SOBRE ONTEM DE MADRUGADA
A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (autoengano) – Escolhi essa foto aí para marcar o GP da Austrália. Poderia ter escolhido uma com Chaleclé bem à frente. Ou outra com seu Jorge dando tchauzinho. Tanto faz. Porque esse passa & repassa foi mais artificial que sucrilhos de ovomaltine — comi esse negócio outro dia e parecia que estava engolindo isopor. Um só passou o outro e o outro só passou o um porque os níveis de bateria de cada um eram completamente diferentes. Não foi demonstração de talento, destreza, coragem, ousadia, sequer de mais competência de engenheiros e projetistas de um time sobre os do outro. Como escreveu o veterano comentarista inglês Mark Hughes, “superficialmente foi fantástico, mas como disputa de habilidade entre pilotos, não significou nada”.
A primeira corrida do novo regulamento da F-1 agradou o público tiktoker, que vê qualquer merda de 15 segundos e se dá por satisfeito, correndo para outro vídeo. Foi isso, ontem: dez voltas de uma certa movimentação até que os pilotos se acomodassem em suas posições, para então começarem o showzinho de passar o colega numa reta para tomar um passão na seguinte. Graças a isso, a categoria se jactou de ter entregue aos “xóvens” 120 ultrapassagens em Melbourne, contra 45 do ano passado.
Alguém se lembra de alguma? Não, como ninguém se lembra do que viu no TikTok dois minutos atrás, ou nos “Reels” (é em maiúscula, essa merda? Já virou nome próprio?) do Instagram hoje de manhã.
Mas me lembro de Piquet sobre Senna em Budapeste/1986. De Senna sobre Hill em Interlagos/1993. De Hakkinen sobre Schumacher em Spa/2000. De Mansell em Berger no México/1990. E do passa & repassa de Villeneuve e Arnoux em Dijon-Prenois/1979. Sem botão de ultrapassagem ou asa móvel.






Claro que teve mais gente que gostou, além dos tiktokers impacientes. Os “influencers” e “criadores de conteúdo”, por exemplo, que não entendem um caralho de nada e/ou não têm o menor senso crítico (quase todos), além dos polianas da mídia tradicional que não podem falar mal de produtos da casa — entre eles os ex-pilotos que hoje ocupam quase todos os postos de comentaristas na TV, no caso agora a Globo.
Mas de TV falo daqui a pouco. Caixinhas agora, para acelerar o processo.

NEM LEMBRAVA – A última vez que um piloto da Mercedes liderou o Mundial foi em 10 de outubro de 2021, quando Lewis Hamilton corria pela equipe. Perderia a ponta da tabela para Max Verstappen ao final daquele dia, quando terminou o GP da Turquia. Passaram-se quatro anos, quatro meses e 27 dias. George Russell, ao vencer a corrida de ontem, tornou-se líder do campeonato pela primeira vez na carreira.


PERNA CURTA – Sobre a crise Aston Martin-Honda, teve mais parafuso jogado no ventilador por Adrian Newey nas entrevistas de Melbourne. Ele contou que quando a equipe assinou com a montadora, não foi informada de que só 30% dos antigos funcionários da área de motores de F-1 tinham permanecido na fábrica. O resto foi fazer, sei lá, motor de CG e de Pop. “Se soubéssemos, não teríamos assinado”, falou o projetista e chefe de equipe. A Honda desmobilizou o setor no final de 2021, quando anunciou que iria deixar a F-1 (voltou atrás depois). A Red Bull, sem opções, contratou quem podia para começar a fazer seus motores em casa, a partir da base deixada pela própria Honda. Quando os japoneses decidiram ficar na categoria de novo, tinha ido todo mundo embora. E eles não contaram para a turma de Lawrence Stroll.

BOM COMEÇO – Muito se falou, com justiça, da estreia da Audi com pontos, cortesia de Gabriel Bortoleto. Mas não se deve desprezar a façanha de Arvid Lindblad, 18 anos e sete meses, que terminou em oitavo no seu primeiro GP. O piloto da Acho que o Chip Quebrou tornou-se o terceiro mais jovem pontuador da história da F-1, perdendo apenas para Verstappen (17 anos e uns quebrados quando terminou o GP da Malásia de 2015 em sétimo) e Kimi Antonelli (quarto na Austrália no ano passado com 18 anos e seis meses de vida).
SOBREVIVEU – O momento mais crítico do GP da Austrália foi a largada, com Liam Lawson arrancando muito lentamente. Quem vinha atrás teve de desviar. Franco Colapinto chegou nele de cano cheio e conseguiu evitar um acidente por milímetros. Seria gravíssimo. Os pilotos que estavam na salinha pré-pódio se arrepiaram todos quando viram as imagens. Foi por pouco, muito pouco.



O ESCOLHIDO – Verstappen foi escolhido pelo amigo internauta como “Piloto do Dia”, por ter largado em 20º e terminado em sexto. “Claro que foram ultrapassagens divertidas, mas é muito frustrante dirigir assim. Passei carros dois segundos mais lentos que o meu, foi só esperar a hora certa e passar. Não é uma disputa justa”, falou o holandês — que quando chegou num carro equivalente, o de Lando Norris, empacou atrás dele e não conseguiu passar.
O NÚMERO DA AUSTRÁLIA
6,4
…pontos de audiência, na média, marcou a Globo no ibope, com pico de 7,4. Os números são da Grande São Paulo, principal mercado publicitário do país. Na Bandeirantes, em 2025, o GP da Austrália teve média de 1,6. A maior audiência do canal paulista nos seus cinco anos de transmissão (de 2021 a 2025) foi no GP do Brasil de 2021, com 6,9 pontos de média.

Claro que para a F-1 ter uma emissora como a Globo transmitindo suas corridas é um bom negócio. A audiência na primeira corrida foi quatro vezes maior. Isso não se discute mais. O que não significa que a platinada tenha feito um grande trabalho na volta da categoria a suas telas.
A ex-repórter Mariana Becker estava perdida no personagem que criou na Band(eirantes), sem saber se pode sustentá-lo na Globo. Seu gauchês afetado, o gestual largo e exagerado, as histórias sobre brigadeiros para seus vizinhos pilotos em Mônaco e os gracejos internos que trocava com a equipe anterior podiam funcionar num canal que se orgulhava de fazer as coisas de um jeito meio mambembe. Na nova-velha casa, não sei. Como comentarista, não funcionou. Atropelou o narrador diversas vezes e não sabia se comentava, informava ou fazia alguma piadinha. Guilherme Pereira, o repórter, foi muito tímido durante todo o fim de semana e tratou Becker com incontida reverência, como se ela fosse uma personalidade da categoria — é sua colega de trabalho, não uma autoridade suprapartidária.
A Globo errou feio em não mandar narrador e comentarista ex-piloto para a Austrália na primeira corrida do ano. Do Sportv também não foi ninguém. A emissora preferiu gastar dinheiro exibindo sua capacidade tecnológica num estúdio virtual com uma maquete fajuta de carro, daquelas que milionários presos em escândalos financeiros penduram na parede de suas mansões cafonas em condomínios idem. Temos visto vários, recentemente. Tratei disso na minha newsletter outro dia.
Everaldo Marques, o locutor, conhece o assunto — começou no Grande Prêmio — e tem o saudável hábito de se preparar para os eventos que vai narrar. Já dividi transmissões com ele (nas finadas Jovem Pan e Estadão-ESPN), e gostar de seu estilo ou não é questão… de gosto. Não cometeu erros, mas abusou das tentativas de ser engraçadinho com bordões que aplica em transmissões de outros esportes, além de usar uma linguagem excessivamente infanto-juvenil para parecer íntimo dos “xóvens”, como se quisesse verbalizar “memes” (uso as aspas porque considero o termo abominável) que pipocam nas redes sociais. Não sei se é orientação da chefia ou se acabou virando uma marca pessoal, já que percebo isso em outras narrações. Muitos diminutivos, turbinho, amiguinho, macarrãozinho. Muito apelidinho (“Gui”, “Mari”, “Lu”, essa coisa horrenda que paulistano tem de transformar qualquer nome num monossílabo, ou quase). “Inho” demais.
Para piorar, as entradas da dupla Pereira-Becker antes da largada foram gravadas e levadas ao ar como se fossem ao vivo — é o que chamamos de “falso vivo” no jargão televisivo. Ruim, bem ruim. E zero de informação relevante. A informação era “eles estão no grid”. Oh. Não chega a ser uma grande proeza passear no grid. E não perceberam que o companheiro de Bortoleto, Nico Hülkenberg, não ia largar.
E é óbvio que enfiaram Senna na transmissão. Começaram a própria com o enjoativo “Tema da Vitória”. Depois lembraram que foi na Austrália que ele ganhou sua última corrida — nesse caso, informação pertinente. Na programação normal do canal, dias antes, o apresentador Fred Bruno, do “Fred Esporte” (o programa é só sobre ele, é ele jogando bola, ele com o filho no estádio, ele andando de skate, ele tentando se equilibrar em patins), entrevistou Marques. Usava, evidentemente, uma camiseta do Senninha, com seu linguajar infantilizado e pueril. Everaldo disse que quando vê um capacete amarelo como o de Norris, seu coração bate mais forte porque lembra “nosso Ayrton”.
Puta que pariu, que porre.
Bom, está visto. Voltarei à F1TV, que é onde assisti à maioria das corridas nos últimos anos. Gosto das transmissões em inglês, pratico o idioma e fico mais bem informado. Para dar risada, vejo em italiano. Além do mais, a emissora não vai mostrar o GP da China ao vivo. Algo inexplicável. O que vai passar às quatro da manhã de domingo na Globo semana que vem? Missa? Culto? Videoteipe de novela?
Achei tudo muito ruim, com sinceridade. Na Band também era. Cada uma com seu estilo de ruindade.
A FRASE DE MELBOURNE
“O melhor carro de todos é a Ferrari. A velocidade em curva deles é impressionante.”
Lando Norris


Se é, como diz Norris, não sei. Mas que foi bem, foi. Se tivessem parado os dois carros no primeiro safety-car virtual, é possível que a Ferrari tivesse lutado pela vitória nessa corrida. Foi uma daquelas bobeadas típicas do time italiano, que mesmo assim saiu animadinho de Melbourne. Charles Leclerc e Hamilton chegaram em terceiro e quarto a cerca de 15s do vencedor Russell. Que disse a Charlinho: “Cara, vocês estavam rápidos!”. O monegasco fez um muxoxo e citou o domínio rival na classificação. George não se deu por vencido: “Mas vocês estavam bem rápidos mesmo!”, e Leclerc acabou assentindo.
Como se esperava, a Ferrari tem um sistema de largada melhor que os outros. Vai levar muita vantagem nisso nas primeiras provas, até todo mundo encontar soluções compatíveis com a necessidade de combinar a ação do turbo com os motores elétricos nos primeiros metros depois de as luzes vermelhas se apagarem.
Hamilton gostou do carro. Está visivelmente mais animado. Terá uma temporada bem melhor que a do ano passado.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da Haas, que com o sétimo lugar de Oliver Bearman foi a melhor dos outros — atrás apenas das quatro grandes. E hoje vamos abrir uma exceção para dar mais dois “gostamos”. Primeiro à Cadillac. Sim, porque não é fácil montar uma equipe de F-1 e construir um carro em um ano, menos ainda nesta F-1 sofisticadíssima, dificílima, complicadérrima. E os carros ficaram prontos, e andaram nos testes, e quebraram pouco, e foram para o grid, e um deles terminou a corrida, o de Sergio Pérez. Estão de parabéns. E o outro é para a Audi de Gabriel Bortoleto, que levou o time aos pontos em seu primeiro GP ostentando as quatro argolas. A última estreia de equipe com pontos tinha sido a da Aston Martin, com o décimo lugar de Lance Stroll no GP do Bahrein de 2021. O time sucedera a Racing Point, assim como a Audi sucede a Sauber.




NÃO GOSTAMOS… da Williams, que acabou sendo a grande decepção de Melbourne, levando em conta que eram sabidas as dificuldades que teriam Aston Martin, em crise, e Cadillac, que saiu do zero absoluto. A equipe atrasou tudo neste ano, não fez o shakedown de Barcelona, apareceu com carros 30 kg acima do peso nos testes do Bahrein e teve infinitos problemas nos treinos. Sainz chegou ao final duas voltas atrás do líder. Albon, uma. Num GP em que oito equipes pontuaram, a quinta colocada do ano passado zerou.














































