FOTO DO DIA

Completamente aleatória, mas é linda demais. Alguém arrisca quando e onde?

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BOTO 4

SÃO PAULO(corram!) – Pessoal, foram muitos pedidos depois que esgotou a terceira edição de “O Boto do Reno”, meu primeiro livro com crônicas das viagens que fiz pelo mundo cobrindo Fórmula 1. Assim, tiramos agora a quarta edição, agora com a capa vermelha, para atender àqueles que ainda não têm o livro. As últimas três, vale sempre lembrar, pelo selo Adelante da Gulliver Editora.

Para comprar, só por e-mail diretamente comigo: escrevam para flaviogomes@warmup.com.br e coloquem BOTO4 no campo “assunto” da sua mensagem. Eu, então, informo como fazer. Claro que todos serão autografados, com dedicatória.

A edição é limitadíssima, apenas 300 exemplares. Então é melhor correr!

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SCHUMACHER

A “noiva” Schumacher: sempre sorrindo (crédito: Thais Lessa Carneiro)

SÃO PAULO(não percam) – Quase todas as vezes que vi Schumacher ele estava sorrindo. Não é muito difícil entender por quê. Nos primeiros dias, chegava à Fórmula 1 meio por acaso espantado, feliz, quase incrédulo. Logo depois estava com um carrinho melhor, e já no ano seguinte vencia sua primeira corrida, e um pouco adiante já era bicampeão mundial. Aí, desembarca na equipe mais popular do planeta, abraça um desafio que não era para qualquer um, tira o time da fila, conquista cinco títulos vestido de vermelho, vira um deus para a torcida mais apaixonada do mundo, e quando decide parar está plenamente realizado. Num gesto de gratidão, volta três anos depois para emprestar sua sabedoria a quem lhe deu a primeira chance, faz o que tinha de fazer e sai de cena sob aplausos calorosos de todos.

Para quem catava pneu usado no lixo para correr de kart na pista em que o pai era uma espécie de gerente-zelador, puxa vida… Era, sim, o caso de olhar para trás e dizer: acho que sou um cara feliz. E gente feliz sorri.

Essa foto aí no alto nunca tinha sido publicada antes. Aliás, se alguém for reproduzir, favor dar o crédito: Thais Lessa Carneiro. Não lembro direito o ano, acho que foi em 2003. O lugar eu sei. Era o hotel onde a gente ficava em Madonna di Campiglio, nos Alpes Italianos, que a Philip Morris fechava todo começo de ano para o Wrooom, evento de apresentação das equipes de corrida que patrocinava. Ferrari, basicamente. Às vezes aparecia alguém da MotoGP.

Algumas dezenas de jornalistas eram convidados para o Wrooom, que consistia em eventos oficiais — como entrevistas coletivas e promoções de patrocinadores –, outros de puro lazer — jantar no alto de alguma montanha para descer de esqui carregando tochas, aulas de snowboard, almoços soberbos com os picos nevados como cenário — e mais alguns fora do roteiro. Entre esses últimos, baladas épicas e fins de noite regados ao que tivesse no bar.

Foi em um desses finais de noite que nos juntamos num dos pequenos salões do hotel para mais uma dose, e mais outra, e mais outra, inimigos do fim que éramos, quando Schumacher apareceu vestido de noiva, colocou uma saia na cintura de Barrichello e tirou o parceiro para dançar, rindo sem parar, enquanto um amigo brasileiro do Rubinho tocava qualquer coisa no piano.

(Não eram tempos de celulares com câmeras, muito menos de redes sociais e aplicativos de transmissão ao vivo. Toda hora é preciso lembrar disso, porque muitas pessoas parecem acreditar que essas coisas sempre existiram, o que leva a uma certa indignação quando se deparam com imagens inéditas e “inexplicáveis” diante da lógica instagrâmica ou tik-tókica de enxergar o mundo.)

Caímos todos na gargalhada e a Thais, minha mulher na época, estava com uma pequena máquina analógica de filme 135. Tirou três fotos e continuou se divertindo, como todos nós. Era apenas o registro de um momento feliz. Eu nem reparei na hora que ela tinha batido as fotos.

No dia seguinte, porém, o assessor de imprensa da Ferrari, Luca Colajanni, me procurou no café da manhã com seu jeito urgente e dramático. “Flavio, Flavio, pelo amor de Deus, você fotografou Michael de noiva?”, perguntou. “Eu não, mas a Thais, sim”, respondi, caindo na gargalhada de novo, e ela também.

Luca estava morrendo de medo de que aquelas fotos fossem publicadas. Era a imagem dele, a imagem da Ferrari, oh, não!, oh céus!, o que vamos fazer agora?, e diante daquele desespero todo falei que já tínhamos vendido para os tabloides ingleses, era tarde, o que o deixou ainda mais apavorado. Então, com medo de que tivesse um infarto, dei a bronca sincera. “Luca, vaffanculo, você parece que não conhece a gente!”, disse, o que pareceu tranquilizá-lo. “Isso nunca será publicado, é foto pessoal, fica sossegado, não enche. Senta aí e come um croissant.”

Depois disso, e durante anos, sempre que queria atormentar Colajanni o chamava num canto e dizia que estava precisando de dinheiro, e por isso tinha vendido as fotos, e ele me mandava para o inferno, e creio que nem se lembra mais, faz muito tempo, Schumacher parou, ele mesmo saiu da Ferrari, depois foi trabalhar na FIA, voltou à equipe, faz tempo que não nos falamos. É um amigo querido.

Por que conto essa longa e desimportante história hoje? Para tentar dar algum sentido ao que vou dizer sobre o documentário “Schumacher”, lançado ontem pela Netflix, que vem sendo elogiado por uns, criticado por outros, submetido aos tribunais digitais com suas verdades definitivas e suas discussões descartáveis.

Schumacher estreou na F-1 em 1991, parou de correr no fim de 2012 e sofreu o acidente que o tirou do convívio público há oito anos, andando de esqui na França. Nesse intervalo defendeu Jordan, Benetton, Ferrari e Mercedes, ganhou 91 GPs, subiu ao pódio 155 vezes, fez 68 poles, liderou 142 dos 306 GPs que disputou, conquistou sete títulos mundiais, se casou com Corinna, uma mulher excepcional, teve um casal de filhos lindos, Gina e Mick, adotou uns cachorros, ganhou muito dinheiro e respeito de seus pares.

É uma vida e tanto, não é fácil resumi-la em menos de duas horas, e por isso me parece um pouco pueril assistir ao filme procurando nele defeitos ou lacunas de informação que estão disponíveis em outros arquivos, plataformas e publicações. Não é um trabalho que tenha a pretensão de esgotar o assunto, de se transformar no documento definitivo sobre a trajetória de Schumacher, e quem se propõe a realizar uma obra desse tipo acaba tendo de escolher um caminho para contar a história que lhe cabe.

No caso dos três diretores que assinam o documentário, Hanns-Bruno Kammertöns, Vanessa Nöcker e Michael Wech, deu para notar que não se preocuparam tanto com uma estrutura recheada de dados históricos e estatísticos que resultasse num filme laudatório para endeusar ainda mais o piloto, transformando-o em alguma espécie de mártir carregado de heroísmo. O fio condutor é cronológico e entremeado por depoimentos despojados de emoções ou pausas dramáticas que desaguem em lágrimas baratas para comover quem está assistindo. Quem chora é Corinna, no fim. Mick fica com os olhos marejados quando diz que não pode mais conversar com o pai, justo agora que eles teriam tanto para conversar. Esposa e filho. “Michael está aqui. Diferente, mas ele está aqui”, ela diz. É forte. É de chorar, sim.

Mas Flavio Briatore, Damon Hill, David Coulthard, Jean Todt, Eddie Irvine, Ross Brawn, Mark Webber, Luca di Montezemolo, Mika Hakkinen, Sebastian Vettel, Ralf Schumacher, Wili Weber, Bernie Ecclestone, Sabine Kehm, Rolf Schumacher, Piero Ferrari, e devo ter esquecido mais alguns entrevistados, não querem fazer ninguém chorar. Nem convencer os outros de que Michael era maior do que foi. Schumacher é mostrado como o que era de verdade: um piloto de enorme talento, perseverante, cheio de vontade de vencer, determinado e competitivo, tímido e afetuoso, que lutou muito para chegar onde chegou. E como sabia que só tinha chegado lá graças ao seu esforço e determinação, se sentia feliz e sorria.

Faltou um monte de coisa? Sim, faltou. Poderiam ter entrevistado Nelson Piquet, Rubens Barrichello, Felipe Massa? Sim, como poderiam também ter entrevistado Riccardo Patrese, Eddie Jordan, Jacques Villeneuve, Bertrand Gachot, Roberto Moreno, Martin Brundle, J.J. Lehto, Johnny Herbert, Jos Verstappen, Heinz-Harald Frentzen, Karl Wendlinger, Peter Sauber, Balbir Singh (seu fisioterapeuta indiano), Mika Salo, Juan Pablo Montoya, Fernando Alonso, Nico Rosberg, todos que passaram por sua vida como companheiros de equipe ou rivais nas pistas, ou que de alguma forma mexeram as peças do tabuleiro de seu destino, ou que contribuíram para seu sucesso. Todos teriam alguma coisa para falar.

Alguns episódios foram pinçados na linha do tempo de Schumacher, como a discussão com Senna na França, a primeira vitória com a Ferrari na chuva em Barcelona, o GP de San Marino de 1994, a batida em Silverstone, os acidentes com Hill e Villeneuve em disputas de título, o dia em que igualou o número de vitórias de Ayrton, o quiproquó com Coulthard debaixo d’água em Spa, a primeira aposentadoria depois de transformar a Ferrari, o retorno pela Mercedes, os testes em Fiorano de sol a sol, a solidão numa academia de ginástica montada para ele em Maranello, a obsessão pelo trabalho. Faltaram outros? Claro, eu mesmo poderia citar uma dezena, uma centena, talvez: a prisão de Gachot, a demissão de Moreno, as suspeitas sobre a Benetton de 1994, as punições impostas pela FIA, a volta na Malásia depois de quebrar a perna, os domínios absurdos de 2002 e 2004, o campeonato apertadíssimo de 2003, as perucas vermelhas, o churrasco com a gente em Magny-Cours, a vitória em Ímola no fim de semana da morte da mãe, as ordens de equipe na Áustria, os milhões de dólares entregues às vítimas do tsunami no Japão, as dificuldades na retomada da carreira na F-1, o último pódio, a vida depois da queda em Méribel. Mas como contar tudo? “Schumacher” não é uma biografia completa. Assim tem de ser visto. Com ternura, alguma nostalgia, admiração e saudade.

Há beleza nesse domínio, eu dizia e escrevia anos atrás, quando Michael vivia o auge e ganhava tudo, para desespero dos que ansiavam por uma F-1 mais competitiva e disputada. Havia, mesmo. Era bonito vê-lo vencer corridas de todas as maneiras possíveis, esmagar os adversários, fazer voltas inacreditáveis, buscar os tempos exatos determinados por seus engenheiros para conquistar posições nos pit stops, cumprir estratégias com precisão, reagir aos imprevistos. Era belo vê-lo guiando na chuva, fazendo uma ultrapassagem, caçando implacavelmente um carro à frente, regendo uma orquestra imaginária nos últimos acordes do hino da Itália no pódio.

E era bacana quando num fim de noite, saindo da sala de imprensa, o autódromo já escuro e silencioso, eu o via ao longe ainda no motorhome da Ferrari, tomando uma cerveja com os mecânicos, às vezes fumando um cigarrinho, e sempre sorrindo, como quase todas as vezes em que o vi.

Espero que Michael ainda sorria.

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MOTOLAND

A mítica Piaggio Ciao, que a gente pode facilmente dizer que era a Mobylette italiana, ganhou uma versão elétrica feita por uma empresa da toscana chamada Ambra Italia. Que horror.

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FOTO DO DIA

Esse aí é Daniil Kvyat hoje em Magny-Cours testando os pneus intermediários e de chuva da Pirelli para o ano que vem, com rodas de 18 polegadas. Vão se acostumando. O carro é da Alpine.

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SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

Foto de Andrej Isakovic, da “France Presse”: viva o jornalismo!

SÃO PAULO(sorry, guys) – Normalmente eu tento surpreender minha meia-dúzia de leitores quando escolho a foto mais importante de um fim de semana de GP, mas hoje não vai dar. Tem outra? O clique de Andrej Isakovic, da agência “France Presse”, é impressionante e quero aqui dar um “viva!” ao jornalismo profissional. Mesmo em tempos de celulares fotografando todas as irrelevâncias possíveis ao redor do mundo — e tudo devidamente postado, curtido, compartilhado e esquecido um segundo depois –, é o trabalho de um repórter fotográfico de verdade que entra para a história. Porque essa imagem é histórica.

Poderia ter sido uma tragédia horrorosa. Tão impactante quanto a relatada pelo nosso colunista e amigo Américo Teixeira Jr. em seu mais recente livro, “Monza ’61”, que está em pré-venda no site da editora Gulliver, com autógrafo e pôster da corrida. Corram, porque está quase esgotado!

Sim, aquela de 1961 teve consequências gigantescas, com a morte de muita gente nas arquibancadas. Mas imaginem o tamanho de uma tragédia como a morte de Hamilton amassado por um carro em cima dele… Não gosto nem de pensar. Por isso, viva o Halo, que escrevo em maiúscula — nem eu mesmo sei por quê. Depois dessa, e da do Grosjean, virou gente, o Halo. Nosso herói.

O novo livro do Américo: indispensável

Domingo comecei com o acidente, hoje vamos priorizar os vencedores. De cara, uma galeria cheia de abraços e sorrisos, com algumas fotos repetidas de anteontem. Mas não tem problema. São imagens gostosas de ver e que vão permanecer para sempre no coração daqueles que torcem para a McLaren — e os há, que ninguém ache que só a Ferrari tem torcida no mundo.

Todos os números relativos à vitória da equipe papaia já foram destrinchados, mas não custa lembrar: sua primeira vitória desde 2012 (Button, Brasil; 3.213 dias de jejum), primeira dobradinha desde 2010 (Hamilton & Button, Canadá), 183ª vitória na história (só perde nas estatísticas para as 238 da Ferrari), oitava de Ricciardo (primeira desde Mônaco/2018) e primeira dobradinha de uma equipe nesta temporada (nem Red Bull e Mercedes conseguiram).

E é das dobradinhas que vem…

O NÚMERO DA ITÁLIA

…dobradinha “não-Mercedes” na F-1 desde o início da “era híbrida”, em 2014, de total domínio da equipe alemã.

É isso mesmo. Desde 2014, incluindo o GP da Itália de domingo, foram registradas 58 dobradinhas na F-1. De todas elas, 53 (91,4%) foram da Mercedes. Hamilton & Rosberg, não necessariamente nessa ordem, foram responsáveis por 31 (11 em 2014, 12 em 2015 e oito em 2016). Bottas & Hamilton, também não nessa ordem, fizeram 22 (quatro em 2017, quatro em 2018, nove em 2019 e cinco no ano passado).

A McLaren, portanto, fez a quinta desse período, juntando suas migalhas às três da Ferrari (Mônaco e Hungria/2017, com Vettel & Raikkonen, e Singapura/2019, com Vettel & Leclerc) e à única da Red Bull (Malásia/2016 com Ricciardo & Verstappen). Essa dificuldade de bater a Mercedes com dois carros nos últimos oito anos dá bem a medida do tamanho do feito de Ricciardo e Norris.

Só para registrar, as cinco equipes que mais fizeram dobradinhas na história são Ferrari (84), Mercedes (58), McLaren (48), Williams (33) e Red Bull (17).

ITÁLIA BY MASILI

Marcelo Masili, nosso cartunista oficial e genial (e que não recebe dos meus amigos leitores os devidos elogios!), foi buscar referências na nossa memória afetiva (ou quase isso; torcedores de Barrichello nunca tiveram muito afeto pelo episódio) para, com pouquíssimas palavras e um traço brilhante, desenhar sua corrida de Monza. Lembrando que no ano passado a equipe laranja quase venceu, com Carlos Sainz recebendo a bandeirada 0s415 atrás de Pierre Gasly, um “hoje não” que o espanhol sente até hoje por aquele GP não ter tido mais uma voltinha…

Antes do rescaldão do acidente, deixa eu registrar algumas coisinhas aqui que passaram batidas no textão de domingo, começando com a AlphaTauri. Afinal, a equipe venceu o GP da Itália do ano passado e simplesmente não apareceu para a corrida deste ano.

Gasly, vencedor de Monza/2020, começou bem o fim de semana, foi sexto na classificação na sexta-feira, mas as coisas começaram a ruir na Sprint. Bateu em Ricciardo na primeira volta, perdeu a asa dianteira, foi parar nos pneus. Seu sexto no grid evaporou com o abandono. Teria de largar da última fila. Domingo, quando levava o carro para o grid, reportou um problema no acelerador. Voltou aos boxes. Largou. Mas deu só três voltas porque o piripaque eletrônico era insolúvel.

Já Tsunoda nem largou. Também quando se encaminhava para o grid teve uma pane no sistema de freios. A equipe puxou o carro para os boxes, mas não deu para consertar. Lá ficou.

Foi isso, da AlphaTauri.

Alonso: oitavo lugar, pontos importantes

Faltou também uma palavrinha para a Alpine, que voltou a pontuar com seus dois pilotos — Alonso em oitavo, Ocon em décimo. Como a AlphaTauri zerou, na briga pelo honroso quinto lugar entre as equipes os franceses ampliaram sua diferença sobre os italianos para 11 pontos: 95 x 84. Não é nada, não é nada, pode parecer nada mesmo. Mas vocês não têm ideia, porque isso TV nenhuma mostra, como é ferrenha essa briga dos construtores, especialmente entre os integrantes que põem a mão na massa. Estou falando de mecânicos, técnicos, engenheiros, assessores, cozinheiros. Os caras se pegam o ano todo por pontinhos.

Por fim, a Williams. Ao alcançar a marca de 22 pontos, a equipe já tem, disparado, seu melhor desempenho desde 2017, quando anotou 83. Em 2018 foram 7, em 2019 apenas 1 e no ano passado, nadica de nada: zero. O time renasceu. E por mais que a gente torça o nariz para a chegada de investidores americanos para o lugar da família garagista, é fato que a Williams, se não fosse isso, talvez nem existisse mais.

A FRASE DE MONZA

“Se Christian e Helmut não o acusaram, é porque sabem que Max estava errado, já que tentam culpar Lewis por qualquer coisa em qualquer oportunidade.”

Andrew Shovlin, diretor da Mercedes
Verstappen sobre Hamilton: perigo e farpas

Errado não está, como se diz. Aliás, escrevi isso domingo. Quando Horner mandou um “fifty-fifty” ao falar do acidente, é porque sabia que seu piloto tinha exagerado. Foi essa a interpretação dos comissários. Que, insisto, não seria a minha. Eu tendo mais para o “incidente de corrida”, embora reconhecendo que não tomar nenhuma atitude nessas horas pode trazer uma sensação indesejada de impunidade. Hamilton também foi punido em Silverstone num acidente bem diferente na dinâmica e na origem, mas semelhante na, digamos, necessidade de atribuir culpa a alguém. Empatados, pois.

Quanto à gritaria de muita gente no mundo inteiro em redes sociais de que “Verstappen quase matou Lewis, como pode receber uma punição tão branda?”, é preciso dizer que Max não teve nenhuma intenção de decolar para aterrissar sobre Hamilton. O acidente aconteceu em baixa velocidade e batidas assim não geram imagens muito impactantes, embora costumem tirar seus protagonistas da corrida. Foi absolutamente casual o fato de a Red Bull dar um salto e cair com a roda justamente sobre o Halo. Aliás, vejam este vídeo das câmeras de 360° postado pelo site da F-1. Dá até medo.

Por isso, mais uma vez, e todas que forem necessárias: viva o Halo!

Hamilton no MetGala em Nova York: tudo bem com ele

Hamilton disse que ficou “surpreso” com a atitude de Verstappen de não ter procurado saber como ele estava dentro do cockpit, depois do pouso sobre sua cabeça. “Normalmente, a primeira coisa que um piloto vai ver, independentemente de como foi o acidente, é como está o outro cara envolvido.” Mas Max, a TV mostrou, nem tchuns. Pegou o caminho dos boxes a pé e sequer olhou para trás. Depois, explicou: “Ele engatou a ré para tentar voltar à corrida. Quem engata a ré nessa hora é porque está bem”.

Errado não está, como se diz. Mas um pouquinho de empatia não faria mal a ninguém.

Sem esticar muito o assunto, Lewis voou para Nova York, onde ontem à noite mesmo participou do MetGala, o maior evento de moda do mundo (acho que é isso; se não for, fica sendo). E comprou uma mesa exclusiva para levar seus amigos designers, inserindo a turma num espaço que, segundo ele, sempre opôs obstáculos aos profissionais pretos nessa área. Mais um gesto para aplaudir de pé e dizer, em alto e bom som: o cara é foda, mesmo.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

Latifi: talvez seja melhor do que imaginamos

GOSTAMOS de ver Nicholas Latifi largando pela primeira vez na vida na frente de George Russell, já que terminou a Sprint na frente do inglês. O canadense terminou a corrida em 11º e Russell foi o nono colocado, mas recebeu elogios de todo mundo no time. “A diferença dele para George não é tão grande quanto as pessoas pensam”, falou. “Ele tem feito um grande trabalho e merece continuar aqui, era para ter pontuado hoje”, emendou Russell, de saída para a Mercedes. Veremos no ano que vem, na comparação com Albon, quem é, afinal, o simpático e milionário Latifi.

Mecânico teve de usar a pistola duas vezes: “erro humano”

NÃO GOSTAMOS do pit stop que tirou Verstappen da luta pela vitória, numa rara trapalhada da Red Bull definida como “erro humano” por Christian Horner. O que aconteceu? A FIA proibiu, desde o GP da Bélgica, o uso de sensores nas pistolas pneumáticas que indicam que o pneu está colocado — eram eles que comandavam a luz verde que orienta o piloto, liberando o carro da parada. Esse sensores eram automáticos. Com a porca apertada, eles já enviavam a “informação” ao pequeno semáforo. Quando os sinais das quatro rodas tinham sido enviados automaticamente, a luz verde acendia e o piloto acelerava sem olhar para os lados. Aquela luz é seu único guia em pit stops. Ele fixa a vista ali e quando acende o verde vai embora mesmo se sua avó estiver parada de bengala na frente do carro. Agora, o envio desse sinal para o semáforo é manual. O mecânico tem de fixar a roda e “liberar” seu pneu apertando um botão na pistola. Aparentemente, o rapaz da roda direita dianteira não apertou e teve de colocar a pistola na roda de novo para poder fazê-lo. Resultado: mesmo com a roda colocada, a luz verde não acendeu e Max ficou 11s parado nos boxes.O vídeo deste momento pode ser visto aqui.

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BELLA CIAO (3)

Ricciardo: primeira vitória desde Mônaco/2018

SÃO PAULO(tretas, gostamos!) – Por onde começar? Pela dobradinha da McLaren, histórica, emocionante? Pela redenção de Daniel Ricciardo, que não vencia uma corrida desde 2018 em Mônaco, ainda pela Red Bull, e vinha sendo considerado a maior decepção da temporada? Pelos números da equipe laranja, que não ganhava um GP desde 2012 no Brasil com Jenson Button e mesmo assim segue sendo a segunda maior vitoriosa da história, com 183 triunfos (só perde para os 238 da Ferrari)? Pelos 11 anos que se passaram desde o último 1-2 para o time de Woking, com Lewis Hamilton e Button no Canadá em 2010? Ou pelo acidente entre Max Verstappen e Hamilton, os grandes protagonistas do Mundial?

O GP da Itália surpreendeu. Desde sexta-feira, diga-se. Foi um fim de semana em que o favoritismo trocou de mãos entre Mercedes e Red Bull, depois da classificação e da Sprint, e acabou com uma inesperada dobradinha de quem não estava lá muito bem cotado nas casas de apostas. Foi a primeira de uma equipe neste ano — sim, só a McLaren fez dobradinha em 2021, acreditam? E Ricciardo, agora com oito vitórias no currículo, foi o 12º piloto a subir no pódio neste que é um dos melhores campeonatos de todos os tempos. Mais de meio grid já levou ao menos uma tacinha para casa.

Mas vamos começar pelo acidente, afinal ele é mais relevante para o campeonato e terá consequências — a maior delas, o previsível acirramento de uma rivalidade que, para muita gente, corre o risco de passar dos limites do razoável. E uma imediata: a perda de três posições no grid para Verstappen na próxima corrida, em Sóchi, por decisão dos comissários depois do GP, que o responsabilizaram pelo sinistro.

A batida aconteceu na metade da corrida, na volta 26, graças a um capricho dos deuses do automobilismo, sejam eles quem forem. Dois pit stops ruins, de Red Bull e Mercedes, fizeram com que Hamilton e Verstappen se encontrassem na pista depois de passarem o tempo todo, até ali, caçando os pilotos da McLaren em Monza. Max, que largou na pole e perdeu a liderança para Ricciardo, ficou na cola do australiano até a parada para troca de pneus, quando esperava ganhar a posição no famoso “undercut”. Mas um problema na colocação da roda dianteira direita de seu carro, na volta 24, fez com que o pit stop consumisse intermináveis 11s1 de seu tempo precioso.

Pouco depois, na 26ª volta, foi a vez de a Mercedes demorar mais do que o normal na troca de Hamilton, 4s2, perdendo a chance de devolvê-lo à pista na frente de Norris, a quem perseguia desde a primeira volta na luta pela terceira colocação. Ele só conseguiu a ultrapassagem pouco antes do pit stop. Lewis saiu dos boxes e viu o jovem britânico novamente passando à sua frente. E, pior: tendo de dividir a primeira curva, vejam só, justo com Verstappen — que vinha babando logo atrás. Com Max atrasado pela parada desastrosa, Hamilton, se tudo desse certo, voltaria em segundo, tendo apenas Ricciardo à frente. E numa situação interessante: como largou de pneus duros, contra os médios dos principais rivais, faria a segunda metade da corrida com os médios, uma borracha teoricamente mais veloz. Dava para pensar em vitória.

Só que não deu tão certo assim, por conta do pit stop lento da Mercedes. E a dividida com Verstappen resultou nessa sequência de imagens aí no alto. Hamilton cruzou a pista assim que terminou a linha branca da saída dos boxes, deu o lado de fora da tomada para a primeira chicane para o holandês, fez a curva 1 para a direita e Max, ao seu lado, não tirou o pé. Hamilton também não aliviou e reduziu o espaço para o rival. Quando ambos viraram para a esquerda, em baixa velocidade, o choque foi inevitável. Para piorar, Verstappen decolou na zebra interna em forma de salsicha, sua roda traseira se enroscou no carro de Hamilton e os dois foram parar na brita. Um em cima do outro. O Halo, que protege a cabeça dos pilotos, salvou Lewis. Porque o carro de Verstappen aterrissou em cima do cockpit da Mercedes #44.

A imagem está aí embaixo. E é assustadora.

Hamilton x Verstappen: podia ter terminado mal

Verstappen saiu do carro e nem quis saber de Hamilton. Voltou a pé para os boxes sem olhar para trás. Atitude lamentável. Sabendo que tinha pousado em cima do colega, nem foi ver se estava tudo bem com ele. Coisa de moleque marrento e mal-educado. Pouco depois começou a batalha das versões, com declarações fortes de todos os lados. A saber:

Verstappen: “Ele não me deu espaço. Veio para cima de mim quando saiu dos boxes, tive de colocar o carro na parte verde da pista e fui por fora. Claro que ele imaginou que eu faria isso. Mas continuou me espremendo. Não precisava, e eu não esperava que ele fizesse aquilo. Mesmo se me desse espaço, acho que continuaria à frente depois da curva 2. Mas continuou me apertando e eu não tinha para onde ir. Aí o carro passou na salsicha e por isso o carro voou e aconteceu o que aconteceu. Mas somos profissionais o bastante para continuar disputando um contra o outro, e essas coisas acontecem”.

Hamilton: “Eu estava dando tudo de mim e finalmente passei o Lando antes do pit stop, estava na liderança. Mas nossa parada foi lenta. Quando saí, vi que Ricciardo tinha passado e Max chegando. Deixei um carro de espaço para ele, entrei na curva 1, estava na frente indo para a curva 2 e, do nada, quando vi ele estava em cima de mim. Na primeira volta, na curva 4, tirei o pé para deixar ele fazer a chicane na frente e fui na zebra. Foi uma situação idêntica e eu dei o caminho para ele. Assim é uma corrida. Mas ele, não. Sabia o que ia acontecer, que ia pular na zebra, mas mesmo assim fez. Não sei mais o que dizer”.

Christian Horner: “Não dá para culpar ninguém, acho que é 50/50. Um incidente de corrida”.

Toto Wolff: “Comparando com o futebol, Max fez uma falta tática. Sabia que se ficasse atrás, Lewis possivelmente ganharia dele. Eles vão conversar com os comissários. Agora, se ninguém disser nada, vão continuar até um parar em cima do outro num ponto de alta velocidade. Onde isso vai parar?”.

Não sei onde isso vai parar. Mas sei que vão me perguntar o que acho, e acho que quando alguém como Christian Horner não ataca o adversário diretamente, é porque sabe que seu piloto tem alguma culpa no cartório. Mas é uma culpa relativa, não carece pendurá-lo numa cruz. Verstappen poderia, sim, aceitar o fato consumado, tirar o pé e fazer a chicane atrás de Hamilton. Em vez disso, apostou: ele vai me dar espaço, saio da chicane mais forte e passo o cara.

Perdeu a aposta, porque Lewis não deu o espaço desejado e, da mesma forma, contou com a boa vontade do holandês para contornar a segunda perna da chicane. Afinal, tinha feito algo parecido na primeira volta, na Roggia (a curva 4 citada acima), evitando a batida — o que fez, inclusive, com que perdesse a terceira posição para Norris.

É meio briga de rua, um tentando falar mais alto que o outro. São dois pilotos combativos, nenhum deles disposto a ceder. Pode-se dizer que até este momento, na temporada, Hamilton cedeu mais. Evitou batidas em Ímola e Barcelona, por exemplo. Mas foi duro em Silverstone, onde venceu mesmo tendo levado uma punição, e hoje, de novo. Vejam bem: duro, não desleal. Da mesma forma, acho que Verstappen não foi desleal ao forçar a barra na chicane. Foi igualmente duro. Um pouco otimista além da conta, talvez. E essas disputas, quando ninguém cede, normalmente acabam como acabou hoje. Fica cada um defendendo seu lado, e no fim das contas todos têm razão. Resumindo: se eu tivesse de julgar o caso, colocaria o episódio na categoria de “incidentes de corrida”. Mas chamaria os dois às falas para alertar: isso aí ainda vai dar merda.

A FIA, no entanto, considerou Max culpado, como já informado. Assim, nas duas refregas mais intensas do ano temos um empate em punições.

Largada: Ricciardo assume a ponta e vai embora

Mas Ricciardo não tem nada com isso, e o sorriso aberto voltou à F-1 com uma vitória deliciosa, conquistada a partir de uma excelente largada e com uma pilotagem segura e madura, lembrando o Ricardão dos tempos de Red Bull. “I never left”, ele falou, uma frase que fica melhor em inglês do que numa tradução livre em português, algo como “eu sempre estive aqui”.

Porque muita gente achava, de fato, que ele já não estava mais lá. Daniel faz uma temporada sofrível em seu primeiro ano de McLaren. Tinha como melhor resultado, até hoje, um quarto lugar na Bélgica, no GP que não aconteceu. Em corrida, mesmo, um quinto em Silverstone. Mesmo com a vitória, sua colocação no Mundial é discreta oitavo lugar com 83 pontos. Seu companheiro Norris tem 132 e está em quarto.

Nada disso importa hoje. É fato que depois das férias ele melhorou, e é fato que… ganhou uma corrida, ora bolas! E não foi porque todo mundo abandonou, ou porque algum lance de sorte o colocou no lugar certo na hora certa. Não. Ricciardo foi terceiro ontem na Sprint, pulando uma posição no grid com a punição a Bottas. Fez uma largada perfeita e se sustentou com muita competência em primeiro, com Verstappen fungando no seu cangote, até a bateria de pit stops.

Voltou em primeiro já com outro piloto a assediá-lo — no caso o companheiro Norris, com um carro igual. O safety-car entre as voltas 26 e 31 não alterou o cenário. Foi um triunfo merecidíssimo, clássico, que muda sua história na McLaren. OK, Lando não o atacou — seria uma besteira monumental instigar os dois a brigarem loucamente, arriscando mandar uma dobradinha para o brejo. Mas tampouco precisou da camaradagem da chefia. Prova disso foi a melhor volta da prova, na última. Uma demonstração de que, se precisasse brigar para defender a liderança, tinha suas armas.

Bottas: de último a terceiro

Outro que andou pacas foi Bottas. Largou na última fila e terminou em terceiro. Foi o quarto a receber a bandeirada, mas Pérez, o terceiro, recebeu uma punição de 5s por ter levado vantagem ao passar Leclerc por dentro da chicane, caindo para quinto. “Eu disse para a equipe que hoje iria chegar pódio”, festejou o finlandês, cumprindo a promessa. E a Mercedes tem de agradecer a ele pelos 18 pontos acumulados no fim de semana, ajudando a ampliar a liderança da equipe para 362,5 pontos, contra 344,5 da Red Bull. Já a luta pelo terceiro lugar ficou mais favorável à McLaren, que com os 45 pontos somados em Monza foi a 215, contra 201,5 da Ferrari (que marcou 20 com Leclerc em quarto e Sainz em sexto).

Ricciardo, Norris e Bottas no pódio, com Leclerc, Pérez, Sainz, Stroll, Alonso, Russell e Ocon fechando a zona de pontos, este foi o resultado do GP da Itália. Com destaques para a boa prova de Lance pela Aston Martin e de Jorginho, de novo nos pontos com a Williams — que já deve ser olhada como uma força de meio de grid, e não mais como time da parte de baixo da tabela. A Alpine também merece uma menção honrosa por colocar seus dois carros entre os dez primeiros.

A festa foi bonita em Monza, que teve metade de sua capacidade vendida em ingressos por causa da pandemia, sem a tradicional invasão da pista pelos torcedores ao final. Ricardão, por sua vez, manteve a tradição de tomar champanhe na sapatilha, o tal “shoey”, levando junto na balada Norris e Zak Brown, o chefe da McLaren. “Já não gosto de espumante, e na sapatilha dele é pior ainda”, brincou Lando — que demonstrou uma legítima felicidade pela vitória do companheiro. “Nós não tivemos sorte. Tivemos ritmo, tomamos decisões corretas, trabalhamos para acertar o carro, fomos atrás daquilo que queríamos conquistar. Tivemos de ultrapassar, tivemos de nos defender, tivemos de fazer tudo. E o resultado foi incrível. Uma dobradinha! Eu podia pensar em atacar? Podia. Mas sei que minha hora vai chegar”, disse. E está certíssimo.

Norris e Ricciardo com Brown: “shoey” para comemorar

Depois de três finais de semana seguidos com corridas, a F-1 faz uma pausa agora e só volta daqui a duas semanas em Sóchi, para o GP da Rússia. Serão dias de alguma tranquilidade no noticiário, já que muitas das dúvidas sobre a dança das cadeiras para 2022 foram dirimidas na semana passada — Russell na Mercedes, Bottas na Alfa Romeo, Albon na Williams.

A rivalidade Hamilton x Verstappen vai render algumas discussões, mas a temperatura delas depende um pouco da disposição de ambos, e de suas equipes, para esticar o assunto. Conhecendo Hamilton, acho que ele não vai passar os próximos dias soltando indiretas contra Max. Sabe que isso é improdutivo e não é muito seu estilo. O piloto da Red Bull, por sua vez, também não é um adepto da troca de farpas pela imprensa. Assim, o tema tende a esfriar, para ser retomado na Rússia.

Mas a gente pode falar da treta, como não? Então, às 19h, corram lá no meu canal no YouTube para o “Fórmula Gomes” de hoje, que vai estar bem divertido!

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11/9, 20

Vinte anos atrás, escrevi isso aqui.

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O planeta das baratas

Sou um interessado observador de baratas. Elas são nojentas, asquerosas e purulentas, delas chego a ter medo, mas admiro sua agilidade e destemor diante de adversários tão hostis e bem maiores. Dizem que no dia em que o planeta se dizimar de vez numa nuvem radiativa, só vão sobrar as baratas.

Talvez seja melhor. Não há notícias, no mundo das baratas, de semelhantes se trucidarem por nada. Talvez porque elas não tenham nada na cabeça, não sei sequer se têm cabeça. Baratas não se matam. São uma espécie bem-sucedida, como os pernilongos, as lacraias e as mocréias, que vivem em paz sem maiores sobressaltos.

Os animais, quando se matam, o fazem por causas bastante razoáveis. Ou para comer, ou para se defender. Eles não odeiam os outros animais. São indiferentes aos sentimentos das moscas, das pulgas ou dos gnus. Têm seus instintos, suas próprias leis, e vão levando a vida através dos séculos.

O homem, não. É um fracasso como espécie animal. É capaz das maiores façanhas tecnológicas, de ir à lua e clonar gente, mas incapaz de estabelecer regras de convivência que deveriam fazer parte de algum código genético interno, como o das baratas, das lacraias e das mocréias. O homem fabrica armas que têm como único objetivo matar outros homens. E transforma suas criações mais formidáveis, como aviões, em mísseis recheados de gente muito mais eficientes que ogivas nucleares.

A estupidez, e não a criatividade ou a inteligência, é a característica mais marcante da nossa espécie, é pela estupidez que seremos lembrados pelas baratas daqui a alguns milhões de anos. E o 11 de setembro de 2001 será emblemático, o dia em que o homem a exerceu com esplendor.

Eu e as baratas passamos o dia anteontem colados na TV, vendo nossa estupidez transformada em espetáculo de mídia. Nada mais formidável, cardápio para todos os gostos. Para aqueles que defendem o troco imediato, com a mesma violência e insanidade, e para os que acreditam que, finalmente, a arrogância do poder econômico e político recebeu sua lição, sentiu na pele o que é ter medo, o mesmo medo disseminado pela força ao longo dos anos.

Aqueles que admiram a superioridade imposta por nossos vizinhos do norte ao resto da humanidade no último século, que se sentem incomodados pelas nações que não tiveram a competência de construir suas disneylândias e não jogam basquete direito, estão radiantes. É a hora de provar de uma vez por todas quem manda no galinheiro.

Estes devem ter adorado a figura patética do presidente caubói garantindo a vingança com discurso hollywoodiano, “não se enganem, já vencemos outros inimigos antes, vamos vencer de novo”, um Forest Gump mal-acabado defendendo ideais de liberdade, democracia e justiça nos quais só quem nunca esteve nos EUA pode acreditar. (Basta meia hora em território americano para perceber a falácia dos tais ideais. Que liberdade existe num país vigiado por câmeras e satélites, onde jogar um chiclete na rua é motivo para ser detido pela Swat? Que democracia é essa que referenda uma eleição fraudulenta e coloca na presidência um sujeito que teve menos votos que o derrotado? Que justiça é essa que faz com que esse país se ache no direito de interferir nos destinos de todos os outros exportando guerras e miséria?)

Os EUA apanharam. Não sabem de quem, mas talvez saibam por quê. E, se não sabem, era hora de alguém se dirigir ao seu povo e admitir que se meia-dúzia de doidos foram capazes das atrocidades do 11 de setembro, é porque muito mal esse país andou fazendo a outros povos por aí para ser tão odiado. Infelizmente, o caubói não é esse alguém. Sob a sombra e o cheiro fétido de 20 mil cadáveres, o caubói estava mais preocupado, horas depois dos atentados, em garantir aos seus cidadãos que “a economia americana está aberta aos negócios como sempre”.

Eu e as baratas nos espantamos com essa declaração. Aliás, nos espantamos também com palestinos festejando a morte de milhares de inocentes, em Beirute e Jerusalém. Ouvi alguém dizer que o que aconteceu ontem mostra que o mundo precisa de deus no coração. Discordamos, eu e as baratas. Foi o excesso de deus, assim mesmo, em minúscula, que levou as Cruzadas a dizimarem inimigos que acreditavam em outro tipo de deus, na Idade Média. Foi o excesso de deus no coração que conduziu os judeus na expulsão dos palestinos de seu território depois da Segunda Guerra. É o excesso de deus no coração que faz os árabes a explodirem lanchonetes, shoppings, pizzarias, aviões e prédios pelo mundo afora.

O que há, e nisso eu e as baratas concordamos, é um excesso de deuses no coração dos homens. Um deles, citado pelo caubói, é o mercado, a economia, o papel verde que move as engrenagens do planeta, e que uma barata amiga confessou ter roído um dia, de um maço escondido sob o assoalho, sem saber do que se tratava — não apreciou o paladar. Em nome de deus, ou de Deus, ou das várias modalidades de deuses, matamos, explodimos, arrebentamos, crucificamos, bombardeamos, torturamos e acompanhamos tudo pela TV como se fosse um grande espetáculo, e nisso concordamos de novo, eu e as baratas, somos muito bons.

Não há guerra boa ou paz ruim, escreveu Benjamin Franklin, curiosamente num 11 de setembro. As baratas discordam, a próxima guerra será muito boa porque sobreviveremos, me disse uma.

As baratas são bem melhores do que nós.

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BELLA CIAO (2)

Bottas: medalha (feia) no peito, último no grid

SÃO PAULO(bem feito) – É o que dá querer adivinhar o futuro. Ontem escrevi aqui que Lewis Hamilton ganharia a Sprint de Monza, empataria com Max Verstappen na classificação se o holandês não ficasse entre os três primeiros da minicorrida e largaria na pole para o GP da Itália para vencer a prova com facilidade. Restaria à Red Bull tentar reduzir ao máximo o prejuízo numa pista onde a Mercedes é muito favorita.

Mas o jogo virou. Deu tudo errado hoje para a Mercedes e Hamilton, e tudo certo para a Red Bull e Verstappen. A ponto de, logo depois da Sprint, Lewis sacramentar o prognóstico: “Max vai ganhar fácil amanhã”. E aquele que a esta altura poderia ser um empate na classificação, se Hamilton tivesse obedecido o roteiro mais provável para o sábado de Monza, virou um aumento na diferença de pontos entre ele e Verstappen na tabela, de três para cinco: 226,5 a 221,5.

Valtteri Bottas venceu a Sprint a partir da pole-que-não-é-pole de ontem, fazendo os três pontos que a corridinha dá ao ganhador. Max chegou em segundo e ficou com dois. Daniel Ricciardo, da McLaren, terminou em terceiro e levou o último pontinho. Hamilton chegou em quinto, atrás ainda de Lando Norris. E, para piorar seu dia, a Mercedes trocou tudo no motor de Bottas, que terá de largar em último. Assim, a pole-position para o GP da Itália foi herdada por Verstappen, o segundo colocado na Sprint. Por isso que o holandês, que pela 11ª vez na carreira larga na pole, “vai ganhar fácil”, de acordo com seu grande adversário na temporada.

Como se sabe, a Sprint determina o grid para a corrida de verdade, do domingo. Analisando seu resultado final depois de 18 voltas, pode-se dizer que Hamilton foi o maior perdedor do dia, caindo do segundo lugar original para a quarta colocação no grid amanhã. E não marcou nenhum ponto. Considerando que Bottas, o primeiro de ontem, teria de largar em último de qualquer jeito pela troca de motor, a coisa foi ainda pior para Lewis. Se terminasse a Sprint em segundo, por exemplo, herdaria a pole do companheiro e teria sua vida bem facilitada para vencer mais uma na temporada. Agora, terá à frente na largada de amanhã, além de Verstappen, mais dois carros da McLaren para atrapalhar.

Teve gente que despencou ainda mais em relação às posições obtidas ontem na classificação, mas não lutam pelo título. Daí considerar Hamilton o grande derrotado do sábado quente e ensolarado de Monza. Isso só aconteceu porque a largada de Hamilton na Sprint foi um desastre. E os planos de colocá-lo na ponta logo no início, com a ajuda de Bottas, foram por água abaixo nos primeiros metros da corrida.

Marcell Jacobs no grid: largou melhor que Hamilton

O medalhista de ouro nos 100 m rasos em Tóquio Marcell Jacobs, que aparece na foto acima pronto para “largar” à frente do grid em Monza, provavelmente teria partido melhor que Hamilton. A pé. Jacobs, que nasceu no Texas (EUA) mas é filho de mãe italiana, compete pela Itália e foi uma das grandes surpresas das últimas Olimpíadas. Depois dos salamaleques costumeiros às celebridades convidadas para um GP, a miniprova começou.

Patinando loucamente quando as luzes se apagaram, Hamilton caiu para a sexta posição de cara, sendo ultrapassado por Verstappen, Norris, Ricciardo e Pierre Gasly. Tentou se defender de Lando pela direita e viu os outros três passando pela esquerda. O francês da AlphaTauri foi outro que se deu mal. Na primeira chicane, tocou a asa dianteira na roda traseira do McLaren de Ricciardo, a peça quebrou e ele foi direto para a barreira de pneus na Curvone. Sexto lugar ontem, o que seria uma ótima posição de largada, Gasly abandonou e terá de partir em 19º, ou dos boxes.

O safety-car foi acionado e na relargada, na quarta volta, Bottas disparou na frente e nada de mais interessante aconteceu. Não foi uma boa Sprint, embora o propósito inicial da novidade tenha se cumprido. Das 20 posições determinadas pela classificação de ontem, apenas duas se mantiveram: Vettel em 11º e Schumacher em 18º. O resto do grid foi embaralhado. Veja abaixo as posições originais e as novas, após a corridinha de hoje –em negrito, aqueles que avançaram no grid:

  1. Bottas > 20
  2. Hamilton > 4
  3. Verstappen > 1
  4. Norris > 3
  5. Ricciardo > 2
  6. Gasly > 19
  7. Sainz > 6
  8. Leclerc > 5
  9. Pérez > 8
  10. Giovinazzi > 7
  11. Vettel > 11
  12. Stroll > 9
  13. Alonso > 10
  14. Ocon > 12
  15. Russel > 14
  16. Latifi > 13
  17. Tsunoda > 15
  18. Schumacher > 18
  19. Kubica > 17
  20. Mazepin > 16
Hamilton: da pole que seria herdada a quarto no grid

Nem todo mundo largou com pneus macios para a Sprint, como se imaginava. No fim das contas, os médios foram a opção preferida — e cautelosa — da maioria, incluindo os que estavam na frente, como a dupla da Mercedes e Verstappen. A McLaren arriscou e se deu bem com os dois pilotos optando pela borracha mais aderente.

Ricciardo, que parte do segundo lugar amanhã graças à punição de Bottas, não largava na primeira fila desde o GP do México de 2018. Ele fez a pole para aquela prova e curiosamente teve ao seu lado o mesmo Verstappen, então seu companheiro de Red Bull. A McLaren, em segundo e terceiro, terá sua melhor posição de largada desde o GP do Brasil de 2012, que teve Hamilton e Button na primeira fila em Interlagos.

Ricciardo e Verstappen: primeira fila como no México/2018

Max vai precisar tomar alguns cuidados na largada amanhã. Ricciardo está louco por um pódio. Por uma vitória, então… Mas ninguém deve esperar nenhuma maluquice do australiano, que é um dos pilotos mais limpos e éticos do grid. O holandês disse que não se assusta muito com a McLaren, especialmente se conseguir passar em primeiro nas curvas 1 e 2. “Nosso ritmo é melhor. Mantendo a liderança depois da primeira chicane, acho que não temos de nos preocupar com eles. Mas é óbvio que Daniel não tem nada a perder numa luta por posição ali”, falou o líder do campeonato.

As poucas disputas, com nada de muito interessante acontecendo na pista na meia hora da Sprint, reacenderam a discussão sobre a validade do formato introduzido neste ano, que já teve uma edição em Silverstone e terá a terceira — e última — em São Paulo. Ross Brawn, diretor-técnico da Liberty, falou que em conversas com os pilotos percebeu que alguns gostariam, pelo menos, que mais gente fizesse pontos na corridinha. Outros comentaram sobre uma certa esquizofrenia estatística, lembrando que Bottas, mesmo tendo feito a pole ontem e ganhando hoje (o que lhe daria a pole-position real para amanhã), não incluiu pole alguma em seu currículo porque terá de largar em último após a troca do motor. “Não serve pra nada”, resmungou Pérez. Alonso, por sua vez, disse que está ótimo desse jeito, e que apenas chamaria a corrida de sábado de Q4.

Bottas festeja na mureta: duas poles que não valeram nenhuma

Alguns ajustes podem ser feitos no futuro, é o que concluiu Brawn. Mas é recomendável que se espere pela terceira edição da Sprint para, então, avaliar o conjunto da obra. De qualquer maneira, para o bem ou para o mal, a Sprint de hoje serviu para inverter o favoritismo de uma corrida. Até a hora do almoço, era todo da Mercedes. No fim da tarde, mudou de mãos para a Red Bull. Hamilton que se vire, agora. E Verstappen, que aproveite.

Sobre tudo isso e mais um pouco falaremos hoje à noite na nossa live, que volta ao horário tradicional das 19h no meu canal youtúbico. É só entrar aqui, ativar as notificações e pronto!

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SERÁ QUE VAI?

SÃO PAULO (tomara) – Na torcida aqui para que o Microlino, releitura elétrica da Romi-Isetta (na verdade, da BMW-Isetta…) feita na Itália, finalmente saia do papel. Segundo os donos, agora vai! O carrinho foi mostrado num evento de mobilidade em Munique.

É uma graça, ainda que eu, claro, prefira motores dois tempos barulhentos que fazem bastante fumaça. Mas considero essas releituras homenagens dignas de aplauso. Por isso gosto do New Beetle, do novo Cinquecento, daquele esboço de Trabant elétrico alemão e de todos os outros que vocês quiserem lembrar nos comentários.

Em resumo, eu teria um trequinho desses. Se não achasse uma original, claro.

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