Blog do Flavio Gomes
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Pequeno ensaio sobre carros e corridas

SÃO PAULO (conexões abaladas) – Quinta ensolarada, dia de ler coluninha Warm Up, com tema polêmico e raciocínio idem. Mas coluna serve para isso mesmo, chutar o pau da barraca. Eu chuto daqui, vocês chutam daí. Aliás, para dar menos trabalho ao dileto blogueiro, se quiser ler a íntegra sem dar uma pingada no Grande […]

SÃO PAULO (conexões abaladas) – Quinta ensolarada, dia de ler coluninha Warm Up, com tema polêmico e raciocínio idem. Mas coluna serve para isso mesmo, chutar o pau da barraca.

Eu chuto daqui, vocês chutam daí.

Aliás, para dar menos trabalho ao dileto blogueiro, se quiser ler a íntegra sem dar uma pingada no Grande Prêmio, o texto está abaixo. O título original da coluna é “Por que o automobilismo acabou”. Divirtam-se.

Corridas de carros no Brasil não têm público. Tirando a Fórmula 1, caso à parte, e a Stock, anabolizada pela farra dos patrocinadores e seus convidados que comem empadinhas e tomam uísque de graça vestindo camisetas e bonés promocionais, o resto vive à míngua: sem gente para ver, portanto sem verba de publicidade, portanto brinquedo de ricos (alguns) e obstinados (a maioria).

O que ainda leva gente a autódromos neste país, ou a retões improvisados aqui e ali, é arrancada. Mas isso não é corrida. É apenas o sinal dos tempos. Não requer prática, sequer habilidade.

O período de ouro do automobilismo brasileiro se deu nos anos 60 do século passado, cujos frutos foram colhidos nas duas décadas posteriores com a geração de Emerson, Piquet, Senna e muitos outros que, se não foram campeões do mundo, escreveram uma história, inseriram o Brasil no universo das competições sobre rodas.

Sei que corro o risco de formular raciocínio simplista, que será questionado e esculhambado, mas vamos em frente.

Nos supracitados anos 60, a garotada tirava racha nas ruas. Antes que me crucifiquem: sou o maior anti-racha do mundo, a ponto de ligar para a polícia quando vejo movimentos suspeitos em largas avenidas nas madrugadas paulistanas. Acho que racha é sinônimo de assassinato, mas é preciso diferenciar o racha de quatro décadas atrás daquilo que acontece hoje — assim como é preciso, sei lá, entender a relação da juventude com as drogas nos tempos quase inocentes de Woodstock quando se compara aquilo à carnificina que elas promovem atualmente, seja na produção, seja no tráfico.

Não se trata de defender racha, pois. Trata-se apenas de compreender um fenômeno. O racha dos anos 60 era o resultado prático, depois levado a Interlagos, do real interesse da molecada pelos carros: buscar performance. Fazer um DKW voar, um Gordini andar rápido, um Fusca arrepiar. Adorar e reverenciar carburadores, pistões forjados e comandos de válvulas como se fossem peças sacras, dignas de um altar.

Isso acabou. A relação do jovem com o carro, 40 anos depois, é outra. A busca da afirmação máscula pela velocidade e pela potência deu lugar ao exibicionismo do tuning, aos preceitos fundamentados pela babaquice de “Velozes & Furiosos” e seus derivados, com seus carros rebaixados que andam de lado e servem a baderneiros e criminosos.

O tuning acabou com o interesse do jovem pelo carro em si, por seus segredos, sua alma. A molecada hoje quer saber de woofers, MP3, telas de LCD, aparelhos de GPS, nitro, rodas de 20 polegadas, insulfilm, engate para puxar vento, pintura com purpurina, pneus de perfil baixo, molas cortadas, discos de freio coloridos, tapetes de alumínio iguais a assoalho de ônibus, faróis de xenon, asas e spoilers que não servem para nada, tudo espetado num lamentável Corsa que vale muito menos do que aquilo que enfiam nele. O que menos importa é o carro em si. Pergunte a um garoto endinheirado se ele troca seu Pioneer DEH-P4850MP4 por um Weber 44, e ele não saberá do que você está falando.

Velocidade hoje é sinônimo de pontos na carteira, o que é ótimo. Lugar de correr não é na rua. Mas o fato é que pneus queimando e deixando cheiro de borracha já não são mais páreo para uma trapizonga verde-abacate que balança ao som de um rap medonho que recita as maravilhas de um fuzil automático, ou de techno, ou sei lá mais o quê.

Carro, hoje, é apenas instrumento para um hedonismo besta e medíocre, um amontoado de lata, plástico e som que o afastou de sua grande aventura original, o desafio de chegar mais rápido ao seu destino. Que é, afinal, a essência de uma corrida, partir de um ponto e chegar no outro antes do que todos, tendo como trilha sonora exclusivamente a sinfonia produzida pelo arfar da borboleta, pelo esguicho da gasolina, pela faísca que detona a mistura ar-combustível, que empurra o pistão, que move a biela, que gira o eixo e que expulsa os gases pelo escapamento, produzindo a única música que quem ama carros gosta de ouvir.