Blog do Flavio Gomes
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Gira mondo, gira (sexta)

SÃO PAULO (olha só, hoje o sol não apareceu) – Um amigo, para quem num dia que já parece tão distante eu trouxe um teclado de computador em árabe, acabou de me mandar um link com fotos recentes de Beirute e do Líbano. Não vou colocar aqui, porque há crianças mortas e feridas. Esse teclado […]

SÃO PAULO (olha só, hoje o sol não apareceu) – Um amigo, para quem num dia que já parece tão distante eu trouxe um teclado de computador em árabe, acabou de me mandar um link com fotos recentes de Beirute e do Líbano.

Não vou colocar aqui, porque há crianças mortas e feridas. Esse teclado que eu trouxe para o amigo comprei numa pequena birosca em Beirute, quando voltava para meu hotelzinho depois de andar feito um camelo pela cidade, sorvendo cada segundo daquela caminhada por uma cidade, um país, que passara por uma guerra civil de 15 anos e que estava renascendo.

Na birosca havia uma pequena bandeira do Brasil. Eles, os donos, tinham parentes em São Paulo.

Hoje, a julgar pelo noticiário, Israel declarou guerra de vez ao Líbano. Ou quase isso, porque convocou reservistas e mandou soldados que estavam presos por pequenos ou grandes delitos para lutar na Faixa de Gaza. A invasão por terra já começou, estão bombardeando pontes e estradas e atirando em ônibus com refugiados.

Será que minha amiga Darine ainda está viva, será que a birosca onde comprei o teclado ainda está lá?

Nas poucas horas em que compreendi o Líbano e Beirute, fiquei tirando fotografias furiosamente, hipnotizado pelas marcas da guerra e pelos sinais de ressureição de uma nação.

Tirei a foto de um menino brincando de tico-tico em meio a escombros, de uma pequena casa reformada ao lado de sua irmâ gêmea esperando a mão de tinta e de vida, da praça onde comi meu grão-de-bico com azeite onde havia um soldado, o mais perto que cheguei de uma guerra na vida, e muitas crianças, que podem estar mortas, e se não estão, estão apavoradas, indefesas, órfãs.

E ninguém faz nada, e continuo não me conformando com a bosta de planeta em que vivemos, porque enquanto matam as crianças ali do lado, em algum outro lugar vai ter concurso de Miss Universo, em outro canto a Audi lança seu novo TT, em outro país alguém está quebrando a cabeça para saber como vai comprar o Kaká, e eu estou preocupado com meu carro de corrida, e nada disso tem o menor sentido.

Cara, que fiasco é a raça humana.