Tô aqui colocando o despertador pra tocar. 7h30, porque ele sempre atrasa um pouco. Ouço na cama, levanto e vou pra vida. Nos meus últimos anos cinzentos e sombrios de São Paulo, era no carro que escutava, muitas vezes parado na frente da padaria, ou antes de cair na piscina para nadar feito um náufrago, arrumando motivo para ficar na rua. Já no Rio, que delícia a descoberta de um lado que não conhecia direito, o de alguém que ama sua cidade e dela nunca se esqueceu. E por ela zelou até o fim. Foram lições diárias de lucidez, sarcasmo, inteligência, delicadeza e sinceridade no ar. A sinceridade-modelo, aquilo que todos nós deveríamos ser sempre, principalmente com um microfone na mão. Secretamente, procurava fazer algo parecido. O mais perto que cheguei foi ter um Twingo. Isso nos fazia membros de uma seletíssima sociedade secreta, a dos sinceros que andam de Twingo e se escancaram no microfone. Minha doce Veruska, seu marido não deixou sucessores. Nós, que professamos a mesma fé no jornalismo, podemos no máximo tentar seguir seus passos, ainda que sem a mesma firmeza e talento, cambaleantes e confusos. Quanto ao Twingo, sei uma ou duas coisas sobre esses carrinhos que ele não devia saber porque não tinha tempo para irrelevâncias. Mas se precisar, cuido dele. Já coloquei o despertador para as 7h30. Vou ouvir o que for, levantar e sair para a vida, como sempre fiz, até acabar um dia, como tudo.
“GP ÀS 10”: BOECHAT
Tô aqui colocando o despertador pra tocar. 7h30, porque ele sempre atrasa um pouco. Ouço na cama, levanto e vou pra vida. Nos meus últimos anos cinzentos e sombrios de São Paulo, era no carro que escutava, muitas vezes parado na frente da padaria, ou antes de cair na piscina para nadar feito um náufrago, […]
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