ALFA-BOTTAS

O anúncio: nada de bombástico

SÃO PAULO(que seja feliz) – O Bottas é um bom companheiro, ninguém pode negar. Tanto que mereceu de Lewis Hamilton, hoje, palavras supercarinhosas via redes sociais, às quais respondeu com a conhecida objetividade dos mais tagarelas finlandeses: “Thank you Lewis”, sem perder tempo com vírgula, ponto de exclamação ou outra bobagem qualquer.

Foi pela manhã que as partes envolvidas divulgaram o anúncio oficial de sua saída da Mercedes, para correr na Alfa Romeo no ano que vem e por mais alguns — o contrato contempla mais de uma temporada, embora ninguém tenha revelado quantas. Era esperado. Hamilton até tentou segurar o parceiro, fez campanha para ele, mas o talento represado de George Russell, em quem a Mercedes aposta para o futuro de longo prazo, não podia mais ser contido. Já são três anos amassando barro na Williams. Como pedir para o menino esperar mais um pouco?

Mensagem de Hamilton: “Thank you”

Lewis disse que nunca teve um companheiro tão bom na vida, atribuiu a ele muitos méritos pelas conquistas dos últimos cinco anos (Bottas chegou ao time em 2017), falou que vai sentir muito sua falta e arrematou: “Você é maior do que imagina, e sei que há um futuro brilhante à sua frente”.

É compreensível o apreço que Hamilton tem por Valtteri. Ele chegou depois de uma temporada psicologicamente estafante, em que disputou — e perdeu — o título para Nico Rosberg, um ex-amiguinho dos tempos de kart. Viraram inimigos. Essas coisas acabam com a gente. Bottas nunca incomodou o inglês e esteve disponível sempre que foi chamado a ajudar. É um cara de paz. Bom piloto, confiável, embora careça do brilho que forja os campeões. Depois da guerra de 2016, ao seu lado, Lewis viveu tempos de paz. E passou a ganhar tudo. Ficou claro que ele precisa de um ambiente tranquilo para render o que pode. E se você tem um piloto como Hamilton e ele te pede paz, o melhor que você tem a fazer é entregar-lhe paz.

Algo que talvez Lewis não tenha com Russell a partir de 2022, mas é melhor esperar um pouco antes de fazer previsões apocalípticas. Tenho a impressão de que Toto Wolff deve ter conversado longamente com o menino para dizer a ele exatamente como se comportar enquanto Hamilton estiver na ativa. Resumidamente: não encha o saco do cara, aproveite o tempo para aprender e quando for lhe pedir alguma coisa diga sempre “por favor”; use as camisetas que ele recomendar e elogie suas roupas; e jamais fale bem de alguma churrascaria na frente dele.

Bottas estreou na F-1 em 2013 pela Williams, depois de se destacar nas categorias menores em vários momentos. O principal título foi da GP3 em 2011, quando trabalhou com Frédéric Vasseur — atual CEO da Alfa Romeo que o contratou. Em 2014 fez um belo campeonato e terminou o ano em quarto lugar. Foi quinto na temporada seguinte e oitavo em 2016. Quando Rosberg anunciou a aposentadoria de supetão, poucos dias depois de ser ganhar o Mundial, a Mercedes não contava com nenhum jovem pronto para seu lugar — a escolinha de formação tinha Ocon e Wehrlein como nomes mais proeminentes; Russell seria adotado em 2017. A escalar um moleque inexperiente e cheio de vontade, que com carros vencedores nas mãos podem se transformar em bombas-relógio, o time preferiu buscar alguém que não causaria problemas e traria na bagagem um histórico de regularidade e eficiência. Bottas foi uma escolha lógica. Os alemães são muito lógicos.

Cinco anos de Mercedes: bons momentos na casa

Valtteri tem 169 GPs nas costas, 77 deles pela Williams, 92 na Mercedes. Desde 2014, só guia carros com os motores alemães (em 2013, a Williams usava Renault). Ganhou nove corridas, fez 17 poles e subiu ao pódio 63 vezes (54 com a Mercedes), o que faz dele o nono piloto com mais troféus na história. Quando assumiu o segundo carro do time prateado — que agora pinta seus carros de preto –, foi terceiro colocado no ano de estreia, quinto em 2018 e vice-campeão nas últimas duas temporadas. No atual campeonato, ocupa a terceira colocação.

No período em que dividiu o teto com Bottas, Hamilton venceu 46 GPs — cinco vezes mais que o parceiro. Olhando assim, pode parecer que o cara é um desastre. Não é verdade. Ter um piloto como Lewis como companheiro é difícil. Batê-lo, quase impossível. Pode custar sua carreira e sua saúde mental — Rosberg sempre fala disso. Valtteri nunca teve esse perfil. Digamos que nestes cinco anos ele foi bom o bastante. Fez aquilo que a Mercedes precisava. Ninguém nunca pediu muito mais a ele. Nem ele disse que poderia entregar mais do que entregou.

Na Alfa Romeo, a tendência de Bottas é de se tornar alguém ainda mais discreto. Se mesmo na Mercedes nunca esteve sob os holofotes, tendo ocupado por meia década uma posição clara de coadjuvante, não será numa equipe pequena que conseguirá brilhar intensamente. Mas pode ser que se divirta por alguns anos, e pode ser que o regulamento do ano que vem vire a F-1 de cabeça para baixo, e pode ser que aconteça algo extraordinário e ele suba ao pódio ou ganhe uma corrida como fizeram Gasly, Pérez e Ocon nos últimos anos. Pode ser tudo.

Importante é que ele se sinta bem no novo endereço. Acabou o ciclo na Mercedes? OK, vamos para o próximo. Com um sorriso no rosto.

Bottas, um bom companheiro: que seja feliz

Comentários

  • Bottas conseguiu 9 pódios com a Williams.
    Bateu Massa por 3 anos seguidos.
    Antes de ser contratado pela Mercedes foi especulado pela Ferrari. OBS: As duas maiores da época.
    Ótimo em voltas lançadas a ponto de bater mais de 30 vezes o recordista de poles da F1.
    Bottas tem 9 vitórias, 17 poles, 17 voltas rápidas e 63 pódios.
    Os números de Bottas são maiores do que muitos campeões do mundo.
    Mas tem a imprensa torcedora, louca pra diminuir os feitos do finlandês e essa incompetente imprensa tem uma arma poderosa, os imbecis inúteis atrás de um teclado.
    Bottas seria campeão do mundo se não tivesse como adversário o melhor piloto de todos os tempos. Um grande azar que Barrichello teve, que Berger teve, que Moss teve.
    Todo mundo na vida tem que dar uma passo atrás para progredir dois mais à frente. Foi o que ele fez, vai sair da sombra de Hamilton e capitanear uma equipe pequena. Em 2022 mudanças no regulamento e um carro totalmente novo podem embaralhar as cartas.
    A história de Bottas na F1 ainda está longe de acabar. Desejo toda a sorte e sucesso para o Vartão nessa nova passagem.

  • Valtteri Bottas quando começou na Williams era uma verdadeira promessa em ser Campeão ganhando todos os seus parceiros dentro da Williams, inclusive o veterano Massa de três a zero, foi para Mercedes no lugar do Campeão Rosberg em 2017, mas ficou dominado por Hamilton chegando ao desgaste que vemos hoje, situação igual a do Massa na Ferrari que a partir de 2011 já mostrava desgaste por ser freguês do Alonso.
    Agora volta a pilotar um carro nanico na Alfa Romeo (a Williams em 2013 era um carro nanico no ano de sua estreia) esperando o milagre de ser promovido em um carro superior, ou então deixa a F-1 por não ter mais chance de pilotar um carro competitivo, essas são as possibilidades do Bottas agora nessa categoria.

  • O Bottas é bastante rápido em classificação, já em corrida não é tanto. Por isso muito difícil ele bater pilotos do calibre de um Hamilton ou Max. mas é tranquilo dizer que ele é melhor que muitos do grid, isso vai ficar bem claro em relação ao companheiro de equipe na Alfa.

  • Excelente texto sobre o coadjuvante finlandês. Bottas escolheu a posição de fazer o dele e não incomodar na maioria das vezes.
    Mas de qualquer forma se esperava mais, jogar uma pimenta no campeonato, o que não aconteceu com ele. Pelo visto a Finlândia vai demorar para conquistar um novo título, o que acho uma pena. Aliás por que Kimi estava jantando com o Ceo da Williams? Estaria tentando convence-lo a ficar na F1 na Williams?
    Não se preocupe Flavio, não está escrevendo apenas para você…
    Abraço

  • Bottas volta para o lugar de onde nunca deveria ter saído, o fundo do grid.
    Se conquistou algo nesses anos todos, foi por mérito exclusivo do equipamento.
    Vai passar mais uns 2 anos lá na rabeira e depois, ouvindo o conselho do Raul Gil, pegar o seu banquinho e sair de fininho.
    Sem deixar saudades, que fique bem claro.

  • Prezado F&G : A troca das cadeiras não param, sabemos que duas equipes não ficam com o mesmo piloto por mais de duas temporadas é são elas a Ferrari e Red Bull, sabemos também que o japinha da Alpha Taurus vai rodar . Valteri Bottas, vai para Alfa-Romeu, mais o Piloto Antonio G. está com um excelente padrão de pilotagem e pode ainda 2021 surpreender .O estreante de ouro ” MSC “, pela equipe Hass já não toma café com seu colega Marzepin , iso é bom para o garoto prodígio formar a casca mais sedo e apresentar a devida evolução por mais dois anos , quando então vai abrir a janela de vaga em quatro equipes grandes . Nesse espaço de tempo veremos boas disputas, entre os novatos Norris, Russell e Charles quem será o verdadeiro destaque para competir com o Piloto Max.

  • Estranho Bottas não ficar na Williams. A equipe não quis ou tem dedo do Wolf pra se livrar do rapaz ? Já que o defendeu dizendo que merecia a renovação, por que não o manter em carro com motor Mercedes ? Já Russell na Mercedes, espero muito ver ele mostrar do que é capaz, pode dar trabalho pro Lewis, e de quebra, pro Max e Red Bull.
    Tá vindo uma geração fantástica aí: Russell, Norris, Max. Se a F1 não fizer besteiras, vamos ainda nos divertir muito vendo essa garotada.

  • Bottas finaliza assim uma jornada bem conhecida na F1: Bons pilotos ofuscados por campeões. Berger, Barrichello, Couthard, Webber e Massa sabem bem disso… Leclerc já deu sinais de que não é desses, resta saber qual será o papel do Russel.

  • bottas é um bom piloto (muito bom, eu diria) e cumpriu exemplarmente o papel de escudeiro do hamilton. sem os pontos, pódios e vitórias dele, não haveria títulos de construtores. diria que falta a ele não apenas o brilho que só os extra-classe têm, mas um certo tesão. enfim, mais rico e experiente, vai ter a chance de desenvolver a carroça da velha sauber. que seja feliz!

    quanto ao russell, flavio, eu também acho que as conversas dele com o chefão wolff foram nesse sentido de “meu filho, não desafie o homem, aprenda com ele, o futuro é seu”, mas tenho pra mim que ele vai rapidinho pra briga, tipo leclerc na ferrari. depois de três anos roendo osso na williams, ele vai querer desfrutar do filé na mercedes.

  • Que o sr Sapattos seja feliz.
    Claro que Hamilton vai sentir falta. O cara não incomoda ninguém. Mas é a vida.
    Que venha logo 2022. Quero ver o bom mocismo do Hamilton com um companheiro que tende a ser osso duro de roer. Principalmente se o garoto superá-lo.
    Que venha Russell.

  • Tenho a impressão, gostaria de estar errado, que o inferno astral do Hamilton está entrando em ebulição. Depois do susto passageiro com o Rosberg e a provável derrota para Verstappen nesta temporada, Russel nunca demonstrou nenhum dom para ser segundo piloto. Muito pelo contrário.