Blog do Flavio Gomes
Brasil

ME PROCESSEM

SÃO PAULO (adoro aqui…) – No dia 30 de julho, fui multado por mudar de faixa sem sinalizar com o braço, de acordo com o auto de infração. Foi às 20h25, na altura do 721 da Alameda Santos. Um cara saiu meio intempestivamente da garagem de um prédio, um motoqueiro à minha frente se assustou, […]

SÃO PAULO (adoro aqui…) – No dia 30 de julho, fui multado por mudar de faixa sem sinalizar com o braço, de acordo com o auto de infração. Foi às 20h25, na altura do 721 da Alameda Santos. Um cara saiu meio intempestivamente da garagem de um prédio, um motoqueiro à minha frente se assustou, brecou, derrapou e caiu, e eu consegui desviar. Nada muito grave, tudo aconteceu em baixíssima velocidade de todos. Quem conhece o local sabe que às 20h25 andar a pé é mais rápido. Parei o carro, ajudei o rapaz da moto, que não se machucou, apenas ficou meio assustado, levantou e foi embora, veio um agente da CET que estava por ali, agradeceu minha ajuda e elogiou meu reflexo.

Mas me multou, como vim a saber um mês depois, por mudar de faixa sem sinalizar com o braço. Infração grave, cinco pontos na carteira. Mandei minha defesa pelo correio no começo da semana. Provavelmente não vão aceitar minhas explicações.

Ontem, recebi o vídeo abaixo, gravado domingo, dia 2 de setembro.

O cara, que tem nome e sobrenome, desfila com sua motocicleta pela Marginal do Rio Pinheiros numa manhã de domingo. Em determinado momento, atinge 295 km/h no velocímetro. As pessoas que comentam o vídeo acham o máximo. Ele, também. Repito: o cara tem nome e sobrenome. Uma “gugada” e aparecem fotos dele em eventos de motos e tal. Deve ser a coisa mais fácil do mundo encontrá-lo.

E pergunto: como é que uma cidade tem a coragem de me multar por mudar de faixa sem dar sinal com o braço para não atropelar um motoqueiro e permite que um sujeito ande a quase 300 km/h na Marginal Pinheiros? Essa velocidade torna o cara da moto um assassino em potencial. Isso me parece óbvio. Mas ele vai continuar fazendo isso, até se espatifar num poste ou matar alguém. Mas ele pode. Estão lá seu nome e sobrenome. Mas ele pode ficar tranquilo. Ninguém fará nada contra o rapaz. Nenhuma autoridade vai procurá-lo.

Quando coloco estes vídeos aqui, a intenção não é atacar pessoalmente seus autores. Não os conheço, e são pessoas com quem jamais teria qualquer tipo de relação. Foi assim com o cara do Porsche amarelo na Anhanguera, com o piloto de Stock Car fazendo coisa parecida de moto, com o sujeito do Camaro que matou um trabalhador queimado na Zona Norte, com o motoqueiro de dias atrás que anda no corredor entre os carros a 150 km/h, com o caminhoneiro da “quebrada de asa” na estrada.

Essa gente é pretensiosa e acha que, realmente, eu e todas as pessoas que se indignam com essas coisas temos alguma vocação de justiceiros e queremos vê-los apodrecendo na cadeia. Não é bem assim. No que me diz respeito, eu queria apenas que fossem proibidos de conduzir qualquer coisa motorizada porque colocam em risco a vida de outras pessoas. Quando um cara desses acerta um carro, ou outra moto, ou atropela alguém, mata. Eu não queria que meus pais fossem acertados por uma moto a 150 km/h. Ou meus filhos. Ou meus amigos. Ou os filhos, pais e amigos desses motoqueiros e motoristas. Não desejo mal a ninguém. Mas um dia, cedo ou tarde, eles matarão alguém inocente.

A indignação, embora essa gente não compreenda, tem outro endereço: as autoridades municipais, federais e estaduais. Eu, se fosse um servidor público ligado à segurança ou aos órgãos de trânsito, teria vergonha de sair na rua depois de ver essas coisas sendo divulgadas a milhões de pessoas pelo YouTube. Porque são milhares de vídeos de crimes sendo cometidos à luz do dia, com nome e sobrenome de seus autores, e nada é feito. O escárnio é absoluto. A certeza da impunidade, também. E é tão fácil resolver… Localizar, chamar para conversar, educar, punir duramente. Levar pessoas que fazem essas coisas a um processo educativo eficiente e duro, como colocá-los para trabalhar um mês com o pessoal do Corpo de Bombeiros que faz resgates, ou em hospitais, ou para ouvir as histórias de grupos de familiares de vítimas de acidentes. Mostrar a eles fotos de pessoas despedaçadas, moídas, mortas, arrebentadas, mostrar a eles o que acontece com as famílias de quem perde alguém por causa da imprudência, da maluquice, da embriaguez de quem tem algo com motor nas mãos.

Sendo assim, motoqueiros, motoristas e caminhoneiros, não carece vir aqui para me xingar, mandar eu cuidar da minha vida, me ameaçar de morte. Não me importo com vocês. Meu recado é para as autoridades. E sem dar nome aos bois, porque não sei os nomes de todos, mando o recado aos ocupantes dos cargos e espero que alguns leiam: governador, prefeito, presidente da CET, secretário de segurança, comandante da PM, comandante da Guarda Civil, presidente do DSV, agentes de trânsito e policiais de São Paulo, ministro da Justiça, diretor da Polícia Federal, vocês são todos uns bundões.

Me processem, agora.