
Caiu numa quarta.
Dia 15. Depois de 29 anos, o Brasil tinha a chance de votar para presidente de novo. Desde 1964, foram 25 anos de ditadura, de generais escrotos, de um país militarizado. E muita gente gostava. Mais ou menos como parte da França sob o nazismo. Tinha gente que gostava e colaborava.
Cinco anos antes, o Brasil foi às ruas para exigir eleições diretas em todos os níveis. Levamos um pau na bunda do Congresso. Não havia internet, nem celulares, em 1984. A votação da emenda Dante de Oliveira, a das Diretas Já, aconteceu com Brasília quase incomunicável. Acompanhei a contagem dos votos por um painel manual na Praça da Sé, tarde da noite. Voltei de metrô, triste pra burro.
Dia 15. No jornal, o instituto de pesquisas próprio era ainda um bebê. Mas ia bem. Acertava quase tudo na mosca. Tanto nos levantamentos de intenção de voto, quanto nos de boca-de-urna. Naqueles tempos, campanha era campanha. A gente não via um carro na rua imune. Ou levava um adesivo do Collor, ou do Lula. Ou do Brizola, ou do Covas. Ou do Maluf, ou do Afif. Eram 23 candidatos. Tinha um chamado Marrozinho. O Enéas concorreu. Até o Silvio Santos. Alugou a legenda de um analfabeto de pai, mãe e parteira, Armando Corrêa, “o candidato dos explorados”. Acabaram anulando a candidatura de Silvio Santos. Santinhos, cartazes, bandeiras, uma sujeira danada. Eu tinha a impressão de que todo mundo se envolvia. Respirava-se política.
Dia 15. O voto era no papel e na caneta, não havia urna eletrônica. Cédulas coloridas, urnas de papelão, juntas de apuração, contagem manual, era um caos. Adorável caos. Escolas mobilizadas para as votações, ginásios e clubes para a apuração, noites em claro, voto por voto, boletins nas rádios, plantões na TV, uma coisa de louco.
Dia 15. Não havia outra manchete possível para o jornal do dia seguinte. Jesus Cristo poderia aparecer na avenida Paulista carregando sua cruz, que não iria roubar espaço no alto da primeira página. Quem iria para o segundo turno?
As urnas foram fechadas no fim da tarde em todos os fusos brasileiros. Os primeiros resultados da boca-de-urna do Datafolha começavam a chegar. Segredo de Estado. A “Folha” era a única que tinha instituto próprio. Os demais jornais compravam o serviço do Ibope, do Gallup ou do Vox Populi. Emissoras de TV, também. Assim, as previsões dos outros institutos eram mais ou menos públicas. As nossas, não. Segredo de Estado. Ninguém, nenhum jornal, iria arriscar o segundo turno baseado nas pesquisas divulgadas. Lula e Brizola estavam empatados tecnicamente. Era imprudente demais cravar Collor x Lula, ou Collor x Brizola.
O horário de fechamento estava chegando. Eu, editor de Esportes, estava deslocado para a Primeira Página, depois de fechar nossas pagininhas desimportantes na hora do almoço. Reunião de fechamento convocada. Os números do Datafolha não poderiam sair daquela redação em hipótese alguma. Não podíamos sequer telefonar para casa. Segredo de Estado.
O Datafolha dava Collor em primeiro, fácil, e Lula em segundo. Mas com Brizola pertíssimo. Não dava nem para falar em margem de erro. Era coisa mínima, zero-ponto-alguma-coisa percentual. Precisava ser macho para bancar uma manchete. Todo mundo ia sair com Collor vai ao segundo turno contra Lula ou Brizola. E a gente?
Tensão do caralho na reunião. O diretor do Datafolha, Antonio Manuel (por onde andará?), hesitava. Afinal, entendia do assunto. Se existe uma margem de erro, é preciso respeitá-la. Ela existe porque estatísticos estudaram aquela merda, sabem que pesquisa é pesquisa. X para mais ou X para menos. Uma ala daquela enorme mesa redonda achava que tínhamos de cravar Lula. Outra, que deveríamos ser prudentes. Eu estava entre os que queriam enfiar o Lula na manchete, e pronto. Afinal, o Datafolha vinha acertando uma em cima da outra. Mas ninguém me perguntou nada, ainda bem.
Saímos da sala sem saber qual decisão seria tomada. O dono do jornal se reuniu mais uma vez com o diretor do Datafolha e o editor de política em outra sala e chegaram à manchete, que eu só veria um minuto antes de mandar o último texto da Primeira para baixo. “Collor e Lula se enfrentam no 2º turno”, acho que foi isso. Machos pra caralho. Se desse Brizola, a gente estava fodido. E quase deu. Collor teve 22.611.011 votos (28,52%), contra 11.622.673 (16,08%) de Lula e 11.168.228 (15,45%) de Brizola. Apertadíssimo. Bancamos. Acertamos. E demorou um pouco para sair o resultado. A agonia foi de alguns dias. A contagem era manual, já disse isso. Levava tempo. Foram 74.280.909 votos que passaram pelos dedos ágeis das juntas de apuração.
A noite do dia 15 de novembro na Redação é minha lembrança mais vívida de 15 de novembro de 1989. O segundo turno, em dezembro, foi mais fácil. Collor levou com 49,94% dos votos, contra 44,23% de Lula. A eleição foi decidida com as baixarias da tropa de choque de Collor, mais a edição maldosa do último debate da TV no “Jornal Nacional”, o pavor da classe média de ter um operário na presidência, o conservadorismo de São Paulo, o Estado, que acabou decidindo o pleito com seus ruralistas, udenistas, arenistas e malufistas.
Foram meses de muita emoção nas ruas, confronto direto entre militantes do PT e o resto (o resto nunca teve militância, na verdade), imprensa conservadora de um lado, jornalistas de esquerda do outro. Um período rico em discussões, reflexões, era o destino da gente que seria decidido ali.
As duas imagens que escolhi para lembrar os 20 anos daquela eleição estão entre as que fazem parte do meu imaginário político. “Sem medo de ser feliz” era um dos slogans do PT, e a foto, rara, de um Lula sorridente foi feita por um amigo, Juan Esteves, baita fotógrafo. A outra, de um Collor descontrolado, querendo enfrentar o povo com seus braços bombados, é clássica, também, mas não lembro quem fez. Se alguém descobrir o crédito, por favor coloque nos comentários.
Eu tinha 25 anos. Não tenho mais. Tenho saudades dos meus 25 anos.