O PEQUENO PESCADOR (3)

SÃO PAULO (chega suado e veloz do batente…) – Kimi Antonelli fez história de novo. Adoramos escrever “fez história”. Quando a história é efetivamente feita, claro. No caso, a história do moleque é essa: tornou-se o mais jovem líder de um Mundial de F-1 desde os tempos dos dinossauros. Aos 19 anos, 7 meses e 4 dias de tenra idade, o italiano da Mercedes assumiu a ponta da classificação ao vencer o GP do Japão, em Suzuka. Foi sua segunda vitória na carreira, a segunda seguida.
E vamos logo passar a régua nos números e nas façanhas do menino para não esquecer nada. O recorde anterior de liderança precoce pertencia desde 2007 a Lewis Hamilton, que com um segundo lugar na Espanha pulou para o primeiro lugar no campeonato com 22 anos, 4 meses e 6 dias de vida. A vitória no Japão levou Antonelli aos 72 pontos, contra 63 de seu companheiro George Russell, quarto colocado na corrida da madrugada. Kimi deu à Itália duas vitórias seguidas pela primeira vez desde 1953. Isso mesmo, 1953, ano em que a rainha Elizabeth foi coroada, a Petrobras foi criada e a TV Record foi fundada. Pelé jogava bola no Baquinho de Bauru, faltavam quatro anos para a URSS lançar seu primeiro satélite ao espaço e o homem só chegaria à Lua 16 anos depois. Em 1953, Giuseppe Farina venceu o GP da Alemanha e na corrida seguinte, na Suíça, a vitória foi de Alberto Ascari. Depois disso, nunca mais a Bota comemorou dois triunfos consecutivos na categoria.

A terceira etapa do Mundial teve no pódio, junto de Antonelli, o australiano Oscar Piastri, da McLaren, e o monegasco Charles Leclerc, da Ferrari. A Mercedes venceu todas as corridas do ano até aqui, incluindo a Sprint da China. Assim, lidera entre as equipes com 135 pontos. A Ferrari é a segunda colocada com 90.
A vitória de Antonelli, quando se olha para a classificação final da prova, foi bem tranquila. Ele recebeu a bandeira quadriculada 14s antes de Piastri. Mas o início não foi dos mais sossegados. Os dois carros da Mercedes, que estavam na primeira fila pela terceira vez no ano, largaram como se seus pilotos tivessem engatado a quarta marcha, em vez da primeira. Já tentou sair do lugar em quarta? Pois é.
(Claro que a pergunta é direcionada a motoristas que ainda engatam marchas manualmente. Como nunca tive carro automático, parto do princípio — equivocado — de que todo mundo sabe o que é alavanca de câmbio, engatar marcha, pedal de embreagem. Mas quase todo mundo hoje prefere carro automático, já há mais de uma geração que só sabe o que é D, P e R, uma chatice inventada por brasileiros, inclusive, e adotada muito rapidamente pela indústria automotiva estadunidense. Por isso, inclusive, sempre atribuí à burrice dos americanos a popularidade do câmbio automático, um troço mais chato, inclusive, do que escutar o Luciano Burti falando de macarrãozinho. A propósito, ele falou, hoje? Não assisti pela Globo. Não deve ter falado, porque ninguém teve problema de pneu.)

A largada anêmica dos mercêdicos empurrou Antonelli para sexto e Russell, para quarto. Piastri e Leclerc vieram como dois foguetes e assumiram as duas primeiras posições. Gabriel Bortoleto caiu de nono para 13º e seu companheiro Nico Hülkenberg, de 13º para 19º. A Audi, histórica rival alemã da Mercedes, resolveu largar tão mal quanto.
A dupla que estava na primeira fila, então, teve de começar a remar para recuperar o que havia perdido com a partida vagarosa. Decidido, seu Jorge passou Lando Norris e Chaleclé e na quarta volta se colocou em segundo, enquanto Kimi sofria um pouco mais, empacado na quinta colocação. Era o melhor cenário do mundo para o inglês. Quando seu companheiro conseguisse se livrar dos chatos à sua frente, ele já estaria bem distante, podendo controlar o ritmo da corrida.
No fim da oitava volta, Russell foi buscar a liderança e passou Piastri na chicane, aquela chicane onde Senna blá-blá-blá. Mas, com menos bateria, foi repassado pelo tagarela maclariano no fim da reta dos boxes. O que havia funcionado contra Norris e Leclerc não se repetiu com Oscar. Paciência. Charlinho, Landinho e Kimi, o italianinho, vinham um pouco mais atrás, os três colados, mas evitando tentativas suicidas e/ou condicionadas pela energia disponível que os painéis de seus carros indicavam. Isso quando a corrida já atingia sua primeira dezena de voltas.


Antonelli finalmente deixou Norris para trás no fim da volta 11, assumindo a quarta colocação. Lando não deu o troco. Piastri, Russell, Leclerc, Antonelli, Norris, Hamilton, Pierre Gasly, Max Verstappen, Esteban Ocon e Arvid Lindblad eram os dez primeiros na volta 14. Gabriel aparecia em 14º.
(Verstappen é aquele mesmo, tetracampeão mundial e melhor piloto do planeta na atualidade. Mas ele largou em 11º e está de mal com a vida. Por isso, mal será mencionado no relato de hoje. E porque não fez nada de muito espetacular, mesmo, exceto insinuar, mais uma vez, que ninguém deve se espantar se ele desaparecer de repente e começar a postar fotos fazendo trilhas no Nepal ou dando a volta ao mundo numa Kombi.)

A McLaren surpreendia com Piastri na ponta. Depois do ioiô na oitava volta contra Russell, ficou com o “iô” definitivo e abriu mais de 1s3 sobre o inglês da Mercedes. Novo troca-troca aconteceu na volta 16, quando Antonelli passou Leclerc na mesma chicane e perdeu a posição de novo no meio da reta, com menos bateria que o monegasco. Ficou tudo como estava, Charles em terceiro, Kimi em quarto.
Na volta 17, Norris parou para trocar pneus, abrindo a janela de pit stops. Todos tinham largado com médios, exceção feita a Bottas, que escolheu os duros. A tática era padrão: uma parada, tirar os médios e colocar os duros (ops!) e seja o que a Pirelli quiser. Leclerc foi chamado na 18ª. Piastri, na 19ª. Russell e Antonelli, assim, ficaram em primeiro e segundo – suas posições naturais em 2026. George tinha 3s de vantagem sobre o companheiro de equipe.
Oscar voltou em sexto, com Leclerc em sétimo e Norris em oitavo. Ninguém podia perder muito tempo, porque os dois carros da Mercedes, de cara para as cerejeiras floridas, tendiam a abrir do resto do pelotão, para tentar voltar de seus pit stops na frente de todo mundo. Era o que indicava a lógica. George parou na volta 21. Não conseguiu, porém, ganhar a posição de Piastri no box e voltou atrás dele. Aí, sua sorte começou a mudar de vez. Na hora em que saía dos boxes, Oliver Bearman bateu. O safety-car foi acionado. Antonelli, que assumira a liderança quando Russell parou, foi chamado para trocar seus pneus. Hamilton e Gasly, segundo e terceiro, também foram para os boxes. Todos se deram muito bem. Lewis ganhou duas posições, nessa brincadeira. E Kimi se manteve em primeiro.



O acidente de Bearman foi muito violento. Ele se deparou com Franco Colapinto num trecho de alta velocidade, antes da curva conhecida como Colher, e o argentino perdeu potência de repente, por causa do diabo da bateria descarregada. O inglês da Haas jogou o carro na grama para não encher a traseira da Alpine, perdeu o controle e foi direto numa barreira de pneus. Saiu mancando do carro. A equipe, mais tarde, informou que ele não quebrou nada e só teve uma contusão no joelho. A FIA disse que Franco estava a 174 km/h. Bearman, a 262 km/h. O impacto foi equivalente a 50G. “Isso vai acontecer direto”, alertou Carlos Sainz, da Williams. “Tem gente que está achando legal. Não, não é legal.”
Parabéns a quem inventou esses motores de merda. Quando morrer alguém, vão chorar no caixão.
Russell, pelo rádio, lamentou seu azar. “Vejam, tenho sido extremamente desafortunado nas duas últimas corridas. O safety-car foi acionado justo quando eu saía dos boxes após a excelente troca dos pneumáticos de meu carro. Por isso meu jovem companheiro pôde parar sem perder tanto tempo, com a bandeira amarela que nos alerta sobre perigos na pista. Bafejado pela sorte, o bambino. Bambino é garoto em italiano, não? Tenho aprendido algumas palavras em italiano, acho simpático para conversar com ele e sua simpática mamma. Kimi é um bom menino e tem uma família ótima. Ah, se eu tivesse esperado mais uma volta… Mas como saber, não é mesmo? É impossível adivinhar o futuro. By the way, quem foi que bateu?” “Ollie”, respondeu alguém. “Oh, Ollie… Outro jovem. Impetuoso, destemido. Espero que esteja bem. Mas precisa dar um jeito naqueles dentões. Vocês sabem, piloto de F-1 tem de zelar pela boa aparência. Nem todos têm olhos azuis como bolas de gude e cabelos naturalmente ondulados como os meus. Precisam de uma ajudinha, se é que me entendem. Eu indicaria a ele um bom dermatologista para ver aquela acne, também.” “Do que ele está falando?”, perguntou Toto Wolff. “Espinhas”, respondeu o engenheiro.

O safety-car saiu no fim da volta 27 com Antonelli, Piastri, Russell, Hamilton, Leclerc, Norris, Gasly, Verstappen, Liam Lawson e Bortoleto nas dez primeiras posições. O brasileiro também tinha parado sob bandeira amarela, galgando alguns postos. Na relargada, Lewis atacou Russell e passou o desafortunado dos olhos de bola de gude, assumindo o terceiro lugar e partindo para cima de Piastri. Antonelli, esperto, escapou na liderança.
No passa-e-repassa mais para o meio do pelotão, Bortoleto foi superado por Ocon e Hülkenberg, mas Hulk ficou sem bateria depois de passar o brasileiro. Enquanto procurava o carregador, foi ultrapassado pelo companheiro, por Isack Hadjar e por Lindblad. Aí carregou a bateria e repassou o estreante da Pode Parcelar em Três. Aquelas coisas desta F-1 mezzo elétrica, mezzo turbo: passa, descarrega, é ultrapassado, carrega de novo, passa outra vez e beleza, vamos em frente que atrás vem gente.
Na altura da volta 35, a 18 do final, Russell já se convertera em decepção do dia, encaixotado entre Hamilton e Leclerc na quarta colocação sem conseguir atacar a Ferrari #44. Suzuka se mostrava uma pista difícil de ultrapassar com qualquer regulamento. O tal do botão de ultrapassagem não estava servindo para nada. O “boost”, outro botão introduzido neste ano, tampouco. Aliás, essas duas novas bossas do regulamento de 2026 foram relegadas à indiferença tanto da transmissão da TV nas informações disponíveis na tela, quanto dos narradores e comentaristas britânicos da F1TV – vou lembrar que assisti à prova no aplicativo, obviamente, ou seja, vou te dizer que não vi na Globo.






Leclerc insistiu, insistiu e acabou passando Russell na volta 37, partindo para cima de Hamilton. George, efetivamente, vivia um domingo pouco auspicioso depois da infelicidade no pit stop. Antonelli, por sua vez, tinha desaparecido na frente com a segurança de um veterano. Parecia ter 19 anos de F-1, não de idade.
Hamilton e Leclerc, entrando na reta final da corrida, travavam a briga do momento. Valia pódio. Chaleclé atacou o parceiro no fim da volta 41. Não conseguiu. Chegaram a se tocar. Nos “esses” de alta, arriscou e passou. Foi a ultrapassagem mais bonita do dia. Russell se animou um pouco, viu como o monegasco tinha feito e, na volta seguinte, fez o mesmo. Passou Lewis e foi para quarto.
Na volta 51, George passou Leclerc e Norris passou Hamilton. Metros depois, Leclerc passou George e Hamilton passou Norris. No Reino Divino das Baterias, São Duracell celebrou com Santa Ray-O-Vac o sucesso de seu rebanho. A satisfação só não foi plena porque Lando insistiu e, na volta seguinte, ganhou a quinta posição do inglês da Ferrari.


Antonelli, Piastri, Leclerc, Russell, Norris, Hamilton, Gasly, Verstappen, Lawson e Ocon foram os dez primeiros. Bortoleto viu a quadriculada em 13º. Kimi, na primeira entrevista pós-vitória, reconheceu que sua largada foi “desastrosa”, disse que “é cedo para pensar em campeonato” e admitiu que teve sorte no safety-car. “Mas o ritmo depois disso foi incrível”, derreteu-se, enamorado do W17. W17 é o nome do carro da Mercedes.
A categoria agora faz uma pausa forçada de mais de um mês. As corridas do Bahrein e da Arábia Saudita, marcadas inicialmente para 12 e 19 de abril, foram canceladas por causa da guerra deflagrada pelo lunático Donald Trump contra o Irã, em conluio com os assassinos do governo israelense. A temporada será retomada no começo de maio, com o GP de Miami – segunda etapa com Sprint do ano.
ATRASO – O GP do Japão começou com dez minutos de atraso por causa de um acidente feio na preliminar da Porsche Cup. Um carro decolou no outro, levantou voo, arrebentou o alambrado e quase caiu em cima de torcedores. Felizmente o piloto não se machucou. Mas a proteção teve de ser refeita, o que demorou mais do que se esperava.

TERMINOU – Registremos a alegria de Fernando Alonso, que terminou a primeira corrida do ano pela Aston Martin. O espanhol, que se tornou pai de um menino na semana passada, falou que a equipe vai levar umas dez corridas para resolver seus problemas. Esforçou-se para levar o carro até o fim. Tem sido muito profissional e evita criticar a Honda ou o time. Mas dificilmente segue a carreira no ano que vem. Vai fazer 45 anos em julho. Não tem mais idade para ficar se arrastando numa cadeira elétrica de uma F-1 que considera desagradável. “Ninguém precisa ter nenhum talento especial. Hoje você vem numa velocidade, o carro da frente diminui de repente porque acaba a bateria, e aí ou você se arrebenta na traseira do cara, ou passa ele. Isso é manobra evasiva, não ultrapassagem”.

SOS BONÉS – Peguei o finalzinho da transmissão da Globo e não pude deixar de notar que o cinegrafista, hoje, não cortou o logotipo do boné de Bortoleto. Antes tarde.































































