LOW BATTERY (2)

SÃO PAULO (hoje sem café) – Quando a F-1 inventou os motores híbridos, em 2014, a Mercedes estabeleceu a mais longa hegemonia da história da categoria. Foram oito títulos seguidos de construtores e sete de pilotos até Max Verstappen, em 2021, interromper a série graças a uma decisão estapafúrdia do diretor de prova da última corrida daquele ano, em Abu Dhabi. Em 2022, estreou uma nova geração de carros na categoria, com mudanças aerodinâmicas radicais. E a Mercedes foi engolida pela Red Bull e, depois, pela McLaren.
A grande novidade de 2014 ano foram os motores. Neste ano, marcado por mais uma revolução técnica, idem – eles, agora, têm metade da potência gerada por um V6 turbo a combustão e outra metade obtida a partir de componentes elétricos. Por isso, muita gente apostava que a Mercedes iria sair das sombras impostas pelo período 2022-2025, dos carros com efeito-solo, para arrebentar outra vez nessa era de novos motores estrambóticos — embora o palpite se baseasse em um único evento; estatisticamente, o retrospecto era modesto para se afirmar que algo parecido com 2014 iria se repetir.

Bem, a primeira fila do primeiro GP da nova era de motores estrambóticos da F-1 é da Mercedes. E com uma facilidade espantosa. George Russell fez a pole na Austrália com o tempo de 1min18s518. Kimi Antonelli, seu imberbe companheiro, larga em segundo. A melhor volta do italianinho ficou a 0s293 da do elegante parceiro britânico. O problema foi a diferença para o terceiro colocado, o surpreendente Isack Hadjar, em sua estreia na Red Bull: 0s785. E para a Ferrari de Charles Leclerc, o quarto, 0s809. E para a McLaren bicampeã do mundo, em quinto e sexto no grid, 0s862 em cima de Oscar Piastri e 0s957 no lombo de Lando Norris. Lewis Hamilton, que chegou a ser cotado para a pole, ficou em sétimo a 0s960 de Russell.
Na F-1, distâncias dessa monta são intransponíveis em curto prazo. A situação chega mesmo a assustar. “Scary”, diriam os britânicos.




Mencionamos aí os sete primeiros. Fechemos o top-10 nesta larga introdução, porque eles merecem aplausos. Arvid Lindblad e Liam Lawson, da sucursal italiana da Red Bull, a famosa Meu Cartão Dá Direito a Sala Vip, ficaram em oitavo e novo. E Gabriel Bortoleto, da Audi, larga em décimo. São resultados dignos de elogios, especialmente o do brasileiro, que avançou ao Q3 na primeira corrida da história da equipe das quatro argolas. Uma proeza. Pena que ele não fez volta nenhuma na parte final da classificação porque seu carro apagou quando retornava aos boxes após o Q2. Mas a façanha já estava consolidada.
Escuta, e cadê Verstappen? Faltou, não apareceu no trabalho?
Quase. O holandês bateu no Q1, ficou sem tempo de classificação e larga no fundo do pelotão. E bateu de um jeito muito esquisito. Mas vamos seguir a ordem cronológica dos fatos para resumir a classificação no Albert Park, que definiu o primeiro grid de 2026. A pancada de Verstappen está logo no começo do relato abaixo.

O sábado foi de sol e temperaturas agradáveis em Melbourne, na casa dos 20°C. No início do Q1, os pilotos da Ferrari, confiantes, optaram pelos pneus médios. Russell, que já tinha sido o mais rápido no terceiro treino livre, foi o primeiro a baixar da casa de 1min20s, com 1min19s840. Naquele instante, superou Bortoleto, que tinha ficado orgulhosamente em primeiro por alguns minutos.
Nos boxes, a turma da Mercedes tentava colocar o carro de Antonelli de pé. O italiano tinha batido forte na sessão livre, ao perder a traseira sobre a zebra da curva 2 e se estabacar no muro.
(Sei que “estabacar” é verbo exótico, não aparece sequer em dicionários formais. Mas Guimarães Rosa fez isso e todo mundo acha lindo – e é.)
Felizmente Kimi não se machucou. Mas ninguém acreditava que a equipe conseguiria juntar os cacos do automóvel a tempo para a classificação. Por via das dúvidas, o menino estava paramentado e de capacete nos boxes enquanto os mecânicos trabalhavam alucinadamente.
Faltando 7min30s para acabar o primeiro segmento da classificação, veio o acidente de Verstappen. Ele escapou na curva 1, foi para a brita e bateu. A bandeira vermelha foi acionada. Foi uma batida incompreensível. No fim da reta, uma roda traseira, a esquerda, travou. Do nada. Sem nenhuma razão. Irritadíssimo, para não dizer “puto dentro das calças”, expressão que aprecio muito, Max entrou no rádio e falou, em tom explicitamente irônico: “Meu eixo traseiro travou. Fantástico”.



Toda sua contrariedade com o novo regulamento ficou clara no breve desabafo. Max, como muita gente, devota ódio eterno ao F-1 moderno, um carro sem pé nem cabeça que só anda se o piloto desacelerar na reta para carregar a bateria – gestão de energia é a prioridade; antigamente, e não tão antigamente assim, tipo ano passado, era apenas andar rápido; quando muito, dar uma segurada para não acabar com os pneus.
E o que a roda travada tem a ver com isso? A Red Bull não explicou direito o que aconteceu, mas como os freios traseiros têm uma função primordial na recuperação de energia, e todo esse sistema complexo e incompreensível para o público é controlado eletronicamente, não se descarta uma pane num sensor qualquer. Jamais saberemos, a não ser que alguém dê com a língua nos dentes.
O fato é que Max saiu do cockpit com dores nas mãos e raiva no coração. Exames não constataram nenhuma lesão. Mas a frustração com os rumos da F-1, essa machucou o tetracampeão. “Não estou me divertindo com esses carros. É só olhar a onboard. É o suficiente.” Foi a forma educada que ele encontrou de dizer “isso é a maior merda já inventada na história das corridas de carros”.
A interrupção ajudou a Mercedes, que milagrosamente conseguiu terminar a montagem do carro de Antonelli. Ele conseguiria, contra todos os prognósticos, participar da classificação. Foram sete minutos valiosos para a equipe concluir o trabalho.
Boxes abertos, Hamilton pulou para primeiro com seus pneus médios, sendo superado logo depois por Piastri e, na sequência, Russell de novo, com 1min19s507. Antonelli fez uma volta boa e se colocou lá na frente. Fechou o Q1 em sexto. Bortoleto foi o décimo. Foram eliminados Fernando Alonso, Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Verstappen, Carlos Sainz e Lance Stroll.

Da Cadillac, não se esperava muito, mesmo. É estreante, vai apanhar bastante que nem vira-lata em posto de gasolina em seus primeiros passos na F-1. Mas, pelo menos, seus carros foram à pista e fizeram tempos. Já os dois últimos, Sainz e Stroll, nem dos boxes saíram — suas equipes vão pedir autorização para largarem e ambos serão autorizados.
Aston Martin e Williams vivem momentos terríveis, principalmente a primeira. Alonso, mesmo assim, quase passou ao Q2. Já a Williams começa a temporada com seu barco cheio de furos. Não participou da primeira semana de testes em Barcelona, andou mais ou menos no Bahrein (o carro está muito acima do peso mínimo, quase 30 kg) e nos três treinos de Melbourne seus carros tiveram panes diversas. Sainz, no sábado, nem precisaria ter vestido o macacão. Não completou uma volta sequer. No segundo treino livre, na sexta, também ficou a pé.
No Q2, a Mercedes mostrou suas garras. Russell saiu dos boxes e de cara bateu o cronômetro em 1min18s934 — o primeiro a entrar nos 18 no fim de semana. Ninguém conseguiu superar o tempo de seu Jorge. Leclerc subiu para segundo, seguido por Antonelli, Piastri, Hadjar, Norris, Hamilton, Lindblad, Lawson e Bortoleto. Foram guilhotinados Nico Hülkenberg, Oliver Bearman, Esteban Ocon, Pierre Gasly, Alexander Albon e Franco Colapinto.
Gabriel conseguiu avançar ao Q3, um ótimo resultado, mas não participou da parte final da classificação. Quando voltava aos boxes, seu carro parou na via de acesso às garagens. Lindblad, que vinha para os pits, quase bateu nele e em Lawson, que estava devagar atrás do brasileiro. A Pode Ser por Aproximação colocou seus dois carros entre os dez primeiros. Como já dito, foi o destaque do sábado, ao lado da Audi de Gabriel.

Os carros da Mercedes eram os grandes favoritos à pole, principalmente Russell. Mas quando começou o Q3, logo uma bandeira vermelha foi mostrada. O problema foi uma patuscada justamente da Mercedes. Antonelli saiu dos boxes carregando um equipamento usado para resfriar o motor, uma espécie de ventilador portátil que se encaixa perfeitamente nas entradas de ar laterais. Os mecânicos esqueceram de retirar o dispositivo quando ele foi à pista. Norris passou em cima do “soprador” e espatifou a peça. Disse que estava olhando para o volante na hora, “porque é isso que fazemos o tempo todo agora, ficamos olhando para o volante para saber o que fazer para não acabar a bateria”. Pararam a sessão para limpar a pista.
1min19s084 foi o tempo da primeira volta boa do Q3, de Russell. Antonelli, que tinha saído antes dele dos boxes, cometeu um erro em sua primeira tentativa e não fechou volta. Norris, apagadíssimo desde sexta-feira, apareceu em segundo provisoriamente, mas a 0s521 do inglês da Mercedes. Aí veio Kimi novamente e virou 1min18s811, um temporal. Uma quase-pole, porque Russell, logo depois, fez sua volta em 1min18s518, 0s293 mais rápido. A Mercedes não fazia uma primeira fila desde o GP da Inglaterra de 2024, com Russell e Hamilton. Foi a 85ª da história da equipe. A pole de seu Jorge, oitava da carreira, foi quase 4s mais lenta que a de Norris na Austrália em 2025, 1min15s096.


E foi de Lando a frase que fechou o dia em Melbourne: “Saímos de [uma geração de] carros deliciosos de pilotar, os melhores de todos os tempos, para os que são provavelmente os piores da história”.
Verstappen, o melhor piloto do mundo, e Norris, o atual campeão mundial, estão detestando essa F-1 esquisita. Verstappen já tinha dado a letra depois dos primeiros testes: “Isso não é F-1”. Norris havia contraposto o colega com um discurso na linha “a gente ganha muito bem para pilotar o que nos derem”. Mudou de ideia.
Isso aí que inventaram não é legal, não. Não sou eu quem está falando.





































