Blog do Flavio Gomes
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Polemiquinha da Stockinha

SÃO PAULO (lá vem cacetada) – Não vou posar aqui de “não-tô-nem-aí-pra-concorrência”, e digo de antemão que sim, procuro ler quase tudo o que escrevem meus colegas e amigos (muito mais que concorrentes) que cobrem automobilismo, como Fábio Seixas, Reginaldo Leme, Rodrigo Mattar, Livio Oricchio, Teo José. Uns mais, outros menos. Mas estou sempre antenado, […]

SÃO PAULO (lá vem cacetada) – Não vou posar aqui de “não-tô-nem-aí-pra-concorrência”, e digo de antemão que sim, procuro ler quase tudo o que escrevem meus colegas e amigos (muito mais que concorrentes) que cobrem automobilismo, como Fábio Seixas, Reginaldo Leme, Rodrigo Mattar, Livio Oricchio, Teo José. Uns mais, outros menos.

Mas estou sempre antenado, porque faz parte do ofício.

Vi hoje que o Livio, em seu blog no Estadão, faz algumas referências a uma coluna que escrevi semana passada sobre a vitalidade do automobilismo argentino diante da fragilidade da bolha de sabão da Stock Car brasileira, que é o que restou por aqui.

Alguns leitores mais afoitos, comuns a ambos os escribas, imaginaram uma polêmica nascendo e, a julgar pela abertura do texto do Livio, esperam um embate sangrento sobre a categoria dos genéricos.

Não haverá.

Parto para esta longa dissertação em respeito à não menos longa argumentação do Livio, que esteve em Curitiba domingo e se encantou com o que chamou de profissionalismo e organização da Stock.

Antes de mais nada, deixo claro um ponto que considero essencial: o fato de eu não gostar da Stock pelos motivos que vou expor não significa que não reconheça sua existência e, vá lá, importância. Eu não gosto de um monte de coisa. Quiabo, por exemplo. Mas há quem goste. Quiabos são importantes, certamente. Não gosto de Toyota Corolla, outro exemplo. Mas como poderia deixar de reconhecer que é um carro que vende, e que tem quem compre? Não gosto da “Veja”, mais um exemplo. Acho-a desprezível do ponto de vista jornalístico e ético. Mas não posso desprezar sua relevância, lida que é por sei lá quantos milhões de tontos. Forma milhões de tontos. Tem relevância. Não gosto do Corinthians e do São Paulo. Mas eles existem, e adoro quando minha Portuguesa ensaca ambos (ano que vem está aí).

Sei separar as coisas. Não gosto da Stock, pelos motivos que ainda não consegui expor porque sou meio prolixo — mas chegarei lá —, mas meu site, o Grande Prêmio, cobre a Stock melhor do que qualquer veículo de imprensa do Brasil. E vejam só, o paradoxo dos paradoxos: a Vicar, através de sua agência de RP, foi quem pagou a viagem do repórter do Grande Prêmio a Curitiba. O site do cara que não gosta da Stock teve suas despesas pagas pela Stock para cobrir a Stock. E espero que continue pagando, porque o site não gera receita suficiente para ficar mandando repórter a todas as corridas fora de São Paulo. A isso se chama respeito pelo trabalho dos outros. A Stock respeita o Grande Prêmio. Pode não gostar muito de mim, mas me respeita. Eu respeito a Stock. Posso não gostar dela, mas a respeito.

Pagando ou não, minha postura, e dos meus repórteres, será sempre a mesma. Eles, aliás, adoram a Stock. E trabalham para mim. Não mando ninguém embora porque gosta da Stock. Não obrigo ninguém a pensar como eu. Como disse, sei separar as coisas. Minhas opiniões são minhas. Espero que as respeitem, não que transformem o mundo. Não tenho a pretensão de mudar as opiniões de ninguém e nem as imponho, as minhas, a quem quer que seja. Apenas as tenho e não as escondo.

Vamos ao texto do Livio. Ele diz que em Curitiba algumas pessoas quiseram saber dele o que achava dos meus pontos de vista. “Havia até uma certa revolta contra ele”, relatou Oricchio. Uau. Revolta? Não se pode remar contra a maré, expor um ponto de vista diferente? É preciso seguir a correnteza e sair cantando alá-lá-ô só porque meia centena de pilotos estão enchendo as burras e arrumaram uma boquinha num negócio que considero frágil e oco? Lamento, podem se revoltar à vontade. Como disse, tenho minhas opiniões.

Eu não arrasei a Stock, Livio. Nem coloquei o automobilismo argentino nas nuvens. Apenas relatei as diferenças. Comparei a pobreza técnica da Stock brasileira com o vigor de um automobilismo que corre em 40 pistas, que tem montadoras envolvidas, autódromos cheios, torcidas organizadas, história, tradição, público, programas de TV e rádio, revistas especializadas, espaço nos jornais. Um automobilismo de verdade diante de um campeonato que só existe do jeito que é — não vamos nos enganar — porque tem 8 etapas transmitidas pela Globo, o que leva pilotos e equipes a venderem seu peixe a patrocinadores com esse argumento, “passa na Globo”. E não venham me dizer que a Stock é um estrondo de audiência. No mesmo horário, em todos os outros domingos do ano, corridas de bicicleta, jogos de vôlei de praia, meias-maratonas e campeonatos de bambolê têm os mesmos índices.

A Stock virou um evento corporativo, um negócio bem-sucedido, e deixou de ser um esporte, uma competição de carros e pilotos. Olhe para as arquibancadas. Ouça o público que tenta comprar ingresso para ver as corridas. Constate que os melhores lugares estão reservados aos convidados dos patrocinadores, que entram e saem dos autódromos sem saber direito o que está acontecendo lá dentro. E pergunte-se: qual a explicação lógica e real para o fato de empresas de um ramo tão distante dos automóveis, como os fabricantes de comprimidos e xaropes, investirem tão pesado em corridas? Sejamos honestos, novamente: você conhece alguém que vá a uma farmácia e associe imediatamente elixires e sulfas a Cacá Bueno, bata com a mão espalmada no balcão e peça um Eurofarma pra viagem, por favor? Ou alguém que entre numa drogaria e peça uma aspirina da Medley, aquela do carro do Ricardo Maurício?

Refinemos a busca pela verdade: o que explica a existência de um patrocinador que despeja um milhão de reais num carro que tem a enorme chance de não largar em nenhuma corrida da temporada? Sim, porque desde o ano passado está definido que são 38 que largam, e mesmo assim, oh, interesse!, apareceram 50 para correr!

Falemos da parte técnica. Todos os carros são, basicamente, estruturas tubulares construídas pela ZF equipadas com motores americanos repassados e limitados na potência pela mesma ZF. Gaiolas feitas numa antiga fábrica de fogões e geladeiras. Nada contra gaiolas, nem fogões, nem geladeiras. Mas pergunte ao dono de uma das boas equipes o que ele faz com sua gaiola quando a recebe da ZF. Desmonto e monto de novo, ele vai responder. Pergunte aos pilotos e chefes de equipe se os motores são iguais. No ano passado, chegou a haver diferença de 40 cavalos entre um e outro. Isso não é chute meu, foi dito no “Linha de Chegada”. Pelo pessoal da ZF. Pergunte como foi feita a carroceria do Astra. Visite a oficina onde as bolhas são laminadas. Tente encaixar uma delas na gaiola sem arrebentar o paralama.

Os carros da Stock são uma bomba. De novo, não sou eu que digo. Publicamente, ouvi do Pizzonia. Em particular, de pelo menos três pilotos. De ponta. Lentos, defasados, pesados. É o que eles, pilotos, dizem. Acrescento: não têm nada de stock (o nome deveria remeter a produtos de série; não é o caso), o piloto senta onde seria o banco de trás de qualquer carro digno de nome, não se vê o capacete, a visibilidade de dentro para fora é horrível, há diferenças de performance aerodinâmica entre uma bolha e outra. Ah, e os modelos escolhidos pelas montadoras “envolvidas” são um sucesso! A Mitsubishi vendeu 60 Lancer no ano passado. Bora, esse a gente vê em cada esquina. Duas vezes por ano. Astra é o preferido dos taxistas. E dou um pirulito a quem vir mais de um 307 na rua por dia.

As fábricas que estampam suas marcas nas carcaças stockianas não sabem nem o que vai por baixo delas. Isso, por princípio, considero vergonhoso. Para as marcas. Para o automobilismo.

Sim, considero a Stock nociva para o automobilismo brasileiro. Porque ela leva os incautos a acreditarem que está tudo bem pelas pistas do país. Porque é nela que o presidente da CBA se apóia para arrotar o “sucesso” de sua administração, que matou os monopostos e o kart, que se lixa para o estado dos autódromos, que tem a coragem de dizer que a F-Renault “vai virar F-Brasil, temos os carros, só faltam os pilotos e as equipes”. Disse isso na ESPN Brasil. A Stock é nociva porque é para ela que convergem verbas de patrocínio que poderiam viabilizar outras categorias. Porque é ela a única a receber a atenção global, pouco interessada no esporte, muito mais nos negócios. Porque é a atenção global que alimenta a vaidade de seus participantes, e aqui reside outro paradoxo: vivem da Globo, sabem que sem ela não existem, e peitam a Globo, cobram exposição, reclamam que o carro de fulano apareceu mais que o de cicrano, preocupam-se muito mais com os segundos em que terão seus genéricos expostos na telinha do que com os segundos que poderiam ganhar na pista melhorando seus carros.

Aliás, nem isso podem fazer. A Stock é um esporte que proíbe seus atletas de treinarem. É uma competição assustadoramente pobre, embora seus defensores aclamem o incrível equilíbrio expresso “por 30 pilotos no mesmo segundo”. Isso é falsa competitividade. Se 30 carros andam do mesmo jeito, e são todos iguais, é porque todos os pilotos são ruins. E todas as equipes, medíocres, incapazes de descobrir como melhorar seu desempenho. Não era preciso construir gaiolas e enfiar nelas motores V8 para fazer isso. Bastava comprar 30 Fiats Palio, ou 30 Fords Fiesta, ou 30 VWs Gol na concessionária mais próxima, e jogar na pista com os mesmos pilotos. Façam um teste. Vai haver um incrível equilíbrio.

O resultado dessa salada de alface murcha é que, realmente, qualquer um pode ganhar. Dos 38 que largam, é evidente que todos podem ganhar, se todos são capazes de virar voltas separados por pentelhésimos de segundo. É uma loteria que anula a capacidade dos bons pilotos, decidida na classificação ao sabor das diferenças de jogos de pneus de má qualidade e da cavalaria nos motores preparados com o rigor da broca que perfura os limitadores nas oficinas da ZF. Por conta dessa falsa competitividade, o excelente Ingo Hoffmann, por exemplo, fica atrás do glorioso Julio Campos no grid. Lico Kaesemodel, de extenso currículo, larga muitas posições à frente de Enrique Bernoldi, egresso da F-1. Wellington Justino deixa o multicampeão Chico Serra comendo poeira.

É o que se chama de nivelar por baixo uma competição. Como nada pode ser feito nos carros, exceto colocar adesivos bem coloridos e dar um tapa na cambagem e no cáster, os bons pilotos têm sua capacidade de melhorar um carro tolhida, anulada, vagam macambúzios pelos boxes sem ter o que fazer, porque podem até descobrir uma solução genial, só que ela vai para o ralo se o jogo de pneus que lhe couber estiver bichado, ou se o cara da broca na ZF estava de mau-humor bem na hora de furar o seu coletor, ou ainda se o soldador da oficina tiver brigado com sua cabrocha antes de grudar dois tubos, e o ângulo que numa gaiola é X virou Y na outra.

Isso sem entrar na discussão do comportamento da tigrada na pista, que já valeu à Stock apelidos como Sto-tok Car, Stock Crash, coisas do gênero. Está-se formando uma geração de pilotos que não sabem perder, que em todas as corridas brigam com seus companheiros, ofendem, estendem o dedo do meio em riste, acusam, difamam, batem, urram palavrões na vitória e na derrota, agem como refugiados de uma hecatombe atômica em busca do último prato de comida não contamidada — os segundos de exposição na Globo, ah, a Globo, é ela que garante o contratinho do ano seguinte se a clipagem for bem feita e o patrocinador acreditar em Papai Noel.

Na verdade, acho que nem esses patrocinadores se importam demais com o que aparece na TV ou com o que seus pilotos fazem na pista. Como disse o Livio, “a Stock Car transformou-se num grande business para as empresas”. Não há mal nisso. Negócios e corridas andam juntos. O problema é que na Stock há apenas negócio. Sinceramente, não me entusiasma saber que ela “abre possibilidade de negócios a partir desses encontros nos hospitality centers dos seus autódromos”. Caguei para os encontros nos HCs. Eles também ocorrem nas micaretas, no camarote da Brahma no Carnaval do Rio, nos rodeios de Barretos. Se uma fábrica de pílulas quer realizar encontros com clientes, que os faça em congressos de medicamentos. Ou até em HCs de autódromos, mas sem querer me convencer que, graças a esses encontros, aquilo que está acontecendo na arena principal é um espetáculo irretocável.

Não sou contra empresas, patrocinadores, investimentos, negócios, encontros, coxinhas, empadinhas, mulheres gostosas, risotos, uísque e prosecco. Como pano de fundo para uma competição, ou qualquer outra coisa, é ótimo. Ocorre que na Stock a corrida é o pano de fundo. São 50 pilotos fazendo papel de palhaços com seus mecânicos e engenheiros fingindo que estão melhorando seus carros, enquanto o principal resultado de seu trabalho não sai lá de baixo, do asfalto, mas lá de cima, dos HCs e seus encontros que geram negócios e mais negócios, especialmente quando o barulho dos carros não atrapalha.

Na Stock, a empadinha e o uísque são os protagonistas. Soltem na avenida Paulista o Hoover Orsi, o Ricardo Maurício e o Giuliano Losacco passeando, que ninguém saberá quem são. A popularidade propagada pelos promotores e pela emissora oficial não existe, é uma farsa, uma mentira mal contada. Ninguém comenta o resultado da Stock às segundas-feiras. Pouquíssimos vão aos autódromos para ver a corrida. Arquibancadas são preenchidas por convidados ou funcionários de patrocinadores que adoram camisetas e bonés. Outro desafio: façam uma corrida de Stock em Interlagos sem ingressos corporativos. O público será menor que o de Portuguesa x Rio Preto.

De fato, eu e o Livio temos algumas diferenças de atitude em relação a muitas coisas. Eu, por exemplo, jamais telefonaria para o presidente da CBA para discutir o futuro das categorias de monopostos. Não é minha função. Não sou dirigente. Não sou agente. Sou apenas um que vê, relata, informa, opina. Por isso, sequer tenho o telefone do presidente da CBA. Não quero ter, e jamais terei, qualquer relação com ele ou com qualquer outro presidente da CBA ou de qualquer entidade. Posso conhecê-los, posso conversar com eles, posso entrevistá-los, mas jamais, jamais, me permitiria extrapolar minhas funções profissionais e meu compromisso com o único que me sustenta, o leitor/espectador/ouvinte/internauta.

Tudo que disse acima é mais ou menos sabido daqueles que me ouvem e acompanham. Inclusive de Carlos Col, que no ano passado me chamou para jantar para ouvir o que eu tinha a dizer sobre a Stock. Escolhi o restaurante, ele pagou a conta. E ouviu exatamente o que eu já havia dito ou escrito aqui, no Grande Prêmio, na ESPN Brasil, no “Lance!”. Gastou um jantar à toa, mas aceito de bom-grado outro, sempre que quiser. Ele é boa companhia, bom papo. E como diz meu amigo Preá, tem duas coisas que não se podem perder: pênalti e jantar de graça.

Não tenho nada pessoalmente contra ninguém na Stock, na Globo, na Vicar, entre os pilotos, chefes de equipe, mecânicos. Aliás, conheço pouca gente do meio, porque não freqüento os paddocks da Stock — um defeito que não tenho é a hipocrisia; se não gosto, acho um saco, por que iria a todas as corridas? Não quero que a Stock acabe, não desejo que a Receita Federal prenda todos seus anunciantes, não considero a Stock uma categoria de fracassados, como muita gente acha. Sinceramente, para mim não faz a menor diferença o que será dela no futuro.

Mas trabalho com automobilismo, gosto de carros, corro, me empolgo com corridas, e julgo-me no direito de dizer o que acho e de torcer para que as coisas sejam melhores. Não imponho verdades, mas não gosto de mentiras.

De mais a mais, o que eu acho da Stock não deveria ter tanta importância assim. Nenhuma das palavras que escrevi acima vai mudar coisa alguma. Não acho que alguém vá refletir longamente sobre elas. Na verdade, não acho nada. Aos 42 anos de idade e 25 de profissão, não tenho mais paciência para levantar certas bandeiras. Não sou eu quem vai mudar a Stock, ou o automobilismo brasileiro. Faço o que está ao meu alcance. Inventei uma categoria e coloquei nela meu DKW, por exemplo. A gente não tem reserva de grid, não aparece na Globo, não dá totó e não serve empadinha com uísque — só guaraná com pão barês, que o seu Vito, avô do Marcelo, faz.

É muito mais gostoso.