
SÃO PAULO (vagabundos) – O Grande Prêmio foi descredenciado da cobertura da corrida da Stock em Belo Horizonte. Há meses a realização da prova vem sendo contestada na Justiça, seja por questões ambientais – corte de árvores que nunca mais voltarão a crescer –, seja pelo prejuízo incalculável às pesquisas com animais no campus da UFMG, margeada pela pista montada no entorno do Mineirão. O barulho dos carros ameaça os bichos pelo estresse, podendo levá-los à morte.
Em dezembro de 2023, quando a prova foi anunciada, considerei a notícia “bem legal” num post deste blog. As questões levantadas nas semanas seguintes, quando o traçado foi revelado, ainda não tinham vindo à tona. Abandonei o tema. Não deveria.
A Stock não quis saber, a Justiça mineira não quis saber, a Prefeitura de BH e o Estado de Minas não quiseram saber. Minas é território do Novo, o picaresco partido metido a neoliberal do governador que não sabia quem era Adélia Prado – achou que trabalhava na rádio para a qual dava uma entrevista. Mas o Grande Prêmio quis, e fez extensa reportagem, publicada no último dia 8, trazendo os argumentos dos pesquisadores e cientistas da UFMG. Sem juízo de valor. Apenas ostentando fatos. Ouvindo todos os lados, inclusive.
Mas a Stock ficou irritadinha. E cancelou o credenciamento do site.
Isso se chama, tecnicamente, censura. Na prática, é patifaria, mesmo. Falta de noção do que é o jornalismo. Escrotidão. Babaquice.
O automobilismo, hoje – e faço parte deste mundinho, porque gosto de carros e corridas –, está infestado de gente escrota e babaca. Coberturas jornalísticas não são mais necessárias, porque se garante um espaço (real ou não) na mídia (não confundam com “imprensa”) convidando influencers e idiotas com muitos seguidores (reais ou não) nas redes sociais para “produzir conteúdo”.
Não sai nada que presta, claro. A maioria das categorias já percebeu que é mais barato recrutar essa turba de imbecis, que se vende por empadinhas, camisetas, bonés e camarotes, do que promover eventos que tenham alguma relevância a ponto de merecer cobertura da imprensa de verdade. Os organizadores desses campeonatos, que viviam implorando aos jornalistas que “dessem uma força” às suas competições, hoje vetam o trabalho dos profissionais preparados para informar. Influencers sustentam a enganação apresentada aos patrocinadores. Acham tudo “top” e “de primeiro mundo”. Qualquer merda é top e de primeiro mundo. Até a Stock.
Vi a corrida de hoje. Uma bosta. A pista é ruim, suja e ondulada, os carros são enormes e lentos. Do ponto de vista esportivo, foi uma nulidade. O corredor humano para receber os pilotos que foram ao pódio não tinha ninguém. Morreram animais na UFMG, prejudicando e/ou anulando pesquisas.
Mas os influencers devem ter achado tudo insano, top e de primeiro mundo. Certamente amaram os camarotes, as TVs de muitas polegadas nas paredes, o rango e a bebida de graça, os badulaques entregues à guisa de presentes, como bonés, camisetas, copos Stanley. Amam pulseirinhas.
A imprensa séria e profissional não teve chance de entrar para dizer a verdade sobre o evento. Mas eu digo, ainda que de longe: foi uma grande merda. E um desrespeito a quem lutou contra sua realização não por ser contra o automobilismo, mas por ser a favor da ciência e do meio ambiente.
O Grande Prêmio fez jornalismo. O povinho da Stock tirou a máscara e mostrou que tipo de gente está à frente da categoria. Fascistinhas patéticos, repositório de bolsonaristas ridículos. Inclusive aqueles que não se constrangem em abraçar patrocínios estatais de um governo contra o qual vivem em campanha nas redes, como o da Petrobras. Não são valentes o bastante para recusar o dinheiro provido pelo governo – segundo eles, em suas postagens corajosas, comandado por ladrões.
Essa gentalha nunca me enganou.