O PEQUENO PESCADOR (2)

Antonelli: segunda pole seguida em 2026

SÃO PAULO (o menino cresceu) – Andrea Kimi Antonelli larga na pole para o GP do Japão, em Suzuka. A Mercedes lacrou a primeira fila de novo, com George Russell em segundo. Nada de novo no front. Três corridas, três primeiras filas. Quatro, se formos contar a Sprint da China. Como a McLaren deu o ar da graça depois do fiasco de Xangai – nenhum dos dois pilotos largou –, o terceiro lugar no grid ficou com ela, cortesia de Oscar Piastri. Com ele divide a segunda fila o monegasco Charles Leclerc, da Ferrari. Gabriel Bortoleto fez uma boa classificação, avançou ao Q3 e parte da nona colocação com a flecha de prata da Audi.

A classificação para a prova de Suzuka aconteceu de novo com temperatura baixa, 16°C, e o sol foi embora, deixando o sábado nublado e cinzento. Teve boas surpresas entre os dez primeiros – além de Bortoleto, Pierre Gasly em sétimo, Isack Hadjar em oitavo e Arvid Lindblad em décimo. E uma grande decepção: Max Verstappen em 11º, sem conseguir levar a carroça da Red Bull ao Q3. O holandês está até agora maldizendo o novo regulamento da F-1, o projetista do seu carro e todos os descendentes de Henry Ford. Se pudesse, pegava um trem-bala em Nagoia, parava em Narita, entrava num 747 da JAL e sumia no mundo.

Ah, a mudança de regra para a classificação – redução da entrega de potência de 9 para 8 megajoules na hora de carregar as baterias – foi percebida por zero pessoa. E compreendida por menos gente ainda. Vamos à pista, agora.

Kimi (no terceiro treino livre): domínio da equipe alemã

“Muito tráfico”, diria um narrador com quem trabalhei em passado remoto. Foi assim o Q1, e sempre será, com 22 carros na pista, alguns deles muito lerdos por natureza — outros, mais ainda em suas voltas preparatórias para aquecer pneus e freios, modular a carga das baterias, regular o ar-condicionado e equalizar o som no Tojo.

Mas Q1, em 2026, não reserva muitas surpresas. O “tráfico” acaba não sendo decisivo. Só dá zebra se o sujeito não conseguir sair dos boxes, ou tiver dor de barriga antes de ir à pista. Isso porque Williams, Cadillac e Aston Martin são quase fixas na zona de eliminação. A Williams, porque fez um trabalho porco no novo carro e começou o ano com um lastro de 30 kg. É como se Carlos Sainz e Alexander Albon carregassem 15 garrafas de Dolly de dois litros dentro do cockpit. Peso em carro de corrida cobra um preço. No caso, faz andar devagar. A Cadillac porque é novinha, coitada. Tudo é mais difícil. E a Aston Martin porque quem desenhou o carro esqueceu de perguntar a quem faz o motor se ele é encaixado no chassi na frente ou atrás do câmbio.

Piastri, terceiro: australiano vem bem no Japão

Às vezes, porém, alguém se mete ali no meio e outro alguém faz um milagre. Hoje o milagre foi de Sainz, que passou ao Q2 com a Williams. E quem se juntou aos degradados foi Oliver Bearman, da Haas – surpreendente, tratando-se do quinto colocado no campeonato. A ordem dos eliminados, a partir do 17º, foi a seguinte: Albon, Bearman, Sergio Pérez, Valtteri Bottas, Fernando Alonso e Lance Stroll. Nas primeiras posições, Leclerc com 1min29s915, Russell, Antonelli, Piastri, Lewis Hamilton e a valente dupla da Audi, com Nico Hülkenberg em sexto e Bortoleto em sétimo. É o melhor fim de semana quatrargólico na temporada, até agora, com presença constante de seus dois pilotos entre os mais rápidos.

O Q2 já era outra história. Três equipes não teriam problema algum para avançar – Mercedes, Ferrari e McLaren –, mas as outras precisariam lutar por décimos e centésimos de segundo. Qualquer deslize poderia ser fatal. Apesar do favoritismo, quem não repetia até ali o mesmo desempenho dos treinos livres era a Mercedes. “Veja bem”, entrou Russell no rádio. “Alguma coisa se passou com nossos carros. Não me parece natural esta perda de performance repentina. Havíamos começado tão bem o fim de semana! Quando chegava ao autódromo, hoje, as cerejeiras floridas me inspiraram tanto! Mas aquele clima de harmonia oriental em nossa garagem, de uma hora para outra, desapareceu. O que pode estar acontecendo?” Toto Wolff perguntou ao engenheiro do que George estava falando. “Das cerejeiras”, respondeu o funcionário da equipe.

Bortoleto, nono: ótima classificação

No fim da segunda parte da classificação, porém, Antonelli deu um um clique no carro e fez o melhor tempo do fim de semana: 1min29s048. Leclerc foi o segundo e junto com eles se classificaram Piastri, Hamilton, Russell, Lando Norris, Gasly, Bortoleto, Hadjar e Lindblad. Ficaram fora Verstappen, Esteban Ocon, Hülkenberg, Liam Lawson, Franco Colapinto e Sainz.

Há, claro, que se observar uma ou outra coisinha aqui. A começar por Max. Vencedor e pole dos últimos quatro GPs do Japão, o holandês, que está odiando a vida, caiu no Q2. Hadjar, seu jovem companheiro franco-argelino, avançou. Hulk decepcionou, depois de andar lá na frente o tempo todo. Na hora em que precisava, espanou o parafuso. E Lindblad, 18 anos, estreante, que perdeu um treino inteiro ontem por problemas de câmbio e meteu tempo no metido Lawson, passando ao Q3 com autoridade. Além de Gasly, claro, de quem sempre falamos: anda mais que o carro e é subestimado; apenas um francesinho contra esse mundão todo.

Antonelli disse a que veio na primeira leva de voltas do Q3: 1min28s778, baixando ainda mais o melhor tempo do fim de semana nipônico. Russell, o das cerejeiras, bateu a ampulheta 0s298 atrás, em segundo. OK, era uma primeira fila provisória, mas a diferença entre os dois chamava a atenção. Piastri e Norris vinham atrás deles, com Leclerc e Hamilton na terceira fila temporariamente. A primeira volta de Bortoleto, com pneus usados, colocou o brasileiro em nono.

Bater Kimi seria difícil. Dificílimo. Complicadíssimo, eu diria. O menino, que ganhou sua primeira corrida há duas semanas, na China, já começa a incomodar seu Jorge. Que cometeu um erro em sua segunda volta rápida e ficou com o tempo da primeira. Na segunda saída de todo mundo, aliás, só Leclerc, Gasly e Bortoleto melhoraram seus tempos. Nem Antonelli superou Antonelli.

O grid em Suzuka: mais uma primeira fila da Mercedes

Kimi larga na pole pela segunda vez consecutiva. Piastri ficou em terceiro a 0s354 dele, seguido por Leclerc (diferença de 0s627), Norris (0s631), Hamilton (0s789), Gasly, Hadjar, Bortoleto e Lindblad.

Que bom que uma Ferrari ficou na segunda fila, para garantir a diversão na largada e os vídeos no TikTok da nova geração de fãs da categoria, aqueles que não têm paciência de ver corridas de uma hora e meia de duração. Chaleclé e Lewis vão disparar feito um raio, ganhando posições e brigando com carros melhores que os deles por umas dez voltas. Isso vai durar até Antonelli e Russell se aprumarem, caminhando para mais uma dobradinha.

Assim será.

MANDA QUEM PODE – A F-1 cancelou os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita, marcados para abril, por causa da guerra do consórcio assassino EUA-Israel contra o Irã. Aquela região do planeta não é muito segura para nada, hoje em dia. Mas os sauditas não desistiram de sua corrida. Como diria Téo José, querem porque querem o GP, mesmo que ele seja deslocado para o fim do ano. A categoria pode remanejar algumas datas para acomodar Jedá no calendário. Isso, claro, se o conflito não continuar indefinidamente. É bom lembrar que a Arábia Saudita tem forte presença na F-1 como um todo e despeja rios de dinheiro nela. Via Aramco, sua petrolífera estatal, patrocina o Mundial e tem sociedade na Aston Martin. Fora o resto, tipo presentinhos.

Equipe global na F-1: velhos (e novos) erros

PÉSSIMO INÍCIO – A Globo transmitiu a classificação de Suzuka em TV aberta como nos velhos tempos: abertura cinco minutos antes, encerramento da jornada quase junto com a bandeira quadriculada. Uma pressa de ir embora que dá até gosto. O Sportv, pelo menos, mostrou as entrevistas dos três primeiros no grid.

ENGANA QUEM? – Novamente a dupla global “in loco”, neste GP formada por Marcelo Courrege e Mariana Becker, teve de se desdobrar para aparecer na matriz e na filial antes do início da sessão. O que resultou numa situação esquizofrênica: nos dois canais eles surgiam ao mesmo tempo dizendo coisas diferentes com a rubrica “ao vivo” na tela. Na boa, a emissora realmente acha que engana alguém com esses “falsos vivos”, para usar o jargão da TV? Pega muito mal. Muito.

ATUAÇÕES – Mariana atuou como comentarista na Globo e não no Sportv, que quando a bola começou a rolar ficou apenas com a equipe no estúdio. Becker foi mal de novo na nova função. Em suas participações, ela não sabe se reporta ou analisa, se comenta ou tenta ser engraçada. Everaldo Marques, o narrador titular, não comete erros mas tem sido muito repetitivo. Alguém precisa dizer a ele — eu estou dizendo — que Gabriel Bortoleto é brasileiro apenas uma vez numa transmissão. Não é necessário falar “o brasileiro Gabriel Bortoleto” cada vez que for citar o cabra. Depois da primeira, basta “Bortoleto”. Ou “Gabriel”. Ou “o brasileiro”. Ou “o piloto da Audi”.

TREINO É TREINO – No canal a cabo, Felipe Giaffone melhorou um pouco o nível dos comentários, mas está pouco à vontade com seus novos colegas. Já o jovem narrador Bruno Fonseca tem de ser orientado. Não se narra treino como se fosse corrida. Se você está narrando um treino no mesmo tom e ritmo com que narra uma corrida, em um dos dois está fazendo errado. Porque treino é treino e jogo é jogo, como dizia Didi. E ele precisa parar de repetir “setor” a cada cinco segundos — parece que é a única leitura que consegue fazer de uma volta, os tais dos setores, que em treinos livres têm pouca ou nenhuma importância.

O PASSADO CONDENA – Mas o pior veio depois da classificação. Por enquanto, só foi visto no Sportv — mas as imagens serão usadas na TV aberta, também. Como nos velhos e piores tempos, o cinegrafista global foi orientado a cortar da imagem os logotipos que aparecem nos bonés dos pilotos. Para isso, tem de fechar o zoom na cara do entrevistado num grau que dá para contar até os cravos no nariz do coitado. Pouca gente percebe essas coisas, mas eu não sou bobo e sei exatamente o que está sendo feito. As duas imagens aí em cima, feitas no aconchego do meu lar, não me deixam mentir: sumiram as quatro argolas da Audi da cabeça de Bortoleto e até o símbolo da McLaren da bombeta de Norris. Uma terceira entrevista, de Verstappen, também cortou o logo da Red Bull. Mas essa eu não fotografei. A capacidade da Globo de ser babaca é infinita.

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O PEQUENO PESCADOR (1)

Piastri: McLaren dá sinal de vida

SÃO PAULO (sem sal) – O primeiro dia de atividades para o GP do Japão, em Suzuka, teve como novidade o bom desempenho da McLaren, que nem chegou a largar no GP da China, duas semanas atrás, com problemas nas baterias de seus dois carros. O time papaia conseguiu se meter entre a Mercedes e a Ferrari, que dominaram as duas primeiras etapas do ano. Oscar Piastri fez o melhor tempo da sexta-feira, com 1min30s133.

“Bom desempenho” talvez seja um tanto exagerado, considerando que o campeão mundial Lando Norris, companheiro de Piastri, passou, no segundo treino livre, mais tempo nos boxes do que na pista. Problemas hidráulicos, segundo as primeiras informações. Ficou em quarto, de qualquer forma, mostrando algum desempenho. Mas a equipe morre de medo de quebrar alguma coisa amanhã ou domingo. Seus carros não são confiáveis.

Mas, neste momento, quais são?

A Mercedes ficou com segundo e terceiro lugares, pela ordem: Kimi Antonelli a 0s092 de Oscar, George Russell a 0s205. Em quinto e sexto se colocaram os moços da Ferrari, Charles Leclerc e Lewis Hamilton. Gabriel Bortoleto, da Audi, só conseguiu ir para a pista nos últimos dez minutos da sessão. A equipe teve de trocar o câmbio de seu carro, problema que manteve o brasileiro quase o tempo todo na garagem. Mas o outro carro foi bem, com Nico Hülkenberg em sétimo – o “melhor dos outros”, expressão usada desde os tempos das corridas de bigas para designar aquele que lidera o segundo escalão.

Bortoleto sai dos boxes: pouco tempo de pista

Foram duas sessões de treinos realizadas com sol e temperaturas na casa dos 17°C na histórica pista japonesa, que teve lances de arquibancadas completamente vazios. Muitos tiveram dificuldades ao longo do dia, ainda consequência do noviciado no trato com os modelos de 2026 e suas particularidades elétricas. Além de Bortoleto e Norris, também passaram um bom tempo sem capacete pilotos como Sergio Pérez, da Cadillac, e Arvid Lindblad, da Com Essa Taxa Prefiro Pix – este nem andou no segundo treino.

Os carros voltam à pista na noite de hoje, 23h30 pelo horário de Brasília, para o terceiro treino livre. Na madrugada de sábado, às 3h, sai o grid de largada para o GP do Japão, terceira etapa do campeonato.

Não há previsão de chuva para o fim de semana.

TREINO 1 – Para os registros arqueológicos, Russell foi o mais rápido no primeiro treino livre, com 1min31s666. Antonelli ficou em segundo, 0s026 atrás. Norris, Piastri, Leclerc e Hamilton fecharam os seis primeiros, e a diferença de Lewis para seu Jorge não chegou a 0s4. Verstappen, o sétimo, ficou a 0s791 do líder. Bortoleto foi o 11º.

CENSURA – Na véspera, também para os registros, Verstappen expulsou de uma coletiva da Red Bull um jornalista inglês do “The Guardian”. Foi o mesmo que, no ano passado, lhe fez pergunta mais do que pertinente sobre os pontos perdidos por uma punição em Barcelona – não fosse aquilo, talvez ele pudesse ter sido campeão, já que terminou apenas dois pontos atrás de Norris. A atitude ridícula não teve resposta à altura da imprensa. O certo seria todos se levantarem e saírem da sala, em solidariedade. Mas só o coitado do repórter do “Guardian” se retirou, para não arrumar confusão.

SÓ NA CLASSIFICAÇÃO – A FIA mudou a configuração dos motores para a classificação para evitar uma queda muito brusca de velocidade na hora do tal do “superclipping” – quando a bateria acaba, o piloto fica com o pé no fundo do acelerador e o motor a combustão desvia potência para a bateria, funcionando como um gerador, para carregá-la de novo. A entrega de energia foi reduzida de 9 para 8 megajoules. Isso fará com que o tempo de “superclipping” caia de dez para quatro segundos por volta. Os tempos devem subir, mas as voltas serão menos afetadas por corte de potência resultante do consumo de bateria nas retas.

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DICA DO DIA

SÃO PAULO (café) – Já que o único assunto hoje é motor elétrico, leiam a excepcional reportagem de Jason Vôngoli sobre o Itaipu, o elétrico da Gurgel. Prestem atenção especialmente nos primeiros parágrafos, se a tentação foi dizer que a empresa brasileira foi boicotada pelos governos da época. É conversa para boi dormir.

O link está aqui.

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AGENDINHA NIPÔNICA

Tem GP do Japão neste fim de semana, mais madrugadas em claro! Seguem os horários para vocês se programarem direitinho…

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OPS!

SÃO PAULO (ah, o dinheiro…) – Os dois comunicados hoje pingaram na caixa postal mais ou menos na mesma hora. A Audi informando que Jonathan Wheatley, depois de 354 dias no cargo (antes como Sauber), deixa a equipe “por motivos pessoais”. A Aston Martin, em texto assinado pelo dono, Lawrence Stroll, garantindo que são “especulações” as histórias dando conta de que Adrian Newey vai deixar de ser chefe de equipe — função assumida há poucos meses — para ficar só à frente das questões ligadas ao projeto do carro.

Ambos mentem. Os motivos pessoais de Wheatley se chamam Aston e Martin. E Newey vai, sim, ficar só com as pranchetas, ainda que o time negue de pés juntos e não mude seu status interno para não ter de mandar imprimir novos cartões de visita.

Agora é só esperar para saber qual o período de quarentena de Wheatley, um ex-mecânico da Red Bull que ascendeu na equipe e comandou as operações de pista durante o período mais fértil de Max Verstappen.

O pessoal de Ingolstadt deve estar bem puto com ele. Mattia Binotto vai acumular funções, agora, até que um novo chefe seja contratado. Se é que vão achar alguém. Eu telefonaria para Otmar Szafnauer, ex-Alpine, Force India e Aston Martin. É um cara experiente que poderia assumir o cargo de imediato, sem grandes traumas. Na Alpine, sua passagem foi turbulenta — foi sob sua gestão que Oscar Piastri foi contratado e descontratado. Mas, aparentemente, os problemas na época foram causados por outras gestões e ele pegou o bonde andando. Um bonde meio trôpego, diga-se. Mas talvez a Audi vá atrás de nomes novos, alguém mais de engenharia, mesmo, de colocar a mão na massa tecnicamente, deixando nas mãos de Binotto o ônus de gerenciar pessoas. Foi o que a Red Bull fez quando mandou Christian Horner embora e trouxe Laurent Mekies.

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ACERVO

SÃO PAULO (belezuras) – Esses novos milionários que vêm surgindo como “influencers” ou banqueiros, modelo Vorcaro, amam F-1. Toda hora que um vai para a cadeia a imprensa mostra suas garagens, e sempre aparecem réplicas de carros de corrida penduradas na parede. Às vezes colocam na sala. Invariavelmente, modelos pilotados um dia por Ayrton Senna. Poderiam fazer algo que preste com seu dinheiro fácil e trazer esses dois carros de verdade para o Brasil — irão a leilão nos próximos dias. Depois de confiscados, que é o destino do patrimônio dessa gente cafona, poderiam ser encaminhados ao museu do Paulo Trevisan. Aí estariam em boas mãos.

Para quem quiser dar um lance, o link da Toleman pode ser acessado por aqui e o da Lotus, aqui.

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FOTO DO DIA

Foto Betoissaphotos / Moto GP Brazil 2026

Diogo Moreira mostrou o capacete que vai usar em Goiânia na etapa brasileira da MotoGP. Homenagem, claro, a Ayrton Senna. Que, justiça seja feita, gostava de motos. A categoria volta à cidade depois de 37 anos — recebeu etapas do Mundial em 1987/88/89. Em 1992, a sede foi Interlagos. E de 1995 a 2004, Jacarepaguá.

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SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (outrista) – Daqui a alguns anos, Kimi Antonelli vai encontrar este texto e, com razão, ficará muito bravo. Pô, ganhei minha primeira corrida e o cara diz que a imagem do fim de semana é o fiasco da McLaren?

Scusa, Kimi. Mas você há de entender. Naqueles tempos, 2026, muito se discutia sobre o novo regulamento da F-1. Esse no qual você surfou por anos, conquistando vários títulos. É que não fazia nenhum sentido um conjunto de normas técnicas tão problemáticas. A ponto de deixar nos boxes os dois carros da equipe bicampeã mundial de construtores e campeã mundial de pilotos.

Além de Oscar Piastri, retirado do grid, e Lando Norris, cujo carro não pôde ser ligado, mais dois desistiram do GP da China antes da largada: Gabriel Bortoleto, da Audi, e Alexander Albon, da Williams. E outros três ficaram pelo meio do caminho por genéricos “problemas técnicos” — ou desistência pura e simples. Max Verstappen, da Red Bull, parou com superaquecimento em componentes elétricos. Lance Stroll, da Aston Martin, estancou do nada quando seu motor apagou. E Fernando Alonso, seu companheiro, abandonou porque o motor Honda vibrava tanto que ele não conseguia segurar o volante. Deixou a prova, como disse, sem sentir as mãos.

Não, Kimi, não fazia nenhum sentido. Não era normal. De qualquer forma, parabéns pela vitória.

A FRASE DE XANGAI

“Alguns dirão que é ótimo, porque estão ganhando. E é justo. Se você tem uma vantagem, por que vai abrir mão dela? Nunca se sabe quando vai ter um carro bom de novo. Não sou burro, entendo. Mas se conversar com os pilotos, vão perceber que a maioria não está gostando. Talvez alguns fãs gostem. Mas esses não entendem nada de automobilismo.”

Max Verstappen

O que disse o holandês resume bem a situação deste início de temporada. “Essas novas regras vão acabar se voltando contra a F-1”, previu o tetracampeão mundial.

Entre os que estão gostando, óbvio, incluem-se as duplas da Mercedes e Lewis Hamilton, da Ferrari. Seu companheiro Charles Leclerc não parece ser um grande entusiasta. “Os carros são divertidos”, limita-se a dizer o monegasco, sem se aprofundar muito no tema.

Hamilton (à frente) está curtindo; Leclerc acha “divertido”

Hamilton conseguiu, finalmente, seu primeiro pódio pela Ferrari. Elogia tudo porque, para ele, qualquer coisa seria melhor que a última geração de carros da F-1, com a qual nunca se entendeu. Ainda acha, porém, que sua equipe está muito longe da Mercedes. De fato. O inglês chegou 25s atrás de Antonelli, o vencedor. Leclerc, depois de algumas voltas batendo roda com o companheiro, disse ter ficado feliz com o pódio do #44. “Ele mereceu”, falou.

Agora vamos ao menino-prodígio.

Antonelli é muito bom. Se a Mercedes engatar alguns anos de domínio, tende a ser campeão em pouco tempo. Não nesta temporada, porém. George Russell é tão bom quanto, experiente, inteligente, um piloto preparado para conquistar um título quando a oportunidade se lhe oferecer.

É o caso de 2026. Até as outras equipes alcançarem a Mercedes, vai demorar. Isso se alcançarem. Lembremo-nos que quando começou a era híbrida, em 2014, a situação era parecida e só foram conseguir derrotar os prateados em 2021 — com Verstappen, e daquele jeito; entre as equipes, foram oito taças seguidas.

Kimi tornou-se o primeiro piloto italiano a vencer um GP desde Giancarlo Fisichella na Malásia/2006, de Renault. Fisico também tinha sido o último pole italiano, no GP da Bélgica de 2009 com a Force India. Com 19 anos e uns quebrados, Antonelli é o segundo mais jovem vencedor da história — Verstappen ganhou na Espanha em 2016 aos 18 anos. A lista de vencedores de GPs da F-1 agora tem 116 nomes. E foi com “hat trick”: pole, vitória e melhor volta.

A nota cômica foi ele ter sido chamado de “Kimi Raikkonen” pelo cara que anuncia os pilotos no pódio. Antonelli fez a única coisa que poderia fazer naquela situação: deu risada.

Classificações depois de duas etapas: Mercedes disparando

Como foi uma corrida com muitos abandonos, e três deles de pilotos que normalmente chegariam nos pontos, quem pôde aproveitou. Foram os casos de Oliver Bearman, Pierre Gasly, Liam Lawson, Carlos Sainz e Franco Colapinto. Não se sabe quando alguns deles terão essa chance de novo — mormente Sainz e Colapinto. O espanhol operou um pequeno milagre, já que a Williams tem um início de temporada deprimente. O argentino fez sua melhor corrida na F-1. Chegou a andar em segundo. Foi tocado por Esteban Ocon, rodou, voltou e pontuou.

Ocon pediu desculpas, que foram aceitas. Mas os selvagens das redes sociais na Argentina partiram para o massacre virtual sobre o francês, sua família e sua equipe. Uns idiotas. Franco teve de pedir para pararem.

O NÚMERO DA CHINA

12

…pontos tem a Red Bull em duas corridas, seu pior início de temporada desde 2015 — quando tinha 11 pontos depois das duas primeiras etapas do Mundial. A equipe está em quinto no campeonato. Atrás da Haas.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… do quinto lugar de Bearman, o “melhor dos outros”. Logo no começo quase bateu em Isack Hadjar, que rodou à sua frente, mostrando um reflexo formidável. Já tinha terminado a Sprint na zona dos pontos, em oitavo. É um nome que a Ferrari, que o formou, olha com enorme atenção para o futuro.

NÃO GOSTAMOS… da Audi, que pela segunda corrida seguida tem apenas um carro na pista. Na Austrália, foi Nico Hülkenberg que não conseguiu largar. Na China, a vítima foi Gabriel Bortoleto. O time foi muito elogiado pela confiabilidade de seu equipamento na pré-temporada. Mas, na hora H, está falhando. E era corrida para pontuar. Até a Williams conseguiu.

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VIU MEU CARREGADOR? (5)

Antonelli com seu troféu: segundo mais jovem a vencer um GP

SÃO PAULO (esse menino…) – Andrea Kimi Antonelli, 19, tornou-se hoje na China o 116º piloto a vencer uma corrida na F-1. É o segundo mais jovem a conseguir a proeza — só perde para Max Verstappen, que ganhou o GP da Espanha de 2016 aos 18 anos de idade. Ontem, em Xangai, o italiano já havia inscrito seu nome na história da categoria como o mais jovem a obter uma pole-position. George Russell, seu companheiro de equipe, foi o segundo colocado na corrida. Lewis Hamilton, da Ferrari, terminou a prova na terceira colocação, subindo ao pódio pela primeira vez com o macacão vermelho da equipe italiana.

A Mercedes está invicta neste início de temporada. Fez a primeira fila e conseguiu a dobradinha na abertura do campeonato, na Austrália. Na China, também fechou a primeira fila para a Sprint, na sexta, e para o GP, no sábado. Ganhou a minicorrida com Russell (Antonelli terminou em quinto porque recebeu uma punição) e, na prova principal, repetiu o 1-2 de Melbourne, só que com seus pilotos em posições invertidas. Russell lidera o Mundial com 51 pontos. Antonelli tem 47. Charles Leclerc e Hamilton vêm a seguir com 34 e 33. Lando Norris, da McLaren, é o sexto com 15. Ele não participou do GP da China, assim como seu companheiro Oscar Piastri e mais dois – Alexander Albon, da Williams, e Gabriel Bortoleto, da Audi. Com exceção de Albon, todos tiveram genéricos “problemas elétricos” antes da largada (veja mais detalhes nas caixinhas ao final do texto).

Aconteceu bastante coisa na terra do frango xadrez e do pato laqueado. Vamos ver se anotei tudo.

Num domingo nublado e cinzento, bem diferente da véspera, que teve sol e céu azul, os termômetros de Xangai marcavam 15°C quando as luzes vermelhas se apagaram, dando início à primeira das 56 voltas da segunda etapa do campeonato de 2026. A Ferrari saltou na frente com Hamilton, como se esperava, e Leclerc também atacou a dupla da Mercedes, como se esperava, nos primeiros metros. Max Verstappen largou muito mal, como se esperava, e despencou para o fundo do pelotão. Isack Hadjar rodou e foi chamado para os boxes. Sergio Pérez e Valtteri Bottas, no rabo da cobra com os carros da Cadillac, se tocaram lutando pela 35ª posição. Foi tudo meio caótico, mas todos sobreviveram.

Na segunda volta, Antonelli recuperou a liderança, também como se esperava. Pierre Gasly, em quinto, e Franco Colapinto, em sexto, foram os grandes nomes do começo da prova, com partidas seguras, arrojadas e promissoras. Na quarta volta, Russell, que também tinha perdido posições na largada para a Ferrari, como se esperava, foi para cima de Hamilton. Passou, como se esperava. E a Mercedes, mais rapidamente do que se esperava, se posicionou em primeiro e segundo já na quinta volta, deixando Hamilton e Leclerc em terceiro e quarto.

Nas primeiras voltas, a transmissão da TV se concentrou em Verstappen, que tinha largado com pneus macios, assim como seu companheiro Hadjar. Ele tinha começado uma recuperação interessante, e na oitava volta já era o décimo colocado. Sua borracha, no entanto, estava num estado lastimável. Na volta 10, ele e Liam Lawson pararam para trocar pneus. Max colocou um jogo de duros, como já fizera Hadjar após a rodada da primeira volta.

O abraço de Toto Wolff: 116º vencedor da história

Mal saíram dos boxes, Max e Lawson se depararam com um cágado verde sobre rodas parado na curva 1. Era o Aston Martin de Lance Stroll. O safety-car foi acionado para que o serviço de limpeza pública de Xangai removesse o lixo da pista. As duplas de Mercedes e Ferrari aproveitaram para trocar pneus. Gasly, que era o quinto, fez o mesmo. Colapinto, o sexto, ficou na pista, porque tinha largado com pneus duros. Antonelli voltou dos boxes em primeiro, com o argentino em segundo. Em Buenos Aires ouviram-se fogos. Esteban Ocon, da Haas, era o terceiro – outro que não havia parado, também por ter largado com pneus duros.

O safety-car recolheu-se à sua insignificância no fim da volta 13. Antonelli, Colapinto, Ocon, Russell, Hamilton, Arvid Lindblad, Leclerc, Nico Hülkenberg, Gasly e Oliver Bearman eram os dez primeiros. Para Kimi, ótimo: entre ele e aqueles que poderiam incomodá-lo tinha bastante gente.

Na relargada, Hamilton passou Russell e, depois, Ocon. Na sequência, partiu para o ataque sobre Colapinto. A Mercedes não desgarrou e Russell, mais para trás, começou a reclamar dos pneus duros. “Vejam bem, a consistência desta borracha é notavelmente notável, eu até teria em meu carro de rua, dada sua durabilidade. Mas no caso do evento do qual estamos participando, visto que as temperaturas são baixas e o asfalto me parece gélido, creio que terei alguns maus momentos nas voltas vindouras”, disse, pelo rádio. “Que foi que ele falou?”, perguntou Toto Wolff ao engenheiro. “Que está uma merda”, resumiu o rapaz.

Ferrari x Ferrari: arrepios no cemitério de Modena

Lewis passou o carro da Alpine na volta 14 e foi para cima de Antonelli para tentar a liderança. A Ferrari, diferentemente da dupla do time alemão, cresceu com os pneus duros – ao menos nas primeiras voltas após a parada. Mas faltava velocidade nas retas aos carros vermelhos. Lewis pedia “mais bateria” ao seu engenheiro, de quem ainda não sabe o nome. “De quantos amperes?”, perguntou o funcionário escalado para falar com o inglês no rádio. “Sei lá, o máximo possível!”, impacientou-se o heptacampeão mundial. “Positivo do lado direito ou esquerdo?”, prosseguiu o engenheiro, para não fazer nenhuma besteira. “Qualquer lado, qualquer coisa!”, rebateu o piloto, irritado. O técnico não se abalou: “Base de troca?”. Hamilton, então, desistiu de pedir bateria.

Os pneus duros da Mercedes ganharam temperatura e se estabilizaram. Briga boa, mesmo, acontecia entre o quinto e o nono colocados, a saber: Bearman, Colapinto, Verstappen, Ocon e Gasly. Isso na volta 22. Todos andavam muito próximos, trocando de posições freneticamente e maldizendo as baterias que acabavam e depois eram recarregadas. Bem à frente deles, Antonelli, Hamilton, Leclerc e Russell dominavam a prova. Na volta 23, Chaleclé se aproximou do companheiro e seu Jorge veio junto. Antonelli, já mais tranquilo, começou a abrir um pouco.

O monegasco assumiu a segunda posição na volta 24, mas Lewis tentou recuperá-la imediatamente. Os dois quase bateram rodas. No túmulo do cemitério de San Cataldo, em Modena, Enzo Ferrari se revirava, incomodado com a situação periclitante. “Piloti, che gente…”, resmungou. Nessas, enquanto a dupla ferrarista se estapeava flertando com a tragédia, Kimi foi-se distanciando. Na volta 27, já tinha mais de 5s de vantagem sobre o segundo colocado. Que, no caso, voltara a ser Hamilton. A putaria entre os dois representantes de Maranello acabou na volta 28, quando Russell passou Lewis – que já tinha sido ultrapassado novamente pelo parceiro. O líder do campeonato assumiu a terceira posição, para colocar ordem na casa e buscar a dobradinha da Mercedes – como se esperava.

Início de prova, Antonelli e Russell em primeiro e segundo

Leclerc não resistiu muito à superioridade do carro alemão. Uma volta, só. No fim da gigantesca reta do circuito chinês, seu Jorge fez a ultrapassagem e se colocou em segundo. Kimi estava mais de 7s à frente. Exatamente na metade da prova, a Mercedes se livrou de quem lhe aborrecia.

Com 31 voltas, Antonelli, Russell, Leclerc, Hamilton, Bearman, Verstappen, Gasly, Colapinto, Hülkenberg e Lawson eram os dez primeiros. Desses, Colapinto e Hulk não tinham trocado pneus, ainda. Franco parou na 33ª, mas quando saiu dos boxes foi abalroado por Ocon. Os dois seguiram na prova. O francês da Haas assumiu a culpa pelo rádio e tomou um pênalti de 10s pelo incidente.

Na volta 36, Hamilton passou Leclerc de novo e o cabaré ferrarista recomeçou. Antonelli e Russell já haviam desaparecido do campo de visão dos dois. A briga valia a terceira posição – algo que Lewis desejava muito, já que passara a temporada de 2025 inteira sem levar nenhum troféu para casa, só uma medalhinha mequetrefe da Sprint da China, que nem sabia onde tinha guardado. Eles continuaram trocando posições, deixando extáticos e boquiabertos aqueles que vibram com qualquer coisa que pareça espetacular, mesmo que não seja. A exibição da dupla, como entretenimento, era até divertida. Do ponto de vista técnico e esportivo, não tinha nenhum significado. O que determinava o troca-troca era a energia disponível nas baterias de cada um. Tem mais, passa. Tem menos, toma. Volta a carregar, repassa. Cai o nível de novo, leva. É tipo um jogo de futebol sem goleiros. Sai um monte de gol. E daí?

Verstappen abandona: largada horrível, pneus péssimos, tudo ruim

Na volta 46, Verstappen, que estava em sexto, recebeu um telefonema da Red Bull. “Bonitão, vamos recolher o carro”, informou seu engenheiro, assertivo. Max adorou a ideia. Ele estava havia 500 voltas atrás de Bearman, sem conseguir ultrapassar o inglês da Haas. Seu motor perdeu potência de repente e a equipe percebeu que Inês era morta. Mesmo sem se importar muito com os motivos, o holandês perguntou: “O que aconteceu?” “Inês morreu”, respondeu o interlocutor. “Quem é Inês?”, seguiu Max, agora um pouco mais curioso. Seguiu-se um silêncio melancólico na comunicação. “Morreu de quê?”

Lá na frente, Antonelli fazia uma corrida exemplar, cravando voltas mais rápidas em sequência e mantendo Russell a uma distância mais do que segura. Hamilton, em terceiro, conseguiu uma boa folga em relação a Leclerc, que cansou daquela suruba caseira, tirou o pé e se conformou com o quarto lugar. Bearman, Gasly, Lawson, Hadjar, Carlos Sainz e Colapinto fechavam o grupo dos dez primeiros na volta 50, a seis do final. Os dois últimos dessa turma mal acreditavam que estavam nos pontos.

Na volta 54, Kimi deu um susto em sua mãe, dona Veronica, ao fritar os pneus e escapar da pista no fim da reta mastodôntica do circuito chinês. Perdeu 2s na quase-desgraça, mas sua distância para Russell era grande o bastante para que a leve bobeada não tivesse nenhuma consequência. Se aprumou e foi embora. E os dez primeiros se mantiveram inalterados até o final.

Kimi ganhou com 5s5 de vantagem para seu companheiro. Hamilton, finalmente, chegou ao pódio com a Ferrari. Terminou mais de 25s atrás do italianinho, porém. Obviamente não tem carro para brigar por vitórias, ainda. Ou seja, a Mercedes vai continuar dominando a bagaça. Vou te dizer que no Japão vão ganhar de novo. Leclerc acabou em quarto. Bearman e Gasly, quinto e sexto, foram espetaculares. Lawson e Hadjar não tinham muito do que reclamar. Sainz e Colapinto, os dois últimos na zona de pontos, não continham a alegria. O espanhol, pelo milagre operado. O hermano, por tirar o lacre defendendo a equipe francesa. Nunca tinha pontuado com a Alpine.

Ao estacionar o carro na reta dos boxes, diante do público na arquibancada, Antonelli tinha os olhos cheios de lágrimas adolescentes. Saiu do cockpit e correu para abraçar todo mundo na Mercedes. Recebeu um afago carinhoso de Hamilton. Chorou na entrevista para David Coulthard, ainda na área de box.

Mas no pódio, logo depois, Kimi era só sorrisos. Não só ele. Foi uma cerimônia de premiação genuinamente leve e feliz. Russell, que poderia estar contrariado por ser batido por um menino que ainda brinca de Playmobil, saía da China na liderança do campeonato, apesar do segundo lugar. E sabe que o favoritismo ao título lhe pertence — pela experiência, liderança interna e talento, claro. Hamilton não aguentava mais fazer cara de derrotado na Ferrari. Vimos novamente seus olhos brilhando, o que não acontecia desde tempos imemoriáveis. E Peter Bonnington, o engenheiro de Antonelli, foi receber a taça em nome da Mercedes junto do novo pupilo e do ex, Lewis, com quem trabalhou no time tedesco desde a era paleozoica.

Um piloto italiano não vencia um GP de F-1 há exatos 20 anos, desde 19 de março de 2006. Na ocasião, Giancarlo Fisichella ganhou a corrida da Malásia pela Renault, com Fernando Alonso em segundo.

Naquele dia, Andrea Kimi Antonelli ainda estava na barriga de dona Veronica.

“POBREMAS” – Quatro pilotos não conseguiram alinhar para a largada em Xangai: Alexander Albon, Lando Norris, Oscar Piastri e Gabriel Bortoleto. O tailandês da Williams teve problemas hidráulicos quando ia para o grid, voltou aos boxes e de lá não saiu. Os outros três ficaram fora da corrida por questões diversas. No caso do brasileiro, ele também já estava a caminho do grid quando houve uma pane parecida com a de Hülkenberg na Austrália. A Audi, porém, não revelou qual foi o piripaque. Já o campeão mundial nem conseguiu tirar seu carro da garagem. E seu companheiro australiano foi puxado para os boxes quando já estava posicionado para o início da prova. “Problemas elétricos nos motores”, informou a McLaren, sem especificar o que exatamente abateu seus carros. O time disse apenas que cada um enfrentou um defeito — donde é lídimo concluir que foram, pois, pepinos motorísticos distintos. Norris e Piastri deveriam largar da terceira fila do grid. O início de temporada papaia é lamentável.

DESFALQUES – Até agora, em duas corridas, a F-1 não conseguiu juntar seus 22 pilotos no grid. Na Austrália, Piastri bateu quando levava o carro para o alinhamento e Hülkenberg teve uma pane antes de começar a prova. Na China, com as desistências de Bortoleto, Albon, Norris e Piastri, apenas 18 alinharam.

FIM DOS TEMPOS – Um Mickey e uma Minnie desfilaram junto com Stefano Domenicali no grid, antes da largada. A Disney tem negócios com a F-1, como se sabe. Mas não deixa de ser curioso ver ícones do colonialismo cultural dos EUA fazendo festa num país tratado pelo presidente americano como inimigo mortal. Para piorar, a silhueta do camundongo foi pintada em algumas zebras. Saudades de Mao…

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VIU MEU CARREGADOR? (4)

SÃO PAULO (caldo de galinha) – Como se esperava, a FIA comunicou que os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita não serão realizados em abril, fazendo questão de enfatizar que essas corridas não serão substituídas por outras no próximo mês. Pode ser (isso o texto não diz, mas deixa em aberto, no tradicional estilo de redação dos comunicados da entidade) que elas sejam realizadas em outras datas, ou substituídas por outras em outros países. Mas em abril não teremos corrida nenhuma, essa é a notícia. O GP do Bahrein estava marcado para o dia 12 e o de Jedá para uma semana depois. A F-1, depois do GP do Japão (29 de março), só volta em maio, com a etapa de Miami.

E por que o cuidado para não dizer simplesmente que os GPs estão cancelados de forma definitiva? Porque há correntes internas na F-1 que estudam as possibilidades de substituição ou remarcação dessas etapas. Tais opções estão previstas nos bilionários contratos assinados com os promotores das provas, muitos deles associados a governos nacionais. Daí que a entidade está evitando usar o termo cancelamento para se referir à não realização das corridas nos dois países no mês de abril.

Remarcar as provas depende, claro, da evolução da guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. O Irã tem respondido aos ataques, e todos os países do Oriente Médio aliados dos americanos estão ameaçados por suas forças militares. Já houve bombardeios ao Bahrein e a alvos próximos da Arábia Saudita. Catar e Abu Dhabi também correm risco se o conflito se estender por meses. São as duas últimas etapas do campeonato, no final de novembro e no começo de dezembro. O mesmo vale para o Azerbaijão, que faz fronteira com o Irã, e tem sua corrida marcada para o fim de setembro.

Na prática, como não somos redatores ou advogados da FIA, podemos dizer que, neste momento, as duas provas foram canceladas. E, na base do achismo — e de alguma experiência –, também podemos dizer que dificilmente elas serão substituídas por outras na Europa.

Isso seria possível, por exemplo, trocando o período de recesso de agosto pelos dias livres de abril, abrindo datas no mês em que, tradicionalmente, as fábricas fecham e todos saem de férias. Certamente há quem defenda tal alternativa, já que a ganância é traço comum a muitos dos atores dessa trama. Duas corridas a menos são duas taxas de GPs que deixarão de ser pagas pelos promotores. Portanto menos dinheiro do butim distribuído para acionistas, equipes e entidades que organizam o campeonato.

Mas não creio que todo mundo aprove a ideia. Acho que a maioria aceita ganhar um pouco menos em troca de um mês livre para trabalhar com calma nas fábricas, já que quase todos têm tido problemas com os novos carros da categoria. E um descanso sem viagens seria bem-vindo depois de uma pré-temporada cansativa com três sessões coletivas na Espanha e no Bahrein.

Resumindo, acho que o Mundial ficará mesmo com 22 etapas. O que, convenhamos, já é bastante.

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