VÃO SE CATAR (6)

Hamilton leva mais uma: oito pontos atrás de Verstappen

ITACARÉ (já volto) – “Acordaram o leão sábado passado em São Paulo.” A sentença foi proferida por Toto Wolff depois da vitória de Lewis Hamilton hoje no Catar. A frase que usamos em português é mais expressiva: cutucaram a onça com vara curta. A cutucada foi a perda da pole na corrida Sprint de Interlagos, jogando-o para o último lugar do grid. O que aconteceu depois todo mundo lembra, faz só uma semana: chegou em quinto na minicorrida, largou em décimo e venceu o GP no Brasil.

Lewis chegou a São Paulo 21 pontos atrás de Verstappen no campeonato. Depois de duas vitórias seguidas, a diferença caiu para oito. Max terminou a prova de Losail em segundo novamente e fez a melhor volta, levando um ponto extra valiosíssimo a essa altura do campeonato. Repetiu o discurso de “redução de danos”. A vitória de Hamilton foi muito tranquila e a Red Bull entendeu que não tinha como fazer nada muito diferente hoje. Os GPs da Arábia Saudita, daqui a duas semanas na nova pista de Jeddah, e de Abu Dhabi, um domingo depois, vão decidir uma das temporadas mais disputadas de todos os tempos.

Alonso no pódio depois de sete anos: o nome da corrida

A prova de Losail nem foi grande coisa. Mas teve um belo momento no final, a volta de Fernando Alonso ao pódio depois de sete anos, com a Alpine. Valeu o ingresso por isso. Quanto aos dois protagonistas do campeonato, bem… Seguem firmes, exibindo talento e segurança. O momento é de Lewis. Mas Max lidera. Prognósticos nesta altura são simplesmente impossíveis.

O pré-corrida no Catar foi tenso. Menos de duas horas antes da largada foram anunciadas punições a Verstappen – cinco posições no grid por desrespeitar bandeiras amarelas duplas – e Bottas – três, porque não viu uma amarela simples. Sainz, também investigado ontem, foi inocentado porque provou que tirou o pé do acelerador quando Gasly furou o pneu no final do Q3, o incidente que provocou as bandeiras amarelas nos últimos instantes da classificação.

Horner xingando muito pela imprensa: teve de se desculpar

Teve reclamação, claro. “Ridículo”, disse Helmut Marko. “Eu sabia desde ontem à noite que iria acontecer. Ninguém da FIA dá presente para a gente”, resmungou o piloto holandês. Christian Horner, o chefe, soltou os cães e falou que os comissários estão “cagando o campeonato”. Foi chamado à torre depois da corrida e teve de pedir desculpas públicas por ofender a entidade, seus funcionários e voluntários.

Até a montagem do grid foi confusa. Primeiro, colocaram Bottas em quinto e Sainz em sexto. Mecânicos da Ferrari e da Mercedes tentaram ocupar o território quando os carros começaram a se encaminhar para a pista. Depois foi confirmada a posição do espanhol na frente do finlandês. Max caiu de segundo para sétimo. Na primeira fila, Gasly ganhou um lugar ao lado de Hamilton. O francês estava com pneus macios e em sua melhor posição de largada na F-1. Atrás deles, também com pneus macios, Alonso – seu melhor grid desde o Brasil/2013, também terceiro com a Ferrari.

Hamilton largou muito bem e sustentou a ponta, enquanto Alonso e Gasly se engalfinhavam pelo segundo lugar nos primeiros metros da corrida. Fernandinho conseguiu passar o menino alphatáurico. Verstappen, por sua vez, deu um salto importantíssimo de sétimo para quarto – chegou a emparelhar com Alonso, mas tomou um chega-pra-lá. Já Bottas… Caiu de sexto para 11º, um desastre.

Na volta 3 Max começou a avisar a Red Bull de que precisaria de ajuda, pedindo para que Gasly saísse da frente – afinal, a AlphaTauri é filial do time das latinhas energéticas. Pierre saiu, e o holandês partiu para o ataque a Alonso. Max não perdeu tempo e passou o espanhol da Alpine na abertura da quinta volta, assumindo o segundo lugar. Pronto, as coisas estavam em ordem de novo. Como acontecera com Hamilton no Brasil, Verstappen, apesar da punição, se colocou rapidamente na corrida em condições de pensar numa vitória. A diferença entre os dois: 3s9.

Losail não é uma pista muito boa para ultrapassagens, como todo mundo percebeu nas primeiras voltas dos treinos de sexta. Assim, o piloto da Red Bull precisaria ter alguma paciência para chegar no inglês, ou se aproximar o suficiente para buscar o famosíssimo “undercut” – manobra conhecida no passado como “passar no box”. Sabendo disso, Hamilton acelerava. Na volta 8, tinha 4s7 de vantagem sobre o rubro-taurino. O ritmo dos dois destoava do resto, como tem sido neste Mundial. Alonso, em terceiro, estava mais de 17s atrás.

Max em segundo: desistiu da luta no meio da corrida

Os segundões Pérez e Bottas, enquanto isso, se divertiam no meio do pelotão passando quem aparecesse pela frente, principalmente o mexicano. Valtteri, é bom que se diga, só acordou quando Toto Wolff entrou no rádio e pediu para que ele fizesse alguma coisa de útil.

Na frente, Hamilton colocava um tijolinho por volta no cronômetro. Meio segundo aqui, meio segundo ali, e na volta 12 já tinha 6s de diferença. Quem perdeu o viço foi Gasly, ultrapassado por Norris e Pérez, caindo para sexto. Seus pneus macios já abriam o bico e na volta 14 ele foi para os boxes.

Sendo justo com Pérez, péssimo ontem na classificação, já na 17ª volta ele estava em quarto, recuperando-se muito bem e entrando na briga pelo pódio. Bottas vinha um pouco atrás, em sexto. Lewis abria 9s sobre Verstappen e a ameaça de “undercut” ia se esvaindo. Max parou na volta 17. Colocou pneus duros e voltou ainda em segundo, à frente de Alonso. Hamilton desapareceu na noite do deserto, 34s à frente. Mas a Mercedes não quis saber de conversa. Chamou Lewis na volta seguinte e também colocou pneus duros. “Paramos cedo”, falou o heptacampeão pelo rádio. “We can’t give soup to bad luck”, respondeu o engenheiro em áudio que não foi ao ar, mas recebi no meu grupo de WhatsApp.

Lewis tranquilo na frente: “Precisávamos dos pontos”

A diferença entre Hamilton e Verstappen depois das paradas se estabilizou na casa dos 8s, mais do que suficiente para o britânico administrar a prova. Alonso, que se mantinha em terceiro, parou na 24ª volta. Teria de lutar com Pérez e Bottas pelo pódio, com estratégias diferentes e carros mais rápidos. Seria difícil para o veterano da Alpine, mas ele nunca desistiu de sonhar com um trofeuzinho, já que os rivais fariam duas paradas e ele, uma.

Na metade da corrida, lá pela 29ª volta, Verstappen, com incrível serenidade, avisou pelo rádio que não tinha como operar nenhum milagre, que iria chegar em segundo mesmo e ainda brincou, mandando um “boa noite” a todos como se estivesse desligando o equipamento, sem muito assunto para conversar.

Na volta 34, alarme na Mercedes. Bottas, em segundo, avisa que um pneu furou – o dianteiro esquerdo. Se ele parasse no meio da pista, poderia causar um safety-car, o que estragaria a corrida de Hamilton. Mas ele se arrastou do jeito que deu e conseguiu entrar nos boxes. Trocou bico, pneus, água do radiador, filtro do ar-condicionado e fluido de freio. Voltou lá atrás e saiu da disputa por qualquer coisa.

Restava saber o que fariam Hamilton e Verstappen em relação aos pneus. Lewis só iria para os boxes se Max fizesse isso antes. Pérez estava em terceiro, quase um minuto atrás. Alonso, Norris, Ocon, Stroll, Sainz, Leclerc e Vettel ocupavam as dez primeiras posições.

Pérez, de 11º no grid para quarto no final: boa recuperação

O heptacampeão tinha tudo sob absoluto controle. Na volta 42, Verstappen parou pela segunda vez e colocou pneus médios. Pouco antes, reclamara de vibrações no carro. Lewis falou a mesma coisa. Pérez veio logo depois e também fez sua segunda troca, caindo para sétimo. A Mercedes, obviamente, chamou Hamilton em seguida e ele colocou pneus médios, da mesma forma. Alonso retomou o terceiro lugar e implorou pelo rádio: “Digam a Esteban para se defender como um leão!”. Leitura de corrida perfeita. Ele sabia que Pérez viria babando e teria de passar seu companheiro de equipe, que estava em quinto.

Hamilton voltou à pista depois de seu segundo pit stop novamente com uma folga superior a 8s para Verstappen. Sossego total. O mexicano seguia passando todo mundo. Na volta 47, deixou Stroll para trás e partiu para cima de Ocon. O francês não rugiu muito alto. Checo passou, Esteban tentou dar o troco, mas ficou nisso. A diferença de Pérez, quinto, para Alonso, terceiro, era de 15s. Entre os dois estava Norris, da McLaren. Lando, coitado, parou na volta 50 com um pneu furado e caiu para décimo, no momento em que a Mercedes chamou Bottas para o box para abandonar. Seu carro estava danificado por conta do furo no pneu algumas voltas antes.

Alonso se segura em terceiro: resultado brilhante

A briga pelo terceiro lugar passou a ser a única atração da prova, com Alonso 12s à frente de Pérez a cinco voltas do final. O pódio do asturiano virou realidade. Mas com uma preocupação: dois pneus furaram nos carros da Williams, e isso poderia acontecer com qualquer um que estivesse com a borracha um pouco mais desgastada. ”Vamos conseguir ou não?”, perguntou Alonso. “Acho que sim, apenas evite as zebras com o esquerdo dianteiro”, pediu a Alpine ao bicampeão mundial. Fernando não subia ao pódio desde o segundo lugar na Hungria em 2014, pela Ferrari.

Na penúltima volta um safety-car virtual foi acionado para tirar o carro de Latifi de uma zona perigosa e Verstappen foi para os boxes para colocar pneus macios e garantir o ponto extra da melhor volta, que já era dele. Desnecessário. Lewis apenas levou o carro até a quadriculada e venceu pela sétima vez no ano, 102ª na carreira. Verstappen, Alonso, Pérez, Ocon, Stroll, Sainz, Leclerc, Norris e Vettel fecharam a zona de pontos.

“Vamos continuar acelerando, a gente pode conseguir”, disse o inglês pelo rádio assim que recebeu a bandeirada. “Olé, olé!”, vibrou Alonso, o nome da corrida.

O pódio em Losail: campeonato aberto

Como de hábito, Lewis agradeceu à torcida e à equipe. “Foi uma corrida sem muita emoção, mas é espetacular chegar a este momento do campeonato e vencer duas seguidas. Estou me sentindo muito bem, feliz com o carro, fisicamente mais preparado do que nunca. Que venham as próximas!” Max procurou minimizar a derrota. “Não foi tão ruim. Larguei muito bem e cheguei muito rápido à segunda colocação. Vai ser difícil até o final, mas vamos seguir em frente. Me sinto bem, vai ser uma batalha dura até o fim.”

O mais feliz de todos era, sem dúvida, Alonso. “Sete anos… Mas finalmente conseguimos. Cheguei a pensar que nunca mais subiria ao pódio na carreira. Checo estava chegando, Esteban fez uma boa corrida, estamos de parabéns. Nós planejamos uma parada desde o começo, mas não sabíamos como seria a degradação dos pneus. Deu tudo certo e nós merecemos isso. Estou muito feliz.” Com o voto de 28% dos amigos internautas, o espanhol foi eleito o Piloto do Dia. Ou da noite, para ser mais preciso.

No Mundial de Construtores, a Mercedes tem apenas cinco pontos de vantagem sobre a Red Bull: 546,5 x 541,5. O terceiro lugar para a Ferrari está praticamente garantido, com a queda de rendimento da McLaren. A luta pelo quinto lugar também parece definida, com a Alpine abrindo 25 pontos sobre a AlphaTauri, que decepcionou e saiu zerada do Catar. A Aston Martin, com Stroll em sexto e Vettel em décimo, acabou sendo o destaque entre as médias.

Classificação da prova: destaque também para Stroll em sexto

“Não temos muito tempo para comemorar”, falou Hamilton. “Semana que vem me junto à equipe de novo e amanhã já estarei treinando. A gente precisava muito destes pontos. Tirar a diferença nessas duas corridas foi fantástico, foram dois finais de semana incríveis, mas eles ainda estão na frente e são muito rápidos.”

Hamilton se tornou o primeiro piloto na história da F-1 a ganhar corridas em 30 circuitos diferentes. Como disse o chefe Wolff, cutucaram a onça. Mas do outro lado tem um touro que já mostrou que sabe ser bravo quando precisa. Às 19h apareçam lá no meu canal no YouTube. Teremos muito para conversar sobre o GP do Catar e esta temporada encantada de 2021.

Comentários

  • No final da corrida em Interlagos, um atônito – com o resultado e com o fato de ter errado a cortada na volta 48, acho – Verstappen disse que ele e Red Bull “ainda” tinham a liderança. Pois então, o jogo virou e não dá pra prever nada, mas que o inglês parece ter entrado em modo sobre humano, parece. Também discordo do Reginaldo Leme dizendo que esse é o melhor campeonato do século, entre 2005 e 2008, o mundial foi tão disputado quanto e os carros eram infinitamente melhores.

    De resto, é se deliciar com o desespero dos infantilizados fãs do holandês.

  • Mercedes jogou fora o ponto da volta rápida. Explico: no primeiro pit do Max, LH virava volta mais rápida em cima de volta mais rápida. Deveriam ter esperado umas 2 ou 3 voltas pra ver o novo desempenho do rival e, a partir daí, considerar a parada imediatamente ou postergar mais um pouco (provavelmente esta segunda opção se mostraria viável, pois Max voltou com pneus novos mas da gama dura, mais lentos). Como a diferença antes do pit era grande, valia o risco. A se confirmar, LH entraria 7 ou 8 voltas depois, ficando com pneus ainda em melhor estado no segundo stint. Após a segunda parada de Max, LH poderia acrescer essas 7 ou 8 voltas e colocar macios no último stint, garantindo a volta mais rápida. Pontinho este que estava na mão e pode fazer falta, hein?

  • Olá Flávio. Cheguei atrasado pro Formula Gomes, mas assisti no youtube depois. Então a galera estava falando sobre um vídeo em que Max desrespeita as regras na largada e realmente não só no vídeo do blogo do brasileiro mas nesse aqui também:
    https://www.youtube.com/watch?v=hp7tPzZHP-s
    Aparece o Max com os pneus completamente fora da marcação de largada.
    O Masi tá muito ruim como diretor de provas, toda punição é dada depois, mesmo em coisas claras que deveriam ser resolvidas na hora, aí gera essa polêmica toda.
    Um abraço.

  • Mais um “torcedor engenheiro entendido, fiscal da FIA enrustido” achando pelo em ovo. O holandesinho faz a melhor volta da prova, sai de sétimo e em cinco voltas já está em segundo e ainda assim o carro do vencedor está irregular. Putz, são piores perdedores que maxzinho.

  • Saudações Flavinho !
    Como escrevi domingo passado, a F1 não aceita vigaristas e Mx Dick, começou a sentir o peso e só vai levar chumbo, ainda mais com a Mercedes guardando o motor do Brasil.
    Acabouuuuuuu!abs

  • Se procurar com vontade e afinco, vão encontrar nos motores Mercedes oficiais (ou seja, os do LH) alguma coisa muito parecida com o que tinha nos Ferrari de 2019. É isso, ou a Honda tá correndo com motor fundido. Max trocou o motor inteiro e não deu um salto de desempenho desse tamanho. Aí o ativista troca só o bloco e o carro ganha um segundo por volta durante todo as voltas do final de semana. É bem estranho uma diferença de tal magnitude.

  • Hamilton sobrou com o motor velho ainda.

    Bottas tem que atuar nas voltas mais rápidas pra ajudar a Mercedes.

    Verstapen e Hamilton em outro patamar.

    Bottas e Pérez ineficientes como segundos pilotos .

  • Com exceção de Mônaco e outro circuito muito travado, Hamilton e Verstappen chegam ao pódio mesmo largando da 13a./15a. posição. Eles têm equipamento para isso. Demérito para seus companheiros de equipe, que não são capazes do mesmo. Por isso não fico maravilhado com as 5 primeiras voltas de Hamilton no GP do Brasil ou de Verstappen neste último.

  • Acho que a corrida foi muito melhor do que se poderia imaginar. Para mim, seria uma procissão, pois o circuito tem muitas curvas rápidas e seria difícil acompanhar o carro que está a frente. Mas, surpreendentemente, até a curva 1 proporcionou ultrapassagens.
    Max rapidamente chegou ao segundo lugar, e, no meio do bolo, também tivemos várias disputas interessantes. Bem.melhor que o esperado.
    Acho que este circuito poderia muito bem substituir Sochi, Paul Ricard e Abu Dhabi.
    Confesso que não entendi a estratégia da Red Bull com Perez e da McLaren com Norris. Ambos estavam bem posicionados antes da segunda parada e foram jogados no meio do bolo, fora da zona de pontuação, para se recuperarem.
    Perez jogou um pódio fora e Norris poderia ficar à frente de Ocon , Stroll e as Ferraris, fazendo pontos que poderiam ajudar a ficar na quinta posição do campeonato e manter a McLaren na briga com a Ferrari pelo terceiro lugar nos construtores.
    Melhor para Alonso, que fez uma belíssima corrida e conquistou um pódio que já vinha merecendo. E fica uma enorme expectativa para a próxima prova e a boa possibilidade de ambos chegarem empatados para a decisão em Abu Dhabi, seria sensacional!

  • Gostamos: do terceiro lugar do Alonso, El Fodon de la Tercieira Posicion.
    Não gostamos: do desempenho pífio da Alpha tauri. Um leão nos treinos e um gatinho na corrida, que o Tsunoda desse uma ramelada na corrida era esperado, mas o Gasly também foi muito mal.

  • E o ponto fraco da transmissão da Band é o Sérgio Maurício, que no final mandou mil elogios pra corrida… “sensacional, espetacular”. Ele faz isso em quase todas, a propósito.

  • Parabéns aos protagonistas.

    Só um adendo: incrível como a Alpha Tauri é ruim de estratégia. O Gasly largou em segundo, foi o primeiro do pessoal da frente a parar e nem pros pontos ele foi.

    Tem carro que não merece o piloto que tem.