VIU MEU CARREGADOR? (3)





SÃO PAULO (amanheceu) – Kimi Antonelli fez história hoje na China.
Detesto escrever “fez história”. É mais uma expressão banalizada pelas redes sociais e pela imprensa esportiva imberbe, que acha que qualquer coisa é “fazer história”. Sujeito pega um avião para cobrir um jogo da Libertadores no Paraguai e acha que está “fazendo história”. “Influencer” consegue uma palavrinha do João Fonseca no portão de Roland Garros e afirma, sem nenhuma falsa modéstia: “Fiz história”. Canal do YouTube transmite um jogo da série B em São Bernardo do Campo e informa a seus telespectadores: “Fizemos história”.
Mas Antonelli fez mesmo, porque se tornou o mais jovem pole-position da história da F-1. Que não é uma história que começou na semana passada, mas em 1950. E o italiano da Mercedes superou uma marca que já durava quase 18 anos, de Sebastian Vettel. O alemão detinha o recorde de mais jovem pole da categoria. Tinha 21 anos, 2 meses e 11 dias de vida bem vivida quando conseguiu a primeira posição no grid para o GP da Itália de 2008, em Monza. Defendia as cores da Toro Rosso. Ganhou a corrida.


Kimi tem, de acordo com números oficiais da F-1, 19 anos, 6 meses e 17 dias de vida bem vivida. Na próxima madrugada ocupará a posição de honra em Xangai, com chances reais de vencer pela primeira vez na categoria. A Mercedes segue invicta em grids em 2026. Fez a primeira fila na Austrália, colocou seus dois rapazes na frente na Sprint chinesa (vencida por George Russell na madrugada de hoje) e estará de novo com ambos liderando o pelotão na largada para as 56 voltas da corrida. Só que, desta vez, com inversão dos pilotos. Russell, que teve problemas no Q3, ficou com a segunda posição.
Ferrari e McLaren, cujas duplas ficaram com a segunda e a terceira filas, tentarão impedir a Mercedes de vencer a segunda corrida seguida (sem contar a Sprint, claro) nesta temporada. Não será fácil. O ritmo de prova dos carros alemães é muito bom. O time italiano, que terá Lewis Hamilton em terceiro e Charles Leclerc em quarto no grid, aposta tudo na largada. Deve saltar com ambos à frente de Antonelli e Russell, porque os carros vermelhos têm sistemas de largada mais eficientes que os demais. As primeiras voltas serão eletrizantes com várias trocas de posições em função dos diferentes níveis de bateria de cada carro – gestão de energia pra valer os pilotos só conseguem executar quando as coisas acalmam um pouco. Se ninguém bater nessas primeiras movimentações, que serão exaltadas por narradores, comentaristas e polianas de plantão, a tendência é que depois de oito ou dez voltas a situação se estabilize e, aí, a Mercedes passe a controlar o GP.
E vamos à classificação, para entender como Antonelli conseguiu a façanha de conquistar uma pole antes mesmo de prestar vestibular e de se alistar no Exército. Ou de fazer a barba sozinho com espuma Bozzano e gilete cega.

O sábado começou ensolarado em Xangai, com os termômetros batendo na casa dos 17°C, um clima mais amigável do que a friaca de ontem. No Q1, até a Mercedes entrar na pista, o melhor tempo era de Oscar Piastri, 1min33s990. Antonelli, então, virou 0s685 mais rápido. Russell, 0s728. Hamilton, logo depois, se aproximou um pouco e cronometrou sua primeira volta boa com um tempo apenas 0s260 pior que o do líder do campeonato. E, na sequência, Leclerc passou a régua em todo mundo e fez uma volta em 1min33s175, deixando Russell 0s087 atrás. Uma surpresa, até ali.
O Q1 não tinha muita importância porque o grupo dos seis eliminados já era conhecido: as duplas de Williams, Aston Martin e Cadillac, salvo alguma inesperada intercorrência dos demais. Que não houve. Pela ordem, ficaram pelo caminho Carlos Sainz, Alexander Albon, Fernando Alonso, Valtteri Bottas, Lance Stroll e Sergio Pérez.




E Leclerc não foi o único a surpreender na primeira parte da classificação. Gabriel Bortoleto, por exemplo, terminou em sétimo. Franco Colapinto, em décimo. E Max Verstappen, em quarto.
A partir do Q2, aí sim, começaria algo que pudesse ser chamado de disputa. Teoricamente, as quatro grandes avançariam ao Q3. O resto brigaria pelas duas vagas restantes. Na primeira rodada de voltas rápidas, Russell voltou à ponta com 1min32s523. Hamilton era o segundo provisoriamente, a 0s311 do inglês da Mercedes. Naquele momento, já entrando na segunda metade do Q2, os dois convidados das quatro grandes para ficar entre os dez primeiros eram Oliver Bearman, em sexto, e Pierre Gasly, em oitavo. Bortoleto, com uma volta ruim, aparecia em último entre os que tentavam um lugar entre os dez primeiros.


Mas Leclerc estava mesmo a fim de incomodar os favoritos da Mercedes. Na sua segunda volta rápida, superou o tempo de Russell em 0s037. Era uma disputa interessante. Antonelli deu o troco na sequência, batendo o tempo do monegasco por 0s043. Gabriel foi parar na brita na última curva, não fechou sua segunda volta e ficou onde estava na tabela, 16º. Junto com ele foram mais cedo para o chuveiro, a partir do 11º, Nico Hülkenberg, Colapinto, Esteban Ocon, Liam Lawson e Arvid Lindblad. Como previsto, avançaram as duplas de Mercedes, Ferrari, McLaren e Red Bull. Com eles, Gasly e Bearman.
Invicto no ano até então, Russell disse pelo rádio que havia algo estranho em seu carro antes de começar o Q3. Pediu para trocarem a asa dianteira. A solicitação foi atendida. Boxes abertos, deu merda. O #63 empacou no meio da pista. George apertou todos os botões possíveis, evocou deuses e orixás e conseguiu fazer o automóvel funcionar, só que travado em apenas uma marcha. Logrou voltar aos boxes. Mas o nervosismo tomou conta de seu lado da garagem.



Sobrou para Antonelli a tarefa de manter a fama de má da Mercedes. Em sua primeira tentativa de volta rápida, Kimi, o italianinho, cravou 1min32s322, tempo que seus rivais de Ferrari e McLaren não conseguiram bater. Nos boxes, o time alemão escarafunchava o carro de Russell por todos os poros, espetava cabos e mangueiras, trocava tudo que era possível – até um volante novo foi providenciado –, ligava e desligava, tirava da tomada e esperava dez segundos, jogava sal grosso, e nada de ele sair do lugar. A areia escorria pela ampulheta e os outros nove carros voltaram à pista para suas segundas tentativas de voltas voadoras. Quando faltavam 2min17s para o encerramento das atividades, finalmente seu Jorge foi à luta. Sem acertar nada, sem aquecer pneus, sem preparar volta. Jogaram o coitado na pista de qualquer jeito.
Kimi foi o primeiro a fechar volta rápida na segunda bateria de tentativas. Baixou bem sem tempo: 1min32s064. Hamilton e Leclerc, que ensaiaram uma ameaça à Mercedes nas fases anteriores da classificação, não conseguiram chegar perto dele. McLaren e Red Bull, menos ainda. Restava Russell, atormentado pelos perrengues inesperados que quase o deixaram sem carro. Completou uma volta mais ou menos e não superou o jovem companheiro: ficou 0s222 atrás. Foi o suficiente, porém, para garantir um lugarzinho na primeira fila.

George perdeu a invencibilidade, mas a Mercedes, não. Fez 1-2 no grid, apesar dos imprevistos que atrapalharam o inglês. Na segunda fila, Ferrari: Hamilton em terceiro, Leclerc em quarto. Na terceira, McLaren com Piastri e Lando Norris. Gasly ficou com uma excepcional sétima posição, seguido por Verstappen, Isack Hadjar e Bearman. Max apareceu em oitavo, 0s938 atrás da pole. “Horrível, pavoroso, péssimo, horripilante, angustiante, hediondo, medonho, imprestável”, definiu o holandês.
O GP da China começa às 4h, horário da Papudinha. Se Antonelli vencer, não fará história. Essa, de ser o vencedor mais jovem de todos os tempos, já foi escrita por Verstappen em Barcelona/2016. Ganhou o GP da Espanha, em sua estreia pela Red Bull, com 18 anos 7 meses e 15 dias de vida bem vivida.
Kimi já passou do ponto nesse quesito. É quase um velho.











































































