Blog do Flavio Gomes
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Informação é tudo

SÃO PAULO (bem divertido) – Noto uma ira acima do normal nos comentários de todos aqui sobre o escândalo Ferrari-McLaren. As pessoas levam tudo muito a sério… Primeiro, é algo que acontece num mundo distante da maioria. Sendo mais direto: não temos nada a ver com isso. Dizer que se sente “enganado pela F-1”, “decepcionado […]

SÃO PAULO (bem divertido) – Noto uma ira acima do normal nos comentários de todos aqui sobre o escândalo Ferrari-McLaren. As pessoas levam tudo muito a sério…

Primeiro, é algo que acontece num mundo distante da maioria. Sendo mais direto: não temos nada a ver com isso. Dizer que se sente “enganado pela F-1”, “decepcionado com a McLaren” e coisas do tipo é discurso nascido para cair no vácuo. Afinal, estamos falando de corridas de carros. A existência de ninguém será afetada diretamente pelo que aconteceu em Maranello, Woking e Paris. A gente acompanha, assiste, eventualmente torce. Acabou, desliga a TV e vai cuidar da vida.

Depois, me parece curioso como muita gente se sente no direito de decretar verdades absolutas sobre os pilotos, a FIA, as equipes, partindo para um raciocínio simplista que não corresponde à realidade. “A McLaren copiou a Ferrari, portanto roubou, portanto seus pilotos devem ser punidos”, dizem.

Seria ótimo se o mundo fosse assim, mas não é. Muito menos o mundo da F-1. Li a íntegra detalhada da decisão da FIA (se interessar, está aqui, em inglês). A base da acusação, a troca de e-mails entre De la Rosa e Alonso, é indicativa de que havia um fluxo de informações vindo da Ferrari, claro, mas não é o suficiente para afirmar que a McLaren está ganhando mais por conta desses dados. Eles podem ter ajudado. Mas não explicam, por exemplo, as quebras dos carros vermelhos, os erros de seus pilotos, a queda de performance em relação aos tempos de Schumacher-Brawn-Byrne.

Na verdade, esse tipo de papo entre pilotos, mecânicos, técnicos e engenheiros é a coisa mais comum do mundo na F-1. No automobilismo, todos tentam saber o que o outro está fazendo. Há redes intensas de espionagem. Todos observam todos o tempo todo. O pecado de Stepney e Coughlan foi o de terem sido pegos no pulo. No caso do ferrarista, acrescente-se sua desonestidade de sacanear a equipe que o empregava. Esse, sim, foi um escroto. Coughlan foi um escrotinho.

E os pilotos? Adorei acompanhar as peripécias de De la Rosa, para quem ninguém daria um tostão furado, discreto e opaco que é. Mas que se revelou um fuçador e tanto, interessado em tudo, empenhado em melhorar o carro que ele mal dirige. Está explicado por que a McLaren o mantém como piloto de testes há tanto tempo. Ele e Alonso (e Hamilton, talvez) sabiam que as informações vinham de dentro da Ferrari? Ora, sabiam, claro. E estavam aproveitando. Não se preocuparam em pensar na questão pelo lado ético. Estavam preocupados em fazer seus carros andarem mais.

E não sejamos hipócritas. Esse é o mundo capitalista, da competição que se coloca acima de tudo. Transporte o caso para sua vida pessoal. Você, sei lá, trabalha numa firma que fabrica calotas. Sua máquina, igual à da concorrente, faz 100 calotas por dia. A dele faz 200. Aí um cabra da firma concorrente, com quem você tinha trabalhado em outra empresa, aparece no boteco da esquina, toma umas e conta que o segredo da máquina que em vez de 100 faz 200 calotas é que ele usa óleo Singer, e não Liza.

No dia seguinte sua máquina vai estar produzindo 200 calotas com óleo Singer. Ou não?

A isso se chama de concorrência. Na F-1, como em qualquer atividade do mundo moderno, informação é tudo. As equipes buscam informações das outras permanentemente. O piloto que tem um amigo mecânico com quem trabalhou em outra equipe encontra com ele no paddock e pergunta em que volta o rival vai parar para trocar pneus. Se o sujeito der com a língua nos dentes e contar, vai usar essa informação. Isso é roubo?

Ocorre que na McLaren essa tarefa ficou facilitada pela falta de caráter — aí sim dá para afirmar, porque o cara é um pulha — de Stepney. Se estava insatisfeito com a Ferrari, que pedisse o boné e se mandasse.

Disse ontem, e repito: informação corre solta na F-1, no mundo dos negócios, na indústria, no mercado financeiro. Por isso que alguns executivos que ocupam certos cargos assinam contratos que lhes colocam de quarentena quando deixam seus empregos. Isso aconteceu com Adrian Newey quando saiu da Williams para a McLaren, e quando foi da McLaren para a Red Bull. Uma hora, porém, ele volta a trabalhar, e vai aplicar na nova casa tudo que aprendeu na antiga.

A troca de e-mails de De la Rosa e Alonso é o maior barato. A parte mais deliciosa dessa história toda, porque expõe as entranhas de um universo ao qual a maioria dos mortais não tem acesso. Mostra dois pilotos interessados em melhorar, em fazer de tudo para ganhar corridas. E percebe-se que Alonso encontrou no compadre um de seus únicos aliados nessa terra estranha para ele, que é a McLaren.

Qualquer piloto faria o mesmo. Qualquer técnico de futebol gostaria de saber com antecedência a escalação do adversário. Schumacher vivia espiando os carros rivais no Parque Fechado. Qualquer time copia coisas visíveis que seus inimigos colocam na pista. É um eterno jogo de esconde-esconde, e quem consegue descobrir os segredos dos outros se apressa para fazer igual. Às vezes dá certo; outras, não.

É muito difícil quantificar as vantagens que a McLaren obteve a partir dessa enxurrada de dados que veio da Ferrari, e é por isso que a punição teria de ser relativizada, como foi.

A espionagem, no entanto, não vai cessar. Aqui e ali, informações continuarão sendo passadas de um lado para o outro. O que transforma o McLarengate em algo aparentemente escabroso, para mim, não é o aproveitamento dos segredos da Ferrari pela turma prateada. É, sim, a traição de Stepney. Não tem nada de bonito o que ele fez. Foi um calhorda. Mas vai pagar por isso, está pagando. Nunca mais vai trabalhar em lugar algum, sua carreira acabou.

E a F-1 vai seguir em frente, como sempre seguiu, com cada um usando as armas de que dispõe para andar na frente, ganhar corridas e colocar troféus na estante.

PS besta: Acabo de receber uma correspondência do Citibank me oferecendo um cartão de crédito com anuidade de 15 reais. Em três vezes de 5. Nunca tive conta no Citibank, jamais passei meu endereço para ninguém lá, o mais perto que cheguei de tal instituição bancária foi quando expuseram o DKW do Volante 13 no saguão do prédio aqui da Paulista. Como sabem onde eu moro? Ou que uso cartão de crédito? Meu endereço não consta da lista telefônica. Se procurarem no Google, não vão encontrar. Mas me acharam. Nem por isso penso em iniciar uma investigação. Mas fica a dúvida: quem me vendeu? A Amex? O Itaú? O Consulado Americano? Nigel Stepney?