INTERLAGOS & CURITIBA

ITACARÉ (da força da grana…) – O Victor Penteado encontrou isso em algum arquivo de seu computador. Um convite dos construtores de Interlagos para conhecer a pista antes de ela ser asfaltada. É um recorte de 15 de abril de 1939. Diz o seguinte, na grafia original:

A Sociedade Anonyma Auto-Estradas, pela sua Directoria abaixo assignada, convida as autoridades, os technicos, os volantes do automobilismo e o público em geral, para darmos um passeio amanhã, domingo, às 15 horas, no Autódromo Interlagos, que ella projectou e está construindo, desde Setembro de 1938, data em que o público assistiu ao início dos trabalhos. Esta apresentação da pista, a que assistirão Directores e technicos do Automóvel Club do Brasil, organizadores das corridas da Gávea, é realizada, intencionalmente, antes do seu asfaltamento, para poderem ser aproveitadas as suggestões que possam tornar mais perfeito o Autódromo Interlagos, destinado a ser, num futuro próximo, a maior atracção turística da nossa Capital.

Ainda bem que ninguém sugeriu nada, e assim nasceu um dos mais belos e completos traçados do mundo, mutilado em 1990 para que a F-1 permanecesse no Brasil. Notem que o projeto original do complexo esportivo tinha piscina, quadras de tênis e um estádio, além de restaurantes, estacionamento para dez mil carros e várias arquibancadas espalhadas pelo circuito.

Coloco isso no ar para lembrar da beleza de Interlagos, um autódromo privado que acabou sendo comprado pela Prefeitura e hoje pertence à cidade de São Paulo. Lembrança que ofereço a vocês no mesmo dia em que começaram a destruir o autódromo de Curitiba, em Pinhais, equipamento esportivo do final dos anos 60 que pertence a um grupo privado e há anos vive sob a ameaça de fechamento.

Pois Curitiba acabou. Os tratores começaram a quebrar a pista e o terreno vai virar condomínio. Noto uma revolta no meio automobilístico. Oh, como podem fazer isso?

O meio automobilístico precisa se decidir. Pilotos, empresários, patrocinadores, promotores, donos de equipes e muitos jornalistas especializados formam uma massa alinhada ao que se chama de pensamento liberal (para não xingar todo mundo de bolsonarista, mesmo, já que um ou outro ainda se salva), privatista, defensor do “estado mínimo”, que prega o fechamento de estatais, demoniza funcionários públicos e políticos em geral, e muitos ficam com o peruzinho quase ereto cada vez que alguém fala em privatizar Interlagos, por exemplo, “porque a prefeitura é uma merda, ninguém cuida daquilo, governo só serve para atrapalhar, tem mais é que vender, mesmo”.

Pois os donos do autódromo de Curitiba venderam. Não tem poder público ali. O circuito não é de prefeitura alguma, de governo nenhum. Vão dar chilique, agora?

É o capitalismo, estúpido.

Vendo as imagens hoje, de alguns vídeos que estão circulando por aí, dá para ficar com raiva de um babaca que não sei quem é que passa filmando os boxes dizendo, com sotaque sulista e enorme satisfação, que vão derrubar tudo aquilo ali. E dá quase para se comover com um sujeito, que igualmente não sei quem é, se metendo embaixo de um trator, ou de uma retroescavadeira, para defender aquele asfalto onde deve ter corrido, ou que lhe proporcionou bons momentos em tantas provas disputadas na pista paranaense.

Eu achava a pista ótima e o autódromo, idem. É uma pena que acabou. Pena mesmo, praças esportivas não deveriam ser destruídas. Mas a quem cabe estabelecer políticas para que isso não aconteça? Ao poder público. Ao Estado. Mas a gente das corridas não gosta que o Estado se meta em nada. A quem caberia agir para tentar evitar o fim do autódromo, com gestões junto aos seus proprietários, um trabalho de convencimento, alguma coisa assim? Aos dirigentes do automobilismo.

Alguém fez alguma coisa?

Se fez, não adiantou. Os privatistas que correm de carro pelo Brasil se propuseram a comprar a pista? Essa turma que faz campeonatos fechados (usando equipamentos públicos, inclusive) sem presença de torcida, eventos particulares, fizeram alguma proposta pelo terreno? Não que eu saiba. Agora vão ficar revoltadinhos com o quê, exatamente? Com o “sistema”?

Eu fico apenas triste. Ganhei até corrida em Curitiba. Foi em 2016 com meu simpático Voyage, e já naquela época diziam que era o último fim de semana de atividades no autódromo. Ainda sobreviveu mais cinco anos, e conseguiram uma liminar hoje para interromper a demolição. Acho que é um caminho sem volta.

Tem até vídeo da minha corridinha. Está aí embaixo. E é com ele que me despeço de um traçado histórico que, simplesmente, não resistiu à história. À história da grana que ergue e destrói coisas belas. Grana privada que o meio automobilístico considera acima do bem e do mal, porque “o Estado se mete em tudo”.

Desta vez não se meteu.

Comentários

  • Chego atrasado aqui e provavelmente ninguém vai ler, mas digo que se o Estado de meteu – no caso, a prefeitura de Pinhais – foi no sentido de destruir o autódromo. A atual gestão municipal chegou a aplicar multas ao autódromo por excesso de barulho! E realmente não moveram um dedo para tentar salvar a pista, sendo que a ação pelo tombamento não partiu deles.

  • Da força da grana que ergue e destrói coisas belas. (C. Veloso).

    Privatistas do lucro adoram socializar as perdas. É o capitalismo sem risco que reina em Pindorama, para os mesmos….

    Lá vem o Brasil descendo a ladeira (N. Moreira).

    Brooklands seria impensável no Brasil.

  • Não sei quão dentro da cidade é o autódromo de Curitiba. Mas, infelizmente, desafiar os ímpetos das grandes construtoras de condomínios é bem difícil. Mas penso que, salvo poucos circuitos, no mundo afora, são construídos a uma certa distância da região metropolitana.

  • Se nem as montadoras ligam para o Automobilismo no Brasil quem irá ligar? Somos pobres e o automobilismo é coisa de gente que tem grana.

    Sempre brinco que ter um kart (não estou falando de um F-3) sai muito mais caro do que ter uma amante.

    Dessa forma como lidamos com a situação? Gastamos alguns milhões de reais por ano para manter uma área enorme para que algumas centenas de pessoas possam desenvolver uma pratica desportiva ou pegamos esses milhões de reais para gastar com saude, saneamento e escola?

    Acho que as entidades do automobilismo devem manter essas praças, manter cobrando mensalidade de seus pilotos associados e de parcerias comerciais com todas as entidades ligadas ao automobilistmo, sejam patrocinadores, montadores e o que for a mais.

    Acho que até mesmo na Inglaterra a coisa não é bancada pelo Governo, se não me engano o Damon Hill teve que dançar um “xaxado miudinho” para manter o Templo de Silverstone no Calendário… se não me engano a França ficou mais de 10 anos sem um GP de F-1 por causa que o Estado não se mete muito nessa “brincadeira”.

    A coisa Estatal deve ser boa quando é para todos… se falta hospital, escola e segurança pela ótica estatal também faltará autodromo para todos nós… pois como quero escola e saude de graça também vou querer correr de graça nos autodromos publicos.

    Somos pobres. Quem paga o IPTU do Autodromo de Curitiba? Era o dono? A Federaçao e os Pilotos do Brasil ajudavam? Não? Então fazer o que? Sorte do Brasil e do Automobilismo Nacional que em alguns estados mais tradicionais o Automobilismo se sustenta.

    Não ouvi uma palavra aqui no BLOG sobre o que fizeram em Jacarepaguá… destruiram o Autodromo, roubaram bilhões de reais naquele Parque Olimpico e o descaso continua até hoje.

    Se for para levantar alguma bandeira que comecemos pelo Rio de Janeiro.

    Flavio, faz uma materia especial sobre o Rio de Janeiro, voce é muito bom nisso. Levanta para nós os roubos, os desvios, os envolvidos, o descaso, o escarnio com a nossa cara.

    O Brasil precisa disso, de uma voz forte como a sua, para que nunca mais esse pessoal possa nos importunar.

  • Chego atrasado, mas assino embaixo o que o Flávio escreveu.
    Não é uma questão de partidos políticos, mas tem a ver com uma visão mais ampla das coisas de interesse público.
    Alguns autódromos foram fechados nos Estados Unidos, mas muitos outros foram mantidos pela sua história e sua importância, não apenas por uma questão financeira. Só que lá tem uma pista a cada esquina, o que efetivamente não é o nosso caso. E os esperneantes privatistas não moveram uma palha aqui para mudar a situação de Curitiba. E não é espernear depois, mas efetivamente buscar alternativas e propor coisas novas.
    Enfim, já era, um bem bacana a menos, como foi Jacarepaguá.
    Deve se direcionar o foco agora para salvar Brasília e Santa Cruz do Sul (neste caso, asfalto novo).

  • Taí, vc fez um belo resumo das contradições que vivem aqueles que se dizem liberais (mas que adoram mamar nas tetas da viúva caridosa que é o Estado).

    Que Interlagos permaneça um equipamento público, e que as próximas gestões cuidem melhor dele.

  • Até onde sei, os autódromos dos EUA e da Europa são, se não todos, a imensa maioria, privados. E funciona muito bem. A questão não é ser privado ou publico. A questão é ser bem administrado.
    Se Interlagos não tivesse a F1, provavelmente já teria virado condomínio também.

  • Me lembro quando a Erundina quase destruiu Interlagos para fazer casas populares, história fácil de encontrar na internet. Que bom que não deu certo e hoje temos o maior templo do automobilismo do Brasil preservado e proporcionando corridas espetaculares.

  • É complicada essa discussão…. aqui no Rio, acabaram com o autódromo em detrimento de um elefante branco estatal…. Eu fui a uma partida de handebol na “arena do futuro “. Dizia-se que seria desmanchada e que viraria quatro escolas….. quando foram desmanchar….. chegaram à “brilhante” conclusão de que o destino seria inviável….
    Fizemos uma copa do mundo… dos 12 estádios, se aproveitam uns seis… Beira Rio, Arena da Baixada, Neo Química Arena (em detrimento do Pacaembu), o de Fortaleza, Mineirão e o mutilado Maracanã, o resto, talvez tirando a Fonte Nova, verdadeiros elefantes brancos, Cuiabá, Manaus, Brasília, Pernambuco e Natal. ….
    Verba pública jogada fora….

  • É, aqui no Brasil, nada excelente ou ótimo dura muito…
    Eu não queria supor isso, mas acho que isso se deve à mistura trágica do comodismo português ou lusitano (que nós, brasileiros, herdamos) com o calor tropical…

  • Este acontecimento me faz lembrar um vídeo sobre estado mínimo que não encontro mais nos youtubes da vida.
    Dizia que aos defensores do estado mínimo que o mesmo já existe no Brasil há tempos e chama-se favela. Lá o Estado não apita em nada e tudo é pago para uma entidade privada, a bandidos s/a. Quer ter um comércio, pague para a bandidos s/a, energia elétrica, idem, que ter direito de sair na rua, idem, gás de cozinha, idem, transporte público, idem, material de construção, só nas lojas coligadas ao bandidos s/a.
    Lá o Estado não existe e se você não se submeter aos bandidos você é que deixará de existir.

  • Por que você não foi lá e comprou o autódromo? Cuidado ao falar do capitalismo, pois tudo que você tem foi oriundo de trabalho para os “capetalistas”, já que nem servidor público você é.

  • O AIC infelizmente estava bem decadente. Desde de que o grupo empresarial que reconstruiu o circuito de forma muito caprichada e no padrão FIA perdeu força e o autódromo ficou menos cuidado e organizado. E a cidade “invadiu” o entorno do autódromo de forma que a questão legal de meio ambiente/ruído estava causando problemas para a operação já faz tempo.

    E bem triste ver o que para nós era um templo sagrado sendo desmontado. Mas devemos aceitar o fato de que o automobilismo perdeu boa parte da relevância. E não faz sentido negar o direito do proprietário fazer o que bem quiser com o terreno. Nos resta engolir o choro.

  • Se virar mesmo condomínio, será mais um empreendimento de sucesso na linha da Cyrela, com um nome tipo “Village Venezzia” (sim, com dois z), cheio de SUVs e Enzzos (também com dois z) e Valentinas brincando nas quadras, enquanto seus pais fazem picanha wagyu nas varandas gourmet.

  • O problema é que aqui no Brasil, como se diz lá fora, querem “comer o bolo e ficar com o bolo”. Esse pessoal é o primeiro a falar que nos EUA funciona. De fato, funciona bem melhor que aqui, mas porque os camaradas lá sabem viver nesse sistema. Há várias dezenas de bons autódromos em mãos privadas porque os empresários botam o dinheiro deles na reta, e muitos perdem muito. Já aqui, a galera quer “estado mínimo”, mas na hora de arriscar o próprio dinheiro, aí quem tem que fazer é o estado. Se querem um estado mais “liberal”, pois que arquem com as consequências.

  • Mas assim são os liberalecos. Liberais até onde lhes convier. Quando a coisa aperta, correm logo pedindo ajuda pro “Estado malvadão”.

    Lamento pelo fim do autódromo de Curitiba. Lá eu assisti a minha primeira corrida de carros ao vivo.

  • Mas Jacarepaguá foi destruído da mesma forma por insteresses políticos na época do governo PT. A verdade é que tanto privado quanto público, a gente não decide nada, fica tudo à mercê dos interesses alheios, infelizmente.