VOLTANDO

SÃO PAULO (depois explico) – Buenas, macacada! Sentiram minha falta? Pois não vão sentir mais. Depois da tempestade vem a bonança, dizia o Capitão Haddock. Não sei se ele dizia isso entre insultos como “ectoplasmas”, “embusteiros”, “fariseus” e “sacripantas”, mas sou fã assumido de Archibald Haddock e por isso a citação. Justíssima.

Passou a tempestade, que venha a bonança, pois.

Preparem-se. Escreverei mais. E muito. Chega de economizar palavras e de tentar me enquadrar na norma culta dos “fios” (que merda de invenção é essa?) de 240 caracteres, dos pretensos textões de aplicativo de fotos ou das dancinhas de celular. Caguei para tudo isso. Estamos de volta a São Paulo depois de uma temporada turbulenta na Bahia. Para fazer o que sempre fiz: escrever.

E sem enrolar muito, porque tem bastante coisa acontecendo no mundinho das corridas. O que não vai faltar é assunto para vocês comentarem. Se é que alguém ainda vem aqui, porque às vezes tenha a impressão de que os leitores foram abduzidos e trocados por “seguidores”, e que a leitura foi substituída por um negócio chamado “engajamento”, outra merda que deixa excitados os jovenzinhos que reduziram a vida a uma competição de “likes”.

(Quando um repórter pediu a Nelson Rodrigues que desse um conselho aos jovens, este respondeu apenas: “Envelheçam”. Acho a resposta genial, embora não precise ser obedecida em sua literalidade. Envelhecendo todos estamos, a cada segundo. Acrescentaria: aproveitem a juventude, aproveitem seu tempo, aproveitem a vida. A vida não é dar “likes”. Cada curtida que você dá na sua telinha sagrada te toma o tempo que você deveria estar usando para curtir coisas de verdade.)

Masi: falta só anunciar

CAIU? – Michael Masi desapareceu do site da FIA. Ele e Nicholas Tombazis, este o chefe de assuntos técnicos relacionados aos monopostos. Masi, todos lembram, é o diretor de provas da F-1 desde a morte de Charlie Whiting, em 2019. A própria FIA está de presidente novo, o emiradense Mohammed Ben Sulayem, eleito no fim do ano passado sobre quem nada escrevi até agora porque não tenho nada para dizer dele, mesmo. Apenas achei curiosa a presença de Fabiana Ecclestone em sua chapa. Fabi é uma advogada de São Paulo que conheci há anos quando trabalhava com o Tamas Rohonyi na organização do GP do Brasil. Acabou se casando com Bernie Ecclestone em 2012. É uma querida. Não tenho ideia do que foi fazer na FIA. Até onde sei, estava tranquila em Amparo, no interior do estado, cuidando de uma fazenda de café com o marido. Mas sua chegada à entidade é prova inconteste de que Bernie ainda sopra seu apito e alguém escuta. Não estou subestimando as capacidades da Fabiana, não. É uma senhora advogada. Pode até virar presidente da FIA no futuro. Só não entendo qual a motivação para se meter nesse vespeiro. Quando encontrá-la, perguntarei.

Voltando a Masi, ele sumiu do site da FIA, como dizia antes de desviar o assunto para o novo presidente Ben Sulayem, citado como emiradense porque este é o gentílico para quem nasce nos Emirados Árabes Unidos — no caso dele, um ex-piloto de rali, e dos bons, em Dubai. Sumiram Masi e Tombazis. O que se comenta é que esse é o preço que a Mercedes cobrou para retirar o protesto contra o resultado do GP de Abu Dhabi, que deu o título do ano passado a Max Verstappen.

Oficialmente, Masi ainda não foi despachado de volta para a Austrália, onde nasceu. Mas será. A FIA decidiu apurar todas as circunstâncias que levaram o diretor a fazer o que fez na última corrida de 2021. Vai ouvir equipes, engenheiros, técnicos, chefes, cozinheiros, pilotos, mecânicos e todo mundo que tiver algo a falar. No dia 3 de fevereiro, promete anunciar ao mundo o resultado de suas investigações e divulgar novas regras para o uso do safety-car. Talvez só aí o personagem da nossa próxima notinha de 500 linhas volte ao mundo dos vivos.

Charles e Lewis: última aparição

CADÊ TU? – A última vez que ouvimos a voz de Lewis Hamilton foi pelo rádio da Mercedes. Algo como “cara, eles estão manipulando esse negócio”. Essa gravação apareceu depois que ele deu a entrevista protocolar pós-GP de Abu Dhabi, ainda no Parque Fechado. No caso, a Jenson Button. A seguir, cumprimentou Verstappen. Foi ao pódio, recebeu seu troféu, não apareceu na coletiva dos três primeiros colocados (porque a Mercedes imediatamente protestou o resultado) e sumiu. Ressurgiu três dias depois sendo cutucado pelo príncipe Charles com um sabre (ou seria um florete?) no Castelo de Windsor, saiu de lá como Cavaleiro da Ordem do Império Britânico. Entrou mudo e saiu calado. E evaporou.

Muito ativo nas redes sociais, Lewis deixou-as às traças desde então. Não há nenhuma postagem em nenhuma delas após a corrida na qual perdeu a chance de ser campeão mundial pela oitava vez. Nada de Instagram, nada de Twitter, e não sei quais as outras. Nenhuma palavra. Nenhuma foto. No mundo de hoje, é como se a pessoa tivesse deixado de existir. No Instagram, zerou sua lista de gente que seguia.

Pode-se interpretar isso tudo do jeito que se quiser. Afinal, ninguém falou com ele. Como o jornalismo moderno está reduzido a um acompanhamento 24/24 de redes sociais — pobres repórteres, relegados à função de reproduzir na base do copy-paste as declarações das celebridades sem poder questioná-las –, o que se tem de informação sobre Hamilton neste momento é… nada.

(No meu tempo, os grandes veículos de comunicação já teriam deslocado um repórter para cada residência de Hamilton, onde ficariam de plantão até ele dar as caras. Uma hora o cara sai na varanda. Vai comprar pão. Dá um pulo na academia. Recebe uma pizza na portaria. Era assim com Senna, quando ele desaparecia: Angra, Tatuí, escritório em Santana, casa no Horto, apartamento em Higienópolis. “Achem o cara!”, eu determinava, na Redação. Alguém achava. Uma vez o Cilinho, técnico do São Paulo, figura ímpar, sumiu. Meu repórter Fernando Santos encontrou o treinador numa chácara não sei onde. “Ele não me deixou anotar nada”, falou pelo orelhão. “Tive até de beber cahaça. Eu que não bebo nada! Mas eu tenho tudo na cabeça. Pega a caneta aí, vou ditar a matéria.” Que baita repórter, o Fernando Santos…)

Na imprensa inglesa, começaram a surgir os boatos sobre uma aposentadoria precoce de Hamilton. Irritado, magoado, desiludido com o que aconteceu em Abu Dhabi (sim, ele foi muito prejudicado pelas decisões do diretor de prova, embora este, o diretor, estivesse amparado por um regulamento confuso e sinuoso), Lewis estaria decidido a não correr mais. Ou, no mínimo, disposto a esperar pelo que será determinado pela FIA para resolver o que vai fazer da vida. Eu não me surpreenderia se ele anunciasse o fim da carreira. Ficaria obviamente chocado — uma notícia dessas é chocante, sempre. Mas acho que vai continuar. De qualquer forma o suspense está no ar.

Vettel na Mercedes?

O ELEITO – Pelo sim, pelo não, a Mercedes já estaria pensando no que fazer caso Hamilton decida pendurar o capacete. O “Bild”, jornal sensacionalista do país, não pestanejou. O nome seria Sebastian Vettel. Não há nenhum indício concreto de que isso possa acontecer, mas fica o registro.

E querem saber? Faria todo o sentido.

Audi com McLaren?

VW NA ÁREA – Andam dizendo por aí que o grupo Volkswagen já decidiu que vai entrar na F-1 em 2026, quando novos motores forem introduzidos na categoria. A ideia é usar as marcas Audi e Porsche, que pertencem ao portfólio da empresa. É praticamente certo que isso vá acontecer. Mas a VW não está a fim apenas de vender motores nas gôndolas dos supermercados. Na imprensa alemã, comenta-se que o interesse maior é na compra de equipes existentes, ou de parte delas. E já se avança na seguinte direção: a Audi ficaria com a McLaren e a Porsche, com a Red Bull.

Tudo é possível. E desejável, eu diria. A VW não vai montar equipes próprias para jogar Audi e Porsche na F-1. É muito caro e o processo é lento e potencialmente desastroso — a Toyota que o diga. Mas duas marcas desse tamanho só teriam a somar, como dizem os comentaristas de futebol. A McLaren não está nadando em dinheiro e adoraria estampar quatro argolas em seus carros. A Red Bull deixou de ser patrocinadora há tempos e tem hoje uma estrutura de time grande, protagonista e campeão. Mas não rasga dinheiro e não faz motor. Vai herdar os Honda, é verdade, mas se aparecer alguém para encampar a tecnologia e a produção, com nome tão forte, assina na hora.

Montoya nas 500: tentando o tri

DÁ-LHE, GORDO! – Aos 46 anos, Juan Pablo Montoya foi confirmado mais uma vez pela McLaren para correr as 500 Milhas de Indianápolis. Vencedor da prova em 2000 e 2015, o colombiano é um dos pilotos mais carismáticos da história. “Nossa, que exagero!” Olha, eu gosto de exageros. Mas ele é mesmo. Aliás, antes que me acusem de gordofobia, “Gordo” era o apelido dele na F-1 junto aos amigos. Nunca reclamou. Montoya era mesmo meio gorducho, adorava comer hambúrgueres, nunca negou isso e não tem nada de errado em ser como ele é. Às vezes, no esporte, pode atrapalhar. No seu caso, quando se trata de correr com monopostos, até atrapalha. Mas ninguém tem nada com isso. Sou fã incondicional do cara. E espero que ele ainda tente as 24 Horas de Le Mans para fazer a Tríplice Coroa. Bem que a Toyota podia quebrar o galho, né?

Peterhansel: eletricidade na areia

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – Não tenho nenhum apreço especial (nem desapreço) por carros elétricos, mas fecho o dia com meu sincero espanto diante do desempenho dos protótipos eletrificados da Audi no Dakar 2022. A marca escolheu dois veteranos campeoníssimos (me identifico, é minha geração) para disputar o rali com seus carros que zumbem, o francês Stéphane Peterhansel, 56, e o espanhol Carlos Sainz, 59. Ganharam uma penca de especiais. A prova será vencida por um carro convencional, um Toyota Hilux pilotado por Nasser Al-Attiyah (51 anos; cadê a molecada?). Mas a velocidade com que os elétricos estão mostrando que podem ser competitivos é assustadora. E silenciosa.

Maserati na E: histórico

FORTE, SIM – Depois de perder algumas montadoras — o desfalque mais pesado será o da Audi, sem dúvida –, a Fórmula E deu uma demonstração de vitalidade ao anunciar, nesta semana, a chegada da Maserati à categoria. A marca italiana já entra no campeonato na próxima temporada. Desde 1957, quando Fangio conquistou o pentacampeonato na F-1, não se vê o tridente em nenhuma competição de monopostos. Pertencente à Stellantis, essa gigantesca fusão de Fiat com Chrysler, Peugeot e Citroën, a Maserati será a primeira equipe italiana a correr na Fórmula E. Que está viva, embora tenha sido surrada pela pandemia nos últimos dois anos.

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