conhece Adrian Newey e ninguém deve se iludir achando que essa bagaça aí em cima é a mesma coisa de 2020. Mesma coisa, como dizia um amigo meu, é sovaco e axila. Por baixo dessa carenagem aí há segredos, certamente. E como as alterações no regulamento contemplam principalmente detalhes de aerodinâmica, ninguém melhor que Newey para encontrar soluções.

Da pintura sumiu a marca Aston Martin, que vinha patrocinando a Red Bull havia algum tempo, e a Honda ganhou mais espaço no layout dos carros de Max Verstappen e Sergio Pérez — embora sua saída da F-1 já esteja confirmada para o fim do ano.

Mas acho que a maior novidade do time para esta temporada é mesmo a chegada do piloto mexicano que estava na Racing Point. Pela primeira vez em muito tempo a equipe não usa ninguém formado em suas categorias de base, e vai atrás de um veterano dos mais eficientes para somar mais pontos e, quem sabe, empurrar Verstappen ainda mais para a frente.

Acho que é a melhor dupla do campeonato. Se a gente fosse atribuir notas individuais a cada piloto, somasse as duas dentro duma equipe e tirasse a média, na minha conta Max e Checo teriam a mais alta. Estou curiosíssimo para ver o que vai acontecer com esses dois neste ano.

W12 E PERFORMANCE

Ainda preto, mas com um ligeiro degradê clareando para prata na traseira, onde não se veem mais as estrelas de três pontas, mas sim o logo da AMG, a subsidiária de alta performance da Mercedes. Além do vermelho da Ineos, gigante petroquímica britânica que passou a deter um terço das ações da equipe de F-1 — Toto Wolff possui outro terço e a Daimler completa o trio de acionistas do time em partes iguais. É assim o bichão a ser batido em 2021. Será conhecido como W12, embora o nome completo seja mais comprido: Mercedes-AMG F1 W12 E Performance.

O código W que a Mercedes usa desde sempre é a inicial da palavra alemã Wagen, que quer dizer “carro”. Este é o 12º chassi produzido pela equipe desde sua volta à F-1 como time de fábrica, em 2010.

Será o campeão? Sim. Por quê? Porque continua com Hamilton, que renovou por mais um ano (já falaremos disso), e porque o regulamento mudou pouco (e agora é hora de falar disso).

Foram apenas 12 semanas entre o fim do Mundial de 2020 e a apresentação do novo Mercedes, hoje em Brackley, na Inglaterra — numa ala nova da fábrica. São sete títulos seguidos de pilotos e mais sete de construtores para defender.

O regulamento de 2021, para conter custos, exigiu pequenas mudanças nos carros e estipulou um sistema de “tokens” que podem ser usados para o desenvolvimento de algumas áreas, sob controle da FIA. A ideia inicial foi tirar um pouco da velocidade mexendo apenas na aerodinâmica. Foram quatro alterações básicas:

  • Redução das dimensões da parte final do assoalho, com um corte triangular junto às rodas traseiras.
  • Diminuição dos apêndices dos dutos de freio traseiros.
  • Mudança na altura de elementos internos do difusor traseiro.
  • Eliminação de fendas no assoalho em torno dos “bargeboards”, apêndices aerodinâmicos dispostos nas laterais dos carros.

Como as mudanças foram só na aerodinâmica, boa parte do W12 foi herdada do W11. O regulamento “congelou” o desenvolvimento dos carros dando a cada equipe a possibilidade de mexer em alguma coisa com os tais “tokens” — que para que vocês entendam, são como… ESTALECAS!

(Sim, é o fim da minha carreira comparar “tokens” de F-1 com a moeda do Big Brother. Assumo.)

Cada equipe gasta seus “tokens” como quiser, já que há uma lista de peças que podem ser, digamos, “compradas” com esses valores fictícios. Há algumas partes que são “token-free”, ou seja, pode trocar sem gastar… ESTALECAS! A lista franqueada inclui motor (se não fosse isso a McLaren, por exemplo, perderia todos seus “tokens” na troca dos Renault pelo Mercedes), sistemas de refrigeração, suspensão e, claro, todas as superfícies aerodinâmicas — já que o regulamento obriga a isso.

Outra alteração nas regras que não será visível para ninguém é uma espécie de lastro técnico, que permitirá às equipes que ficaram no fundo da tabela o uso de mais horas de trabalho em túneis de vento ou em testes de CFD (Computacional Fluid Dynamics), estudos aerodinâmicos usando modelos computacionais. A Mercedes, campeã, terá 22% menos acesso a esse tipo de trabalho do que a Williams, última colocada em 2020. Horas de testes de motor em dinamômetros também foram limitadas pela FIA.

Há mudanças de pneus, também. A Pirelli entregará neste ano compostos mais duráveis, testados no ano passado em Portugal, Bahrein e Abu Dhabi. Não dá para dizer muita coisa ainda sobre eles, exceto que são mais lentos e consistentes. Por isso os três dias de pré-temporada em Sakhir serão tão importantes neste ano.

As maiores alterações de regulamento estão previstas para 2022, plano que deveria ter sido colocado em prática agora, mas acabou adiado pela pandemia. Elas serão basicamente aerodinâmicas, também, mas bem mais radicais — os chassis serão bem diferentes e não vai dar para aproveitar nada dos carros deste ano. Combustíveis também serão alterados, com o uso do tipo E10, com 10% de etanol. Isso mexe nos processos de combustão interna, dando muito trabalho para a turma dos motores.

O teto de gastos determinado pela Liberty e pela FIA passa a valer nesta temporada. Cada equipe pode torrar apenas US$ 145 milhões, e digo “apenas” porque no passado isso aí era orçamento de Minardi. Salários de pilotos e de algumas figuras chave das equipes não entram nessa conta.

Não sei exatamente como as autoridades esportivas pretendem fiscalizar isso, e aposto com qualquer um que vai ter gente gastando mais. O controle é praticamente impossível, considerando a quantidade de elementos que compõem o custo global de uma operação como a de uma equipe de F-1. Enfim, duvido que a Mercedes gaste o mesmo que a Haas. Ou que a Ferrari economize no cafezinho no paddock para mostrar sua austeridade ao mundo.

Na Mercedes, o engajamento e a militância de Hamilton começam a dar frutos concretos com a criação de uma fundação focada em diversidade, e o programa Accelerate 25 já está em marcha e pretende, nos próximos cinco anos, incluir entre os novos funcionários da equipe 25% de pessoal vindo dos que estão sendo chamados de grupos sub-representados na categoria — minorias raciais, de orientação sexual, refugiados, mulheres, portadores de necessidades especiais etc.

Hamilton e Bottas vão para sua quinta temporada seguida juntos. A manutenção dos dois denota uma certa estabilidade. O curioso é que ambos tiveram seus contratos renovados por apenas um ano. Ao final de 2021, estarão desempregados, em tese.

A Mercedes caiu do céu para o finlandês, que é um bom piloto mas está longe da genialidade do companheiro de equipe. Nesse sentido, Valtteri pode ser considerado um rapaz de sorte. Quando Rosberg parou, ao final de 2016, qualquer um poderia ter sido escolhido pelo time e a vaga acabou pousando no seu colo. Por outro lado, o massacre de que costuma ser vítima na comparação com Lewis faz do moço um infeliz em potencial.

Como é finlandês, Bottas não revela com muita facilidade se se sente bafejado pela fortuna ou amaldiçoado pelo destino. Enquanto isso, Hamilton segue vencendo sem ser incomodado. Acho que é o que continuará acontecendo neste ano.

Faltam Aston Martin, Haas, Williams e Ferrari, na lista de apresentações dos carros de 2021. Aguardamos por aqui.

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