Flavio Gomes sexta-feira, 27 de março de 2026 4:45 6 comentários
Piastri: McLaren dá sinal de vida
SÃO PAULO(sem sal) – O primeiro dia de atividades para o GP do Japão, em Suzuka, teve como novidade o bom desempenho da McLaren, que nem chegou a largar no GP da China, duas semanas atrás, com problemas nas baterias de seus dois carros. O time papaia conseguiu se meter entre a Mercedes e a Ferrari, que dominaram as duas primeiras etapas do ano. Oscar Piastri fez o melhor tempo da sexta-feira, com 1min30s133.
“Bom desempenho” talvez seja um tanto exagerado, considerando que o campeão mundial Lando Norris, companheiro de Piastri, passou, no segundo treino livre, mais tempo nos boxes do que na pista. Problemas hidráulicos, segundo as primeiras informações. Ficou em quarto, de qualquer forma, mostrando algum desempenho. Mas a equipe morre de medo de quebrar alguma coisa amanhã ou domingo. Seus carros não são confiáveis.
Mas, neste momento, quais são?
McLaren, Mercedes, Ferrari, Williams, Haas e Red Bull
A Mercedes ficou com segundo e terceiro lugares, pela ordem: Kimi Antonelli a 0s092 de Oscar, George Russell a 0s205. Em quinto e sexto se colocaram os moços da Ferrari, Charles Leclerc e Lewis Hamilton. Gabriel Bortoleto, da Audi, só conseguiu ir para a pista nos últimos dez minutos da sessão. A equipe teve de trocar o câmbio de seu carro, problema que manteve o brasileiro quase o tempo todo na garagem. Mas o outro carro foi bem, com Nico Hülkenberg em sétimo – o “melhor dos outros”, expressão usada desde os tempos das corridas de bigas para designar aquele que lidera o segundo escalão.
Bortoleto sai dos boxes: pouco tempo de pista
Foram duas sessões de treinos realizadas com sol e temperaturas na casa dos 17°C na histórica pista japonesa, que teve lances de arquibancadas completamente vazios. Muitos tiveram dificuldades ao longo do dia, ainda consequência do noviciado no trato com os modelos de 2026 e suas particularidades elétricas. Além de Bortoleto e Norris, também passaram um bom tempo sem capacete pilotos como Sergio Pérez, da Cadillac, e Arvid Lindblad, da Com Essa Taxa Prefiro Pix – este nem andou no segundo treino.
Os carros voltam à pista na noite de hoje, 23h30 pelo horário de Brasília, para o terceiro treino livre. Na madrugada de sábado, às 3h, sai o grid de largada para o GP do Japão, terceira etapa do campeonato.
Não há previsão de chuva para o fim de semana.
Os tempos e a torcida: sexta em Suzuka
TREINO 1 – Para os registros arqueológicos, Russell foi o mais rápido no primeiro treino livre, com 1min31s666. Antonelli ficou em segundo, 0s026 atrás. Norris, Piastri, Leclerc e Hamilton fecharam os seis primeiros, e a diferença de Lewis para seu Jorge não chegou a 0s4. Verstappen, o sétimo, ficou a 0s791 do líder. Bortoleto foi o 11º.
CENSURA – Na véspera, também para os registros, Verstappen expulsou de uma coletiva da Red Bull um jornalista inglês do “The Guardian”. Foi o mesmo que, no ano passado, lhe fez pergunta mais do que pertinente sobre os pontos perdidos por uma punição em Barcelona – não fosse aquilo, talvez ele pudesse ter sido campeão, já que terminou apenas dois pontos atrás de Norris. A atitude ridícula não teve resposta à altura da imprensa. O certo seria todos se levantarem e saírem da sala, em solidariedade. Mas só o coitado do repórter do “Guardian” se retirou, para não arrumar confusão.
SÓ NA CLASSIFICAÇÃO – A FIA mudou a configuração dos motores para a classificação para evitar uma queda muito brusca de velocidade na hora do tal do “superclipping” – quando a bateria acaba, o piloto fica com o pé no fundo do acelerador e o motor a combustão desvia potência para a bateria, funcionando como um gerador, para carregá-la de novo. A entrega de energia foi reduzida de 9 para 8 megajoules. Isso fará com que o tempo de “superclipping” caia de dez para quatro segundos por volta. Os tempos devem subir, mas as voltas serão menos afetadas por corte de potência resultante do consumo de bateria nas retas.
Flavio Gomes sexta-feira, 27 de março de 2026 2:17 Nenhum Comentário
SÃO PAULO(café) – Já que o único assunto hoje é motor elétrico, leiam a excepcional reportagem de Jason Vôngoli sobre o Itaipu, o elétrico da Gurgel. Prestem atenção especialmente nos primeiros parágrafos, se a tentação foi dizer que a empresa brasileira foi boicotada pelos governos da época. É conversa para boi dormir.
Flavio Gomes sexta-feira, 20 de março de 2026 14:33 29 comentários
Wheatley e os “motivos pessoais”
SÃO PAULO(ah, o dinheiro…) – Os dois comunicados hoje pingaram na caixa postal mais ou menos na mesma hora. A Audi informando que Jonathan Wheatley, depois de 354 dias no cargo (antes como Sauber), deixa a equipe “por motivos pessoais”. A Aston Martin, em texto assinado pelo dono, Lawrence Stroll, garantindo que são “especulações” as histórias dando conta de que Adrian Newey vai deixar de ser chefe de equipe — função assumida há poucos meses — para ficar só à frente das questões ligadas ao projeto do carro.
Ambos mentem. Os motivos pessoais de Wheatley se chamam Aston e Martin. E Newey vai, sim, ficar só com as pranchetas, ainda que o time negue de pés juntos e não mude seu status interno para não ter de mandar imprimir novos cartões de visita.
Agora é só esperar para saber qual o período de quarentena de Wheatley, um ex-mecânico da Red Bull que ascendeu na equipe e comandou as operações de pista durante o período mais fértil de Max Verstappen.
O pessoal de Ingolstadt deve estar bem puto com ele. Mattia Binotto vai acumular funções, agora, até que um novo chefe seja contratado. Se é que vão achar alguém. Eu telefonaria para Otmar Szafnauer, ex-Alpine, Force India e Aston Martin. É um cara experiente que poderia assumir o cargo de imediato, sem grandes traumas. Na Alpine, sua passagem foi turbulenta — foi sob sua gestão que Oscar Piastri foi contratado e descontratado. Mas, aparentemente, os problemas na época foram causados por outras gestões e ele pegou o bonde andando. Um bonde meio trôpego, diga-se. Mas talvez a Audi vá atrás de nomes novos, alguém mais de engenharia, mesmo, de colocar a mão na massa tecnicamente, deixando nas mãos de Binotto o ônus de gerenciar pessoas. Foi o que a Red Bull fez quando mandou Christian Horner embora e trouxe Laurent Mekies.
Flavio Gomes quinta-feira, 19 de março de 2026 22:36 9 comentários
SÃO PAULO(belezuras) – Esses novos milionários que vêm surgindo como “influencers” ou banqueiros, modelo Vorcaro, amam F-1. Toda hora que um vai para a cadeia a imprensa mostra suas garagens, e sempre aparecem réplicas de carros de corrida penduradas na parede. Às vezes colocam na sala. Invariavelmente, modelos pilotados um dia por Ayrton Senna. Poderiam fazer algo que preste com seu dinheiro fácil e trazer esses dois carros de verdade para o Brasil — irão a leilão nos próximos dias. Depois de confiscados, que é o destino do patrimônio dessa gente cafona, poderiam ser encaminhados ao museu do Paulo Trevisan. Aí estariam em boas mãos.
Para quem quiser dar um lance, o link da Toleman pode ser acessado por aqui e o da Lotus, aqui.
Flavio Gomes quinta-feira, 19 de março de 2026 19:36 6 comentários
Foto Betoissaphotos / Moto GP Brazil 2026
Diogo Moreira mostrou o capacete que vai usar em Goiânia na etapa brasileira da MotoGP. Homenagem, claro, a Ayrton Senna. Que, justiça seja feita, gostava de motos. A categoria volta à cidade depois de 37 anos — recebeu etapas do Mundial em 1987/88/89. Em 1992, a sede foi Interlagos. E de 1995 a 2004, Jacarepaguá.
Flavio Gomes terça-feira, 17 de março de 2026 15:15 39 comentários
A IMAGEM DA CORRIDA
Piastri voltando para os boxes, Norris inconformado: não é normal
SÃO PAULO (outrista) – Daqui a alguns anos, Kimi Antonelli vai encontrar este texto e, com razão, ficará muito bravo. Pô, ganhei minha primeira corrida e o cara diz que a imagem do fim de semana é o fiasco da McLaren?
Scusa, Kimi. Mas você há de entender. Naqueles tempos, 2026, muito se discutia sobre o novo regulamento da F-1. Esse no qual você surfou por anos, conquistando vários títulos. É que não fazia nenhum sentido um conjunto de normas técnicas tão problemáticas. A ponto de deixar nos boxes os dois carros da equipe bicampeã mundial de construtores e campeã mundial de pilotos.
Além de Oscar Piastri, retirado do grid, e Lando Norris, cujo carro não pôde ser ligado, mais dois desistiram do GP da China antes da largada: Gabriel Bortoleto, da Audi, e Alexander Albon, da Williams. E outros três ficaram pelo meio do caminho por genéricos “problemas técnicos” — ou desistência pura e simples. Max Verstappen, da Red Bull, parou com superaquecimento em componentes elétricos. Lance Stroll, da Aston Martin, estancou do nada quando seu motor apagou. E Fernando Alonso, seu companheiro, abandonou porque o motor Honda vibrava tanto que ele não conseguia segurar o volante. Deixou a prova, como disse, sem sentir as mãos.
Não, Kimi, não fazia nenhum sentido. Não era normal. De qualquer forma, parabéns pela vitória.
Alonso, Verstappen e Stroll: tudo muito errado
A FRASE DE XANGAI
“Alguns dirão que é ótimo, porque estão ganhando. E é justo. Se você tem uma vantagem, por que vai abrir mão dela? Nunca se sabe quando vai ter um carro bom de novo. Não sou burro, entendo. Mas se conversar com os pilotos, vão perceber que a maioria não está gostando. Talvez alguns fãs gostem. Mas esses não entendem nada de automobilismo.”
Max Verstappen
O que disse o holandês resume bem a situação deste início de temporada. “Essas novas regras vão acabar se voltando contra a F-1”, previu o tetracampeão mundial.
Entre os que estão gostando, óbvio, incluem-se as duplas da Mercedes e Lewis Hamilton, da Ferrari. Seu companheiro Charles Leclerc não parece ser um grande entusiasta. “Os carros são divertidos”, limita-se a dizer o monegasco, sem se aprofundar muito no tema.
Hamilton (à frente) está curtindo; Leclerc acha “divertido”
Hamilton conseguiu, finalmente, seu primeiro pódio pela Ferrari. Elogia tudo porque, para ele, qualquer coisa seria melhor que a última geração de carros da F-1, com a qual nunca se entendeu. Ainda acha, porém, que sua equipe está muito longe da Mercedes. De fato. O inglês chegou 25s atrás de Antonelli, o vencedor. Leclerc, depois de algumas voltas batendo roda com o companheiro, disse ter ficado feliz com o pódio do #44. “Ele mereceu”, falou.
Agora vamos ao menino-prodígio.
Piloto do dia, 116º vencedor da F-1, abraço de Lewis, festa e lágrimas
Antonelli é muito bom. Se a Mercedes engatar alguns anos de domínio, tende a ser campeão em pouco tempo. Não nesta temporada, porém. George Russell é tão bom quanto, experiente, inteligente, um piloto preparado para conquistar um título quando a oportunidade se lhe oferecer.
É o caso de 2026. Até as outras equipes alcançarem a Mercedes, vai demorar. Isso se alcançarem. Lembremo-nos que quando começou a era híbrida, em 2014, a situação era parecida e só foram conseguir derrotar os prateados em 2021 — com Verstappen, e daquele jeito; entre as equipes, foram oito taças seguidas.
Kimi tornou-se o primeiro piloto italiano a vencer um GP desde Giancarlo Fisichella na Malásia/2006, de Renault. Fisico também tinha sido o último pole italiano, no GP da Bélgica de 2009 com a Force India. Com 19 anos e uns quebrados, Antonelli é o segundo mais jovem vencedor da história — Verstappen ganhou na Espanha em 2016 aos 18 anos. A lista de vencedores de GPs da F-1 agora tem 116 nomes. E foi com “hat trick”: pole, vitória e melhor volta.
A nota cômica foi ele ter sido chamado de “Kimi Raikkonen” pelo cara que anuncia os pilotos no pódio. Antonelli fez a única coisa que poderia fazer naquela situação: deu risada.
Classificações depois de duas etapas: Mercedes disparando
Como foi uma corrida com muitos abandonos, e três deles de pilotos que normalmente chegariam nos pontos, quem pôde aproveitou. Foram os casos de Oliver Bearman, Pierre Gasly, Liam Lawson, Carlos Sainz e Franco Colapinto. Não se sabe quando alguns deles terão essa chance de novo — mormente Sainz e Colapinto. O espanhol operou um pequeno milagre, já que a Williams tem um início de temporada deprimente. O argentino fez sua melhor corrida na F-1. Chegou a andar em segundo. Foi tocado por Esteban Ocon, rodou, voltou e pontuou.
Ocon pediu desculpas, que foram aceitas. Mas os selvagens das redes sociais na Argentina partiram para o massacre virtual sobre o francês, sua família e sua equipe. Uns idiotas. Franco teve de pedir para pararem.
Sainz, Ocon e Colapinto: milagre e ataques digitais
O NÚMERO DA CHINA
12
…pontos tem a Red Bull em duas corridas, seu pior início de temporada desde 2015 — quando tinha 11 pontos depois das duas primeiras etapas do Mundial. A equipe está em quinto no campeonato. Atrás da Haas.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… do quinto lugar de Bearman, o “melhor dos outros”. Logo no começo quase bateu em Isack Hadjar, que rodou à sua frente, mostrando um reflexo formidável. Já tinha terminado a Sprint na zona dos pontos, em oitavo. É um nome que a Ferrari, que o formou, olha com enorme atenção para o futuro.
Ollie: ótimo fim de semanaAudi: de novo com um carro só
NÃO GOSTAMOS… da Audi, que pela segunda corrida seguida tem apenas um carro na pista. Na Austrália, foi Nico Hülkenberg que não conseguiu largar. Na China, a vítima foi Gabriel Bortoleto. O time foi muito elogiado pela confiabilidade de seu equipamento na pré-temporada. Mas, na hora H, está falhando. E era corrida para pontuar. Até a Williams conseguiu.
Flavio Gomes domingo, 15 de março de 2026 7:58 82 comentários
Antonelli com seu troféu: segundo mais jovem a vencer um GP
SÃO PAULO(esse menino…) – Andrea Kimi Antonelli, 19, tornou-se hoje na China o 116º piloto a vencer uma corrida na F-1. É o segundo mais jovem a conseguir a proeza — só perde para Max Verstappen, que ganhou o GP da Espanha de 2016 aos 18 anos de idade. Ontem, em Xangai, o italiano já havia inscrito seu nome na história da categoria como o mais jovem a obter uma pole-position. George Russell, seu companheiro de equipe, foi o segundo colocado na corrida. Lewis Hamilton, da Ferrari, terminou a prova na terceira colocação, subindo ao pódio pela primeira vez com o macacão vermelho da equipe italiana.
A Mercedes está invicta neste início de temporada. Fez a primeira fila e conseguiu a dobradinha na abertura do campeonato, na Austrália. Na China, também fechou a primeira fila para a Sprint, na sexta, e para o GP, no sábado. Ganhou a minicorrida com Russell (Antonelli terminou em quinto porque recebeu uma punição) e, na prova principal, repetiu o 1-2 de Melbourne, só que com seus pilotos em posições invertidas. Russell lidera o Mundial com 51 pontos. Antonelli tem 47. Charles Leclerc e Hamilton vêm a seguir com 34 e 33. Lando Norris, da McLaren, é o sexto com 15. Ele não participou do GP da China, assim como seu companheiro Oscar Piastri e mais dois – Alexander Albon, da Williams, e Gabriel Bortoleto, da Audi. Com exceção de Albon, todos tiveram genéricos “problemas elétricos” antes da largada (veja mais detalhes nas caixinhas ao final do texto).
Aconteceu bastante coisa na terra do frango xadrez e do pato laqueado. Vamos ver se anotei tudo.
Mercedes e Ferrari: equipes dominaram GP em Xangai
Num domingo nublado e cinzento, bem diferente da véspera, que teve sol e céu azul, os termômetros de Xangai marcavam 15°C quando as luzes vermelhas se apagaram, dando início à primeira das 56 voltas da segunda etapa do campeonato de 2026. A Ferrari saltou na frente com Hamilton, como se esperava, e Leclerc também atacou a dupla da Mercedes, como se esperava, nos primeiros metros. Max Verstappen largou muito mal, como se esperava, e despencou para o fundo do pelotão. Isack Hadjar rodou e foi chamado para os boxes. Sergio Pérez e Valtteri Bottas, no rabo da cobra com os carros da Cadillac, se tocaram lutando pela 35ª posição. Foi tudo meio caótico, mas todos sobreviveram.
Na segunda volta, Antonelli recuperou a liderança, também como se esperava. Pierre Gasly, em quinto, e Franco Colapinto, em sexto, foram os grandes nomes do começo da prova, com partidas seguras, arrojadas e promissoras. Na quarta volta, Russell, que também tinha perdido posições na largada para a Ferrari, como se esperava, foi para cima de Hamilton. Passou, como se esperava. E a Mercedes, mais rapidamente do que se esperava, se posicionou em primeiro e segundo já na quinta volta, deixando Hamilton e Leclerc em terceiro e quarto.
Nas primeiras voltas, a transmissão da TV se concentrou em Verstappen, que tinha largado com pneus macios, assim como seu companheiro Hadjar. Ele tinha começado uma recuperação interessante, e na oitava volta já era o décimo colocado. Sua borracha, no entanto, estava num estado lastimável. Na volta 10, ele e Liam Lawson pararam para trocar pneus. Max colocou um jogo de duros, como já fizera Hadjar após a rodada da primeira volta.
O abraço de Toto Wolff: 116º vencedor da história
Mal saíram dos boxes, Max e Lawson se depararam com um cágado verde sobre rodas parado na curva 1. Era o Aston Martin de Lance Stroll. O safety-car foi acionado para que o serviço de limpeza pública de Xangai removesse o lixo da pista. As duplas de Mercedes e Ferrari aproveitaram para trocar pneus. Gasly, que era o quinto, fez o mesmo. Colapinto, o sexto, ficou na pista, porque tinha largado com pneus duros. Antonelli voltou dos boxes em primeiro, com o argentino em segundo. Em Buenos Aires ouviram-se fogos. Esteban Ocon, da Haas, era o terceiro – outro que não havia parado, também por ter largado com pneus duros.
O safety-car recolheu-se à sua insignificância no fim da volta 13. Antonelli, Colapinto, Ocon, Russell, Hamilton, Arvid Lindblad, Leclerc, Nico Hülkenberg, Gasly e Oliver Bearman eram os dez primeiros. Para Kimi, ótimo: entre ele e aqueles que poderiam incomodá-lo tinha bastante gente.
Na relargada, Hamilton passou Russell e, depois, Ocon. Na sequência, partiu para o ataque sobre Colapinto. A Mercedes não desgarrou e Russell, mais para trás, começou a reclamar dos pneus duros. “Vejam bem, a consistência desta borracha é notavelmente notável, eu até teria em meu carro de rua, dada sua durabilidade. Mas no caso do evento do qual estamos participando, visto que as temperaturas são baixas e o asfalto me parece gélido, creio que terei alguns maus momentos nas voltas vindouras”, disse, pelo rádio. “Que foi que ele falou?”, perguntou Toto Wolff ao engenheiro. “Que está uma merda”, resumiu o rapaz.
Ferrari x Ferrari: arrepios no cemitério de Modena
Lewis passou o carro da Alpine na volta 14 e foi para cima de Antonelli para tentar a liderança. A Ferrari, diferentemente da dupla do time alemão, cresceu com os pneus duros – ao menos nas primeiras voltas após a parada. Mas faltava velocidade nas retas aos carros vermelhos. Lewis pedia “mais bateria” ao seu engenheiro, de quem ainda não sabe o nome. “De quantos amperes?”, perguntou o funcionário escalado para falar com o inglês no rádio. “Sei lá, o máximo possível!”, impacientou-se o heptacampeão mundial. “Positivo do lado direito ou esquerdo?”, prosseguiu o engenheiro, para não fazer nenhuma besteira. “Qualquer lado, qualquer coisa!”, rebateu o piloto, irritado. O técnico não se abalou: “Base de troca?”. Hamilton, então, desistiu de pedir bateria.
Os pneus duros da Mercedes ganharam temperatura e se estabilizaram. Briga boa, mesmo, acontecia entre o quinto e o nono colocados, a saber: Bearman, Colapinto, Verstappen, Ocon e Gasly. Isso na volta 22. Todos andavam muito próximos, trocando de posições freneticamente e maldizendo as baterias que acabavam e depois eram recarregadas. Bem à frente deles, Antonelli, Hamilton, Leclerc e Russell dominavam a prova. Na volta 23, Chaleclé se aproximou do companheiro e seu Jorge veio junto. Antonelli, já mais tranquilo, começou a abrir um pouco.
O monegasco assumiu a segunda posição na volta 24, mas Lewis tentou recuperá-la imediatamente. Os dois quase bateram rodas. No túmulo do cemitério de San Cataldo, em Modena, Enzo Ferrari se revirava, incomodado com a situação periclitante. “Piloti, che gente…”, resmungou. Nessas, enquanto a dupla ferrarista se estapeava flertando com a tragédia, Kimi foi-se distanciando. Na volta 27, já tinha mais de 5s de vantagem sobre o segundo colocado. Que, no caso, voltara a ser Hamilton. A putaria entre os dois representantes de Maranello acabou na volta 28, quando Russell passou Lewis – que já tinha sido ultrapassado novamente pelo parceiro. O líder do campeonato assumiu a terceira posição, para colocar ordem na casa e buscar a dobradinha da Mercedes – como se esperava.
Início de prova, Antonelli e Russell em primeiro e segundo
Leclerc não resistiu muito à superioridade do carro alemão. Uma volta, só. No fim da gigantesca reta do circuito chinês, seu Jorge fez a ultrapassagem e se colocou em segundo. Kimi estava mais de 7s à frente. Exatamente na metade da prova, a Mercedes se livrou de quem lhe aborrecia.
Com 31 voltas, Antonelli, Russell, Leclerc, Hamilton, Bearman, Verstappen, Gasly, Colapinto, Hülkenberg e Lawson eram os dez primeiros. Desses, Colapinto e Hulk não tinham trocado pneus, ainda. Franco parou na 33ª, mas quando saiu dos boxes foi abalroado por Ocon. Os dois seguiram na prova. O francês da Haas assumiu a culpa pelo rádio e tomou um pênalti de 10s pelo incidente.
Na volta 36, Hamilton passou Leclerc de novo e o cabaré ferrarista recomeçou. Antonelli e Russell já haviam desaparecido do campo de visão dos dois. A briga valia a terceira posição – algo que Lewis desejava muito, já que passara a temporada de 2025 inteira sem levar nenhum troféu para casa, só uma medalhinha mequetrefe da Sprint da China, que nem sabia onde tinha guardado. Eles continuaram trocando posições, deixando extáticos e boquiabertos aqueles que vibram com qualquer coisa que pareça espetacular, mesmo que não seja. A exibição da dupla, como entretenimento, era até divertida. Do ponto de vista técnico e esportivo, não tinha nenhum significado. O que determinava o troca-troca era a energia disponível nas baterias de cada um. Tem mais, passa. Tem menos, toma. Volta a carregar, repassa. Cai o nível de novo, leva. É tipo um jogo de futebol sem goleiros. Sai um monte de gol. E daí?
Na volta 46, Verstappen, que estava em sexto, recebeu um telefonema da Red Bull. “Bonitão, vamos recolher o carro”, informou seu engenheiro, assertivo. Max adorou a ideia. Ele estava havia 500 voltas atrás de Bearman, sem conseguir ultrapassar o inglês da Haas. Seu motor perdeu potência de repente e a equipe percebeu que Inês era morta. Mesmo sem se importar muito com os motivos, o holandês perguntou: “O que aconteceu?” “Inês morreu”, respondeu o interlocutor. “Quem é Inês?”, seguiu Max, agora um pouco mais curioso. Seguiu-se um silêncio melancólico na comunicação. “Morreu de quê?”
Lá na frente, Antonelli fazia uma corrida exemplar, cravando voltas mais rápidas em sequência e mantendo Russell a uma distância mais do que segura. Hamilton, em terceiro, conseguiu uma boa folga em relação a Leclerc, que cansou daquela suruba caseira, tirou o pé e se conformou com o quarto lugar. Bearman, Gasly, Lawson, Hadjar, Carlos Sainz e Colapinto fechavam o grupo dos dez primeiros na volta 50, a seis do final. Os dois últimos dessa turma mal acreditavam que estavam nos pontos.
Bearman, Gasly, Colapinto e Sainz: pontos e ótimas atuações
Na volta 54, Kimi deu um susto em sua mãe, dona Veronica, ao fritar os pneus e escapar da pista no fim da reta mastodôntica do circuito chinês. Perdeu 2s na quase-desgraça, mas sua distância para Russell era grande o bastante para que a leve bobeada não tivesse nenhuma consequência. Se aprumou e foi embora. E os dez primeiros se mantiveram inalterados até o final.
Kimi ganhou com 5s5 de vantagem para seu companheiro. Hamilton, finalmente, chegou ao pódio com a Ferrari. Terminou mais de 25s atrás do italianinho, porém. Obviamente não tem carro para brigar por vitórias, ainda. Ou seja, a Mercedes vai continuar dominando a bagaça. Vou te dizer que no Japão vão ganhar de novo. Leclerc acabou em quarto. Bearman e Gasly, quinto e sexto, foram espetaculares. Lawson e Hadjar não tinham muito do que reclamar. Sainz e Colapinto, os dois últimos na zona de pontos, não continham a alegria. O espanhol, pelo milagre operado. O hermano, por tirar o lacre defendendo a equipe francesa. Nunca tinha pontuado com a Alpine.
Os dez primeiros, os 20 anos entre as vitórias de Fisico e Kimi e o pódio
Ao estacionar o carro na reta dos boxes, diante do público na arquibancada, Antonelli tinha os olhos cheios de lágrimas adolescentes. Saiu do cockpit e correu para abraçar todo mundo na Mercedes. Recebeu um afago carinhoso de Hamilton. Chorou na entrevista para David Coulthard, ainda na área de box.
Mas no pódio, logo depois, Kimi era só sorrisos. Não só ele. Foi uma cerimônia de premiação genuinamente leve e feliz. Russell, que poderia estar contrariado por ser batido por um menino que ainda brinca de Playmobil, saía da China na liderança do campeonato, apesar do segundo lugar. E sabe que o favoritismo ao título lhe pertence — pela experiência, liderança interna e talento, claro. Hamilton não aguentava mais fazer cara de derrotado na Ferrari. Vimos novamente seus olhos brilhando, o que não acontecia desde tempos imemoriáveis. E Peter Bonnington, o engenheiro de Antonelli, foi receber a taça em nome da Mercedes junto do novo pupilo e do ex, Lewis, com quem trabalhou no time tedesco desde a era paleozoica.
Um piloto italiano não vencia um GP de F-1 há exatos 20 anos, desde 19 de março de 2006. Na ocasião, Giancarlo Fisichella ganhou a corrida da Malásia pela Renault, com Fernando Alonso em segundo.
Naquele dia, Andrea Kimi Antonelli ainda estava na barriga de dona Veronica.
Bortoleto levado para os boxes (esq.) e “junta médica” na McLaren
“POBREMAS” – Quatro pilotos não conseguiram alinhar para a largada em Xangai: Alexander Albon, Lando Norris, Oscar Piastri e Gabriel Bortoleto. O tailandês da Williams teve problemas hidráulicos quando ia para o grid, voltou aos boxes e de lá não saiu. Os outros três ficaram fora da corrida por questões diversas. No caso do brasileiro, ele também já estava a caminho do grid quando houve uma pane parecida com a de Hülkenberg na Austrália. A Audi, porém, não revelou qual foi o piripaque. Já o campeão mundial nem conseguiu tirar seu carro da garagem. E seu companheiro australiano foi puxado para os boxes quando já estava posicionado para o início da prova. “Problemas elétricos nos motores”, informou a McLaren, sem especificar o que exatamente abateu seus carros. O time disse apenas que cada um enfrentou um defeito — donde é lídimo concluir que foram, pois, pepinos motorísticos distintos. Norris e Piastri deveriam largar da terceira fila do grid. O início de temporada papaia é lamentável.
DESFALQUES – Até agora, em duas corridas, a F-1 não conseguiu juntar seus 22 pilotos no grid. Na Austrália, Piastri bateu quando levava o carro para o alinhamento e Hülkenberg teve uma pane antes de começar a prova. Na China, com as desistências de Bortoleto, Albon, Norris e Piastri, apenas 18 alinharam.
FIM DOS TEMPOS – Um Mickey e uma Minnie desfilaram junto com Stefano Domenicali no grid, antes da largada. A Disney tem negócios com a F-1, como se sabe. Mas não deixa de ser curioso ver ícones do colonialismo cultural dos EUA fazendo festa num país tratado pelo presidente americano como inimigo mortal. Para piorar, a silhueta do camundongo foi pintada em algumas zebras. Saudades de Mao…
Flavio Gomes sábado, 14 de março de 2026 22:27 8 comentários
SÃO PAULO(caldo de galinha) – Como se esperava, a FIA comunicou que os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita não serão realizados em abril, fazendo questão de enfatizar que essas corridas não serão substituídas por outras no próximo mês. Pode ser (isso o texto não diz, mas deixa em aberto, no tradicional estilo de redação dos comunicados da entidade) que elas sejam realizadas em outras datas, ou substituídas por outras em outros países. Mas em abril não teremos corrida nenhuma, essa é a notícia. O GP do Bahrein estava marcado para o dia 12 e o de Jedá para uma semana depois. A F-1, depois do GP do Japão (29 de março), só volta em maio, com a etapa de Miami.
E por que o cuidado para não dizer simplesmente que os GPs estão cancelados de forma definitiva? Porque há correntes internas na F-1 que estudam as possibilidades de substituição ou remarcação dessas etapas. Tais opções estão previstas nos bilionários contratos assinados com os promotores das provas, muitos deles associados a governos nacionais. Daí que a entidade está evitando usar o termo cancelamento para se referir à não realização das corridas nos dois países no mês de abril.
Remarcar as provas depende, claro, da evolução da guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. O Irã tem respondido aos ataques, e todos os países do Oriente Médio aliados dos americanos estão ameaçados por suas forças militares. Já houve bombardeios ao Bahrein e a alvos próximos da Arábia Saudita. Catar e Abu Dhabi também correm risco se o conflito se estender por meses. São as duas últimas etapas do campeonato, no final de novembro e no começo de dezembro. O mesmo vale para o Azerbaijão, que faz fronteira com o Irã, e tem sua corrida marcada para o fim de setembro.
Na prática, como não somos redatores ou advogados da FIA, podemos dizer que, neste momento, as duas provas foram canceladas. E, na base do achismo — e de alguma experiência –, também podemos dizer que dificilmente elas serão substituídas por outras na Europa.
Isso seria possível, por exemplo, trocando o período de recesso de agosto pelos dias livres de abril, abrindo datas no mês em que, tradicionalmente, as fábricas fecham e todos saem de férias. Certamente há quem defenda tal alternativa, já que a ganância é traço comum a muitos dos atores dessa trama. Duas corridas a menos são duas taxas de GPs que deixarão de ser pagas pelos promotores. Portanto menos dinheiro do butim distribuído para acionistas, equipes e entidades que organizam o campeonato.
Mas não creio que todo mundo aprove a ideia. Acho que a maioria aceita ganhar um pouco menos em troca de um mês livre para trabalhar com calma nas fábricas, já que quase todos têm tido problemas com os novos carros da categoria. E um descanso sem viagens seria bem-vindo depois de uma pré-temporada cansativa com três sessões coletivas na Espanha e no Bahrein.
Resumindo, acho que o Mundial ficará mesmo com 22 etapas. O que, convenhamos, já é bastante.
Flavio Gomes sábado, 14 de março de 2026 6:19 19 comentários
A discreta comemoração de Antonelli: primeira pole na F-1
SÃO PAULO(amanheceu) – Kimi Antonelli fez história hoje na China.
Detesto escrever “fez história”. É mais uma expressão banalizada pelas redes sociais e pela imprensa esportiva imberbe, que acha que qualquer coisa é “fazer história”. Sujeito pega um avião para cobrir um jogo da Libertadores no Paraguai e acha que está “fazendo história”. “Influencer” consegue uma palavrinha do João Fonseca no portão de Roland Garros e afirma, sem nenhuma falsa modéstia: “Fiz história”. Canal do YouTube transmite um jogo da série B em São Bernardo do Campo e informa a seus telespectadores: “Fizemos história”.
Mas Antonelli fez mesmo, porque se tornou o mais jovem pole-position da história da F-1. Que não é uma história que começou na semana passada, mas em 1950. E o italiano da Mercedes superou uma marca que já durava quase 18 anos, de Sebastian Vettel. O alemão detinha o recorde de mais jovem pole da categoria. Tinha 21 anos, 2 meses e 11 dias de vida bem vivida quando conseguiu a primeira posição no grid para o GP da Itália de 2008, em Monza. Defendia as cores da Toro Rosso. Ganhou a corrida.
Vettel em 2008, Kimi em 2026: precoces
Kimi tem, de acordo com números oficiais da F-1, 19 anos, 6 meses e 17 dias de vida bem vivida. Na próxima madrugada ocupará a posição de honra em Xangai, com chances reais de vencer pela primeira vez na categoria. A Mercedes segue invicta em grids em 2026. Fez a primeira fila na Austrália, colocou seus dois rapazes na frente na Sprint chinesa (vencida por George Russell na madrugada de hoje) e estará de novo com ambos liderando o pelotão na largada para as 56 voltas da corrida. Só que, desta vez, com inversão dos pilotos. Russell, que teve problemas no Q3, ficou com a segunda posição.
Ferrari e McLaren, cujas duplas ficaram com a segunda e a terceira filas, tentarão impedir a Mercedes de vencer a segunda corrida seguida (sem contar a Sprint, claro) nesta temporada. Não será fácil. O ritmo de prova dos carros alemães é muito bom. O time italiano, que terá Lewis Hamilton em terceiro e Charles Leclerc em quarto no grid, aposta tudo na largada. Deve saltar com ambos à frente de Antonelli e Russell, porque os carros vermelhos têm sistemas de largada mais eficientes que os demais. As primeiras voltas serão eletrizantes com várias trocas de posições em função dos diferentes níveis de bateria de cada carro – gestão de energia pra valer os pilotos só conseguem executar quando as coisas acalmam um pouco. Se ninguém bater nessas primeiras movimentações, que serão exaltadas por narradores, comentaristas e polianas de plantão, a tendência é que depois de oito ou dez voltas a situação se estabilize e, aí, a Mercedes passe a controlar o GP.
E vamos à classificação, para entender como Antonelli conseguiu a façanha de conquistar uma pole antes mesmo de prestar vestibular e de se alistar no Exército. Ou de fazer a barba sozinho com espuma Bozzano e gilete cega.
Hamilton, 3º no grid: Ferrari tentou incomodar
O sábado começou ensolarado em Xangai, com os termômetros batendo na casa dos 17°C, um clima mais amigável do que a friaca de ontem. No Q1, até a Mercedes entrar na pista, o melhor tempo era de Oscar Piastri, 1min33s990. Antonelli, então, virou 0s685 mais rápido. Russell, 0s728. Hamilton, logo depois, se aproximou um pouco e cronometrou sua primeira volta boa com um tempo apenas 0s260 pior que o do líder do campeonato. E, na sequência, Leclerc passou a régua em todo mundo e fez uma volta em 1min33s175, deixando Russell 0s087 atrás. Uma surpresa, até ali.
O Q1 não tinha muita importância porque o grupo dos seis eliminados já era conhecido: as duplas de Williams, Aston Martin e Cadillac, salvo alguma inesperada intercorrência dos demais. Que não houve. Pela ordem, ficaram pelo caminho Carlos Sainz, Alexander Albon, Fernando Alonso, Valtteri Bottas, Lance Stroll e Sergio Pérez.
Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull: todos no Q3
E Leclerc não foi o único a surpreender na primeira parte da classificação. Gabriel Bortoleto, por exemplo, terminou em sétimo. Franco Colapinto, em décimo. E Max Verstappen, em quarto.
A partir do Q2, aí sim, começaria algo que pudesse ser chamado de disputa. Teoricamente, as quatro grandes avançariam ao Q3. O resto brigaria pelas duas vagas restantes. Na primeira rodada de voltas rápidas, Russell voltou à ponta com 1min32s523. Hamilton era o segundo provisoriamente, a 0s311 do inglês da Mercedes. Naquele momento, já entrando na segunda metade do Q2, os dois convidados das quatro grandes para ficar entre os dez primeiros eram Oliver Bearman, em sexto, e Pierre Gasly, em oitavo. Bortoleto, com uma volta ruim, aparecia em último entre os que tentavam um lugar entre os dez primeiros.
Bortoleto erra e larga em 16º; Gasly é destaque em 7º
Mas Leclerc estava mesmo a fim de incomodar os favoritos da Mercedes. Na sua segunda volta rápida, superou o tempo de Russell em 0s037. Era uma disputa interessante. Antonelli deu o troco na sequência, batendo o tempo do monegasco por 0s043. Gabriel foi parar na brita na última curva, não fechou sua segunda volta e ficou onde estava na tabela, 16º. Junto com ele foram mais cedo para o chuveiro, a partir do 11º, Nico Hülkenberg, Colapinto, Esteban Ocon, Liam Lawson e Arvid Lindblad. Como previsto, avançaram as duplas de Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull. Com eles, Gasly e Bearman.
Invicto no ano até então, Russell disse pelo rádio que havia algo estranho em seu carro antes de começar o Q3. Pediu para trocarem a asa dianteira. A solicitação foi atendida. Boxes abertos, deu merda. O #63 empacou no meio da pista. George apertou todos os botões possíveis, evocou deuses e orixás e conseguiu fazer o automóvel funcionar, só que travado em apenas uma marcha. Logrou voltar aos boxes. Mas o nervosismo tomou conta de seu lado da garagem.
Russell empaca na pista, volta aos boxes e troca tudo no carro
Sobrou para Antonelli a tarefa de manter a fama de má da Mercedes. Em sua primeira tentativa de volta rápida, Kimi, o italianinho, cravou 1min32s322, tempo que seus rivais de Ferrari e McLaren não conseguiram bater. Nos boxes, o time alemão escarafunchava o carro de Russell por todos os poros, espetava cabos e mangueiras, trocava tudo que era possível – até um volante novo foi providenciado –, ligava e desligava, tirava da tomada e esperava dez segundos, jogava sal grosso, e nada de ele sair do lugar. A areia escorria pela ampulheta e os outros nove carros voltaram à pista para suas segundas tentativas de voltas voadoras. Quando faltavam 2min17s para o encerramento das atividades, finalmente seu Jorge foi à luta. Sem acertar nada, sem aquecer pneus, sem preparar volta. Jogaram o coitado na pista de qualquer jeito.
Kimi foi o primeiro a fechar volta rápida na segunda bateria de tentativas. Baixou bem sem tempo: 1min32s064. Hamilton e Leclerc, que ensaiaram uma ameaça à Mercedes nas fases anteriores da classificação, não conseguiram chegar perto dele. McLaren e Red Bull, menos ainda. Restava Russell, atormentado pelos perrengues inesperados que quase o deixaram sem carro. Completou uma volta mais ou menos e não superou o jovem companheiro: ficou 0s222 atrás. Foi o suficiente, porém, para garantir um lugarzinho na primeira fila.
O grid em Xangai: primeira fila da Mercedes
George perdeu a invencibilidade, mas a Mercedes, não. Fez 1-2 no grid, apesar dos imprevistos que atrapalharam o inglês. Na segunda fila, Ferrari: Hamilton em terceiro, Leclerc em quarto. Na terceira, McLaren com Piastri e Lando Norris. Gasly ficou com uma excepcional sétima posição, seguido por Verstappen, Isack Hadjar e Bearman. Max apareceu em oitavo, 0s938 atrás da pole. “Horrível, pavoroso, péssimo, horripilante, angustiante, hediondo, medonho, imprestável”, definiu o holandês.
O GP da China começa às 4h, horário da Papudinha. Se Antonelli vencer, não fará história. Essa, de ser o vencedor mais jovem de todos os tempos, já foi escrita por Verstappen em Barcelona/2016. Ganhou o GP da Espanha, em sua estreia pela Red Bull, com 18 anos 7 meses e 15 dias de vida bem vivida.
Kimi já passou do ponto nesse quesito. É quase um velho.
Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.”
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