VIU MEU CARREGADOR? (5)

SÃO PAULO (esse menino…) – Andrea Kimi Antonelli, 19, tornou-se hoje na China o 116º piloto a vencer uma corrida na F-1. É o segundo mais jovem a conseguir a proeza — só perde para Max Verstappen, que ganhou o GP da Espanha de 2016 aos 18 anos de idade. Ontem, em Xangai, o italiano já havia inscrito seu nome na história da categoria como o mais jovem a obter uma pole-position. George Russell, seu companheiro de equipe, foi o segundo colocado na corrida. Lewis Hamilton, da Ferrari, terminou a prova na terceira colocação, subindo ao pódio pela primeira vez com o macacão vermelho da equipe italiana.
A Mercedes está invicta neste início de temporada. Fez a primeira fila e conseguiu a dobradinha na abertura do campeonato, na Austrália. Na China, também fechou a primeira fila para a Sprint, na sexta, e para o GP, no sábado. Ganhou a minicorrida com Russell (Antonelli terminou em quinto porque recebeu uma punição) e, na prova principal, repetiu o 1-2 de Melbourne, só que com seus pilotos em posições invertidas. Russell lidera o Mundial com 51 pontos. Antonelli tem 47. Charles Leclerc e Hamilton vêm a seguir com 34 e 33. Lando Norris, da McLaren, é o sexto com 15. Ele não participou do GP da China, assim como seu companheiro Oscar Piastri e mais dois – Alexander Albon, da Williams, e Gabriel Bortoleto, da Audi. Com exceção de Albon, todos tiveram genéricos “problemas elétricos” antes da largada (veja mais detalhes nas caixinhas ao final do texto).
Aconteceu bastante coisa na terra do frango xadrez e do pato laqueado. Vamos ver se anotei tudo.


Num domingo nublado e cinzento, bem diferente da véspera, que teve sol e céu azul, os termômetros de Xangai marcavam 15°C quando as luzes vermelhas se apagaram, dando início à primeira das 56 voltas da segunda etapa do campeonato de 2026. A Ferrari saltou na frente com Hamilton, como se esperava, e Leclerc também atacou a dupla da Mercedes, como se esperava, nos primeiros metros. Max Verstappen largou muito mal, como se esperava, e despencou para o fundo do pelotão. Isack Hadjar rodou e foi chamado para os boxes. Sergio Pérez e Valtteri Bottas, no rabo da cobra com os carros da Cadillac, se tocaram lutando pela 35ª posição. Foi tudo meio caótico, mas todos sobreviveram.
Na segunda volta, Antonelli recuperou a liderança, também como se esperava. Pierre Gasly, em quinto, e Franco Colapinto, em sexto, foram os grandes nomes do começo da prova, com partidas seguras, arrojadas e promissoras. Na quarta volta, Russell, que também tinha perdido posições na largada para a Ferrari, como se esperava, foi para cima de Hamilton. Passou, como se esperava. E a Mercedes, mais rapidamente do que se esperava, se posicionou em primeiro e segundo já na quinta volta, deixando Hamilton e Leclerc em terceiro e quarto.
Nas primeiras voltas, a transmissão da TV se concentrou em Verstappen, que tinha largado com pneus macios, assim como seu companheiro Hadjar. Ele tinha começado uma recuperação interessante, e na oitava volta já era o décimo colocado. Sua borracha, no entanto, estava num estado lastimável. Na volta 10, ele e Liam Lawson pararam para trocar pneus. Max colocou um jogo de duros, como já fizera Hadjar após a rodada da primeira volta.

Mal saíram dos boxes, Max e Lawson se depararam com um cágado verde sobre rodas parado na curva 1. Era o Aston Martin de Lance Stroll. O safety-car foi acionado para que o serviço de limpeza pública de Xangai removesse o lixo da pista. As duplas de Mercedes e Ferrari aproveitaram para trocar pneus. Gasly, que era o quinto, fez o mesmo. Colapinto, o sexto, ficou na pista, porque tinha largado com pneus duros. Antonelli voltou dos boxes em primeiro, com o argentino em segundo. Em Buenos Aires ouviram-se fogos. Esteban Ocon, da Haas, era o terceiro – outro que não havia parado, também por ter largado com pneus duros.
O safety-car recolheu-se à sua insignificância no fim da volta 13. Antonelli, Colapinto, Ocon, Russell, Hamilton, Arvid Lindblad, Leclerc, Nico Hülkenberg, Gasly e Oliver Bearman eram os dez primeiros. Para Kimi, ótimo: entre ele e aqueles que poderiam incomodá-lo tinha bastante gente.
Na relargada, Hamilton passou Russell e, depois, Ocon. Na sequência, partiu para o ataque sobre Colapinto. A Mercedes não desgarrou e Russell, mais para trás, começou a reclamar dos pneus duros. “Vejam bem, a consistência desta borracha é notavelmente notável, eu até teria em meu carro de rua, dada sua durabilidade. Mas no caso do evento do qual estamos participando, visto que as temperaturas são baixas e o asfalto me parece gélido, creio que terei alguns maus momentos nas voltas vindouras”, disse, pelo rádio. “Que foi que ele falou?”, perguntou Toto Wolff ao engenheiro. “Que está uma merda”, resumiu o rapaz.

Lewis passou o carro da Alpine na volta 14 e foi para cima de Antonelli para tentar a liderança. A Ferrari, diferentemente da dupla do time alemão, cresceu com os pneus duros – ao menos nas primeiras voltas após a parada. Mas faltava velocidade nas retas aos carros vermelhos. Lewis pedia “mais bateria” ao seu engenheiro, de quem ainda não sabe o nome. “De quantos amperes?”, perguntou o funcionário escalado para falar com o inglês no rádio. “Sei lá, o máximo possível!”, impacientou-se o heptacampeão mundial. “Positivo do lado direito ou esquerdo?”, prosseguiu o engenheiro, para não fazer nenhuma besteira. “Qualquer lado, qualquer coisa!”, rebateu o piloto, irritado. O técnico não se abalou: “Base de troca?”. Hamilton, então, desistiu de pedir bateria.
Os pneus duros da Mercedes ganharam temperatura e se estabilizaram. Briga boa, mesmo, acontecia entre o quinto e o nono colocados, a saber: Bearman, Colapinto, Verstappen, Ocon e Gasly. Isso na volta 22. Todos andavam muito próximos, trocando de posições freneticamente e maldizendo as baterias que acabavam e depois eram recarregadas. Bem à frente deles, Antonelli, Hamilton, Leclerc e Russell dominavam a prova. Na volta 23, Chaleclé se aproximou do companheiro e seu Jorge veio junto. Antonelli, já mais tranquilo, começou a abrir um pouco.
O monegasco assumiu a segunda posição na volta 24, mas Lewis tentou recuperá-la imediatamente. Os dois quase bateram rodas. No túmulo do cemitério de San Cataldo, em Modena, Enzo Ferrari se revirava, incomodado com a situação periclitante. “Piloti, che gente…”, resmungou. Nessas, enquanto a dupla ferrarista se estapeava flertando com a tragédia, Kimi foi-se distanciando. Na volta 27, já tinha mais de 5s de vantagem sobre o segundo colocado. Que, no caso, voltara a ser Hamilton. A putaria entre os dois representantes de Maranello acabou na volta 28, quando Russell passou Lewis – que já tinha sido ultrapassado novamente pelo parceiro. O líder do campeonato assumiu a terceira posição, para colocar ordem na casa e buscar a dobradinha da Mercedes – como se esperava.

Leclerc não resistiu muito à superioridade do carro alemão. Uma volta, só. No fim da gigantesca reta do circuito chinês, seu Jorge fez a ultrapassagem e se colocou em segundo. Kimi estava mais de 7s à frente. Exatamente na metade da prova, a Mercedes se livrou de quem lhe aborrecia.
Com 31 voltas, Antonelli, Russell, Leclerc, Hamilton, Bearman, Verstappen, Gasly, Colapinto, Hülkenberg e Lawson eram os dez primeiros. Desses, Colapinto e Hulk não tinham trocado pneus, ainda. Franco parou na 33ª, mas quando saiu dos boxes foi abalroado por Ocon. Os dois seguiram na prova. O francês da Haas assumiu a culpa pelo rádio e tomou um pênalti de 10s pelo incidente.
Na volta 36, Hamilton passou Leclerc de novo e o cabaré ferrarista recomeçou. Antonelli e Russell já haviam desaparecido do campo de visão dos dois. A briga valia a terceira posição – algo que Lewis desejava muito, já que passara a temporada de 2025 inteira sem levar nenhum troféu para casa, só uma medalhinha mequetrefe da Sprint da China, que nem sabia onde tinha guardado. Eles continuaram trocando posições, deixando extáticos e boquiabertos aqueles que vibram com qualquer coisa que pareça espetacular, mesmo que não seja. A exibição da dupla, como entretenimento, era até divertida. Do ponto de vista técnico e esportivo, não tinha nenhum significado. O que determinava o troca-troca era a energia disponível nas baterias de cada um. Tem mais, passa. Tem menos, toma. Volta a carregar, repassa. Cai o nível de novo, leva. É tipo um jogo de futebol sem goleiros. Sai um monte de gol. E daí?

Na volta 46, Verstappen, que estava em sexto, recebeu um telefonema da Red Bull. “Bonitão, vamos recolher o carro”, informou seu engenheiro, assertivo. Max adorou a ideia. Ele estava havia 500 voltas atrás de Bearman, sem conseguir ultrapassar o inglês da Haas. Seu motor perdeu potência de repente e a equipe percebeu que Inês era morta. Mesmo sem se importar muito com os motivos, o holandês perguntou: “O que aconteceu?” “Inês morreu”, respondeu o interlocutor. “Quem é Inês?”, seguiu Max, agora um pouco mais curioso. Seguiu-se um silêncio melancólico na comunicação. “Morreu de quê?”
Lá na frente, Antonelli fazia uma corrida exemplar, cravando voltas mais rápidas em sequência e mantendo Russell a uma distância mais do que segura. Hamilton, em terceiro, conseguiu uma boa folga em relação a Leclerc, que cansou daquela suruba caseira, tirou o pé e se conformou com o quarto lugar. Bearman, Gasly, Lawson, Hadjar, Carlos Sainz e Colapinto fechavam o grupo dos dez primeiros na volta 50, a seis do final. Os dois últimos dessa turma mal acreditavam que estavam nos pontos.



Na volta 54, Kimi deu um susto em sua mãe, dona Veronica, ao fritar os pneus e escapar da pista no fim da reta mastodôntica do circuito chinês. Perdeu 2s na quase-desgraça, mas sua distância para Russell era grande o bastante para que a leve bobeada não tivesse nenhuma consequência. Se aprumou e foi embora. E os dez primeiros se mantiveram inalterados até o final.
Kimi ganhou com 5s5 de vantagem para seu companheiro. Hamilton, finalmente, chegou ao pódio com a Ferrari. Terminou mais de 25s atrás do italianinho, porém. Obviamente não tem carro para brigar por vitórias, ainda. Ou seja, a Mercedes vai continuar dominando a bagaça. Vou te dizer que no Japão vão ganhar de novo. Leclerc acabou em quarto. Bearman e Gasly, quinto e sexto, foram espetaculares. Lawson e Hadjar não tinham muito do que reclamar. Sainz e Colapinto, os dois últimos na zona de pontos, não continham a alegria. O espanhol, pelo milagre operado. O hermano, por tirar o lacre defendendo a equipe francesa. Nunca tinha pontuado com a Alpine.



Ao estacionar o carro na reta dos boxes, diante do público na arquibancada, Antonelli tinha os olhos cheios de lágrimas adolescentes. Saiu do cockpit e correu para abraçar todo mundo na Mercedes. Recebeu um afago carinhoso de Hamilton. Chorou na entrevista para David Coulthard, ainda na área de box.
Mas no pódio, logo depois, Kimi era só sorrisos. Não só ele. Foi uma cerimônia de premiação genuinamente leve e feliz. Russell, que poderia estar contrariado por ser batido por um menino que ainda brinca de Playmobil, saía da China na liderança do campeonato, apesar do segundo lugar. E sabe que o favoritismo ao título lhe pertence — pela experiência, liderança interna e talento, claro. Hamilton não aguentava mais fazer cara de derrotado na Ferrari. Vimos novamente seus olhos brilhando, o que não acontecia desde tempos imemoriáveis. E Peter Bonnington, o engenheiro de Antonelli, foi receber a taça em nome da Mercedes junto do novo pupilo e do ex, Lewis, com quem trabalhou no time tedesco desde a era paleozoica.
Um piloto italiano não vencia um GP de F-1 há exatos 20 anos, desde 19 de março de 2006. Na ocasião, Giancarlo Fisichella ganhou a corrida da Malásia pela Renault, com Fernando Alonso em segundo.
Naquele dia, Andrea Kimi Antonelli ainda estava na barriga de dona Veronica.


“POBREMAS” – Quatro pilotos não conseguiram alinhar para a largada em Xangai: Alexander Albon, Lando Norris, Oscar Piastri e Gabriel Bortoleto. O tailandês da Williams teve problemas hidráulicos quando ia para o grid, voltou aos boxes e de lá não saiu. Os outros três ficaram fora da corrida por questões diversas. No caso do brasileiro, ele também já estava a caminho do grid quando houve uma pane parecida com a de Hülkenberg na Austrália. A Audi, porém, não revelou qual foi o piripaque. Já o campeão mundial nem conseguiu tirar seu carro da garagem. E seu companheiro australiano foi puxado para os boxes quando já estava posicionado para o início da prova. “Problemas elétricos nos motores”, informou a McLaren, sem especificar o que exatamente abateu seus carros. O time disse apenas que cada um enfrentou um defeito — donde é lídimo concluir que foram, pois, pepinos motorísticos distintos. Norris e Piastri deveriam largar da terceira fila do grid. O início de temporada papaia é lamentável.
DESFALQUES – Até agora, em duas corridas, a F-1 não conseguiu juntar seus 22 pilotos no grid. Na Austrália, Piastri bateu quando levava o carro para o alinhamento e Hülkenberg teve uma pane antes de começar a prova. Na China, com as desistências de Bortoleto, Albon, Norris e Piastri, apenas 18 alinharam.
FIM DOS TEMPOS – Um Mickey e uma Minnie desfilaram junto com Stefano Domenicali no grid, antes da largada. A Disney tem negócios com a F-1, como se sabe. Mas não deixa de ser curioso ver ícones do colonialismo cultural dos EUA fazendo festa num país tratado pelo presidente americano como inimigo mortal. Para piorar, a silhueta do camundongo foi pintada em algumas zebras. Saudades de Mao…
































































