O PEQUENO PESCADOR (2)

SÃO PAULO (o menino cresceu) – Andrea Kimi Antonelli larga na pole para o GP do Japão, em Suzuka. A Mercedes lacrou a primeira fila de novo, com George Russell em segundo. Nada de novo no front. Três corridas, três primeiras filas. Quatro, se formos contar a Sprint da China. Como a McLaren deu o ar da graça depois do fiasco de Xangai – nenhum dos dois pilotos largou –, o terceiro lugar no grid ficou com ela, cortesia de Oscar Piastri. Com ele divide a segunda fila o monegasco Charles Leclerc, da Ferrari. Gabriel Bortoleto fez uma boa classificação, avançou ao Q3 e parte da nona colocação com a flecha de prata da Audi.
A classificação para a prova de Suzuka aconteceu de novo com temperatura baixa, 16°C, e o sol foi embora, deixando o sábado nublado e cinzento. Teve boas surpresas entre os dez primeiros – além de Bortoleto, Pierre Gasly em sétimo, Isack Hadjar em oitavo e Arvid Lindblad em décimo. E uma grande decepção: Max Verstappen em 11º, sem conseguir levar a carroça da Red Bull ao Q3. O holandês está até agora maldizendo o novo regulamento da F-1, o projetista do seu carro e todos os descendentes de Henry Ford. Se pudesse, pegava um trem-bala em Nagoia, parava em Narita, entrava num 747 da JAL e sumia no mundo.
Ah, a mudança de regra para a classificação – redução da entrega de potência de 9 para 8 megajoules na hora de carregar as baterias – foi percebida por zero pessoa. E compreendida por menos gente ainda. Vamos à pista, agora.

“Muito tráfico”, diria um narrador com quem trabalhei em passado remoto. Foi assim o Q1, e sempre será, com 22 carros na pista, alguns deles muito lerdos por natureza — outros, mais ainda em suas voltas preparatórias para aquecer pneus e freios, modular a carga das baterias, regular o ar-condicionado e equalizar o som no Tojo.
Mas Q1, em 2026, não reserva muitas surpresas. O “tráfico” acaba não sendo decisivo. Só dá zebra se o sujeito não conseguir sair dos boxes, ou tiver dor de barriga antes de ir à pista. Isso porque Williams, Cadillac e Aston Martin são quase fixas na zona de eliminação. A Williams, porque fez um trabalho porco no novo carro e começou o ano com um lastro de 30 kg. É como se Carlos Sainz e Alexander Albon carregassem 15 garrafas de Dolly de dois litros dentro do cockpit. Peso em carro de corrida cobra um preço. No caso, faz andar devagar. A Cadillac porque é novinha, coitada. Tudo é mais difícil. E a Aston Martin porque quem desenhou o carro esqueceu de perguntar a quem faz o motor se ele é encaixado no chassi na frente ou atrás do câmbio.

Às vezes, porém, alguém se mete ali no meio e outro alguém faz um milagre. Hoje o milagre foi de Sainz, que passou ao Q2 com a Williams. E quem se juntou aos degradados foi Oliver Bearman, da Haas – surpreendente, tratando-se do quinto colocado no campeonato. A ordem dos eliminados, a partir do 17º, foi a seguinte: Albon, Bearman, Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Fernando Alonso e Lance Stroll. Nas primeiras posições, Leclerc com 1min29s915, Russell, Antonelli, Piastri, Lewis Hamilton e a valente dupla da Audi, com Nico Hülkenberg em sexto e Bortoleto em sétimo. É o melhor fim de semana quatrargólico na temporada, até agora, com presença constante de seus dois pilotos entre os mais rápidos.
O Q2 já era outra história. Três equipes não teriam problema algum para avançar – Mercedes, Ferrari e McLaren –, mas as outras precisariam lutar por décimos e centésimos de segundo. Qualquer deslize poderia ser fatal. Apesar do favoritismo, quem não repetia até ali o mesmo desempenho dos treinos livres era a Mercedes. “Veja bem”, entrou Russell no rádio. “Alguma coisa se passou com nossos carros. Não me parece natural esta perda de performance repentina. Havíamos começado tão bem o fim de semana! Quando chegava ao autódromo, hoje, as cerejeiras floridas me inspiraram tanto! Mas aquele clima de harmonia oriental em nossa garagem, de uma hora para outra, desapareceu. O que pode estar acontecendo?” Toto Wolff perguntou ao engenheiro do que George estava falando. “Das cerejeiras”, respondeu o funcionário da equipe.

No fim da segunda parte da classificação, porém, Antonelli deu um um clique no carro e fez o melhor tempo do fim de semana: 1min29s048. Leclerc foi o segundo e junto com eles se classificaram Piastri, Hamilton, Russell, Lando Norris, Gasly, Bortoleto, Hadjar e Lindblad. Ficaram fora Verstappen, Esteban Ocon, Hülkenberg, Liam Lawson, Franco Colapinto e Sainz.
Há, claro, que se observar uma ou outra coisinha aqui. A começar por Max. Vencedor e pole dos últimos quatro GPs do Japão, o holandês, que está odiando a vida, caiu no Q2. Hadjar, seu jovem companheiro franco-argelino, avançou. Hulk decepcionou, depois de andar lá na frente o tempo todo. Na hora em que precisava, espanou o parafuso. E Lindblad, 18 anos, estreante, que perdeu um treino inteiro ontem por problemas de câmbio e meteu tempo no metido Lawson, passando ao Q3 com autoridade. Além de Gasly, claro, de quem sempre falamos: anda mais que o carro e é subestimado; apenas um francesinho contra esse mundão todo.





Antonelli disse a que veio na primeira leva de voltas do Q3: 1min28s778, baixando ainda mais o melhor tempo do fim de semana nipônico. Russell, o das cerejeiras, bateu a ampulheta 0s298 atrás, em segundo. OK, era uma primeira fila provisória, mas a diferença entre os dois chamava a atenção. Piastri e Norris vinham atrás deles, com Leclerc e Hamilton na terceira fila temporariamente. A primeira volta de Bortoleto, com pneus usados, colocou o brasileiro em nono.
Bater Kimi seria difícil. Dificílimo. Complicadíssimo, eu diria. O menino, que ganhou sua primeira corrida há duas semanas, na China, já começa a incomodar seu Jorge. Que cometeu um erro em sua segunda volta rápida e ficou com o tempo da primeira. Na segunda saída de todo mundo, aliás, só Leclerc, Gasly e Bortoleto melhoraram seus tempos. Nem Antonelli superou Antonelli.

Kimi larga na pole pela segunda vez consecutiva. Piastri ficou em terceiro a 0s354 dele, seguido por Leclerc (diferença de 0s627), Norris (0s631), Hamilton (0s789), Gasly, Hadjar, Bortoleto e Lindblad.
Que bom que uma Ferrari ficou na segunda fila, para garantir a diversão na largada e os vídeos no TikTok da nova geração de fãs da categoria, aqueles que não têm paciência de ver corridas de uma hora e meia de duração. Chaleclé e Lewis vão disparar feito um raio, ganhando posições e brigando com carros melhores que os deles por umas dez voltas. Isso vai durar até Antonelli e Russell se aprumarem, caminhando para mais uma dobradinha.
Assim será.
MANDA QUEM PODE – A F-1 cancelou os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita, marcados para abril, por causa da guerra do consórcio assassino EUA-Israel contra o Irã. Aquela região do planeta não é muito segura para nada, hoje em dia. Mas os sauditas não desistiram de sua corrida. Como diria Téo José, querem porque querem o GP, mesmo que ele seja deslocado para o fim do ano. A categoria pode remanejar algumas datas para acomodar Jedá no calendário. Isso, claro, se o conflito não continuar indefinidamente. É bom lembrar que a Arábia Saudita tem forte presença na F-1 como um todo e despeja rios de dinheiro nela. Via Aramco, sua petrolífera estatal, patrocina o Mundial e tem sociedade na Aston Martin. Fora o resto, tipo presentinhos.

PÉSSIMO INÍCIO – A Globo transmitiu a classificação de Suzuka em TV aberta como nos velhos tempos: abertura cinco minutos antes, encerramento da jornada quase junto com a bandeira quadriculada. Uma pressa de ir embora que dá até gosto. O Sportv, pelo menos, mostrou as entrevistas dos três primeiros no grid.
ENGANA QUEM? – Novamente a dupla global “in loco”, neste GP formada por Marcelo Courrege e Mariana Becker, teve de se desdobrar para aparecer na matriz e na filial antes do início da sessão. O que resultou numa situação esquizofrênica: nos dois canais eles surgiam ao mesmo tempo dizendo coisas diferentes com a rubrica “ao vivo” na tela. Na boa, a emissora realmente acha que engana alguém com esses “falsos vivos”, para usar o jargão da TV? Pega muito mal. Muito.
ATUAÇÕES – Mariana atuou como comentarista na Globo e não no Sportv, que quando a bola começou a rolar ficou apenas com a equipe no estúdio. Becker foi mal de novo na nova função. Em suas participações, ela não sabe se reporta ou analisa, se comenta ou tenta ser engraçada. Everaldo Marques, o narrador titular, não comete erros mas tem sido muito repetitivo. Alguém precisa dizer a ele — eu estou dizendo — que Gabriel Bortoleto é brasileiro apenas uma vez numa transmissão. Não é necessário falar “o brasileiro Gabriel Bortoleto” cada vez que for citar o cabra. Depois da primeira, basta “Bortoleto”. Ou “Gabriel”. Ou “o brasileiro”. Ou “o piloto da Audi”.
TREINO É TREINO – No canal a cabo, Felipe Giaffone melhorou um pouco o nível dos comentários, mas está pouco à vontade com seus novos colegas. Já o jovem narrador Bruno Fonseca tem de ser orientado. Não se narra treino como se fosse corrida. Se você está narrando um treino no mesmo tom e ritmo com que narra uma corrida, em um dos dois está fazendo errado. Porque treino é treino e jogo é jogo, como dizia Didi. E ele precisa parar de repetir “setor” a cada cinco segundos — parece que é a única leitura que consegue fazer de uma volta, os tais dos setores, que em treinos livres têm pouca ou nenhuma importância.


O PASSADO CONDENA – Mas o pior veio depois da classificação. Por enquanto, só foi visto no Sportv — mas as imagens serão usadas na TV aberta, também. Como nos velhos e piores tempos, o cinegrafista global foi orientado a cortar da imagem os logotipos que aparecem nos bonés dos pilotos. Para isso, tem de fechar o zoom na cara do entrevistado num grau que dá para contar até os cravos no nariz do coitado. Pouca gente percebe essas coisas, mas eu não sou bobo e sei exatamente o que está sendo feito. As duas imagens aí em cima, feitas no aconchego do meu lar, não me deixam mentir: sumiram as quatro argolas da Audi da cabeça de Bortoleto e até o símbolo da McLaren da bombeta de Norris. Uma terceira entrevista, de Verstappen, também cortou o logo da Red Bull. Mas essa eu não fotografei. A capacidade da Globo de ser babaca é infinita.



















































