Quis saber quem sou, o que faço aqui, quem me abandonou, de quem me esqueci. Quis saber de nós. E olho ao redor e vejo um pequeno oceano em verde e vermelho que não via fazia muito tempo, e sorrisos, e sotaques, que chegam aos poucos, de todos os lados.
E aquelas arquibancadas frias e silenciosas das noites escuras finalmente se abrem numa manhã luminosa de domingo, a gente merecia isso.
Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade. Rostos conhecidos, semblantes diferentes. De um lado meu pai, do outro meus filhos, três gerações que carregam desde sempre uma cruz no peito. Cruzados da bola, soldados que somos de causas jamais perdidas.
Nesta vida de pequenas epopéias, vivemos a nossa. Terminou em meio a braços erguendo uma taça, uma taça de verdade faiscando sob o sol. Ergue-te, ó sol de verão, somos nós os teus cantores da matinal canção.
E cantamos que vamos torcer bebendo vinho, lusos somos assim, bebemos vinho e celebramos. Meus garotos batem no peito com as mãozinhas fechadas e gritam, agora, não que a série A é o seu caminho. Ser campeão é o meu caminho, cantam agora, olhando para o nada, mas sigo seus olhares e vejo que eles procuram algo naquele campo que, para eles, é tudo: um troféu.
É doce o sabor de ser campeão. Doce como um pastel de Belém, e se tu me disseres que não sei o sabor de um título de verdade, respondo-te que não conheces o sabor de um pastel de Belém, portanto estamos quites, e creio que carrego ligeira vantagem com meus pastéis.
Um gol, dois, três, quatro, e tudo vai acabando aos poucos, é hora de ir, mas partir é morrer, como amar, é ganhar e perder. Assisti ao jogo de pé, o tempo todo com os olhos vermelhos e marejados, mas de óculos escuros para esconder as lágrimas.
Que bobagem. Não se escondem as lágrimas da vitória. Nem da derrota. Não se deve esconder uma lágrima.
* Texto que me foi pedido pelo “Lance!” ontem. Não vi o jornal ainda, não sei se foi publicado.