VIU MEU CARREGADOR? (5)

Antonelli com seu troféu: segundo mais jovem a vencer um GP

SÃO PAULO (esse menino…) – Andrea Kimi Antonelli, 19, tornou-se hoje na China o 116º piloto a vencer uma corrida na F-1. É o segundo mais jovem a conseguir a proeza — só perde para Max Verstappen, que ganhou o GP da Espanha de 2016 aos 18 anos de idade. Ontem, em Xangai, o italiano já havia inscrito seu nome na história da categoria como o mais jovem a obter uma pole-position. George Russell, seu companheiro de equipe, foi o segundo colocado na corrida. Lewis Hamilton, da Ferrari, terminou a prova na terceira colocação, subindo ao pódio pela primeira vez com o macacão vermelho da equipe italiana.

A Mercedes está invicta neste início de temporada. Fez a primeira fila e conseguiu a dobradinha na abertura do campeonato, na Austrália. Na China, também fechou a primeira fila para a Sprint, na sexta, e para o GP, no sábado. Ganhou a minicorrida com Russell (Antonelli terminou em quinto porque recebeu uma punição) e, na prova principal, repetiu o 1-2 de Melbourne, só que com seus pilotos em posições invertidas. Russell lidera o Mundial com 51 pontos. Antonelli tem 47. Charles Leclerc e Hamilton vêm a seguir com 34 e 33. Lando Norris, da McLaren, é o sexto com 15. Ele não participou do GP da China, assim como seu companheiro Oscar Piastri e mais dois – Alexander Albon, da Williams, e Gabriel Bortoleto, da Audi. Com exceção de Albon, todos tiveram genéricos “problemas elétricos” antes da largada (veja mais detalhes nas caixinhas ao final do texto).

Aconteceu bastante coisa na terra do frango xadrez e do pato laqueado. Vamos ver se anotei tudo.

Num domingo nublado e cinzento, bem diferente da véspera, que teve sol e céu azul, os termômetros de Xangai marcavam 15°C quando as luzes vermelhas se apagaram, dando início à primeira das 56 voltas da segunda etapa do campeonato de 2026. A Ferrari saltou na frente com Hamilton, como se esperava, e Leclerc também atacou a dupla da Mercedes, como se esperava, nos primeiros metros. Max Verstappen largou muito mal, como se esperava, e despencou para o fundo do pelotão. Isack Hadjar rodou e foi chamado para os boxes. Sergio Pérez e Valtteri Bottas, no rabo da cobra com os carros da Cadillac, se tocaram lutando pela 35ª posição. Foi tudo meio caótico, mas todos sobreviveram.

Na segunda volta, Antonelli recuperou a liderança, também como se esperava. Pierre Gasly, em quinto, e Franco Colapinto, em sexto, foram os grandes nomes do começo da prova, com partidas seguras, arrojadas e promissoras. Na quarta volta, Russell, que também tinha perdido posições na largada para a Ferrari, como se esperava, foi para cima de Hamilton. Passou, como se esperava. E a Mercedes, mais rapidamente do que se esperava, se posicionou em primeiro e segundo já na quinta volta, deixando Hamilton e Leclerc em terceiro e quarto.

Nas primeiras voltas, a transmissão da TV se concentrou em Verstappen, que tinha largado com pneus macios, assim como seu companheiro Hadjar. Ele tinha começado uma recuperação interessante, e na oitava volta já era o décimo colocado. Sua borracha, no entanto, estava num estado lastimável. Na volta 10, ele e Liam Lawson pararam para trocar pneus. Max colocou um jogo de duros, como já fizera Hadjar após a rodada da primeira volta.

O abraço de Toto Wolff: 116º vencedor da história

Mal saíram dos boxes, Max e Lawson se depararam com um cágado verde sobre rodas parado na curva 1. Era o Aston Martin de Lance Stroll. O safety-car foi acionado para que o serviço de limpeza pública de Xangai removesse o lixo da pista. As duplas de Mercedes e Ferrari aproveitaram para trocar pneus. Gasly, que era o quinto, fez o mesmo. Colapinto, o sexto, ficou na pista, porque tinha largado com pneus duros. Antonelli voltou dos boxes em primeiro, com o argentino em segundo. Em Buenos Aires ouviram-se fogos. Esteban Ocon, da Haas, era o terceiro – outro que não havia parado, também por ter largado com pneus duros.

O safety-car recolheu-se à sua insignificância no fim da volta 13. Antonelli, Colapinto, Ocon, Russell, Hamilton, Arvid Lindblad, Leclerc, Nico Hülkenberg, Gasly e Oliver Bearman eram os dez primeiros. Para Kimi, ótimo: entre ele e aqueles que poderiam incomodá-lo tinha bastante gente.

Na relargada, Hamilton passou Russell e, depois, Ocon. Na sequência, partiu para o ataque sobre Colapinto. A Mercedes não desgarrou e Russell, mais para trás, começou a reclamar dos pneus duros. “Vejam bem, a consistência desta borracha é notavelmente notável, eu até teria em meu carro de rua, dada sua durabilidade. Mas no caso do evento do qual estamos participando, visto que as temperaturas são baixas e o asfalto me parece gélido, creio que terei alguns maus momentos nas voltas vindouras”, disse, pelo rádio. “Que foi que ele falou?”, perguntou Toto Wolff ao engenheiro. “Que está uma merda”, resumiu o rapaz.

Ferrari x Ferrari: arrepios no cemitério de Modena

Lewis passou o carro da Alpine na volta 14 e foi para cima de Antonelli para tentar a liderança. A Ferrari, diferentemente da dupla do time alemão, cresceu com os pneus duros – ao menos nas primeiras voltas após a parada. Mas faltava velocidade nas retas aos carros vermelhos. Lewis pedia “mais bateria” ao seu engenheiro, de quem ainda não sabe o nome. “De quantos amperes?”, perguntou o funcionário escalado para falar com o inglês no rádio. “Sei lá, o máximo possível!”, impacientou-se o heptacampeão mundial. “Positivo do lado direito ou esquerdo?”, prosseguiu o engenheiro, para não fazer nenhuma besteira. “Qualquer lado, qualquer coisa!”, rebateu o piloto, irritado. O técnico não se abalou: “Base de troca?”. Hamilton, então, desistiu de pedir bateria.

Os pneus duros da Mercedes ganharam temperatura e se estabilizaram. Briga boa, mesmo, acontecia entre o quinto e o nono colocados, a saber: Bearman, Colapinto, Verstappen, Ocon e Gasly. Isso na volta 22. Todos andavam muito próximos, trocando de posições freneticamente e maldizendo as baterias que acabavam e depois eram recarregadas. Bem à frente deles, Antonelli, Hamilton, Leclerc e Russell dominavam a prova. Na volta 23, Chaleclé se aproximou do companheiro e seu Jorge veio junto. Antonelli, já mais tranquilo, começou a abrir um pouco.

O monegasco assumiu a segunda posição na volta 24, mas Lewis tentou recuperá-la imediatamente. Os dois quase bateram rodas. No túmulo do cemitério de San Cataldo, em Modena, Enzo Ferrari se revirava, incomodado com a situação periclitante. “Piloti, che gente…”, resmungou. Nessas, enquanto a dupla ferrarista se estapeava flertando com a tragédia, Kimi foi-se distanciando. Na volta 27, já tinha mais de 5s de vantagem sobre o segundo colocado. Que, no caso, voltara a ser Hamilton. A putaria entre os dois representantes de Maranello acabou na volta 28, quando Russell passou Lewis – que já tinha sido ultrapassado novamente pelo parceiro. O líder do campeonato assumiu a terceira posição, para colocar ordem na casa e buscar a dobradinha da Mercedes – como se esperava.

Início de prova, Antonelli e Russell em primeiro e segundo

Leclerc não resistiu muito à superioridade do carro alemão. Uma volta, só. No fim da gigantesca reta do circuito chinês, seu Jorge fez a ultrapassagem e se colocou em segundo. Kimi estava mais de 7s à frente. Exatamente na metade da prova, a Mercedes se livrou de quem lhe aborrecia.

Com 31 voltas, Antonelli, Russell, Leclerc, Hamilton, Bearman, Verstappen, Gasly, Colapinto, Hülkenberg e Lawson eram os dez primeiros. Desses, Colapinto e Hulk não tinham trocado pneus, ainda. Franco parou na 33ª, mas quando saiu dos boxes foi abalroado por Ocon. Os dois seguiram na prova. O francês da Haas assumiu a culpa pelo rádio e tomou um pênalti de 10s pelo incidente.

Na volta 36, Hamilton passou Leclerc de novo e o cabaré ferrarista recomeçou. Antonelli e Russell já haviam desaparecido do campo de visão dos dois. A briga valia a terceira posição – algo que Lewis desejava muito, já que passara a temporada de 2025 inteira sem levar nenhum troféu para casa, só uma medalhinha mequetrefe da Sprint da China, que nem sabia onde tinha guardado. Eles continuaram trocando posições, deixando extáticos e boquiabertos aqueles que vibram com qualquer coisa que pareça espetacular, mesmo que não seja. A exibição da dupla, como entretenimento, era até divertida. Do ponto de vista técnico e esportivo, não tinha nenhum significado. O que determinava o troca-troca era a energia disponível nas baterias de cada um. Tem mais, passa. Tem menos, toma. Volta a carregar, repassa. Cai o nível de novo, leva. É tipo um jogo de futebol sem goleiros. Sai um monte de gol. E daí?

Verstappen abandona: largada horrível, pneus péssimos, tudo ruim

Na volta 46, Verstappen, que estava em sexto, recebeu um telefonema da Red Bull. “Bonitão, vamos recolher o carro”, informou seu engenheiro, assertivo. Max adorou a ideia. Ele estava havia 500 voltas atrás de Bearman, sem conseguir ultrapassar o inglês da Haas. Seu motor perdeu potência de repente e a equipe percebeu que Inês era morta. Mesmo sem se importar muito com os motivos, o holandês perguntou: “O que aconteceu?” “Inês morreu”, respondeu o interlocutor. “Quem é Inês?”, seguiu Max, agora um pouco mais curioso. Seguiu-se um silêncio melancólico na comunicação. “Morreu de quê?”

Lá na frente, Antonelli fazia uma corrida exemplar, cravando voltas mais rápidas em sequência e mantendo Russell a uma distância mais do que segura. Hamilton, em terceiro, conseguiu uma boa folga em relação a Leclerc, que cansou daquela suruba caseira, tirou o pé e se conformou com o quarto lugar. Bearman, Gasly, Lawson, Hadjar, Carlos Sainz e Colapinto fechavam o grupo dos dez primeiros na volta 50, a seis do final. Os dois últimos dessa turma mal acreditavam que estavam nos pontos.

Na volta 54, Kimi deu um susto em sua mãe, dona Veronica, ao fritar os pneus e escapar da pista no fim da reta mastodôntica do circuito chinês. Perdeu 2s na quase-desgraça, mas sua distância para Russell era grande o bastante para que a leve bobeada não tivesse nenhuma consequência. Se aprumou e foi embora. E os dez primeiros se mantiveram inalterados até o final.

Kimi ganhou com 5s5 de vantagem para seu companheiro. Hamilton, finalmente, chegou ao pódio com a Ferrari. Terminou mais de 25s atrás do italianinho, porém. Obviamente não tem carro para brigar por vitórias, ainda. Ou seja, a Mercedes vai continuar dominando a bagaça. Vou te dizer que no Japão vão ganhar de novo. Leclerc acabou em quarto. Bearman e Gasly, quinto e sexto, foram espetaculares. Lawson e Hadjar não tinham muito do que reclamar. Sainz e Colapinto, os dois últimos na zona de pontos, não continham a alegria. O espanhol, pelo milagre operado. O hermano, por tirar o lacre defendendo a equipe francesa. Nunca tinha pontuado com a Alpine.

Ao estacionar o carro na reta dos boxes, diante do público na arquibancada, Antonelli tinha os olhos cheios de lágrimas adolescentes. Saiu do cockpit e correu para abraçar todo mundo na Mercedes. Recebeu um afago carinhoso de Hamilton. Chorou na entrevista para David Coulthard, ainda na área de box.

Mas no pódio, logo depois, Kimi era só sorrisos. Não só ele. Foi uma cerimônia de premiação genuinamente leve e feliz. Russell, que poderia estar contrariado por ser batido por um menino que ainda brinca de Playmobil, saía da China na liderança do campeonato, apesar do segundo lugar. E sabe que o favoritismo ao título lhe pertence — pela experiência, liderança interna e talento, claro. Hamilton não aguentava mais fazer cara de derrotado na Ferrari. Vimos novamente seus olhos brilhando, o que não acontecia desde tempos imemoriáveis. E Peter Bonnington, o engenheiro de Antonelli, foi receber a taça em nome da Mercedes junto do novo pupilo e do ex, Lewis, com quem trabalhou no time tedesco desde a era paleozoica.

Um piloto italiano não vencia um GP de F-1 há exatos 20 anos, desde 19 de março de 2006. Na ocasião, Giancarlo Fisichella ganhou a corrida da Malásia pela Renault, com Fernando Alonso em segundo.

Naquele dia, Andrea Kimi Antonelli ainda estava na barriga de dona Veronica.

“POBREMAS” – Quatro pilotos não conseguiram alinhar para a largada em Xangai: Alexander Albon, Lando Norris, Oscar Piastri e Gabriel Bortoleto. O tailandês da Williams teve problemas hidráulicos quando ia para o grid, voltou aos boxes e de lá não saiu. Os outros três ficaram fora da corrida por questões diversas. No caso do brasileiro, ele também já estava a caminho do grid quando houve uma pane parecida com a de Hülkenberg na Austrália. A Audi, porém, não revelou qual foi o piripaque. Já o campeão mundial nem conseguiu tirar seu carro da garagem. E seu companheiro australiano foi puxado para os boxes quando já estava posicionado para o início da prova. “Problemas elétricos nos motores”, informou a McLaren, sem especificar o que exatamente abateu seus carros. O time disse apenas que cada um enfrentou um defeito — donde é lídimo concluir que foram, pois, pepinos motorísticos distintos. Norris e Piastri deveriam largar da terceira fila do grid. O início de temporada papaia é lamentável.

DESFALQUES – Até agora, em duas corridas, a F-1 não conseguiu juntar seus 22 pilotos no grid. Na Austrália, Piastri bateu quando levava o carro para o alinhamento e Hülkenberg teve uma pane antes de começar a prova. Na China, com as desistências de Bortoleto, Albon, Norris e Piastri, apenas 18 alinharam.

FIM DOS TEMPOS – Um Mickey e uma Minnie desfilaram junto com Stefano Domenicali no grid, antes da largada. A Disney tem negócios com a F-1, como se sabe. Mas não deixa de ser curioso ver ícones do colonialismo cultural dos EUA fazendo festa num país tratado pelo presidente americano como inimigo mortal. Para piorar, a silhueta do camundongo foi pintada em algumas zebras. Saudades de Mao…

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VIU MEU CARREGADOR? (4)

SÃO PAULO (caldo de galinha) – Como se esperava, a FIA comunicou que os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita não serão realizados em abril, fazendo questão de enfatizar que essas corridas não serão substituídas por outras no próximo mês. Pode ser (isso o texto não diz, mas deixa em aberto, no tradicional estilo de redação dos comunicados da entidade) que elas sejam realizadas em outras datas, ou substituídas por outras em outros países. Mas em abril não teremos corrida nenhuma, essa é a notícia. O GP do Bahrein estava marcado para o dia 12 e o de Jedá para uma semana depois. A F-1, depois do GP do Japão (29 de março), só volta em maio, com a etapa de Miami.

E por que o cuidado para não dizer simplesmente que os GPs estão cancelados de forma definitiva? Porque há correntes internas na F-1 que estudam as possibilidades de substituição ou remarcação dessas etapas. Tais opções estão previstas nos bilionários contratos assinados com os promotores das provas, muitos deles associados a governos nacionais. Daí que a entidade está evitando usar o termo cancelamento para se referir à não realização das corridas nos dois países no mês de abril.

Remarcar as provas depende, claro, da evolução da guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. O Irã tem respondido aos ataques, e todos os países do Oriente Médio aliados dos americanos estão ameaçados por suas forças militares. Já houve bombardeios ao Bahrein e a alvos próximos da Arábia Saudita. Catar e Abu Dhabi também correm risco se o conflito se estender por meses. São as duas últimas etapas do campeonato, no final de novembro e no começo de dezembro. O mesmo vale para o Azerbaijão, que faz fronteira com o Irã, e tem sua corrida marcada para o fim de setembro.

Na prática, como não somos redatores ou advogados da FIA, podemos dizer que, neste momento, as duas provas foram canceladas. E, na base do achismo — e de alguma experiência –, também podemos dizer que dificilmente elas serão substituídas por outras na Europa.

Isso seria possível, por exemplo, trocando o período de recesso de agosto pelos dias livres de abril, abrindo datas no mês em que, tradicionalmente, as fábricas fecham e todos saem de férias. Certamente há quem defenda tal alternativa, já que a ganância é traço comum a muitos dos atores dessa trama. Duas corridas a menos são duas taxas de GPs que deixarão de ser pagas pelos promotores. Portanto menos dinheiro do butim distribuído para acionistas, equipes e entidades que organizam o campeonato.

Mas não creio que todo mundo aprove a ideia. Acho que a maioria aceita ganhar um pouco menos em troca de um mês livre para trabalhar com calma nas fábricas, já que quase todos têm tido problemas com os novos carros da categoria. E um descanso sem viagens seria bem-vindo depois de uma pré-temporada cansativa com três sessões coletivas na Espanha e no Bahrein.

Resumindo, acho que o Mundial ficará mesmo com 22 etapas. O que, convenhamos, já é bastante.

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VIU MEU CARREGADOR? (3)

SÃO PAULO (amanheceu) – Kimi Antonelli fez história hoje na China.

Detesto escrever “fez história”. É mais uma expressão banalizada pelas redes sociais e pela imprensa esportiva imberbe, que acha que qualquer coisa é “fazer história”. Sujeito pega um avião para cobrir um jogo da Libertadores no Paraguai e acha que está “fazendo história”. “Influencer” consegue uma palavrinha do João Fonseca no portão de Roland Garros e afirma, sem nenhuma falsa modéstia: “Fiz história”. Canal do YouTube transmite um jogo da série B em São Bernardo do Campo e informa a seus telespectadores: “Fizemos história”.

Mas Antonelli fez mesmo, porque se tornou o mais jovem pole-position da história da F-1. Que não é uma história que começou na semana passada, mas em 1950. E o italiano da Mercedes superou uma marca que já durava quase 18 anos, de Sebastian Vettel. O alemão detinha o recorde de mais jovem pole da categoria. Tinha 21 anos, 2 meses e 11 dias de vida bem vivida quando conseguiu a primeira posição no grid para o GP da Itália de 2008, em Monza. Defendia as cores da Toro Rosso. Ganhou a corrida.

Kimi tem, de acordo com números oficiais da F-1, 19 anos, 6 meses e 17 dias de vida bem vivida. Na próxima madrugada ocupará a posição de honra em Xangai, com chances reais de vencer pela primeira vez na categoria. A Mercedes segue invicta em grids em 2026. Fez a primeira fila na Austrália, colocou seus dois rapazes na frente na Sprint chinesa (vencida por George Russell na madrugada de hoje) e estará de novo com ambos liderando o pelotão na largada para as 56 voltas da corrida. Só que, desta vez, com inversão dos pilotos. Russell, que teve problemas no Q3, ficou com a segunda posição.

Ferrari e McLaren, cujas duplas ficaram com a segunda e a terceira filas, tentarão impedir a Mercedes de vencer a segunda corrida seguida (sem contar a Sprint, claro) nesta temporada. Não será fácil. O ritmo de prova dos carros alemães é muito bom. O time italiano, que terá Lewis Hamilton em terceiro e Charles Leclerc em quarto no grid, aposta tudo na largada. Deve saltar com ambos à frente de Antonelli e Russell, porque os carros vermelhos têm sistemas de largada mais eficientes que os demais. As primeiras voltas serão eletrizantes com várias trocas de posições em função dos diferentes níveis de bateria de cada carro – gestão de energia pra valer os pilotos só conseguem executar quando as coisas acalmam um pouco. Se ninguém bater nessas primeiras movimentações, que serão exaltadas por narradores, comentaristas e polianas de plantão, a tendência é que depois de oito ou dez voltas a situação se estabilize e, aí, a Mercedes passe a controlar o GP.

E vamos à classificação, para entender como Antonelli conseguiu a façanha de conquistar uma pole antes mesmo de prestar vestibular e de se alistar no Exército. Ou de fazer a barba sozinho com espuma Bozzano e gilete cega.

Hamilton, 3º no grid: Ferrari tentou incomodar

O sábado começou ensolarado em Xangai, com os termômetros batendo na casa dos 17°C, um clima mais amigável do que a friaca de ontem. No Q1, até a Mercedes entrar na pista, o melhor tempo era de Oscar Piastri, 1min33s990. Antonelli, então, virou 0s685 mais rápido. Russell, 0s728. Hamilton, logo depois, se aproximou um pouco e cronometrou sua primeira volta boa com um tempo apenas 0s260 pior que o do líder do campeonato. E, na sequência, Leclerc passou a régua em todo mundo e fez uma volta em 1min33s175, deixando Russell 0s087 atrás. Uma surpresa, até ali.

O Q1 não tinha muita importância porque o grupo dos seis eliminados já era conhecido: as duplas de Williams, Aston Martin e Cadillac, salvo alguma inesperada intercorrência dos demais. Que não houve. Pela ordem, ficaram pelo caminho Carlos Sainz, Alexander Albon, Fernando Alonso, Valtteri Bottas, Lance Stroll e Sergio Pérez.

E Leclerc não foi o único a surpreender na primeira parte da classificação. Gabriel Bortoleto, por exemplo, terminou em sétimo. Franco Colapinto, em décimo. E Max Verstappen, em quarto.

A partir do Q2, aí sim, começaria algo que pudesse ser chamado de disputa. Teoricamente, as quatro grandes avançariam ao Q3. O resto brigaria pelas duas vagas restantes. Na primeira rodada de voltas rápidas, Russell voltou à ponta com 1min32s523. Hamilton era o segundo provisoriamente, a 0s311 do inglês da Mercedes. Naquele momento, já entrando na segunda metade do Q2, os dois convidados das quatro grandes para ficar entre os dez primeiros eram Oliver Bearman, em sexto, e Pierre Gasly, em oitavo. Bortoleto, com uma volta ruim, aparecia em último entre os que tentavam um lugar entre os dez primeiros.

Mas Leclerc estava mesmo a fim de incomodar os favoritos da Mercedes. Na sua segunda volta rápida, superou o tempo de Russell em 0s037. Era uma disputa interessante. Antonelli deu o troco na sequência, batendo o tempo do monegasco por 0s043. Gabriel foi parar na brita na última curva, não fechou sua segunda volta e ficou onde estava na tabela, 16º. Junto com ele foram mais cedo para o chuveiro, a partir do 11º, Nico Hülkenberg, Colapinto, Esteban Ocon, Liam Lawson e Arvid Lindblad. Como previsto, avançaram as duplas de Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull. Com eles, Gasly e Bearman.

Invicto no ano até então, Russell disse pelo rádio que havia algo estranho em seu carro antes de começar o Q3. Pediu para trocarem a asa dianteira. A solicitação foi atendida. Boxes abertos, deu merda. O #63 empacou no meio da pista. George apertou todos os botões possíveis, evocou deuses e orixás e conseguiu fazer o automóvel funcionar, só que travado em apenas uma marcha. Logrou voltar aos boxes. Mas o nervosismo tomou conta de seu lado da garagem.

Sobrou para Antonelli a tarefa de manter a fama de má da Mercedes. Em sua primeira tentativa de volta rápida, Kimi, o italianinho, cravou 1min32s322, tempo que seus rivais de Ferrari e McLaren não conseguiram bater. Nos boxes, o time alemão escarafunchava o carro de Russell por todos os poros, espetava cabos e mangueiras, trocava tudo que era possível – até um volante novo foi providenciado –, ligava e desligava, tirava da tomada e esperava dez segundos, jogava sal grosso, e nada de ele sair do lugar. A areia escorria pela ampulheta e os outros nove carros voltaram à pista para suas segundas tentativas de voltas voadoras. Quando faltavam 2min17s para o encerramento das atividades, finalmente seu Jorge foi à luta. Sem acertar nada, sem aquecer pneus, sem preparar volta. Jogaram o coitado na pista de qualquer jeito.

Kimi foi o primeiro a fechar volta rápida na segunda bateria de tentativas. Baixou bem sem tempo: 1min32s064. Hamilton e Leclerc, que ensaiaram uma ameaça à Mercedes nas fases anteriores da classificação, não conseguiram chegar perto dele. McLaren e Red Bull, menos ainda. Restava Russell, atormentado pelos perrengues inesperados que quase o deixaram sem carro. Completou uma volta mais ou menos e não superou o jovem companheiro: ficou 0s222 atrás. Foi o suficiente, porém, para garantir um lugarzinho na primeira fila.

O grid em Xangai: primeira fila da Mercedes

George perdeu a invencibilidade, mas a Mercedes, não. Fez 1-2 no grid, apesar dos imprevistos que atrapalharam o inglês. Na segunda fila, Ferrari: Hamilton em terceiro, Leclerc em quarto. Na terceira, McLaren com Piastri e Lando Norris. Gasly ficou com uma excepcional sétima posição, seguido por Verstappen, Isack Hadjar e Bearman. Max apareceu em oitavo, 0s938 atrás da pole. “Horrível, pavoroso, péssimo, horripilante, angustiante, hediondo, medonho, imprestável”, definiu o holandês.

O GP da China começa às 4h, horário da Papudinha. Se Antonelli vencer, não fará história. Essa, de ser o vencedor mais jovem de todos os tempos, já foi escrita por Verstappen em Barcelona/2016. Ganhou o GP da Espanha, em sua estreia pela Red Bull, com 18 anos 7 meses e 15 dias de vida bem vivida.

Kimi já passou do ponto nesse quesito. É quase um velho.

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VIU MEU CARREGADOR? (2)

100%: Russell vence a Sprint e vai a 33 pontos no Mundial

SÃO PAULO (segura) – George Russell segue 100% na temporada 2026. Fez a pole e venceu o GP da Austrália, fez a pole da Sprint e ganhou a minicorrida da China. Ainda hoje, mais tarde, tentará manter o ritmo com a definição do grid para a prova principal em Xangai. A Mercedes começou o campeonato de forma dominante. Vai ser duro para os outros tirarem o atraso.

O pódio-que-não-é-pódio da Sprint chinesa teve a dupla da Ferrari em segundo e terceiro, com Charles Leclerc e Lewis Hamilton, nessa ordem. Foi a segunda vitória de Russell em Sprints. O outro carro da Mercedes, de Kimi Antonelli, terminou em quinto. O italiano poderia ter sido o segundo – chegou a andar nessa posição –, mas tomou uma punição de dez segundos, o que atrapalhou seus planos.

Foi uma prova agitada nas primeiras e nas últimas voltas. No começo, como em Melbourne, porque estão todos fisicamente próximos, com a adrenalina lá em cima e sem tempo de apertar ou desapertar muitos botões. Por isso os níveis de bateria de um carro para outro variam muito, permitindo uma frenética troca de posições – não confundir com ultrapassagens no sentido clássico da palavra. E no final, porque houve um safety-car que juntou o pelotão quando a maioria das posições já estava estabilizada.

Russell perseguido pela Ferrari: início empolgante

O início foi empolgante. Será assim em todas as corridas, pelas razões já descritas no parágrafo acima. Não vou ficar repetindo. Hamilton largou muito bem – ponto forte da Ferrari neste começo de temporada — e partiu para cima de Russell, assumindo a liderança no meio da primeira volta. O mercêdico deu o troco logo depois. Aí tomou de novo. Ah, as baterias… Quem largou mal outra vez, como na Austrália, foi Antonelli, caindo para oitavo. Verstappen mal saiu do lugar e caiu para o fundo do pelotão. Leclerc, a exemplo de seu companheiro, partiu igualmente bem, saindo de sexto para terceiro.

Por conta disso, seu Jorge se viu ensanduichado pelos dois carros da Ferrari. Na terceira volta, conseguiu passar de novo a vermelhona #44 no fim da reta. Lewis retomou a posição algumas curvas depois. Era um troca-troca parecido com o do início da corrida de Melbourne — ou “efeito ioiô”, como chamou o líder do campeonato depois de vencer a primeira corrida do ano.

A briga estava boa, ainda que se soubesse que não iria durar muito. Leclerc vinha na balada dos dois, até que na volta 6 Russell passou novamente e começou a abrir um pouco. Chaleclé, então, chegou no companheiro. O frenesi arrefeceu. Antonelli, que tentava uma recuperação da má largada, tomou um pênalti de 10s por ter tocado em Hadjar no início.

Na volta 8, o monegasco passou Lewis e assumiu o segundo lugar. E os dois começaram um duelo divertido, mas pouco produtivo. Russell agradeceu. E também durou pouco, a briga. Hamilton, na décima volta, ficou para trás. George, por sua vez, sumiu na frente. Para o videozinho dos “xóvens” de Stefano Domenicali, que veem corridas no TikTok porque não têm paciência, a Sprint já tinha cumprido sua função.

Antonelli subiu para terceiro na 11ª volta, tentando compensar de alguma forma a punição que tomaria ao final da corrida – que ele mesmo considerou merecida. Foi para cima de Leclerc e na volta 13 passou a Ferrari, assumindo o segundo lugar. Não fosse o pênalti, provavelmente terminaria ali, com mais uma dobradinha para a Mercedes.

Mas houve um providencial safety-car nessa hora, porque o Audi de Nico Hülkenberg parou no fim da reta dos boxes. Mesmo faltando poucas voltas para o fim da corrida, quase todo mundo foi para os boxes para colocar pneus macios – os médios da maioria já estavam pedindo arrego. Algumas posições se alteraram porque teve equipe trocando pneu de dois carros, um atrás do outro. O segundo sempre sai no prejuízo.

Russell, Leclerc, Norris, Hamilton, Lawson, Bearman, Antonelli e Piastri eram os oito primeiros atrás do safety-car quando a relargada foi autorizada na 17ª das 19 voltas previstas para a Sprint. Demoraram muito para tirar o carro de Hulk, o que deixou a prova com três voltas úteis para o final. Os quatro primeiros tinham pneus macios. Lawson, que largara com duros, não trocou e subiu muito no pelotão. Bearman, atrás dele, também não tinha trocado. Seriam engolidos por Antonelli e Piastri, que tinham macios atrás deles. Assim foi. Na penúltima volta, ambos haviam ficado para trás. Oscar passara Kimi antes da linha do safety-car na relargada e teve de devolver a posição. Mais à frente, Hamilton passou Norris, lançando âncora na terceira colocação.

E como diziam os locutores de rádio quando o juizão erguia os braços para encerrar o clássico em Pacaembu, não havia tempo para mais nada. Russell venceu com 0s674 de vantagem para Leclerc, o segundo. Hamilton ganhou a terceira medalhinha do dia. Norris, Antonelli, Piastri, Lawson e Bearman fecharam grupo dos oito que marcam pontos nas minicorridas da F-1. Verstappen foi o nono e Bortoleto, o 13º. Max descreveu sua prova como “terrível”. E mais não disse. Foi a primeira vez, em 25 Sprints realizadas desde 2021, que a Red Bull não pontuou.

Para os registros, a Sprint xinguelingue foi disputada com sol, céu azul e 14°C nos termômetros. Russell somou mais oito pontos e agora tem 33 na liderança absoluta do Mundial.

JÁ ERA – Quem tem aplicativos no celular que sincronizam compromissos com calendários já deve ter percebido: nos telefones, os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita, marcados para os dias 12 e 19 de abril, não vão acontecer. A FIA deve oficializar o cancelamento ainda hoje. Os motivos são óbvios: a guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã, que está levando o Oriente Médio inteiro de roldão.

INTERESSA – Flavio Briatore disse que a Mercedes está conversando com a Alpine e pode comprar 24% da equipe, percentual que hoje pertence ao Otro Capital, fundo de investimento que tem como controladores alguns atletas e artistas de cinema dos EUA. Eles compraram esse pedaço do time em 2023 por US$ 233 milhões. Ao que parece, se venderem hoje ganharão uma grana. De acordo com Briatore, o interesse é da montadora alemã, e não de Toto Wolff. Ainda segundo o picare…, digo, dirigente, outros “três ou quatro” grupos e/ou pessoas têm sondado o time francês — Christian Horner, ex-chefe da Red Bull, seria um deles.

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VIU MEU CARREGADOR? (1)

Russell na pole: com o pé nas costas

SÃO PAULO (corram atrás) – Esqueçam este campeonato. Como legítimo arauto do apocalipse, vos afirmo: George Russell será campeão com muita antecedência e Kimi Antonelli tornar-se-á o vice mais jovem de todos os tempos. A dupla da Mercedes está sem adversários. Já não teve na Austrália, não terá na China e nunca mais alguém vai chegar perto até o fim dos tempos. A não ser que mudem as regras, mandem desligar dois cilindros de seus motores, coloquem lastros em forma de sacos de areia, obriguem os pilotos do time alemão a uma parada extra em todas as corridas para fazer xixi.

Russell conquistou nesta madrugada, com estarrecedora facilidade, a pole-position para a Sprint de Xangai. Antonelli larga em segundo. É possível que um deles seja ultrapassado na largada por pelo menos uma Ferrari, a de Lewis Hamilton, quarto no grid. Mas, se isso acontecer, a posição será recuperada na enorme reta que é a marca registrada do circuito de Xangai. A superioridade dos carros da Mercedes neste começo de temporada é massacrante. Está deixando todo mundo desolado. Inclusive este que vos escreve na madrugada.

O grid em Xangai: Mercedes nem comemorou

Como mandam os cânones, na classificação para a Sprint, o uso de pneus médios é mandatório nos dois primeiros segmentos. Assim, no SQ1 os primeiros tempos começaram a ser registrados modestamente acima de 1min34s. Hamilton e Nico Hülkenberg foram os primeiros a entrar na casa de 1min33s. A temperatura estava um pouco mais alta do que no treino livre, com os termômetros marcando 15°C. O asfalto, que de manhã se apresentou gélido a 14°C, já batia nos 26°C. A sexta-feira foi ensolarada na megalópole comunista, com um céu azul de doer.

Quando a Mercedes foi para a pista, Russell bateu o cronômetro em 1min33s030 sem nenhum esforço. A Ferrari até que insinuou alguma disputa, com Hamilton subindo para segundo e Chaleclé escalando o pelotão até a terceira posição. Mas ficou na insinuação.

Gasly: sétimo no grid, à frente de Verstappen

Sem Sergio Pérez, desfalque anunciado antes de começar a classificação (veja caixinha preta abaixo), cinco carros ficariam de fora do SQ2. Stroll, Alonso e Bottas certamente estariam entre eles. Assim, na prática, o SQ1 detonaria apenas dois pilotos. E foi a dupla da Williams que ficou com o mico na mão. Pela ordem, do 17º ao 22º, o fundão do grid terá Carlos Sainz, Alexander Albon, Fernando Alonso, Lance Stroll, Valtteri Bottas e Pérez. Williams, Aston Martin e Cadillac são equipes que, neste momento, nem parecem times de F-1. Os dez primeiros: Russell, Hamilton, Charles Leclerc, Antonelli, Lando Norris, Oscar Piastri, Pierre Gasly, Hülkenberg, Esteban Ocon e Liam Lawson. Max Verstappen, que odeia esses carros, odeia o regulamento, odeia os novos motores e odeia as baterias, foi o 11º. Gabriel Bortoleto, o 13º.

O SQ2 já seria mais complicado, sem a presença das lesmas que frequentarão a zona da degola por um bom tempo, neste ano. Complicado, para ficar bem claro, para a galera do segundo pelotão. Lá na frente, a Mercedes era pule de dez. Logo em suas primeiras voltas, Russell e Antonelli foram para primeiro e segundo. Ferrari e McLaren se revezariam nas quatro posições seguintes. E a Red Bull viria um pouco mais atrás – o time de Verstappen não consegue fazer frente às demais da ponta, por enquanto.

Hamilton espia a Mercedes: saudades da minha ex

Os dois intrusos que se juntaram às quatro duplas das grandes foram Gasly e Oliver Bearman. Russell e Antonelli foram, de novo, os dois primeiros: 1min32s241 para seu Jorge, com diferença de meros 0s050 para o italianinho. A foice do SQ2 eliminou Hülkenberg, Ocon, Lawson, Bortoleto, Arvid Lindblad e Franco Colapinto. Verstappen foi apenas o nono, cuspindo marimbondos. Acho que já disse, ele está odiando essa F-1 elétrica.

No SQ3, com todos usando pneus macios, não houve surpresas. A Mercedes fechou a primeira fila com Russell na pole e Antonelli em segundo. O tempo do inglês: 1min31s520. Kimi ficou 0s289 atrás. A partir de Norris, o terceiro, as diferenças foram gigantescas. Lando terminou a 0s621 da pole. Hamilton, o quarto, a 0s641. Depois vieram Piastri, Leclerc, Gasly, Verstappen (a intransponíveis 1s734), Bearman e Isack Hadjar no top-10. Se houvesse um trofeuzinho para o destaque do dia, eu daria para o francês da Alpine, um piloto claramente mais rápido que o carro que tem.

A Sprint chinesa começa hoje à meia-noite e terá 19 voltas. A Mercedes fará dobradinha. Depois, às 4h do sábado, tem a classificação para o GP de verdade. A Mercedes também fará dobradinha. Agora vou dormir.

DOLPHIN – Deu na imprensa alemã, na famosa “Auto, Motor und Sport”: a BYD chinesa está interessada na F-1. O mais fácil, claro, é comprar uma equipe que já existe, como fez a Audi. Ninguém está oficialmente à venda, com plaquinha na porta da fábrica. Mas a Renault, se aparecer alguém disposto, vende a Alpine ontem. A montadora já desistiu de fazer motor, está gastando mais do que devia comprando da Mercedes e trouxe Flavio Briatore para fazer uma limpa na organização. Fala-se também em Aston Martin, em crise com a Honda. Mas aí o buraco é mais embaixo. Ou mais caro.

PARA COMPARAR – GP da China de 2025, pole-position: Piastri, 1min30s641. Melhor volta na corrida: Norris, 1min35s454.

TREINO ÚNICO – No treino livre único da China, realizado no começo da madrugada pelo horário brasileiro, Russell foi o mais rápido com 1min32s741, 0s120 à frente de Antonelli. Norris, o terceiro, ficou a 0s555 do britânico mercêdico. A primeira Ferrari, de Leclerc, foi a quinta colocada a 0s858 de seu Jorge. Bortoleto terminou em 12º. A sessão foi realizada com sol e muito frio, 12°C.

Pérez só fez o treino livre com a Cadillac

DESFALQUE – Pérez não participou da classificação para a Sprint. A Cadillac identificou um grave problema no seu carro: não andava. Porque a bomba de gasolina não funcionou.

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PRENDE EU

Suíça, circa 1971. Foto enviada pelo Douglas Nascimento.

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FOTO DO DIA

As informações sobre essa graça de trabalho estão aí embaixo:

A exposição “GAME: brincar com arte”, de Heberth Sobral, foi aberta na Galeria de Arte Solar, no Pavão-Pavãozinho (Rio de Janeiro). Ela parte do universo dos jogos e esportes para dialogar com a arte contemporânea. Um dos trabalhos da mostra é a recriação em fotografia de uma vitória de Ayrton Senna na versão Playmobil. Há também referências ao campeão de golfe Tiger Woods e a Pelé, Rivellino, Gérson, Jairzinho — estes apresentados em formato de álbum de figurinhas da década de 70. A mostra vai até 28 de março. Horários: de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h; sábado, das 8h às 12h. A entrada é franca. Sem fins lucrativos, a Galeria de Arte Solar é uma das instalações do Solar Meninos de Luz — instituição educacional eleita Melhor ONG do Rio de Janeiro no Prêmio Melhores ONGs do Brasil 2025. O endereço: rua Saint Roman, 149 – Pavão-Pavãozinho, Copacabana, Rio de Janeiro.

O artista Heberth Sobral
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SOBRE ONTEM DE MADRUGADA

A IMAGEM DA CORRIDA

Passa, repassa, e ninguém lembra de nenhuma delas

SÃO PAULO (autoengano) – Escolhi essa foto aí para marcar o GP da Austrália. Poderia ter escolhido uma com Chaleclé bem à frente. Ou outra com seu Jorge dando tchauzinho. Tanto faz. Porque esse passa & repassa foi mais artificial que sucrilhos de ovomaltine — comi esse negócio outro dia e parecia que estava engolindo isopor. Um só passou o outro e o outro só passou o um porque os níveis de bateria de cada um eram completamente diferentes. Não foi demonstração de talento, destreza, coragem, ousadia, sequer de mais competência de engenheiros e projetistas de um time sobre os do outro. Como escreveu o veterano comentarista inglês Mark Hughes, “superficialmente foi fantástico, mas como disputa de habilidade entre pilotos, não significou nada”.

A primeira corrida do novo regulamento da F-1 agradou o público tiktoker, que vê qualquer merda de 15 segundos e se dá por satisfeito, correndo para outro vídeo. Foi isso, ontem: dez voltas de uma certa movimentação até que os pilotos se acomodassem em suas posições, para então começarem o showzinho de passar o colega numa reta para tomar um passão na seguinte. Graças a isso, a categoria se jactou de ter entregue aos “xóvens” 120 ultrapassagens em Melbourne, contra 45 do ano passado.

Alguém se lembra de alguma? Não, como ninguém se lembra do que viu no TikTok dois minutos atrás, ou nos “Reels” (é em maiúscula, essa merda? Já virou nome próprio?) do Instagram hoje de manhã.

Mas me lembro de Piquet sobre Senna em Budapeste/1986. De Senna sobre Hill em Interlagos/1993. De Hakkinen sobre Schumacher em Spa/2000. De Mansell em Berger no México/1990. E do passa & repassa de Villeneuve e Arnoux em Dijon-Prenois/1979. Sem botão de ultrapassagem ou asa móvel.

Claro que teve mais gente que gostou, além dos tiktokers impacientes. Os “influencers” e “criadores de conteúdo”, por exemplo, que não entendem um caralho de nada e/ou não têm o menor senso crítico (quase todos), além dos polianas da mídia tradicional que não podem falar mal de produtos da casa — entre eles os ex-pilotos que hoje ocupam quase todos os postos de comentaristas na TV, no caso agora a Globo.

Mas de TV falo daqui a pouco. Caixinhas agora, para acelerar o processo.

Antonelli, Russell e Leclerc (além de um cara da Mercedes): liderança do time alemão

NEM LEMBRAVA – A última vez que um piloto da Mercedes liderou o Mundial foi em 10 de outubro de 2021, quando Lewis Hamilton corria pela equipe. Perderia a ponta da tabela para Max Verstappen ao final daquele dia, quando terminou o GP da Turquia. Passaram-se quatro anos, quatro meses e 27 dias. George Russell, ao vencer a corrida de ontem, tornou-se líder do campeonato pela primeira vez na carreira.

PERNA CURTA – Sobre a crise Aston Martin-Honda, teve mais parafuso jogado no ventilador por Adrian Newey nas entrevistas de Melbourne. Ele contou que quando a equipe assinou com a montadora, não foi informada de que só 30% dos antigos funcionários da área de motores de F-1 tinham permanecido na fábrica. O resto foi fazer, sei lá, motor de CG e de Pop. “Se soubéssemos, não teríamos assinado”, falou o projetista e chefe de equipe. A Honda desmobilizou o setor no final de 2021, quando anunciou que iria deixar a F-1 (voltou atrás depois). A Red Bull, sem opções, contratou quem podia para começar a fazer seus motores em casa, a partir da base deixada pela própria Honda. Quando os japoneses decidiram ficar na categoria de novo, tinha ido todo mundo embora. E eles não contaram para a turma de Lawrence Stroll.

Lindblad: ótima estreia aos 18 aninhos

BOM COMEÇO – Muito se falou, com justiça, da estreia da Audi com pontos, cortesia de Gabriel Bortoleto. Mas não se deve desprezar a façanha de Arvid Lindblad, 18 anos e sete meses, que terminou em oitavo no seu primeiro GP. O piloto da Acho que o Chip Quebrou tornou-se o terceiro mais jovem pontuador da história da F-1, perdendo apenas para Verstappen (17 anos e uns quebrados quando terminou o GP da Malásia de 2015 em sétimo) e Kimi Antonelli (quarto na Austrália no ano passado com 18 anos e seis meses de vida).

SOBREVIVEU – O momento mais crítico do GP da Austrália foi a largada, com Liam Lawson arrancando muito lentamente. Quem vinha atrás teve de desviar. Franco Colapinto chegou nele de cano cheio e conseguiu evitar um acidente por milímetros. Seria gravíssimo. Os pilotos que estavam na salinha pré-pódio se arrepiaram todos quando viram as imagens. Foi por pouco, muito pouco.

O ESCOLHIDO – Verstappen foi escolhido pelo amigo internauta como “Piloto do Dia”, por ter largado em 20º e terminado em sexto. “Claro que foram ultrapassagens divertidas, mas é muito frustrante dirigir assim. Passei carros dois segundos mais lentos que o meu, foi só esperar a hora certa e passar. Não é uma disputa justa”, falou o holandês — que quando chegou num carro equivalente, o de Lando Norris, empacou atrás dele e não conseguiu passar.

O NÚMERO DA AUSTRÁLIA

6,4

…pontos de audiência, na média, marcou a Globo no ibope, com pico de 7,4. Os números são da Grande São Paulo, principal mercado publicitário do país. Na Bandeirantes, em 2025, o GP da Austrália teve média de 1,6. A maior audiência do canal paulista nos seus cinco anos de transmissão (de 2021 a 2025) foi no GP do Brasil de 2021, com 6,9 pontos de média.

A equipe da TV aberta: Globo é bom negócio para a F-1

Claro que para a F-1 ter uma emissora como a Globo transmitindo suas corridas é um bom negócio. A audiência na primeira corrida foi quatro vezes maior. Isso não se discute mais. O que não significa que a platinada tenha feito um grande trabalho na volta da categoria a suas telas.

A ex-repórter Mariana Becker estava perdida no personagem que criou na Band(eirantes), sem saber se pode sustentá-lo na Globo. Seu gauchês afetado, o gestual largo e exagerado, as histórias sobre brigadeiros para seus vizinhos pilotos em Mônaco e os gracejos internos que trocava com a equipe anterior podiam funcionar num canal que se orgulhava de fazer as coisas de um jeito meio mambembe. Na nova-velha casa, não sei. Como comentarista, não funcionou. Atropelou o narrador diversas vezes e não sabia se comentava, informava ou fazia alguma piadinha. Guilherme Pereira, o repórter, foi muito tímido durante todo o fim de semana e tratou Becker com incontida reverência, como se ela fosse uma personalidade da categoria — é sua colega de trabalho, não uma autoridade suprapartidária.

A Globo errou feio em não mandar narrador e comentarista ex-piloto para a Austrália na primeira corrida do ano. Do Sportv também não foi ninguém. A emissora preferiu gastar dinheiro exibindo sua capacidade tecnológica num estúdio virtual com uma maquete fajuta de carro, daquelas que milionários presos em escândalos financeiros penduram na parede de suas mansões cafonas em condomínios idem. Temos visto vários, recentemente. Tratei disso na minha newsletter outro dia.

Everaldo Marques, o locutor, conhece o assunto — começou no Grande Prêmio — e tem o saudável hábito de se preparar para os eventos que vai narrar. Já dividi transmissões com ele (nas finadas Jovem Pan e Estadão-ESPN), e gostar de seu estilo ou não é questão… de gosto. Não cometeu erros, mas abusou das tentativas de ser engraçadinho com bordões que aplica em transmissões de outros esportes, além de usar uma linguagem excessivamente infanto-juvenil para parecer íntimo dos “xóvens”, como se quisesse verbalizar “memes” (uso as aspas porque considero o termo abominável) que pipocam nas redes sociais. Não sei se é orientação da chefia ou se acabou virando uma marca pessoal, já que percebo isso em outras narrações. Muitos diminutivos, turbinho, amiguinho, macarrãozinho. Muito apelidinho (“Gui”, “Mari”, “Lu”, essa coisa horrenda que paulistano tem de transformar qualquer nome num monossílabo, ou quase). “Inho” demais.

Para piorar, as entradas da dupla Pereira-Becker antes da largada foram gravadas e levadas ao ar como se fossem ao vivo — é o que chamamos de “falso vivo” no jargão televisivo. Ruim, bem ruim. E zero de informação relevante. A informação era “eles estão no grid”. Oh. Não chega a ser uma grande proeza passear no grid. E não perceberam que o companheiro de Bortoleto, Nico Hülkenberg, não ia largar.

Por fim, é óbvio que arrumaram um jeito de enfiar Ayrton Senna na transmissão. Começaram a própria com o enjoativo “Tema da Vitória”, sem nenhum motivo para tal. Depois lembraram que foi na Austrália que ele ganhou sua última corrida — nesse caso, informação pertinente. Na programação normal do canal, dias antes, o apresentador Fred Bruno, do “Fred Esporte” (o programa é só sobre ele, é ele jogando bola, ele com o filho no estádio, ele andando de skate, ele tentando se equilibrar em patins), entrevistou Marques. Usava, evidentemente, uma camiseta do Senninha, com seu linguajar infantilizado e pueril. Everaldo disse que quando vê um capacete amarelo como o de Norris, seu coração bate mais forte porque lembra “nosso Ayrton”.

Puta que pariu, que porre.

Bom, está visto. Voltarei à F1TV, que é onde assisti à maioria das corridas nos últimos anos. Gosto das transmissões em inglês, pratico o idioma e fico mais bem informado. Para dar risada, vejo em italiano — quando a Ferrari faz alguma bobagem, é divertidíssimo. Além do mais, a emissora não vai mostrar o GP da China ao vivo. Algo inexplicável. O que vai passar às quatro da manhã de domingo na Globo semana que vem? Missa? Culto? Videoteipe de novela?

Achei tudo muito ruim, com sinceridade. Na Band também era. Cada uma com seu estilo de ruindade.

A FRASE DE MELBOURNE

“O melhor carro de todos é a Ferrari. A velocidade em curva deles é impressionante.”

Lando Norris

Se é, como diz Norris, não sei. Mas que foi bem, foi. Se tivessem parado os dois carros no primeiro safety-car virtual, é possível que a Ferrari tivesse lutado pela vitória nessa corrida. Foi uma daquelas bobeadas típicas do time italiano, que mesmo assim saiu animadinho de Melbourne. Charles Leclerc e Hamilton chegaram em terceiro e quarto a cerca de 15s do vencedor Russell. Que disse a Charlinho: “Cara, vocês estavam rápidos!”. O monegasco fez um muxoxo e citou o domínio rival na classificação. George não se deu por vencido: “Mas vocês estavam bem rápidos mesmo!”, e Leclerc acabou assentindo.

Como se esperava, a Ferrari tem um sistema de largada melhor que os outros. Vai levar muita vantagem nisso nas primeiras provas, até todo mundo encontar soluções compatíveis com a necessidade de combinar a ação do turbo com os motores elétricos nos primeiros metros depois de as luzes vermelhas se apagarem.

Hamilton gostou do carro. Está visivelmente mais animado. Terá uma temporada bem melhor que a do ano passado.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… da Haas, que com o sétimo lugar de Oliver Bearman foi a melhor dos outros — atrás apenas das quatro grandes. E hoje vamos abrir uma exceção para dar mais dois “gostamos”. Primeiro à Cadillac. Sim, porque não é fácil montar uma equipe de F-1 e construir um carro em um ano, menos ainda nesta F-1 sofisticadíssima, dificílima, complicadérrima. E os carros ficaram prontos, e andaram nos testes, e quebraram pouco, e foram para o grid, e um deles terminou a corrida, o de Sergio Pérez. Estão de parabéns. E o outro é para a Audi de Gabriel Bortoleto, que levou o time aos pontos em seu primeiro GP ostentando as quatro argolas. A última estreia de equipe com pontos tinha sido a da Aston Martin, com o décimo lugar de Lance Stroll no GP do Bahrein de 2021. O time sucedera a Racing Point, assim como a Audi sucede a Sauber.

NÃO GOSTAMOS… da Williams, que acabou sendo a grande decepção de Melbourne, levando em conta que eram sabidas as dificuldades que teriam Aston Martin, em crise, e Cadillac, que saiu do zero absoluto. A equipe atrasou tudo neste ano, não fez o shakedown de Barcelona, apareceu com carros 30 kg acima do peso nos testes do Bahrein e teve infinitos problemas nos treinos. Sainz chegou ao final duas voltas atrás do líder. Albon, uma. Num GP em que oito equipes pontuaram, a quinta colocada do ano passado zerou.

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AGENDINHA XING-LING

Não dá nem pra respirar! GP da China no próximo fim de semana, e com Sprint! Seguem os horários!

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FOTO DO DIA

Max Verstappen vai disputar as 24 Horas de Nürburgring em maio com esse carro aí em cima. Sim, é um Mercedes preparado pela AMG, oficial de fábrica. Antes, no dia 21 de março, corre uma prova de quatro horas na pista alemã — entre os GPs da China e do Japão. Quem teve a percepção de que a F-1 não é sua prioridade e que ele está pensando no futuro (próximo) não está errado.

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